sábado, junho 16, 2007

CURTAS

Por Jaqueline B. Ramos*
Triste liderança

Relatório da ONU divulgado em março revela uma informação no mínimo muito triste para o Brasil. Segundo levantamentos feitos pela Agência para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o país continua na liderança de desmatamento da América do Sul, sendo responsável por 73% das perdas de florestas do continente. A taxa anual de devastação da cobertura florestal brasileira subiu de 0,5% para 0,6%, comparando os períodos de 2000 a 2005 e 1990 a 2000. Em números absolutos isso significa a destruição de mais de 31 mil km² de florestas por ano dentro de um cenário de 42 mil km² de deflorestamento em todo o continente.

Mesmo considerando o fato de o Brasil ser um dos países do mundo com maior área de florestas, o que poderia justificar um número significativo em termos de desmatamento, esta triste liderança merece ser seriamente avaliada...

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Foto: Jaqueline B. Ramos

Dia Mundial da Água – boas notícias

Se o Brasil não tem muito a comemorar na área de conservação de florestas, uma notícia divulgada por ocasião do Dia Mundial da Água (22 de março) é motivo de orgulho para o país. A ONG britânica World Development Movement destacou o gerenciamento de água e esgoto feito em quatro municípios brasileiros como exemplo e inspiração de gestão pública de recursos hídricos. Segundo relatório divulgado, as iniciativas nas cidades de Alagoinhas (BA), Guarulhos (SP), Porto Alegre (RS) e Unaí (MG) "mostram uma visão de universalidade, justiça e igualdade". "Esses fornecedores municipais no Brasil podem nos ensinar muito sobre como ter redes de distribuição de água democráticas e eficientes", disse o diretor da ONG, Benedict Southworth.

Dia Mundial da Água – más (e velhas) notícias

Mas infelizmente no mês em que se comemora o Dia Mundial da Água as notícias não são muito boas em nível global. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, em 2007 a falta de acesso à água limpa atinge mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. E as previsões para médio prazo não são nada animadoras. A OMS alerta que este número pode dobrar até 2025, quando dois terços da população mundial poderão estar sofrendo com problemas ligados à escassez de água limpa. Atualmente, 2,6 bilhões de pessoas – metade da população dos países em desenvolvimento - vivem em locais sem condições básicas de saneamento e os problemas relacionados à falta de água adequada matam mais de 1,6 milhões todos os anos.

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Sobre seca, botos e gado

Menina dos olhos internacional, a Amazônia é sempre alvo de inúmeros estudos, estimativas, levantamentos e ensaios de investimentos. Mas o fato é que a floresta vem pedindo socorro e algumas decisões parecem ignorar este SOS, como a recente tomada pelo Bird (Banco Interamericano de Desenvolvimento). O corpo de diretores do IFC (Corporação Financeira Internacional), braço do banco, aprovou em março o financiamento de US$90 milhões para atividade pecuária na Amazônia brasileira. A concessão será a favor do Grupo Bertin, maior exportador de carne do Brasil. Os recursos serão investidos em matadouros e curtumes na região de Marabá, Redenção e Conceição do Araguaia (PA), em Cacoal (RO) e em Água Boa (MT).

Enquanto a expansão da pecuária na Amazônia - incentivadora de desmatamento e geradora de pelo menos 56 milhões de toneladas de emissões de carbono, sem contar os problemas sanitários e éticos relativos ao abate dos animais - ganha incentivo econômico de tal magnitude, as estimativas negativas continuam a ser noticiadas e nenhuma ou pouca contra-partida é feita a respeito.


Cientistas ingleses especializados em mudanças climáticas, por exemplo, anunciaram no início de 2007 que as chances de ocorrerem períodos de intensa seca na região podem aumentar dos atuais 5% para 50% em 2030 e até 90% em 2100. E dados locais do Projeto Boto, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), indicam o declínio da população de botos tucuxi e cor-de-rosa nos rios da região, numa taxa de decrescimento de cerca de 7% ao ano. O motivo principal: a caça.

Com informações vindas de todos os lados, onde está o Governo Brasileiro na hora de defender os reais interesses da floresta?

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Homens e macacos
Foto: Jaqueline B. Ramos

Embora 4 milhões de anos seja uma eternidade, numa escala evolutiva representa algo muito recente. E é exatamente esse tempo que está sendo indicado por um novo estudo concluído pela Universidade do Estado da Carolina do Norte (EUA) como o período de separação evolutiva entre humanos e chimpanzés. Ao afirmar que os últimos ancestrais entre homens e macacos teriam vivido há apenas 4 milhões de anos, o estudo contesta as atuais informações oficiais sobre o assunto, que datam de 5 a 7 milhões de anos.

Como qualquer nova descoberta, esta pode gerar controvérsias. Mas o argumento para a datação mais recente é a nova metodologia que foi utilizada na pesquisa, baseada em análises do DNA de humanos, chimpanzés, gorilas e orangotangos. De acordo com o líder do trabalho, o cientista Asger Hobolth, a equipe desenvolveu uma nova matemática para medir a quantidade de diferenças no DNA entre um indivíduo e outro, sendo assim possível estimar quando viveu o ancestral em comum entre os dois.

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Arroto de vacas X Aquecimento Global, a batalha final

Na linha controversa e pouco sustentável do “é melhor remediar do que prevenir”, cientistas alemães resolveram lutar contra o aquecimento global investindo na diminuição dos arrotos das vacas.

Hã???!!! É isso mesmo.

O jornal inglês The Guardian noticiou em março um trabalho alemão que consiste na invenção de uma pílula para vacas que as ajudarão a arrotar menos. Devido ao seu processo digestivo natural, estima-se que os bovinos sejam responsáveis pela liberação de 4% dos gases de efeito estufa, sendo em maior parte o metano, um vilão para a atmosfera no mesmo grau do gás carbônico. Em entrevista para o jornal, o coordenador da pesquisa, Winfried Drochner, diz que a pílula também ajudará as vacas a produzirem mais leite se combinada com uma dieta especial. “Nosso objetivo é aumentar o bem-estar da vaca, reduzir os gases de efeito estufa e aumentar a produção agrícola de uma vez só”.

Ah tá, agora está explicado... Nada melhor do que garantir o bem-estar dos animais, combater o aquecimento global e, de quebra, aumentar a produção. É tudo que o processo de mudanças climáticas precisa...

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Primeira Reserva de Fauna brasileira

Na Baía da Babitonga, em Santa Catarina, existem duas preocupações socioambientais em pauta no momento: a necessidade de assegurar as fontes de recursos naturais que sustentam atividades turísticas e mais de duas mil famílias de pescadores artesanais; e a importância da proteção de espécies nacionalmente ameaçadas como o Boto Cinza (Sotalia guianensis), a Toninha (Pontoporia blainvillei) e o Mero (Epinephelus itajara), além de 6.200 ha de manguezal. Para tal o Ibama está consultando os municípios abrangidos pela baía com a proposta de criar uma Reserva de Fauna, a primeira da categoria do país. Esta categoria de unidade de conservação compatibiliza a conservação da natureza e o uso sustentável de parcela de seus recursos naturais.

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Vítimas do mercado

A União Mundial para a Natureza (UICN) divulgou em março mais um dado que reforça o quanto os tubarões são vitimados com o crescimento do mercado não regulamentado de suas barbatanas. Segundo a ONG, em 15 anos, a população de tubarões nas águas da Europa diminuiu nada mais nada menos do que 80%, com aproximadamente cem milhões de exemplares morrendo anualmente. Várias espécies de tubarões são caçadas sem controle para o corte de barbatanas e, após a extração, os corpos dos animais, ainda vivos, são jogados de volta na água. Mas segundo os pescadores, a covardia com os animais se pagaria pelo bom preço que as barbatanas são vendidas no mercado na Ásia. Inversamente ao senso de ética e respeito em relação aos animais, a procura por barbatanas aumenta ao ritmo de 5% ao ano e na China, por exemplo, há cerca de 380 milhões de consumidores da famosa sopa de barbatana de tubarão.

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São Paulo 2020!

Para orgulho dos paulistanos, São Paulo deverá ganhar seis posições no ranking das cidades mais ricas do mundo e figurar como a 13ª em produção de riquezas no ano de 2020. A conclusão é de um levantamento feito pela empresa internacional de auditoria Pricewaterhouse Coopers, que afirma que o Produto Interno Bruto (PIB) de São Paulo, estimado em US$ 225 bilhões em 2005 deverá passar a US$ 411 bilhões em 2020, superando no ranking o PIB de cidades como Miami, Hong Kong, Dallas e São Francisco. As três primeiras posições do ranking deverão permanecer inalteradas na comparação entre 2005 e 2020: Tóquio, Nova York e Los Angeles.

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Meio Ambiente e Guerra

Recente reportagem do jornal Terramérica mostra que o Iraque contabiliza um péssimo balanço ambiental depois da ocupação militar norte-americana no país completar quatro anos. Segundo Azzam Alwash, presidente da ONG Nature Iraque, entrevistado pelo jornal, os rios Tigre e Eufrates se tornaram esgotos a céu aberto. Dejetos industriais, hospitalares e agrícolas e vazamentos de petróleo seriam vertidos nesses dois enormes rios que definem a região da Mesopotâmia e fornecem boa parte da água para irrigação e consumo. Já a ministra do Meio Ambiente do país, Narmin Othman, declarou para o jornal que, apesar das más notícias, foram aprovadas leis ambientais mais rígidas neste período e os pântanos mesopotâmicos, drenados pelo regime de Saddam Hussein nos anos 80, voltaram a inundar. Boas e más notícias à parte, o fato é que apesar de dezenas de bilhões de dólares já terem sido gastos na reconstrução do país, calcula-se a necessidade de muito mais investimentos, algo em torno de US$ 80 bilhões a US$ 100 bilhões. O preço da guerra é grande, inclusive para o meio ambiente.

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Mais tempestades

Estudo coordenado por Mario Molina, prêmio Nobel de Química em 1995 por pesquisas com a camada de ozônio, promove mais uma amostra do efeito danoso da poluição promovida pelo homem. Análises feitas a partir de imagens obtidas por satélites nas últimas décadas mostram que a poluição produzida na Ásia altera a química da atmosfera e causa mudanças no padrão de tempestades no continente, influenciando no final todo o clima do hemisfério Norte. E se não bastasse, o estudo também destaca que as tempestades no Pacífico têm papel crítico na circulação atmosférica global. Possível resultado: a alteração em seu padrão pode promover um impacto significativo no clima de todo o planeta.

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Brasil no Ano Polar

Engana-se quem acha que os ecossistemas polares não são explorados, no bom sentido, por pesquisadores brasileiros. O Ano Polar Internacional (API), programa mundial de pesquisa para estudar os ambientes dos pólos Ártico e Antártico, terá a participação de 30 Universidades e centros de pesquisa do Brasil em 28 projetos. O total do programa engloba 50 mil pesquisadores e 227 projetos em 63 países até março de 2009. “Neste API teremos uma participação significativa, consolidando o reconhecimento da comunidade científica internacional conquistado com os 25 anos de trabalho do Programa Antártico Brasileiro”, destacou Luis Fernandes, secretário executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia em entrevista à Agência Fapesp na cerimônia de lançamento do programa no início de março.

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Interesse por agricultura orgânica

A secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) fez uma averiguação bastante interessante ao longo dos últimos anos. Segundo Rogério Dias, coordenador-geral da secretaria, o interesse e opção dos grandes produtores rurais pelo mercado de produtos orgânicos vêm aumentando a cada ano no Brasil. “Antes, a agricultura orgânica estava restrita à produção de hortaliças e era praticada pelos pequenos produtores”, disse Dias em entrevista à Agência Brasil. “Agora, estão entrando nessa área os produtores de açúcar, café e outras categorias de grãos.”

O Programa de Desenvolvimento da Agricultura Orgânica, criado no Plano Plurianual 2004-2007, contempla ações como linha de crédito diferenciada. Além disso, o Mapa tem trabalhado na articulação do setor, procurando aproximar os segmentos envolvidos e investindo na área de pesquisa.

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Campanha pró-neutralização

Cada cidadão libera em média 2,07 toneladas de gás carbônico ou dióxido de carbono na atmosfera por mês e para compensar faz-se necessário calcular a emissão individual dos gases que causam o efeito estufa e a quantidade de árvores que cada pessoa deveria plantar para neutralizar esta emissão. O problema e a solução são apresentados pela ONG Iniciativa Verde, que disponibiliza em seu site (http://www.thegreeninitiative.com/) sistema para o cálculo da neutralização – que, diga-se de passagem, é o mais novo termo da moda em tempos de Aquecimento Global e Mudanças Climáticas.

No site a ONG mostra os números médios de emissões analisando o consumo de energia elétrica, combustíveis fósseis e gás. Mas de uma forma geral, o diretor da Iniciativa Verde, Osvaldo Martins, recomenda que o caminho para mudar o atual quadro de emissão de gases é o do consumo consciente, ou, em outras palavras, consumir menos de tudo. Está lançado o desafio!

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Controle de vôos

O assunto é controle de tráfego aéreo, mas não tem nada a ver com a atual crise da aviação brasileira. O Ministério dos Transportes da Alemanha divulgou no início de março a intenção de implantar taxas de aterrissagem proporcionais ao consumo de combustível dos aviões e promover um controle mais racional do tráfego aéreo, evitando itinerários mais longos que o necessário. O objetivo final é a proteção do meio ambiente. O porta-voz do ministério explicou que "uma melhor organização do tráfego aéreo permitiria reduzir as emissões de CO2 e a despesa de combustível e que taxar as frotas mais antiquadas seria um incentivo para o uso de aviões mais modernos e menos poluentes". Se a proposta do ministério for levada adiante, a nova normativa será testada durante um período de três anos no país. Enquanto isso, no Brasil...

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Robô salamandra

Usando tecnologia avançada para desvendar os mistérios da evolução da vida no planeta, cientistas europeus produziram o que estão chamando de robô salamandra. A salamandra foi o primeiro animal que passou da água para a terra e o objetivo do robô é facilitar o entendimento dos mecanismos usados pelo animal para adaptar o hábito de nadar a andar. O robô não parece muito uma salamandra, mas ao que tudo indica se move exatamente como uma. Os cientistas conseguiram reproduzir um sistema nervoso que se adapta tanto ao controle de nadar como andar em ambiente terrestre, o que o robô reproduz fielmente. Segundo o jornal Science, os pesquisadores envolvidos no projeto declararam que este trabalho é “uma demonstração de como robôs podem ser usados para testar modelos biológicos e, em retorno, como a biologia pode ajudar no design de produção robótica.”

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Maior caverna submarina do mundo

Dois mergulhadores, um britânico e um alemão, informaram que encontraram na Península de Yucatán, no México, passagens subterrâneas que formam o maior sistema de cavernas submarinas do mundo. Foram identificadas passagens que ligam os sistemas de cavernas de Nohoch Nah Chich e Sac Actun, que juntos medem 153 quilômetros. Essa conexão mostra como o sistema de águas subterrâneas de Yucatán é interconectado e vulnerável. "Há tantos sistemas cavernais interconectados que, se houver um foco de poluição em qualquer área, ele pode se espalhar intensivamente através de todo o sistema”, ressaltou o mergulhador britânico, Steve Bogaerts, durante o anúncio do achado. Segundo a Sociedade de Espeleologia dos Estados Unidos, o maior sistema de cavernas submarinas conhecido até hoje era o Ox Bel Ha, também no México, com 145 quilômetros.

Fontes: BBC Brasil, O ECO, Ambiente Brasil, Terramérica, Agência Fapesp, ENN (Environmental News Network)

* Notas publicadas na edição n. 72 (março/abril 2007) da revista do Instituto Ecológico Aqualung

domingo, maio 20, 2007

Bem-estar animal e humano no Oriente Médio

Com apoio do Governo, ONG inaugura na Jordânia um centro de excelência para cuidar de animais de trabalho, responsáveis pela sobrevivência de cerca de 30% da população do país

Por Jaqueline B. Ramos

Nem só de guerras e conflitos políticos são compostas as notícias do Oriente Médio. Nos primeiros meses do ano, a Jordânia, país vizinho do Iraque, Arábia Saudita e Israel, foi noticiada na imprensa internacional por um assunto que, apesar de sua importância, ainda é pouco convencional: a preocupação com o bem-estar animal. No final do mês de março, a Rainha Rania Al-Abdulah inaugurou na capital Amã o Garden Sanctuary, um centro para cuidar dos chamados Animais de Trabalho, leia-se cavalos e camelos responsáveis pela subsistência de nada mais nada menos do que 45 mil famílias jordanianas – aproximadamente 30% da população do país.

O Garden Sanctuary é o primeiro centro de animais de trabalho do Oriente Médio e surgiu a partir de uma iniciativa da ONG jordaniana Humane Center for Animal Welfare (HCAW). O projeto foi financiado pela Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA) e pelo Governo da Jordânia e sua proposta é oferecer serviços veterinários especializados e gratuitos e treinamentos para estudantes de veterinária, além de programas educativos em escolas para crianças em parceria com o Ministério da Educação do país.

O centro é composto por duas salas de cirurgia, uma farmácia, uma sala de recuperação e um laboratório para raios-X. O local também conta com acomodações, um centro de educação, áreas para recreação e uma clínica veterinária móvel para atender regiões mais remotas. “O Garden Sanctuary será fundamental para melhorar os meios de subsistência das pessoas e servirá de exemplo para o restante do Oriente Médio como um centro de excelência”, afirma Peter Davies, Diretor-Geral da WSPA, organização fundada há 25 anos com a missão de elevar os níveis de bem-estar dos animais em todo o mundo, visando a compreensão e o respeito ao princípio.

Bem-estar animal e humano

E é justamente a ligação do bem-estar dos animais com o das pessoas ao seu entorno o que mais se destaca no projeto. Na Jordânia, cavalos e camelos são usados principalmente para transporte e trabalhos no campo e para um número significativo de famílias eles são sinônimos de trabalho e, portanto, de sua sobrevivência.

“Como em qualquer outro país do mundo, na Jordânia há donos que tratam seus animais sem qualquer cuidado, mas há também aqueles que respeitam os animais como seres sentientes, reconhecendo sua importância. O caminho para aumentar esta consciência está no trabalho educativo, que é muito bem aplicado pela HCAW e começa a ser reconhecido pela população”, conta Trevor Wheeler, diretor de projetos no Oriente Médio da WSPA, ressaltando a iniciativa dos Clubes de Bem-Estar Animal, um projeto extra-curricular já desenvolvido em várias escolas jordanianas que ganha ainda mais força com o Garden Sanctuary.

Fazendo um paralelo da experiência na Jordânia com os trabalhos nesta área desenvolvidos no Brasil, o destaque continua sendo a relação direta do bem-estar dos animais com os homens à sua volta. “Quando os carroceiros percebem que o ato de cuidar bem dos animais leva a um maior ganho, a relação entre o dono e o animal muda. É muito comum os animais sofrerem por desconhecimento do dono sobre remédios para tratamento de algumas doenças ou recursos que podem ser usados numa carroça, por exemplo, que ajudam o animal a melhorar o seu desempenho no transporte de uma carga“, explica João Ferreira, veterinário e professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

Ferreira dá o exemplo das vantagens do cuidado com animais de trabalho a partir da experiência do projeto Carroceiro, desenvolvido desde 1992 na Universidade de Londrina, no Paraná, e que tem como objetivo principal a passagem de orientações e ensinamentos aos carroceiros da região a respeito do manejo higiênico, sanitário e nutricional de seus animais de tração. O professor da UNESP afirma que o Hospital Veterinário da Universidade atualmente dá assistência para proprietários de baixa renda e que há planos de implantação de atividades similares ao projeto Carroceiro, visto os bons resultados alcançados.

“É tudo uma questão de disponibilizar informação, de educação. A partir do momento que o carroceiro passa a conhecer como pode colaborar no bem-estar do seu animal e as vantagens que isso traz para ele mesmo, o olhar em relação ao animal como uma mera ferramenta de trabalho tende a mudar. Cria-se um laço de companheirismo”, diz Ferreira.

“Na Jordânia, o comprometimento pessoal da própria Rainha Rania Al-Abdulah e do Governo através do apoio do Ministério da Educação são essenciais para o Garden Sanctuary nos serviços de assistência aos animais de trabalho e seus donos e de conscientização e educação em relação ao fato de que os animais são seres conscientes de sua existência, que assim como nós têm sentimentos e muitas vezes confiam aos humanos sua saúde e bem-estar”, ressalta Trevor Wheeler, da WSPA. “Nossa expectativa é que este projeto seja modelo para o Oriente Médio e para o mundo”, conclui.

Aquecimento Global e Mudanças Climáticas: os impactos para o Brasil e o mundo

Por Jaqueline B. Ramos *

O assunto Aquecimento Global nunca foi tão falado e discutido pela mídia e, consequentemente, pelas pessoas de uma forma geral. Mas antes de afirmar que é assunto da moda ou “papo de ecologista”, reflita rapidamente: você tem estranhado as temperaturas das estações do ano? Tem tido a impressão que os dias e as noites estão cada vez mais quentes? Se surpreende com notícias de tsunamis, enchentes, secas repentinas e outras tragédias naturais que destroem por vezes cidades inteiras?

Caso tenha respondido positivamente a pelo menos uma dessas perguntas, o tão falado aquecimento global já está presente – e impactando direta e/ou indiretamente – o seu dia-a-dia. Portanto, o melhor a fazer é entender melhor o que são esses famosos processos de mudanças climáticas, que riscos eles trazem para o planeta e o que se planeja e/ou é necessário ser feito em prol do não agravamento do problema em médio e longo prazo.

Uma pergunta que já dividiu muitas opiniões sobre aquecimento global é a seguinte: as mudanças climáticas vividas pelo planeta consistem em fenômenos naturais, ciclos de temperaturas pelos quais a Terra passa de tempos em tempos, ou são frutos de ações insustentáveis do homem, que causam desequilíbrios ambientais por vezes irreversíveis?

Embora ainda existam algumas opiniões a favor da primeira afirmação, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), que representa a posição da comunidade científica mundial sobre o assunto, divulgou em fevereiro uma informação que confirma (finalmente) a segunda parte da pergunta. O órgão adiantou o anúncio oficial a ser feito em um relatório no meio do ano que as alterações no clima do mundo são “muito provavelmente” causadas pela ação humana.
Pelo “muito provavelmente” entenda-se uma probabilidade acima de 90%. Em outras palavras, o aquecimento global que assistimos hoje não é simplesmente um fenômeno natural, mas sim resultado de intervenção no equilíbrio da temperatura do planeta causada por ações insustentáveis do homem, infelizmente.

Toda ação tem uma reação

Como qualquer outra problemática ambiental, os efeitos do aquecimento global recaem sobre o próprio homem, o causador das mudanças climáticas. A poluição atmosférica, gerada em sua maior parte por emissões de CO2 (dióxido de carbono, ou gás carbônico) e N2O (óxido nitroso) provenientes da queima de combustíveis fósseis (petróleo), é a principal vilã no processo de aquecimento global.

Ao lado da queima de combustíveis, outras atividades que causam concentração prejudicial de gases poluentes na atmosfera são a decomposição de matéria orgânica (geradora de CH4 - metano), atividades industriais, refrigeração, uso de propulsores, espumas expandidas e solventes (geradores de HFCs - hidrofluorcarbonos, PFCs - perfluorcarbonos e SF6 - hexafluoreto de enxofre) e o uso de fertilizantes (N2O). Todas estas substâncias são causadoras diretas do Efeito Estufa, fenômeno natural que é levado ao extremo e passa a ser prejudicial para o equilíbrio da temperatura do planeta (ver mais informações no box).

Assim, enquanto o mundo, globalmente como o aquecimento, não investir em projetos viáveis (economicamente falando) de geração de energia limpa, a terceira lei de Newton – “para cada ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade” – terá demonstrações práticas, com reações catastróficas da Natureza causadas por um aumento progressivo da temperatura do planeta.

Leia a matéria completa aqui.

*Matéria publicada na edição n. 72 (março/abril 2007) da revista do Instituto Ecológico Aqualung

quinta-feira, março 29, 2007


Lei para a Mata: mais força para a conservação da Floresta Atlântica Brasileira

Por Jaqueline B. Ramos*
A última semana do ano de 2006 teve momentos de boas e más notícias para a Mata Atlântica. A má foi que um estudo pioneiro divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente intitulado “Mapas de Cobertura Vegetal Nativa dos Biomas Brasileiros” revelou que o último lugar da lista em termos de porcentagem de cobertura vegetal nativa intacta pertence à floresta costeira brasileira. Enquanto o Pantanal, o bioma mais preservado, tem 88,7% de vegetação nativa preservada, a Mata Atlântica tem apenas, segundo o estudo, 27,44%.

Para compensar a oficialização do dado negativo (infelizmente) já conhecido, a boa notícia se concretizou no fim vitorioso de uma batalha de negociações de mais de 14 anos no Congresso Nacional: no dia 22/12/2006, o presidente Lula finalmente sancionou a Lei 11.428, que trata da conservação, proteção e regeneração do bioma Mata Atlântica.

O Projeto de Lei que tratou pela primeira vez de ações mais específicas para proteção e conservação da Mata Atlântica, o mais ameaçado de todos os biomas brasileiros, foi o de número 3.285, apresentado ao Congresso Nacional em 1992 pelo então deputado federal Fábio Feldman. Para se transformar na Lei da Mata Atlântica, o projeto passou por inúmeras avaliações e negociações políticas até ser sancionado e publicado no Diário Oficial “aos 45 do segundo tempo” no ano de 2006.

“Não esperávamos uma resolução tão importante no finalzinho do ano, mas foi uma surpresa boa. Consideramos que acabou uma batalha e começou outra, que é a de fazer com que a lei seja conhecida e cumprida pela população do campo e da cidade”, diz Bruno de Amorim Maciel, secretário-executivo da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA).
Depoimentos sobre a Lei da Mata Atlântica

"Para expandir a fronteira do futuro, para que o novo não seja a reiteração do antigo, é necessário renovar a compreensão sobre nós mesmos. Para tanto, é indispensável ouvir a voz da história. Nada poderia ser mais simbólico desse aprendizado humano do que encerrar o ano de 2006 sancionando uma lei que paga uma dívida com as nossas origens".
Presidente Lula (em discurso ensaiado), durante a cerimônia de sanção da lei realizada no Palácio do Planalto.

"Ele, como o senhor, presidente, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por dizer que 'agora é a hora da onça beber água'. O que estamos celebrando aqui é parte da luta de Chico Mendes. Ele doou a vida pela Amazônia e por todos os biomas".
Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente, lembrando ao Presidente Lula que a data da sanção da Lei da Mata Atlântica é a mesma da morte do seringueiro Chico Mendes, ocorrida há 18 anos (22/12/1988).

"A sanção da lei é motivo de festa. Mas agora começa um trabalho difícil, que é concretizá-la. Peço auxílio do presidente para que o país possa acabar com o preconceito "de que ambientalista é contra desenvolvimento".
Miriam Prochnow, coordenadora da Rede de ONGs da Mata Atlântica, que deu uma muda de pau-brasil a Lula na solenidade de sanção da lei, brincando que seria a última que havia sobrado dos últimos dois anos de manifestações pela aprovação do projeto.

"Os ambientalistas têm o reconhecimento do trabalho da ministra. Para nós, ela é um grande símbolo".
Ex-deputado Fábio Feldman, autor do projeto que deu origem à lei, elogiando o desempenho de Marina Silva no ministério.

“Realmente temos o que comemorar. Embora a demora tenha causado prejuízos incalculáveis, os 14 anos não foi tempo perdido. Nesse período houve um amadurecimento da lei, que está mais clara e foi atualizada pelas leis dos recursos hídricos, dos resíduos sólidos e dos crimes ambientais.”
Clayton Lino, coordenador do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, afirmando que a Lei da Mata Atlântica é bem melhor do que a proposta original de 1992.
Leia a matéria completa aqui.
*Matéria publicada na edição n. 71 (janeiro/fevereiro 2007) da revista do Instituto Ecológico Aqualung

quarta-feira, março 07, 2007

“Minha missão na Terra é lutar pela libertação dos animais”

Entrevista: Lindy Greene, assessora de imprensa da Animal Liberation Front (ALF)

Por Jaqueline B. Ramos*


A ALF (Animal Liberation Front) é uma das organizações de defesa de direitos dos animais mais controversas do mundo. Seus ativistas agem clandestinamente libertando animais de laboratórios e fazendas de produção ou interceptando e destruindo instalações de empresas que conhecidamente usam animais em experimentos ou na fabricação de seus produtos. Enquanto os ativistas, cujas identidades são anônimas até para suas famílias, são procurados pela polícia e arriscam sua liberdade pela causa animal, um outro grupo se dedica a divulgar abertamente os ideais por trás da ALF e informar sobre as últimas ações em prol dos animais que levam a marca da organização. A professora norte-americana Lindy Greene é uma dessas ativistas e integra o grupo NAALPO (North American Animal Liberation Press Office), assessoria de imprensa oficial – e não clandestina - da ALF.

Lindy atua em movimentos de defesa dos direitos dos animais e de luta contra abusos há 18 anos, já tendo trabalhado para ONGs como Earth First!, Rainforest Action Network, Greenpeace, Last Chance for Animals e Animal Defense League. Na cidade de Los Angeles, onde mora, participa ativamente de campanhas contra instituições locais que fazem experiências com animais vivosimais, inclusive a UCLA (Universidade da Califórnia), que, segundo Lindy, recebe por ano US$ 200 mi em fundos de pesquisa para experiências que viciam macacos fem metanfetamina, por exemplo.

Vegana há 15 anos, Lindy deu esta entrevista por e-mail à Revista dos Vegetarianos, na qual explica os objetivos de divulgar os ideais defendidos pela ALF, o trabalho desenvolvido pela NAALPO e comenta sobre a recente resolução do Governo dos EUA de considerar ativistas dos direitos dos animais como terroristas. “Minha missão na Terra é lutar pela libertação dos animais, livrando-os de sofrimento e assassinatos sistemáticos. Seja escrevendo uma carta ou participando de ações mais radicais, todos têm um papel muito importante no movimento de libertação animal.”

Como surgiu a ALF?
Tudo começou no início dos anos 70, quando o ativista Ronnie Lee fundou na Inglaterra o Band of Mercy. Este grupo acreditava que era necessária uma tática mais agressiva para fazer com que pessoas e empresas que abusavam de animais mudassem suas práticas, e acordar alguns políticos para as atrocidades que estavam acontecendo. Liderados por Lee, os ativistas então começaram a invadir laboratórios e fazendas de produção de peles com o intuito de resgatar os animais e danificar as instalações utilizadas para os maus-tratos. Lee chegou a ser preso e passou anos na prisão, mas a filosofia de seu movimento se espalhou e se transformou no Movimento de Libertação Animal (Animal Liberation Front).

A ALF tem células em todo o mundo, inclusive no Brasil, mas ninguém sabe a identidade dos integrantes ou a localização das mesmas. Ativistas montam os grupos com amigos-ativistas de confiança e por questão se segurança, uma célula não sabe da existência da outra. Os detalhes das ações clandestinas não são revelados para ninguém, dificultando uma possível coerção por parte das autoridades.

Como a NAALPO trabalha neste contexto?
A Assessoria de Imprensa Norte-Americana da ALF é uma organização constituída legalmente. Seu objetivo é publicar e divulgar para a mídia e quem mais estiver interessado os comunicados enviados anonimamente pelos ativistas que atuam em defesa dos nossos irmãos não-humanos que são torturados e assassinados pela ganância que o homem tem por dinheiro. As ações clandestinas constituem-se em soltura de animais presos em laboratórios e fazendas de produção e sabotagem nas instalações desses estabelecimentos, causando prejuízos econômicos para as pessoas e/ou empresas que abusam e maltratam os animais.

A NAALPO não participa dessas ações nem conhece a identidade dos ativistas. Nossa função é divulgar os comunicados e também fazer palestras, participar de conferências, publicar artigos etc, com o intuito de esclarecer as condições de maus-tratos enfrentadas por animais em laboratórios, fazendas de produção, circos, rodeios, zoológicos, abrigos públicos, entre outros. Eu acredito que a NAALPO funciona como uma voz inspiradora para os animais e seus defensores. Por isso não deve ser censurada ou repreendida. Todos os pontos de vista, inclusive aqueles mais delicados, que criticam fortes paradigmas políticos e econômicos mundialmente instituídos, devem ser discutidos abertamente.

Por preconceito, falta de informação ou simplesmente por diferentes pontos de vista, muitas pessoas acabam achando que a ALF simplesmente espalha violência nas suas ações. Qual é o maior desafio na desmistificação desta idéia e no processo de fortalecimento do movimento e suas ideologias?
Uma das razões da existência da NAALPO é revogar a noção de que a defesa de seres inocentes é sinônimo de violência ou terrorismo. As pessoas que torturam e assassinam os animais, seres sencientes e indefesos, pelos motivos mais insignificantes e ardilosos, são os verdadeiros fomentadores da violência e do terrorismo. Em geral a opinião pública não crucifica ações violentas a favor dos homens. Os ativistas da libertação animal acreditam que os animais não-humanos também têm o direito de serem defendidos, por compaixão e motivos morais.

Como as ações da ALF impactam diretamente nos custos e lucros de empresas, algumas bem grandes, há uma reação crítica muita forte por parte do Governo e representantes de interesses corporativos, o que acaba influenciando a opinião dos cidadãos. É por isso que a NAALPO faz também um trabalho educativo, esclarecendo para o público em geral a realidade por trás das atrocidades com animais perpetuadas ao longo de séculos, atrocidades estas que moralmente justificam ações mais diretas, imediatistas e por vezes até violentas, consideradas clandestinas.

A recente resolução do Governo dos Estados Unidos de considerar ativistas dos direitos dos animais como perigosos terroristas foi recebida com estranheza e está sendo criticada. Como a NAALPO está reagindo a esta declaração?
O Governo dos Estados Unidos anunciou oficialmente em 2006 que considera ativistas de direitos dos animais como a ameaça número 1 em termos de terrorismo no país. A afirmação refere-se diretamente à ALF, mas mesmo assim eu a considero uma afronta a mim mesma e a todos os outros ativistas e defensores que adotam outras estratégias de trabalho. Nos anos 90, a linha de ativismo animal se baseava em protestos pacíficos, panfletagem, vigílias, abaixo-assinados e alguns atos de ocupação de propriedades. Apesar de algumas conquistas, com o tempo assistiu-se a um retrocesso, com o público em geral ficando cada vez mais indiferente aos abusos cometidos contra animais. Sem contar que esta tática não funcionava com as grandes corporações, que influenciavam o governo e a legislação a seu favor.

Com a mudança para uma tática mais agressiva, que impacta em lucros e custos, os resultados se tornaram mais efetivos. Mas como esperado, junto com eles cresce um movimento repressor das autoridades, cujo objetivo é calar e punir aqueles que têm coragem e audácia suficiente de bater de frente no paradigma social e político dominante. Assim, ativistas de direitos dos animais passaram a ser perseguidos pela polícia, têm seus computadores confiscados e suas linhas telefônicas grampeadas, como se fossem criminosos. Alguns chegam a ser detidos e até julgados por atitudes simplórias como liderar piquetes ou fazer muito barulho em protestos não-violentos, sendo acusados por intimidação, molestamento e autoria de ameaças. Um ativista certa vez respondeu a um vizinho que a acusava de ser terrorista: “Se ficar do lado e defender seres inocentes faz de uma pessoa um terrorista, aceito o rótulo com muito orgulho”. Essa declaração foi interpretada como um depoimento no qual ela estaria admitindo ser uma terrorista.

Este ataque ao Movimento de Defesa dos Animais do Congresso, patrocinado pessoalmente pelo Presidente George W. Bush, é mais dirigido aos ativistas que agem clandestinamente. Porém o maior temor é que, além de exagerado e tendencioso, ele possa ser mal interpretado de uma forma que enfraqueça o direito à liberdade de expressão e atividades de protestos legais, prejudicando tudo o que os idealistas da causa animal já conquistaram ao longo dos anos. Na teoria, a decisão do Governo define multas e penas para os ativistas que causam prejuízos econômicos para instituições, ou seja, não estaria impactando o trabalho de ativistas não clandestinos. No entanto pode-se se assistir um efeito paradoxo: novos ativistas que estão se engajando na causa podem pensar que é mais seguro atuar de forma marginal do que se expor a perseguição ou ao julgamento da lei.

Voltando à linha de atuação da ALF, o que é feito com os animais que são libertados? Existem lugares que os mantém seguros?
Quando os ativistas libertam os animais, normalmente eles são devolvidos para o seu habitat, onde terão a chance de se recuperar e ter sua vida natural. No caso de pets usados em laboratórios, como gatos, cachorros, ratinhos e coelhos, estes ganham a chance de viver com o respeito que merecem como animais de companhia. O movimento identifica novos lares e donos para esses animais antes da ação propriamente dita e geralmente estes se localizam em outras cidades e estados.

Alguns críticos do movimento argumentam que animais selvagens reintroduzidos na natureza correm um risco maior de acabar perecendo sendo predados ou sofrendo acidentes perto de áreas mais urbanas. O contra-argumento é que animais selvagens já enfrentam naturalmente dificuldades e, por isso, têm seus mecanismos de defesa. Além disso, ao serem soltos, têm mais chance de viver dignamente, uma vez que presos numa fazenda de produção, por exemplo, todos estariam fadados a morrer de forma sofrida simplesmente para atender a vaidade de algumas pessoas. Outra crítica é a de que as libertações só abririam espaço para mais animais serem levados para laboratórios e fazendas e passarem pelo mesmo sofrimento. Exatamente por isso muitas ações combinam libertação com intercepção e até destruição de algumas instalações, com o objetivo de gerar prejuízo e inviabilizar, ou pelo menos adiar, as experiências e matanças.

O filme/documentário Behind the Mask, lançado em março do ano passado nos Estados Unidos, mostra abertamente a linha de ação da ALF? Ele será lançado no Brasil?
O filme Behind the Mask é um documentário bem completo sobre a ALF e seus esforços para libertar os animais das torturas causadas pelos homens. Ele foi dirigido e produzido por Shannon Keith, uma advogada de direito dos animais muito atuante nos Estados Unidos que trabalha na linha de resgatar animais de rua e promover informação e educação para o público em geral e também para a imprensa. Aliás, o documentário foi produzido como resposta a uma tendência percebida por parte da mídia de fazer relatos parciais contra movimentos de direitos dos animais.

Através de depoimentos e imagens, o filme é conduzido de uma forma que é difícil não se sensibilizar e apoiar as atitudes dos ativistas da “milícia da noite”, que arriscam sua liberdade e até sua vida infringindo a lei em prol da libertação animal. Ele também relata claramente a verdade cruel por trás da indústria da vivissecção, mostrando que os verdadeiros terroristas são aqueles que exploram e abusam dos animais objetivando apenas lucro. A NAALPO e a própria Shannon acreditam que o filme irá correr o mundo, mas o tempo para isso depende de cada país. Esperamos que no Brasil tenha distribuidores interessados em exibi-lo, para que o público conheça melhor os ideais da ação da ALF e a necessidade de proteção de nossos irmãos animais.

Para saber mais:
ALF - http://www.animalliberationfront.com/
NAALPO - http://www.animalliberationpressoffice.org/
*entrevista publicada na Revista dos Vegetarianos - ano1, n.5 - dezembro 2006

domingo, janeiro 21, 2007







Mais fotos do Santuário dos Chimpanzés - Projeto GAP Brasil







Santuário de Chimpanzés - Projeto GAP Brasil

Visita e reunião de voluntários em janeiro de 2007

Maiores informações: http://www.projetogap.com.br/





Abrolhos - paraíso dos mergulhos e das baleias
Por Jaqueline B. Ramos *
Ao lado de Fernando de Noronha, o Arquipélago de Abrolhos (ou dos Abrolhos) compõe a dupla dos Parques Nacionais Marinhos (PARNAM) brasileiros. Isso significa que quatro das cinco ilhas do arquipélago — a quinta pertence à Marinha do Brasil — localizado no extremo sul do estado da Bahia bga cerca de 70 quilômetros (35 milhas) da costa consistem em uma unidade de conservação. Em outras palavras, o conjunto de ambiente insular e marinho é uma área protegida por lei com o objetivo de preservar recursos naturais e culturais e ainda proporcionar oportunidades para visitação pública, lazer, pesquisa e educação ambiental.

E muitos são os recursos naturais que merecem ser estudados, preservados e até visitados (com muita cautela e respeito) neste arquipélago tão singular, considerado o segundo melhor ponto mergulho no Brasil (atrás apenas da “irmã” Noronha). Abrolhos é formado por quatro ilhas – Siriba, Guarita, Redonda e Sueste - dispostas em arco provavelmente por serem restos da borda de uma cratera vulcânica. Também fazem parte do parque dois grandes blocos de recifes de corais: o Parcel dos Abrolhos, a leste do arquipélago, e o Recife dos Timbebas, a oeste, na direção do continente. (...)
(...) Turista atento

A observação das baleias jubarte é regida pela portaria do Ibama nº 24, de 8 de fevereiro de 2002, que substitui a primeira norma brasileira de avistagem de cetáceos, datada de 1996. Entre outras questões a portaria define que é proibido aproximar-se de qualquer espécie de baleia com o motor da embarcação engrenado a menos de 100 metros de distância do animal. As regras de avistagem bem como as de visitação em um parque nacional são importantes para o monitoramento do turismo como atividade sustentável, que agrega valor econômico com conservação. Ou seja, o ecoturismo.

A responsabilidade pelo monitoramento do turismo no Parque de Abrolhos é do Ibama, mas cabe ao ecoturista consciente manter seu alerta de atenção e perigo sempre ligado. Apesar de existir um controle das embarcações que vão até o arquipélago levando visitantes todos os dias, o número de pessoas desembarcando para mergulhar e/ou para fazer a trilha na ilha da Siriba parece ser maior do que idealmente o paraíso ecológico deveria suportar.

Respeito aos animais, não forçando uma aproximação ou os seguindo durante um mergulho, não tocar nos recifes de corais e tomar todo o cuidado possível e imaginável para não deixar cair lixo no mar ou na ilha são alguns dos cuidados que dependem exclusivamente dos turistas – uma vez que os poucos guardas-parque do Ibama em Abrolhos não acompanham todo o tempo os visitantes. E também infelizmente não propiciam todas as informações necessárias para uma visita sustentável.
Leia a matéria completa aqui.
* Matéria publicada na revista do Instituto Ecológico Aqualung - n. 70 - nov/dez 2006
** Fotos : whalewatching em Abrolhos - Fábio Souza

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Vegetarianismo e o bem-estar animal
Por Jaqueline B. Ramos
(matéria publicada na Revista dos Vegetarianos - ano 1, n. 3 / outubro 2006)

Pode-se arriscar afirmar sem medo que para a maioria das pessoas que escolhem ter uma dieta vegetariana o fator decisivo é a ética no trato com os animais e o respeito aos seus direitos. Em outras palavras, para evitar a exploração e conseqüente sofrimento destes, faz-se a opção de não ingestão de carnes – ou até da não ingestão ou uso de qualquer produto de origem animal, no caso dos veganos. Considerando esse pensamento fica clara a ligação entre o vegetarianismo e o bem-estar animal, no sentido do primeiro colaborar para o alcance do segundo. Então vegetarianismo e bem-estar animal tem uma relação direta? Ao analisar mais profundamente os dois assuntos, a resposta seria: depende do ponto de vista.

Analisando bem-estar animal como uma ciência cujo objetivo é avaliar e estudar mecanismos para melhorar as condições de vida dos animais que vivem sob o domínio do homem, pode-se seguir a linha de raciocínio de que num mundo onde os humanos não explorassem os animais para comida e obtenção de outros recursos não existiriam problemas de qualidade de vida dos bichos. Logo, não haveria a necessidade de uma ciência de bem-estar animal. Neste contexto, que é o ideal defendido pelos veganos, poderia se pensar então que os dois conceitos não têm uma relação direta.

“A maior parte das pessoas que adota o vegetarianismo em países ocidentais o faz por motivos éticos. Sob este ângulo, a relação entre vegetarianismo e bem-estar animal se torna óbvia. No entanto, devemos fazer uma consideração: a maioria dos vegetarianos concorda que os animais de produção devem receber melhores condições de vida e bem-estar. Mas em momento algum a ciência do bem-estar animal questiona se temos ou não o direito de explorar os animais”, afirma Sérgio Greif, biólogo, mestre em alimentos e nutrição e coordenador do departamento de meio ambiente da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira), cuja atribuição é realizar um levantamento dos impactos ambientais causados pela criação de animais e divulgar esses dados.

Greif aborda justamente a questão mais delicada da relação entre vegetarianismo e bem-estar animal. Deixar de comer carne seria uma atitude suficiente para garantir o bem-estar dos milhões de animais explorados pelo homem em todo o planeta? Embora todo vegetariano que tenha feito sua escolha de dieta alimentar por motivos éticos tenha na ponta da língua uma explicação para justificar a resposta a este pergunta, ela continua, infelizmente, sendo negativa. Esse panorama só mudaria caso os números se revertessem e a maior parte da humanidade adotasse o vegetarianismo como princípio de vida.

Quando falamos de bem-estar e vegetarianismo, a questão principal para reflexão diz respeito ao direito que o homem tem de dispôr dos animais e explorá-los em sistemas de produção, experiências etc, o que é o foco principal da discussão dos veganos. “De acordo com o veganismo, os animais são seres senscientes (dispõem de consciência,ou seja, percebem sua própria presença do 'estar-no-mundo') e que possuem interesses e direitos inalienáveis. Portanto, eles não podem ser utilizados para alimentação, para o vestuário, para testar produtos e nem para diversão. Ou seja, o veganismo não reconhece o direito do homem explorar os animais. O movimento do bem-estar animal, por outro lado, defende que o uso dos animais deve ser livre de sofrimento desnecessário, o que não é um termo muito fácil de definir. Além disso, ele não questiona o direito desse uso”, ressalta Greif.

O conhecimento e a prática do bem-estar animal estão intrinsecamente ligados a uma avaliação moral e ética da história da relação homem X animais. Vários fatores culturais e econômicos influenciam as análises e reflexões e muitos dos assuntos abordados têm um viés extremamente subjetivo, e como disse Greif, muito difíceis de definir de forma objetiva. Porém, conceitos e subjetividades à parte, é fato que o bem-estar animal tem no vegetarianismo, no mínimo, um aliado. E esta afirmação é embasada pela declaração de uma cientista de bem-estar animal. Anabela Pinto, bióloga da Universidade de Cambridge e doutora em Comportamento e Bem-Estar Animal, afirma que os vegetarianos não acabam com a morte dos animais, mas acredita que eles contribuem para a redução de sofrimento de milhares deles.

“Se a preocupação dos vegetarianos é a não existência do sofrimento animal, defendendo a adoção de um sistema de produção que tenha esta prerrogativa, parece paradoxal, mas indiretamente eles estão melhorando as condições de vida dos animais”, ressalta Anabela. “Infelizmente o vegetarianismo e o veganismo ainda não têm peso a ponto de mudar a produção mundial, pois em número de pessoas ainda são minoria. Num mundo ideal não existiriam animais sendo usados por humanos. Portanto, toda atitude que contribua, com o mínimo que seja, para esse ideal é um ato louvável.”

Além de louvável, Anabela sugere que sem abandonar os princípios do vegetarianismo como um ideal de futuro da humanidade, deve-se fazer tudo o que está ao alcance do homem para melhorar a vida dos animais no presente. E aí está o papel da ciência do bem-estar animal. “Também é responsabilidade dos vegetarianos que o são por opção ética se preocuparem com o bem-estar dos animais e apoiarem e pressionarem os seus governos a implementar políticas públicas que reduzam o sofrimento dos animais nos métodos de produção”, opina a bióloga.

Bem-estar animal é bem-estar humano: Uma das maiores ativistas dos direitos dos animais no mundo, a jornalista e política indiana Maneka Gandhi, sempre defendeu a idéia de que bem-estar animal é exatamente a mesma coisa do que bem-estar humano. Ela afirma que o carnivorismo é uma das maiores causas da destruição do meio ambiente e que devemos abandonar nossa arrogância e reconhecer a importância dos animais para as nossas vidas. “Os animais são nossos irmãos e irmãs e nós precisamos deles. A cada pescoço de animal que nós cortamos estamos cortando nossa própria vida, passo a passo, até que mal possamos sobreviver”, já declarou Maneka em seus textos e entrevistas.

George Guimarães, nutricionista especializado em dietas vegetarianas da consultoria Nutriveg, compartilha desse pensamento e ainda complementa a idéia argumentando que uma sociedade que trata bem os seus animais é uma sociedade saudável. “As nossas ações não são desconectadas do resto. Enquanto houver sofrimento para alguns, não pode haver felicidade plena para todos. Quando a humanidade tiver desenvolvido um sentimento claro de respeito às outras formas de vida, isto vai significar que o respeito por outros seres humanos já é pleno”, declara o nutricionista.

Ainda pensando na conexão do bem-estar dos animais não homens com o bem-estar dos animais homens, há estudos que demonstram ligações entre conseqüências maléficas na saúde física do homem causadas pelo consumo de produtos oriundos de sistemas caracterizados por sofrimento e exploração de seres senscientes. “O ato de se alimentar é algo que fazemos todos os dias. Neste ato pode ou não estar incluído o sofrimento de um animal e temos toda a capacidade de escolher qual opção desejamos”, afirma Guimarães, ressaltando que acredita que a adoção de uma dieta vegetariana é a atitude única de maior impacto sobre o bem-estar animal. “Não se pode discutir este assunto sem se considerar o vegetarianismo”, conclui o nutricionista.

Diante de tantas opiniões e pontos de vistas, é consenso que bem-estar animal é um assunto complexo e muito delicado e seu alcance não é tarefa das mais fáceis. Assim como analisar a relação e a contribuição direta e efetiva do vegetarianismo e do veganismo para sua prática num mundo que por motivos culturais, econômicos e sociais é, essencialmente, carnívoro. Adotar o vegetarianismo como estilo de vida, pressionar políticos e empresas em prol da regulação e adoção de práticas mais humanitárias na produção de alimentos e cosméticos, boicotar produtos que foram testados em animais, resgatar e adotar animais abandonados, empenhar-se para divulgar os argumentos a favor de uma dieta vegetariana e educar, viabilizando a disseminação de informação para a população como um todo são algumas das atitudes com potencial, a longo prazo, de promoverem mudanças na relação dos homens com os animais.

E para os vegetarianos e veganos convictos, a bióloga Anabela sugere um auto questionamento em cima de um dilema moral que pode surgir do paradoxo Vegetarianismo e Bem-Estar Animal: mais vale poupar a vida de um certo e pequeno número de animais se abstendo de comer carne ou ajudar na redução do sofrimento de milhões de animais participando da promoção de sistemas de produção orgânico, que criem os animais de uma forma mais natural? Não existe resposta certa para esta pergunta. A escolha é pessoal e intransferível e vale até, em respeito aos animais, marcar a opção “todas as respostas acima”.

Os princípios básicos da ciência do bem-estar animal

A ciência do bem-estar animal foi denominada pela primeira vez com esse nome em 1965 pelo Comitê Brambell, um grupo de estudo criado pelo Governo Britânico para avaliação dos métodos de produção com animais. A idéia base desta ciência é que a relação entre o homem e os outros animais deve ser vista apenas como mais uma das relações naturais existentes. Em alguns casos é caracterizada por exploração e predação e em outros, por simbiose e complementação, mas não deve ser considerada como uma característica especial do homem devido a sua “superioridade” sobre as outras espécies. Portanto, seu objetivo é estudar mecanismos para tornar a relação do homem com os outros animais o menos dolorosa possível para os últimos e para tal parte da análise de informações sobre características fisiológicas, comportamentais, ecológicas etc dos animais.

Desta idéia surgiram alguns princípios, que até hoje norteiam os estudos de bem-estar animal. São eles:

As 5 Liberdades

Todos os animais devem:
1 – Ser livres de Medo e Estresse
2 – Ser livres de Fome e Sede
3 - Ser livres de Descomforto
4 – Ser livres de Dor e Doenças
5 – Ter liberdade para expressar seu comportamento natural

Os 3Rs (para experimentação em laboratórios)

Redução – do número de animais utilizados
Substituição (Replacement, em inglês) – por outras alternativas sem animais
Refinamento – alterando protocolos de experiências para diminuição de dor e sofrimento

Instituições que trabalham questões de bem-estar animal

PETA – People for ethical treatment of animals (http://www.peta.org)
Maior e mais famosa ONG de defesa dos direitos dos direitos dos animais no mundo. Prega o veganismo e o fim da exploração animal em todas as instâncias. Rotineiramente é manchete de jornais em vários países com protestos bem chamativos contra experiências em laboratórios com animais, roupas feitas a partir de peles, exploração de animais em circos etc.

WSPA – World Society for the Protection of Animals (http://www.wspa-international.org/)
ONG internacional também presente em vários países – entre eles o Brasil – que tem como missão elevar os níveis de bem-estar dos animais em todo o mundo, assegurando que esse princípio seja universalmente compreendido e respeitado. A WSPA – Brasil, por exemplo, recentemente criou o Comitê Nacional para Promoção do Bem-Estar dos Animais de Produção (CNPBEA). O objetivo é assessorar o Governo na criação de política e legislação mais avançada para a área.

ALF – Animal Liberation Front (http://www.animalliberationfront.com/)
Movimento considerado mais marginal, pois é formado por ativistas em vários países do mundo que agem clandestinamente invadindo laboratórios e outras instituições para libertar e resgatar os animais e poupá-los do sofrimento e exploração. Há também ações em que os ativistas destroem propriedades para evitar ou inviabilizar o desenvolvimento de atividades econômicas com animais. Os ativistas da ALF não têm sua identidade divulgada e alguns escondem sua participação no movimento até da família.

Interniche – The International Network for Humane Education (http://www.interniche.org/)
Associação de profissionais e estudantes das áreas de biologia, medicina e veterinária que defendem o uso de metodologias de ensino e pesquisa mais humanitárias e sem o uso de animais. Os grupos fazem um intercâmbio de informações e experiências bem sucedidas de substituição de métodos de vivissecção (uso de animais vivos em experiências), por exemplo, defendendo o lema de que é possível desenvolver técnicas científicas mais éticas.


Mal necessário?!**

*Por Jaqueline B. Ramos

Qual seria a justificativa para a continuidade de experimentação com animais vivos uma vez que métodos alternativos já se provam plausíveis e eficientes? É justo os animais serem considerados meros produtos e seu sofrimento não ser poupado com o argumento de que é em nome da ciência, que é um mal necessário? Estas são as indagações centrais que permeiam o roteiro do documentário “Não Matarás: os animais e os homens nos bastidores da ciência”, produzido e lançado este ano pelo Instituto Nina Rosa, organização independente e sem fins lucrativos que promove atividades para divulgação de informações sobre defesa animal, consumo sem crueldade e vegetarianismo.

No início do filme a própria Nina Rosa, respeitada ativista no Brasil, prepara o telespectador para as cenas chocantes que estão para ver alertando que elas retratam uma realidade muito dura que precisa ser conhecida para ser mudada. As cenas, captadas sem autorização dos laboratórios, realmente chocam. E a complementação feita pelos depoimentos questionadores da vivissecção (experimentações com animais vivos) feitos por estudantes e professores de biologia, medicina e veterinária de renomadas universidades brasileiras, ativistas de movimentos de direito dos animais e também por cientistas surpreendentemente racionaliza o debate, que geralmente é rebatido pela comunidade científica mais cética com o argumento de ser uma discussão subjetiva e meramente emotiva.

Ativistas e cientistas brasileiros, norte-americanos e europeus esclarecem que atualmente a gama de métodos alternativos sem o uso de animais vivos – experimentações in vitro, simuladores virtuais e outros recursos midiáticos extremamente avançados, apenas para citar alguns exemplos - é muito grande e acessível, ao custo de investimentos iniciais um pouco maiores e, principalmente, vontade dos profissionais envolvidos de unir ciência e compaixão. Além disso, o documentário mostra que as técnicas alternativas e mais humanitárias já se mostram muito mais eficientes para o homem do que os testes em animais, sob o ponto de vista da própria ciência. Um exemplo dado é o da talidomida. Quando foi testada em roedores, no final dos anos 50, não causou efeitos colaterais significativos. No entanto, quando mulheres grávidas passaram a ingerir a substância como prescrição para enjôos matinais, seus bebês nasceram com graves problemas de má-formação.

Ao assistir “Não Matarás” é mais do que natural que você se pergunte: o que posso então fazer para evitar o sofrimento em vão e desnecessário de roedores, cachorros, gatos, coelhos, chimpanzés, entre outros animais? Para o consumidor, o filme orienta a procura por informações sobre a fabricação de produtos de limpeza, higiene, cosméticos, remédios e alimentos e o questionamento sobre a realização de testes com animais. O conselho é boicotar e dar preferência a produtos orgânicos, hoje crescentemente disponíveis no mercado. A Dra. Jane Goodall, renomada primatóloga e antropóloga britânica e atual mensageira da Paz da ONU, é uma das entrevistadas no documentário. Ela resume em uma frase a responsabilidade do consumidor neste assunto: “se as pessoas não comprarem produtos obtidos a partir de sacrifícios de animais, não haverá mais razão para se fazerem os testes.” Simples assim. Assista o vídeo e tire a sua conclusão.

* Jornalista Ambiental e aluna do Curso Internacional de Bem-Estar Animal da Universidade de Cambridge

Título: “Não Matarás: os animais e os homens nos bastidores da ciência”
Ano: 2006
Origem: São Paulo, Brasil
Duração: 65 minutos
Direção: Denise Gonçalves
Onde encontrar:
Loja virtual do Instituto Nina Rosa:
http://www.001shop.com.br/lojas/institutoninarosa.org.br/

** Resenha publicada na revista do IDEC (Instituto de Defesa do Consumidor), edição n. 104 / outubro 2006
Nova lista de espécies ameaçadas de extinção

Por Jaqueline B. Ramos*

Depois de dois anos de estudos e pesquisas, a União para a Conservação Mundial (em inglês IUCN – The World Conservation Union) divulgou em maio a nova lista vermelha internacional, documento oficial de listagem das espécies de animais e plantas que se encontram em perigo de extinção em todo o mundo. E infelizmente as novidades não são muito boas. Das cerca de 40 mil espécies estudadas de 2004 a 2006, concluiu-se que aproximadamente 40% correm algum tipo de risco. Em números absolutos isso significa que 16.119 animais e plantas se encontram, em diferentes escalas, ameaçadas de extinção, o que representa um aumento de 530 espécies desde o último levantamento.

"A Lista Vermelha mostra uma tendência clara: a perda da biodiversidade está aumentando, não desacelerando. As implicações disso para a produtividade e resistência dos ecossistemas e para a vida e sustento de bilhões de pessoas que dependem deles vão longe", afirmou Achim Steiner, diretor-geral da IUCN, na época da divulgação do estudo. “Reverter esta tendência é possível, conforme vários projetos de conservação já provaram. Mas para o sucesso em escala global precisamos de alianças e parcerias de vários setores da sociedade. A biodiversidade não poderá ser salva apenas por ambientalistas”, completou Steiner.

Ilustrando o diagnóstico da biodiversidade mundial em números, a lista mostra que o total de espécies consideradas extintas chega a 784 e as extintas na natureza, que somente são encontradas em cativeiro, somam 65. Os quantitativos divulgados pela IUCN podem parecer pequenos diante da grandeza da diversidade biológica mundial estimada pelos cientistas. Acredita-se que existam em todo o planeta cerca de 15 milhões de espécies. Destas, apenas 1,8 milhões são estudadas e analisadas pelo homem. E o estudo da IUCN é o demonstrativo da radiografia de menos de 3% destas espécies conhecidas.

Leia a matéria completa aqui.

*Matéria publicada no informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 69 (setembr/outubro 2006)

Educação ambiental: reorientação das nossas relações
com a natureza e os animais
Por Jaqueline B. Ramos*
"Somente quando entendermos, nos importaremos. Somente quando nos importarmos, ajudaremos. Somente quando ajudarmos, os salvaremos."

Dra. Jane Goodall, primatóloga e antropóloga britânica que estudou a vida social e familiar dos chimpanzés ao longo de 40 anos

Uma das maiores descobertas da reflexão e estudo sobre meio ambiente é que tudo (tudo mesmo) a sua volta, inclusive você, está dentro dele (ou é ele). Essa afirmação parece tão óbvia que corre o sério risco de perder sua importância e cair na armadilha de “papo chato de ambientalista”. Mas foi em armadilha similar que o homem caiu e se enraizou, criando a cultura da natureza como fonte inesgotável de recursos e do ‘quanto mais melhor’, não importa as consequências.

Exemplificando, entre estes recursos estão os animais. Além de fonte de alimentos, os animais hoje são explorados das mais variadas formas (experiências em laboratórios, tráfico, circos etc). E por acreditar ser superior às outras criaturas, o homem desenvolveu formas de exploração extremamente injustas e covardes, o que causa sofrimento e dor aos animais.

Do que precisamos então? Primeiramente entender que não somos melhores e nem piores que os animais. Nossa relação com eles é mais uma entre as inúmeras relações que encontramos na natureza. Segundo: faz-se necessário repensar os modelos e o modo de lidar com nosso cotidiano, reorientando nossos costumes. Em outras palavras, para fazermos as pazes com a natureza e os animais, precisamos colocar em prática a educação ambiental.

Educação ambiental não é assunto para ser discutido somente por educadores ou matéria de escola. É assunto para se refletir na família, com o seu vizinho, com os amigos, na empresa, na igreja, nos jornais, enfim, para se colocar em prática no dia-a-dia. Da separação do lixo em casa à escolha de um produto ambientalmente responsável, diz respeito à quebra de paradigmas ultrapassados em prol de relações mais sustentáveis e da qualidade de vida. Esse é o caminho que levará, mesmo que seja a longo prazo, a mudanças em costumes que precisam ser aprimorados, do contrário o planeta não comportará tamanhos excessos. E as relações com animais, no meio disso tudo, ficarão cada vez mais injustas, causando malefícios para eles e para nós mesmos.

*Texto publicado na revista do IVVA-Campinas (Instituto de Valorização da Vida Animal) - ano 1, n. 2 - setembro/outubro 2006

segunda-feira, outubro 09, 2006



Pequenos desconhecidos

Saiba quem são e como vivem os seis pequenos felinos brasileiros

Por Jaqueline B. Ramos*

Eles são felinos que pesam menos de 15 quilos e alguns poderiam ser facilmente confundidos com gatos domésticos se não fosse por três motivos: são extremamente selvagens, têm a maior parte de sua área de ocorrência em território brasileiro e, infelizmente, quase todos estão na lista de espécies ameaçadas de extinção. Trata-se dos pequenos felinos, um grupo de seis espécies consideradas de médio e pequeno porte. A única (ou mais) famosa – e a maior em tamanho – é a jaguatirica. As outras espécies são pouquíssimo conhecidas tanto no mundo científico como pelo público em geral, mas algumas têm características que as tornam muito especiais. O gato-maracajá, por exemplo, é o único felino do mundo que tem a capacidade de descer de uma árvore de cabeça para baixo. Não seria exagero afirmar que ele é uma espécie de “gato macaco”.

Apesar da maioria das espécies de felinos existentes no Brasil ser de pequeno porte, a biologia, ecologia e conservação destes animais começaram a ser estudadas com a profundidade merecida muito recentemente, mais precisamente desde julho de 2004, com o Projeto Gatos do Mato – Brasil. O projeto é coordenado pelo Instituto Pró-Carnívoros, uma organização não-governamental sediada na cidade de Atibaia, em SP, que atua na conservação dos mamíferos carnívoros e seus habitats através de pesquisa, manejo e educação, tendo outras 10 instituições parceiras. O projeto é financiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente, com apoio da FAPEMA (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Maranhão), Conservação Internacional – Brasil e FATMA (Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina).

“A importância do estudo dos felinos se justifica pelo seu papel ecológico. Eles são animais predadores de topo e alimentam-se exclusivamente de carne de vertebrados. Seguramente por isso exercem uma pressão e controle nas populações de suas presas e interferem significativamente no equilíbrio ecológico e na dinâmica da composição da comunidade dos ecossistemas”, explica o biólogo da Universidade Estadual do Maranhão Tadeu Gomes de Oliveira, coordenador geral do Projeto Gatos do Mato – Brasil, membro do grupo de Especialistas em Felinos da IUCN (The World Conservation Union) e co-diretor da Aliança para Conservação dos Felinos Sul-Americanos. “Vale também ressaltar que a superpopulação de espécies que são suas presas pode vir a ser prejudicial para o próprio homem, o que reitera a importância da conservação destes felinos”, afirma Tadeu.

* Matéria completa na edição n. 30 (outubro 2006) da revista Terra da Gente

terça-feira, setembro 19, 2006

foto: Jaqueline B. Ramos
Bem-Estar Animal: a ciência de respeito aos animais
Por Jaqueline B. Ramos*

A relação entre o homem e os outros animais deve ser vista apenas como mais uma das relações naturais existentes. Em alguns casos é baseada em exploração e predação e em outros, em simbiose e complementação. Ela não deve ser considerada como uma característica especial do homem devido a sua “superioridade” sobre as outras espécies. Esta é a idéia central de uma ciência chamada de Bem-Estar Animal (BEA), cujo objetivo geral é conhecer, avaliar e garantir as condições para satisfação das necessidades básicas dos animais que passam a viver, por diferentes motivos, sob o domínio do homem.

Mas seria então natural indagar: BEA não é a mesma coisa que Direito dos Animais? A resposta é: não exatamente. BEA é uma ciência e Direito dos Animais é um movimento baseado em conceitos filosóficos de que deve ser dado aos animais o direito de não sofrerem. A defesa destas idéias depende de militância, sendo alguns grupos e atuações mais radicais que outros. Como qualquer outra ciência, a BEA não deve ser conduzida por morais éticas até a sua aplicação. Já Direito dos Animais é um movimento que parte do princípio de que sob o domínio dos homens os animais tendem a passar por sofrimento. Para evitar o pior devem então ter seus direitos defendidos de antemão, não importa o que custar. Como qualquer outro movimento, é embasado pela emoção e por conceitos mais subjetivos.

Apesar de terem origens conceituais bem diferentes, pode-se afirmar que BEA e Direitos dos Animais são matérias complementares. Independente dos meios usados, os resultados mensurados pela ciência do bem-estar e as idéias defendidas pelo movimento de defesa dos direitos dos animais visam um objetivo em comum: a garantia da qualidade de vida dos “animais não homens”, que, em diferentes níveis, se relacionam com o “animal homem”.

As pesquisas realizadas de bem-estar animal funcionam como embasamento para definição de leis, acordos etc que garantam o cumprimento e o respeito aos direitos dos animais de terem sua qualidade de vida assegurada. Por outro lado, os argumentos mais emotivos e filosóficos utilizados pelo movimento de defesa dos direitos dos animais podem ajudar a ciência a avaliar questões subjetivas com as quais pode se deparar, muitas vezes, na conclusão de um processo, no momento em que o cientista/pesquisador deve avaliar a ética de uma situação antes de tomar decisões sobre a aplicação do seu estudo.

Leia a matéria completa aqui.

* Matéria publicada na revista do Instituto Ecológico Aqualung número 68 (julho/agosto 2006)

domingo, agosto 20, 2006


Visitante ilustre na refinaria...

Coruja pousa e observa área perto de jazida na Refinaria de Paulínia (SP) - dia 18/08/2006



Meio Ambiente e Cidadania: o que você tem a ver com isso?

Por Jaqueline B. Ramos*

O meio ambiente tem muito a comemorar no Brasil, mas ainda existem algumas questões chaves que precisam avançar para que a festa seja completa. Esta é uma conclusão geral que se pode tirar do resultado de uma pesquisa recém-divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), em parceria com o Instituto de Estudos da Religião (Iser) e WWF Brasil. A pesquisa “O que os brasileiros pensam sobre a biodiversidade” foi realizada em março pelo Instituto Vox Populi para conhecer a opinião da população sobre várias questões relativas à Biodiversidade.

O principal resultado da pesquisa é que a conscientização do brasileiro em relação ao Meio Ambiente aumentou 30% nos últimos 15 anos. Além disso, conceitos considerados complexos, como efeito estufa e biodiversidade, são conhecidos pelos brasileiros, que também demonstram uma crescente preocupação com a ameaça aos principais biomas do país.

Leia a matéria completa aqui.

*Matéria publicada na revista do Instituto Ecológico Aqualung de maio/junho 2006

quarta-feira, julho 12, 2006

Tubarões: a experiência pró-conservação nos Estados Unidos

Por Jaqueline B. Ramos *

Infelizmente, o tubarão no Brasil é um animal ligado estritamente a notícias negativas, como ataques a surfistas e mergulhadores. Além disso, aparece nos jornais como “troféu” de pescadores, que viram heróis ao expor o animal cruelmente morto na praia ou em seus barcos. Muito da má fama do tubarão vem da cultura que o vende como um dos animais mais perigosos que existem, predador e assassino inveterado de homens. O que pode ser facilmente provado o contrário, conforme o próprio projeto PROTUBA já vem divulgando em fatos e dados.

O grande problema é que o resultado de toda essa discriminação e falta de conhecimento faz com que a opinião pública, de uma forma geral, não se preocupe ou se sensibilize com a conservação das espécies de tubarão e problemas como o finning (pesca para extração das barbatanas) e a pesca predatória continuam acontecendo sem que haja muita mobilização para que uma legislação a favor da defesa e da conservação do tubarão seja instaurada no Brasil.

O Ibama já tem uma portaria que proíbe a prática do finning (o peso total das barbatanas não pode exceder 5% do peso das carcaças), mas ainda não temos leis específicas determinando, por exemplo, que os tubarões transportados e vendidos devam estar inteiros (só há definições de tamanho mínimo para captura de algumas espécies), que haja limites (cotas) para a quantidade de tubarões pescados e que se crie áreas protegidas de berçário e épocas de defeso.

Diante do contexto de que o Brasil necessita de uma legislação eficiente de proteção para coibir a pesca predatória e a sobrepesca do tubarão, vale a pena analisar a estratégia de manejo do animal adotada por países com os Estados Unidos, que já tem políticas de conservação bem mais avançadas.

Os tubarões e sua interação nos ecossistemas: O National Marine Fisheries Service (NOAA Fisheries) — agência federal dos Estados Unidos, ligada do Departamento de Comércio, responsável pela administração dos recursos dos ecossistemas marinhos no país — tem um programa específico para estudo de espécies de tubarões que tenham valor comercial, histórico e ecológico relevantes e sua interação nos habitats naturais. É o Apex Predators Program (APP), cuja linha de pesquisa consiste em estudar profundamente e sistematicamente a distribuição dos indivíduos, as rotas de migração, as taxas de reprodução, o ciclo alimentar no ambiente, entre outras questões da ecologia e biologia específicas dos tubarões em toda a costa norte-americana.

Através do NOAA Fisheries, o programa conduz pesquisas, implementa restrições legais e trabalha junto a pescadores em instâncias locais. Além disso, desenvolve ações de incentivo à conservação a nível internacional através de programas de cooperação para identificação e estudo de tubarões em convênio com outros países do Oceano Atlântico, Golfo do México, Mar do Caribe e Oceano Pacífico. No Pacífico, o NOAA Fisheries trabalha junto a conselhos locais de pesca com o objetivo de desenvolver mecanismos de manejo da população de tubarões neste oceano.

Outra linha de pesquisa muito interessante do programa é a Cooperative Atlantic States Pupping and Nursery (COASTSPAN), que desenvolve um estudo detalhado das áreas de berçário de tubarões mais importantes na costa atlântica. Os dados levantados nesse estudo geram um banco de dados de informações técnicas que ao final embasam os planos de manejo e conservação da população adulta de tubarões.

26 anos de regulamentação de pesca de tubarões: Além de investimentos em estudos para embasar ações práticas de conservação, os Estados Unidos é pioneiro na implementação de legislação específica de proteção e conservação. A pesca de tubarões começou a ser regulada através de leis em 1993. Seis anos depois, um Plano de Manejo de Pesca revisado, incluindo as espécies de tubarão, peixe-espada e atum, passou a regulamentar as atividades pesqueiras. Desde então a pesca de tubarões vem sendo controlada através de um sistema de cotas e pescadores comerciais devem ter uma permissão especial e seguir restrições quanto ao número de viagens e limites de acesso.

Existem duas temporadas de pesca nos Estados Unidos: de 1º de janeiro a 31 de junho e de 1º de julho a 31 de dezembro. Cada uma tem uma cota determinada que é divulgada antecipadamente a cada ano, assim como limites a serem respeitados em áreas especificadas da zona costeira. Além disso, existe uma lista composta por 19 espécies que são proibidas, em qualquer hipótese, de serem pescadas. Assim como no Brasil, a prática de finning também é proibida nos Estados Unidos (também há o limite de 5%).

As ações de proteção colocadas em prática nos Estados Unidos fazem com que ele seja um líder internacional na conservação de tubarões. A intervenção do país, por exemplo, foi crucial para a montagem do Plano Internacional de Ação para Conservação e Manejo de Tubarões, da FAO (Food and Agriculture Organization). Sem contar que é um dos únicos países, entre os 87 que praticam pesca de tubarão, que desenvolveu um Plano Nacional de Conservação e Manejo de Tubarões.

A experiência dos Estados Unidos pró-conservação pode (e deve) ser então considerada um paradigma para o Brasil. Num país detentor de uma zona costeira como a nossa, faz-se mais que necessário o início de uma organização e mobilização com o objetivo de se implementar programas e legislações efetivamente eficientes em prol da proteção da população de tubarões em nossos mares. Do contrário o número de notícias ruins tendo o tubarão como principal personagem será uma das vergonhas do Brasil perante uma comunidade internacional cada vez mais consciente do valor da conservação deste animal.

Por que conservar a população de tubarões?!

Os tubarões têm um papel muito importante no ecossistema marinho e daí nasce a importância da sua conservação. Variadas espécies de tubarões ficam sujeitas a sobrepesca pelo fato de levarem muitos anos para chegar à vida adulta (têm um ciclo de vida longo) e o número de indivíduos jovens ser pequeno. Os efeitos da sobrepesca podem levar anos até serem revertidos.

Para desmistificar alguns fatos e ressaltar o porquê da importância dos esforços para a conservação dos tubarões, abaixo são respondidas algumas perguntas bem freqüentes feitas sobre eles:

O que faz com que tubarões ataquem os homens?
Tubarões não têm o instinto natural de caçar homens. Um ataque ocorre por erro de identificação. Acontece dos tubarões confundirem homens com suas presas naturais, como peixes, mamíferos marinhos e tartarugas, e geralmente soltam a pessoa depois da primeira mordida. Espécies pequenas confundem braços e pernas balançando com peixes e quando mordem e percebem que não é o que procuram, soltam e nadam fugindo. As espécies maiores também confundem, mas uma única mordida nesse caso pode causar ferimentos bem mais graves. Em suma, tubarões não atacam homens, mas nem por isso devem ser tratados sem cuidado ou respeito.

Por que proteger os tubarões?
Tubarões são animais únicos, cuja biologia preservada data de milhões de anos. Como são predadores do topo da cadeia nos mares, eles colaboram para o equilíbrio do ecossistema marinho. Ao lado de algumas poucas espécies de baleias e outras de tubarões, o homem é o único animal que mata tubarões (é contabilizado mais de 100 milhões por ano). Por esses motivos faz-se necessário criar regulamentos de pesca que garantam a sobrevivência das populações de tubarão nos mares por mais milhares de anos.

O ataque de tubarões é comum? O que pode ser feito para diminuir o risco de um ataque de tubarão?
Mais pessoas morrem eletrocutadas por problemas com luzes de árvore de Natal do que por ataque de tubarões. O risco de ataques pode ser minimizado com atitudes preventivas quando estiver tomando banho de mar numa praia que tenha algum histórico de presença de tubarão, tais como:
Fique sempre em grupo. Tubarões tendem a atacar indivíduos sozinhos, e não grupos. Não se afaste muito da costa, do contrário pode se isolar muito e dificultar um possível resgate.
Evite entrar no mar muito cedo pela manhã ou no final do dia e noite. Estes são os horários que os tubarões estão mais ativos procurando comida.
Não entre na água se tiver algum ferimento sangrando.
Evite usar acessórios muito brilhantes, pois a luz refletida desses objetos se assemelha muito com o reflexo da pele escamada de peixes.
Evite tomar banho em águas utilizadas para pesca comercial ou esportiva, principalmente se existir sinas de isca e peixes se alimentando.
Redobre seu cuidado em águas mais turvas.
Tenha muito cuidado ao nadar perto de bancos de areias e áreas costeiras íngremes, pois os tubarões gostam de se alojar nestas áreas.
Não entre na água se for divulgada a presença de tubarões e saia da água imediatamente se avistar um tubarão. Lembre-se: tubarões normalmente não atacam homens, mas devem ser tratados com muito cuidado e respeito. Não subestime seus instintos.


Fonte: National Marine Fisheries Service (NOAA Fisheries - http://www.nmfs.noaa.gov/)

* Matéria publica na revista do projeto Protuba (primeiro semestre 2006)

quinta-feira, junho 15, 2006

Recifes de Corais: ilustres desconhecidos

Por Jaqueline B. Ramos*

O desenho animado “Procurando Nemo”, visto por milhares de pessoas em todo o mundo, deu uma grande contribuição para a ecologia e para a educação ambiental. A história da aventura do peixinho com uma barbatana defeituosa no mar australiano retrata muito bem o ambiente marinho e, sobretudo, o ecossistema chamado ‘recife de coral’. Embora muitos tenham se dado conta da importância dos corais para a conservação dos oceanos ao assistir o filme, infelizmente o público em geral ainda conhece pouco sobre a importância deste singular ecossistema.

Os recifes de corais são ecossistemas marinhos muito ricos em biodiversidade.
Eles estão para o ambiente marinho como as florestas tropicais estão para os ambientes terrestres. Ou seja, os dois são os maiores centros de biodiversidade do planeta. Entre as inúmeras espécies que vivem nos corais estão os cnidários, as algas, as esponjas (poríferos), os vermes poliquetos (anelídeos), os moluscos, os crustáceos, os equinodermos e diversos tipos de peixes. Para se ter uma idéia, de cada quatro espécies marinhas, uma vive em ambientes recifais (incluindo 65% dos peixes).

Geologicamente, os corais existem há, aproximadamente, 200 milhões de anos e alcançaram seu nível atual de diversidade biológica há 50 milhões de anos. A formação desses ecossistemas aconteceu da seguinte forma: primeiramente animais sem esqueletos e flutuantes associaram-se à algas microscópicas e fixaram-se às rochas, formando colônias. Estas colônias são os corais, que ao se concentrarem formam o habitat marinho recife de corais.

Por sua rica biodiversidade, os recifes de corais têm características muito importantes para o equilíbrio ecológico do ambiente marinho. Além de exportar matéria orgânica e nitrogênio para suas zonas circundantes, aumentando a produtividade dessas águas, eles consistem em um importante local de reprodução e de crescimento juvenil para muitas espécies de peixes. Mas, infelizmente, na mesma intensidade em que a história evolutiva formou um ecossistema muito rico em vida, os recifes são sistemas extremamente frágeis e susceptíveis à perturbação natural e humana.

Degradação

De acordo com o Global Coral Reef Monitorinng Network – GCRMN , uma rede de governos, organizações não-governamentais (ONGs), institutos e indivíduos que monitoram a saúde destes ecossistemas, cerca de 27% dos recifes de coral do mundo estão definitivamente perdidos. Se as atividades predatórias continuarem no mesmo ritmo, sem nenhuma ação remediadora, o GCRMN calcula que a parcela de recifes perdidos atingirá o alarmante índice de 40% até 2010.

A degradação dos recifes de corais está intimamente ligada às atividades humanas e econômicas. O aquecimento dos oceanos, por exemplo, resultado de mudanças climáticas, causam o grave impacto de expulsão de algas, as zooxantelas, que habitam os recifais. Este efeito se chama branqueamento. Outras causas de degradação são a poluição das águas, a mineração de areia e rocha, o uso de explosivos e cianeto (ou outras substâncias tóxicas) em atividades pesqueiras e a própria pesca predatória e sem controle em suas áreas.

Para agravar a situação, o impacto ambiental negativo nos recifes de corais vem acompanhado de uma crise social, principalmente em relação às populações costeiras. Quase meio bilhão de pessoas vive num raio de 100 quilômetros de um recife de coral e muitos dependem deles para alimentação e geração de renda. Cerca de um quarto do pescado dos países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, é proveniente de áreas de coral. Na Ásia, este pescado é a base da alimentação de um bilhão de pessoas. No Brasil, estima-se que cerca de18 milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente desses ambientes.

Vale também ressaltar que os recifes de corais também protegem as praias da erosão e ajudam a produzir as areias finas que as tornam atraentes para o turismo, uma importante fonte de receita de muitos países tropicais. Em geral, os bens e serviços gerados pelos recifes foram avaliados, com dados de 1997, em US$375 bilhões anuais.

Ocorrência no Brasil e no mundo

Embora se encontrem corais em todos os oceanos, somente nas águas tropicais se desenvolvem os recifes. Eles são comuns na costa leste da África, no oceano Índico, no Atlântico e no Pacífico, especialmente na costa das Filipinas, Papua Nova Guiné, Polinésia, nordeste da Austrália e nas ilhas do leste australiano até o Havaí, zonas onde a temperatura média anual da água é superior a 20ºC no inverno. Os recifes estão ausentes ou são reduzidos nos limites das áreas tropicais, como na costa oeste da América do Sul e da África, devido às zonas de upwelling (interface entre o meio marinho e terrestre onde ocorre elevação de massas de água fria de áreas mais profundas) e à existência de correntes frias.

No Brasil, os recifes de coral se distribuem por aproximadamente 3 mil quilômetros da costa, do estado do Maranhão ao Sul da Bahia, mais especificamente Abrolhos, representando as únicas formações recifais do Atlântico Sul. Nessa área existem nove unidades de conservação, que protegem uma parcela significativa do ecossistema recife de coral.

Considerando a importância desses ambientes marinhos e, infelizmente, as altas taxas de degradação assistidas, o Governo Brasileiro, através da Diretoria de Áreas Protegidas (DAP – Ministério do Meio Ambiente) começou, em 1999, a implementar iniciativas com o intuito de formar uma Rede de Proteção nos Recifes de Coral. A primeira foi desenvolver um projeto, juntamente com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, de mapeamento dos recifes existentes dentro das diversas unidades de conservação brasileiras. Este projeto teve como principal produto o “Atlas dos Recifes de Coral nas Unidades de Conservação Brasileiras”, uma publicação que foi pioneira ao disponibilizar mapas do ambiente recifal brasileiro, num total de 39 cartas.

A segunda iniciativa foi a concepção da Campanha de Conduta Consciente em Ambientes Recifais, cujo objetivo é divulgar regras de conduta a serem adotadas nas modalidades de turismo que envolvem os recifes de coral. A terceira iniciativa diz respeito ao estabelecimento do Projeto Piloto de Monitoramento de Recifes de Coral do Brasil, iniciado em 2002 e coordenado pela Universidade Federal de Pernambuco, com apoio financeiro do Ministério do Meio Ambiente

Assim como o peixinho Nemo no desenho, os recifes de corais são muito ricos em vida, mas também apresentam sua parcela de fragilidade. Só depende do homem, ao obter informações e colocar em prática atitudes sustentáveis, evitar que essa fragilidade se transforme em uma ameaça para o equilíbrio do ecossistema e de todo ambiente marinho.

Tipos de Recifes

Os recifes aparecem em diferentes tamanhos e formas, dependendo das condições hidrológicas e geológicas. Os tipos de recifes mais comuns são atol, recife barreira e recife de franja.

Os atóis têm a forma de um anel emergindo da água profunda, longe de terra firme, com uma lagoa no seu interior. Existem 425 atóis documentados no mundo e o maior deles é o de Kwajalein, nas ilhas Marshall, na Oceania.Os recifes barreira e de franja são muito parecidos. Ambos são adjacentes a massas de terra. A maior barreira de coral do mundo tem aproximadamente 2 mil quilômetros e situa-se ao longo da costa nordeste da Austrália.

Fontes: Ministério do Meio Ambiente, Conservation International e Naturalink

Leia mais: Global Coral Reef Monitorinng Network - http://www.gcrmn.org/

*Matéria publicada no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung março/abril 2006

segunda-feira, maio 22, 2006

Baleias: Vítimas Constantes

Por Jaqueline B. Ramos *

Inúmeras são as notícias que ouvimos sobre elas todos os dias. E, infelizmente, não são nada boas. Destacando as mais recentes, temos a temida Orca, conhecida como “baleia assassina”, ocupando cada vez mais o papel oposto ao significado de seu “apelido”. No final de 2005 pesquisadores noruegueses da ONG WWF chegaram à conclusão de que as orcas são os mamíferos que mais sofrem atualmente com a poluição no Ártico, ocupando o lugar dos ursos polares, que até então lideravam esse triste ranking. Nenhum outro mamífero ingere uma concentração tão grande de substâncias químicas maléficas produzidas pelo homem naquele ecossistema. Enquanto isso, a Sociedade pela Conservação das Baleias e Golfinhos (WDCS - Whale and Dolphin Conservation Society) afirma, segundo notícia divulgada em fevereiro, que o estoque de carne de baleia mantido pelo Japão é tão grande que o país começou a vendê-lo como comida para cachorro. “A WDCS espera que o uso manifesto de carne de baleia como ração para cães no Japão demonstre que o programa científico de caça às baleias é uma armação com motivações políticas”, disse a organização em seu site sobre a justificativa dada pelo país para dar continuidade à caça de baleias.

Não há dúvidas de que o Japão hoje é o país-vilão quando se trata da não- proteção às baleais. Apesar de ser proibida em nível mundial desde 1986, através de uma moratória internacional, a caça comercial às baleias continua a acontecer no país com a justificativa de fins científicos. A questão delicada da moratória é o fato de permitir aos países se auto-outorgarem licenças para a captura de baleias para pesquisas. O Japão abusa dessa norma e mata centenas de baleias por ano com o argumento da “pesquisa científica”. A carne e a gordura resultantes da “pesquisa” são vendidas livremente no mercado japonês. O grande desafio hoje é fazer com que o Japão pare de usar essa mentira para expandir sua caça comercial.

Leia a matéria completa aqui.

*Matéria publicada no Informativo do Insituto Ecológico Aqualung número 65 (maio/junho 2006)