domingo, fevereiro 17, 2008


Revista dos Vegetarianos n. 16 (fevereiro 2008) - Link para a revista: http://www.europanet.com.br/revistadigital/?modulo=exibe_produto&id_produto=9946016
Moda consciente
Por Jaqueline B. Ramos

É bem provável que todo vegetariano concorde que a decisão de cortar carne e ingredientes animais da dieta alimentar é apenas o ponto de partida de um estilo de vida diferenciado. Quando nos tornamos herbívoros queremos que a ideologia perpasse todo o nosso cotidiano. Inclusive o das roupas que vestimos. Couro, pele, lã, seda, penas e outros materiais que impõem sofrimento a animais para serem obtidos saem definitivamente de moda. Entram em cena materiais sintéticos e derivados de fibras naturais num estilo que é chamado veg fashion, ou moda sem crueldade, um novo olhar sobre o que realmente é ser chic.

Como o próprio nome deixa bem claro, veg fashion é um conceito baseado nos preceitos de não exploração dos animais por capricho e acomodação do bicho-homem. Não restam dúvidas de que não precisamos de peles de animais como roupas, visto o grande número de recursos sintéticos e naturais, como algodão, bambu e cânhamo, só para citar alguns exemplos, já encontrados no mercado. No entanto, vestir roupas ou usar acessórios feitos de peles genuínas e outras matérias-primas animais ainda é categorizado como luxuoso, ou “glamouroso”, na linguagem da moda.

O resultado de tamanha futilidade (com perdão da palavra) é o sofrimento e morte de milhares de animais todos os dias. Segundo estimativas da Fur-Free Alliance, uma coalização internacional formada por cerca de 30 organizações de proteção animal, a indústria da pele mata por ano cerca de 50 milhões de animais para o mercado da moda, de lobos a esquilos (e o levantamento nem inclui coelhos, por falta de números oficiais). E para piorar a situação, uma investigação da ONG Humane Society, dos Estados Unidos, no final da década de 90 divulgou a matança indiscriminada de gatos e cachorros na China e outros países asiáticos. Os animais, alguns de raça e outros de rua, são abatidos covardemente depois de semanas de confinamento e sua pele abastece a indústria de roupas, acessórios, e bugigangas em geral que são exportadas para todo o mundo.

“Minha maior crítica é que milhares de animais são criados em cativeiro somente para este fim, muitas vezes de forma clandestina. Sem contar os problemas do mercado ilegal com a caça, armadilhas e o tráfico. E mesmo assim ainda existe um glamour que sustenta esta crueldade. Grifes internacionais como Prada, Yves Saint-Laurent e Vogue América, por exemplo, ainda valorizam peças de pele real, propagando a idéia de que usá-las é elegante. O maior desafio é mudar a mente das pessoas em relação a este conceito”, diz Danielle Ferraz, jornalista de moda e vegetariana, autora de artigos sobre crueldade com animais na moda e diretora das duas edições do desfile “Veg Fashion”, ocorridos em 2004 e 2006 nas cidades de Florianópolis e São Paulo durante congressos vegetarianos.

Novas tendências

Mas apesar dos absurdos de exploração de animais cometidos em nome da moda, o cenário aponta algumas boas notícias em prol da veg fashion. A estilista inglesa e vegetariana Stella MacCartney lidera campanhas internacionais anti-pele e apresenta para o mundo todos os anos coleções de roupas livres de crueldade admiradas pelos maiores especialistas do mundo fashion. Acompanhando a tendência, nos últimos dois anos estilistas renomados como Ralph Lauren, Calvin Klein, Kenneth Cole e Tommy Hilfiger declararam publicamente a resolução de não usar mais peles e materiais de origem animal em suas criações. E o melhor: puramente pela questão ética.

Enquanto isso a organização PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) continua a todo vapor com seus protestos em parceria com celebridades usando o slogan “prefiro ficar nu a usar peles”. Com destaque para a campanha “Voguesucks.com”, que critica explicitamente Anna Wintour, editora da revista Vogue norte-americana, pela promoção e uso de casacos, vestidos e outras peças de peles genuínas e conscientização zero em torno do sofrimento e morte dos animais. “Nós sempre estamos procurando por novos jeitos de conscientização sobre o sofrimento extremo pelo qual os animais passam nas fazendas onde se tiram suas peles e nas armadilhas cruéis que o homem espalha na natureza”, declarou Ingrid Newkirk, presidente da PETA em julho do ano passado na ocasião de uma campanha em conjunto com Stela MacCartney na comunidade virtual Second Life.

No Brasil, os desfiles “Veg Fashion”, idealizados pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), foram precursores no objetivo de mostrar os bastidores da moda que não se preocupa com os materiais que utiliza e valorizar as novas grifes conscientes que oferecem peças livres de crueldade. A presidente da SVB, Marly Winckler, que criou o conceito do desfile, acredita que cada vez mais se alastra essa consciência sobre as atrocidades cometidas contra os animais, seres indefesos e sensíveis, para se obter materiais utilizados nas roupas. “Neste último Carnaval a SVB participou de um desfile da escola de samba Imperador do Ipiranga, de São Paulo, cujo tema foi “a salvação do planeta é o bicho”. Abordamos a questão e não permitimos o uso de nenhum material de origem animal nas fantasias”, conta Marly.

Ético e mais barato

Moda sem crueldade é um conceito amplo que alia questões éticas, sociais e ambientais. Não se pode (nem se deve) pensar em acabar com a exploração de animais sem considerar o contexto mais holístico de destruição de ambientes naturais e hábitos insustentáveis praticados pelo homem nos dias atuais. “A questão básica é o consumo ético e consciente, respeitando os animais e o meio ambiente. Não faz o menor sentido a utilização de peles e couros em roupas. Tanto pelo sofrimento dos animais como pelos graves impactos ambientais associados à criação intensiva ou captura ilegal dos animais para este fim”, afirma a presidente da SVB.

Quando se fala do contexto que alia conservação ambiental e respeito aos animais, há até pessoas que argumentam que materiais de origem animal seriam mais naturais e ambientalmente mais corretos do que os sintéticos. No entanto, pode ser demonstrado que é justamente o contrário. “O couro, como a pele de qualquer ser vivo, irá se deteriorar e se decompor caso não seja curtido. E o processo de curtume é um dos mais impactantes existentes, pois envolve muitas substâncias químicas pesadas que são extremamente prejudiciais ao meio ambiente e para as pessoas que as estão manuseando”, explica Josh Hooten, fundador da Herbivore Clothing Company, loja virtual de roupas e acessórios criada em 2002 na cidade de Portland, nos Estados Unidos.

O conceito da Herbivore Clothing Company nasceu da necessidade de seus donos, o casal Josh e Michelle Schwegmann, usarem roupas pelas quais pudessem expressar com estilo suas idéias sobre veganismo e direitos animais. Há cinco anos eles não achavam opções no mercado e começaram a produzir e desenvolver as idéias por conta própria. Hoje os estilistas e empresários têm em mente que o foco de sua marca é direitos animais, mas sabem que este conceito leva à discussão e análise de outras questões extremamente relevantes, como impactos ambientais, não respeito a direitos humanos e danos à saúde.

“Não fazemos as estampas de nossas camisetas em lojas que exploram seus empregados e já usamos em algumas peças malha de algodão orgânico, o que pretendemos expandir para toda a coleção no futuro. Tudo isso faz parte da mensagem passada pela roupa. E há muitas opções de materiais para isso. Eu mesmo não uso couro, lã, seda e outros materiais do tipo por quase uma década e nunca senti falta ou deixei de achar uma opção que não tivesse origem animal”, ressalta Josh.

Reforçando a opinião do norte-americano, a jornalista Danielle Ferraz explica que a indústria têxtil se desenvolveu o suficiente para oferecer opções sintéticas alternativas (e ambientalmente mais equilibradas) que substituem praticamente todos os materiais de origem animal. E isso tudo com uma grande vantagem: o custo de produção do material sintético é mais barato que o de produção de material de origem animal. “Os sintéticos e os materiais naturais geralmente saem mais em conta para o consumidor. E poderiam ser ainda mais baratos se a procura por estas opções fosse maior”, explica Danielle.

Como em qualquer atividade econômica, na veg fashion também vale a lei da oferta e procura. Quanto maior a demanda, as opções de oferta crescem, refletindo num preço final mais competitivo e menor. Portanto, para a moda sem crueldade não sair de moda, basta uma procura maior por parte dos consumidores em geral.

“O papel do consumidor é parar e pensar de onde estão vindo suas roupas. Todo mundo concorda que é errado abusar e torturar animais e não deseja sustentar um processo desses, ainda mais com várias alternativas mais conscientes que podem ser usadas”, diz Josh. “O consumidor ético se informa e se preocupa com a procedência do que consome, vendo todos os ângulos da questão. Hoje começa a haver reação às barbaridades cometidas no campo do consumo e campanhas e organizações estão chamando a atenção para o comércio justo. Esse é o caminho”, opina Marly.

Marcas no mesmo estilo da Herbivore são mais comuns nos Estados Unidos e Europa (veja box com dicas e opções de compras de roupas cruelty-free / livres de crueldade). No Brasil o conceito é mais novo, porém a consciência é crescente e as opções de veg fashion vão surgindo e se estabelecendo. A questão é que algumas grifes brasileiras estão bem avançadas no campo ambiental, usando materiais orgânicos e/ou reciclados, mas nem sempre são tão criteriosas com o não uso de materiais de origem animal. A última Fashion Week de São Paulo, por exemplo, incorporou o conceito de meio ambiente a partir dos materiais utilizados, o que já pode ser considerado um grande avanço. A expectativa agora é que esta tendência avance e se aprofunde, eliminando também os materiais provenientes de peles, couros e outros derivados de animais.

O mais importante é saber que uma moda livre de crueldade é possível e é feita com informação. Se você já conhece a realidade por trás da exploração animal para roupas, sapatos e acessórios, procure usar o conhecimento que têm para incorporar novos hábitos. Questione a origem do material de suas roupas e seja mais criterioso nas compras. Se já sabe como se vestir com estilo sem a carga da crueldade, passe a idéia para seus amigos e familiares mostrando-lhes opções práticas de compras mais conscientes. Afinal de contas, como bem resume o slogan do desfile “Veg Fashion”, chic é ser consciente. E ninguém em sã consciência quer ser cúmplice de exploração, covardia e maus-tratos a qualquer ser vivo.

Saiba mais:

Fur Free Alliance - http://infurmation.com/
PETA - http://www.peta.org/actioncenter/clothing.asp e http://http://www.voguesucks.com/
Fur-Free Campaign - http://www.hsus.org/furfree/campaigns/legislation.html

A crueldade no guarda-roupa

Couro: Milhares de vacas, porcos, ovelhas, cabras, entre outros animais, são abatidos todos os anos para utilização de sua carne e também de sua pele, que se torna couro, camurça, nobuk etc. Alguns outros animais, como raposas, esquilos e até lobos, são criados em cativeiro e fazendas especificamente para este fim, tendo às vezes a pele retirada quando ainda estão vivos. Mais recentemente se descobriu que até gatos e cachorros são vítimas da indústria da pele.

Para a pele do animal se tornar couro ela precisa passar pelo processo de curtume, no qual são usadas várias substâncias químicas perigosas, tanto para o meio ambiente como para o homem. Levantamentos oficiais comprovam que pessoas que trabalharam ou que moraram próximas a plantas de curtume são comumente vítimas de câncer, devido à exposição às toxinas.

Lã: A tosa de carneiros e ovelhas para retirada da lã não é um processo natural e compromete o bem-estar dos animais, que precisam de sua pelagem para se proteger do frio. Além disso, como o material é pago por volume, a tosa é feita sem cuidado e de forma exagerada, machucando os animais. A indústria da lã, através da criação intensiva dos animais, também é responsável por impactos no meio ambiente através da poluição de água e emissão de uma grande quantidade de gás metano na atmosfera.

Seda: A seda é um material resultante dos fios produzidos pelo bicho-da-seda para tecer o seu casulo, onde de lagarta o inseto se transforma em mariposa, atingindo sua idade adulta para reprodução. Para obtenção da seda os insetos foram domesticados pelo homem em ambientais artificiais e são mortos dentro do casulo, do qual são retirados os fios.


Algumas dicas na hora das compras

A primeira dica é sempre olhar etiquetas para saber o material utilizado nas roupas que pretende comprar. Você vai se surpreender que é muito mais fácil achar opções de sintéticos e fibras naturais do que podia imaginar.

Para artigos de couro, como sapatos, cintos e jaquetas, procure sempre o que diz na etiqueta. Se a informação não for clara em relação a ser sintético, pergunte ao vendedor. E uma boa dica para evitar couro é observar e comparar os preços. Geralmente o sintético é pelo menos metade do preço mais barato que o couro de animal. No caso de lãs, fique atento, pois nem sempre elas estão muito aparentes nas peças. Algumas calças e casacos, por exemplo, podem ser feitos de lãs em combinação com outros materiais, o que também sempre poderá ser descoberto pela etiqueta. Substitua pashminas e cashmeres por lãs de polyester ou algodão ou tecidos térmicos sintéticos, desenvolvidos a partir de materiais alternativos e mais resistentes a frio e vento do que a lã.

A seda por ser substituída por tecidos alternativos como nylon, polyester e o rayon, uma espécie de seda artificial. E até para quem gosta de roupas e acessórios “de pele”, o mercado já oferece variadas opções de peças de pele falsa confeccionadas a partir de materiais sintéticos. Uma boa forma de verificar se uma peça é de pele verdadeira ou falsa é fazer um teste simples e rápido. Esfregue um pouco de pêlo entre o polegar e o dedo indicador. Se você sentir o pêlo macio e fácil de manusear entre os dedos, provavelmente é pele genuína. Caso sinta o contrário, o pêlo mais áspero, a pele é sintética.

Onde comprar roupas livres de crueldade

Brasil


· Vegan Pride (Acessórios, camisetas e produtos livres de crueldade)
Av. São João, 439, loja 424 Centro, São Paulo – SP Tel.: (11) 3362 0897
Vendas pela Internet e entregas em todo o país
http://
http://www.veganpride.com/

· King 55 (Camisetas e jeans. Sustentabilidade e luta contra a exploração animal)
Rua Harmonia, 452 Vila Madalena São Paulo – SP Tel.: (11) 3032 1838
http://www.king55.com.br/

· XBloodlineX Clothing (produtos livres de crueldade animal)
Vendas pela Internet e entregas em todo o país
http://www.xbloodlinex.com.br/inicio.html

· Maria Simone (Bordado manual e customização. Parceria com ONGs Adote um Gatinho, Arca Brasil e Bicho no Parque)
Rua Wisard, 287 Vila Madalena, São Paulo – SP Tel.: (11) 3815 5392/ 3811 9335
http://
http://www.mariasimone.net/

· Vista-se (Camisetas vegetarianas)
http://www.vista-se.com.br/

· Tree Tap (Couro vegetal da Amazônia)
http://www.treetap.com.br/

Exterior (compras pela Internet)

· Herbivore Clothing Company
http://herbivoreclothing.com/

· Alternative Outfitters
http://www.alternativeoutfitters.com/

· Moo shoes
http://www.mooshoes.com/

· Vegetarian shoes
http://www.vegetarian-shoes.co.uk/

sábado, fevereiro 09, 2008

Mercado ilegal de animais: ética e conservação











Fontes fotos: Filhotes apreendidos - Fiocruz/Neiva Guedes ; Arara-azull-de-lear - Portal Biologia

por Jaqueline B. Ramos *

Muitos nunca pararam para pensar, mas aquele pássaro silvestre a venda numa pet shop pode representar uma pequena ponta de um mercado ilegal que é o terceiro em movimentação de dinheiro no mundo, atrás somente do de drogas e armas: o tráfico de animais silvestres. E o Brasil, país detentor de uma das maiores biodiversidades do planeta, infelizmente tem um papel de destaque neste mercado.

Segundo levantamento oficial feito pelo Ministério do Meio Ambiente e pela ONG Renctas (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres), estima-se que cerca de 38 milhões de animais são retirados de ecossistemas brasileiros a cada ano para alimentar a demanda do tráfico. O destino desses animais – ou de pelo menos parte deles, já que se sabe que apenas um entre 10 animais sobrevive ao transporte até o destino final – é abastecer o mercado externo (principalmente Europa e Estados Unidos) de colecionadores de pets exóticos e também o mercado interno, virando mercadoria a venda em feiras ou “criadouros registrados de fachada.”

Aproximadamente metade dos animais capturados ilegalmente no Brasil, a maioria pássaros, vão para o mercado externo. Também se estima que o país é responsável por cerca de 15% do mercado ilegal de animais silvestres no mundo, tendo 400 quadrilhas organizadas realizando a captura e tráfico - sendo que 40% possuiriam ligações com outras atividades ilegais.

Devido à falta de informação e maiores esclarecimentos, algumas pessoas acabam adquirindo animais silvestres no impulso de ter um “bicho diferente em casa”, achando, erroneamente, que eles são como gatos e cachorros. E também não se dão conta que este consumo sustenta toda uma rede de ilegalidade.

“O principal desafio do trabalho de combate ao tráfico de animais silvestres no Brasil é a educação ambiental. Acreditamos que a situação esteja muito melhor hoje do que há alguns anos, pois as campanhas educativas têm contribuído muito nos esforços de conscientização. Hoje a sociedade denuncia mais e podemos afirmar que os traficantes não atuam mais com a facilidade de antes”, afirma Dener Giovanini, coordenador geral da Renctas, que trabalha no combate ao mercado ilegal no Brasil desde 1999.

Lugar de animal silvestre é na natureza

Giovanini ressalta o importantíssimo papel da população em não adquirir animais silvestres e denunciar situações testemunhadas de comércio irregular dos mesmos. E complementando essa visão mais crítica, vale a pena refletir um pouco sobre as implicações de conservação e bem-estar animal e as questões éticas por trás do comércio de animais silvestres.

Uma primeira questão a ser pensada é o fato de animais silvestres não serem animais de companhia (os chamados pets). Araras, sagüis, micos, algumas espécies de papagaio e outros pássaros, por exemplo, não passaram pelo processo de domesticação de gatos e cachorros para se adaptarem ao “estilo de vida humanizado”. Ou seja, seu lugar não é em um apartamento ou em uma casa na companhia de adultos e crianças, mas sim na natureza.

O homem levou cerca de 10 mil anos para domesticar cachorros e cinco mil anos para os gatos e hoje estes são classificados como animais de companhia devido a este histórico de compatibilidade com o meio ambiente do homem. Mas mesmo assim muitos cachorros e gatos ainda enfrentam problemas de bem-estar devido à falta de informação por parte de seus donos em relação às demandas e características de seu comportamento e fisiologia. E este desconhecimento pode resultar em problemas de comportamento do animal ou até o seu abandono, agravando o cenário do crescente número de animais abandonados nas ruas e em abrigos.

A criação de animais silvestres sem a devida informação especializada pode resultar em problemas de bem-estar e sofrimento do animal, que, além de estar fora de seu habitat natural, pode não ter todas as suas necessidades atendidas. Vale também ressaltar que a captura ilegal da natureza já é apontada como uma das principais causas da ameaça de extinção enfrentada por algumas espécies brasileiras. É o caso, por exemplo, da ararajuba (ave) e do sagüi-de-duas-cores (primata), animais da Amazônia classificados respectivamente como ameaçado e criticamente ameaçado na lista vermelha da IUCN (World Conservation Union) e comumente comercializados de forma ilegal.

Lista oficial de pets exóticos

Atualmente no Brasil qualquer pessoa pode ter um animal silvestre como pet desde que o animal seja adquirido de um criadouro registrado (Lei 5.197/67 e Portarias 117/97, 118/97 e 102/98). Mas a prática de criar e comercializar animais silvestres como pet com uma regulamentação mais específica voltou à pauta de discussão entre ambientalistas e defensores de animais nos últimos meses.

Em setembro o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) aprovou uma resolução que define os critérios para produção de uma lista de animais silvestres brasileiros que poderão ser criados e comercializados como animais de estimação. Desde então o Ibama vem trabalhando na elaboração da lista, que deve ser divulgada para aprovação pública ainda no primeiro semestre de 2008. Entre os critérios utilizados estão o significativo potencial de riscos à saúde animal ou ao equilíbrio das populações naturais, os riscos à saúde humana e a condição de bem-estar e adaptabilidade da espécie para a situação de cativeiro como animal de companhia.

Mas a iminente mudança na lei no Brasil poderia ser uma barreira para o controle de possível impacto no aumento da demanda/consumo dos animais? A resposta é: sim e não.

A resposta é positivo quando se analisa que a resolução do Conama foi aprovada com o intuito de regulamentar o especificamente o artigo 6 da Lei n. 5197, de 1967, que diz que o Poder Público estimulará criadouro de animais silvestres para fins econômicos e industrias (leia-se, pele e couros). A intenção da resolução é atualizar a lei para o mercado de pets, estabelecendo critérios específicos e eliminando brechas decorrentes de seu conteúdo genérico atual.

A intenção pode até ser boa, mas a (triste) realidade brasileira no que diz respeito ao controle do comércio de animais silvestres nos leva para a parte negativa da resposta.

“Ainda não é possível prever com exatidão quais serão as conseqüências desta nova regulamentação. Porém creio que se os mecanismos de controle e fiscalização não forem reforçados para atender a demanda que essa resolução trará, os riscos são grandes. Se os critérios estabelecidos não forem respeitados poderá existir um aumento no tráfico e, inclusive, desequilíbrios ambientais ocasionados pela introdução indevida de espécies na natureza”, ressalta Giovanini, da Renctas.

E a visão da ONG é compartilhada pelo próprio Governo. “O comércio de animais silvestres não tem se mostrado como uma solução para o tráfico. Pelo contrário, muitas vezes os criadouros e comerciantes podem servir de fachada para a atividade ilegal, ou são seus principais fomentadores”, explica Vincent Kurt Lo, analista ambiental do Ibama SP. “Além disso, enfrentamos problemas de controle com o limitado quadro de servidores e parcos recursos, não dando conta de todas as fiscalizações e verificações em campo necessárias.”

Segundo Vincent, a lista de animais é válida ser for extremamente limitada e específica, permitindo a comercialização de poucas espécies silvestres como pets. Em vez de encorajar que as pessoas levem animais para casa, o analista acredita que o ideal é incentivar que as pessoas vão até à natureza somente para observá-los.

O assunto é tão controverso que a própria Divisão de Fiscalização de Fauna (Difau) do Ibama, que está elaborando a lista e coordena o trabalho de fiscalização do comércio de animais silvestres no Brasil, alerta sobre as implicações negativas do incentivo de “pets selvagens” (leia mais abaixo), entre eles o abandono do animal pelo proprietário que não consegue prover todos os cuidados necessários.

A soltura de um animal silvestre num ecossistema que não é o seu habitat natural pode gerar sérios problemas ecológicos. Na portaria 117, de 1997, o Ibama define que o comerciante, criadouro ou importador deve fornecer aos compradores de animais de estimação um texto com orientações básicas sobre os cuidados básicos com a espécie e a recomendação da não devolução dos animais à natureza sem o expresso consentimento da área técnica do instituto.

Mas novamente se esbarra no problema do limite da fiscalização e dos recursos utilizados, que limitam o controle. Além disso, animais provenientes de criadouros comerciais licenciados são marcados e controlados com microchips e anilhas e estes são facilmente falsificados pela indústria do tráfico. A solução seria a verificação através de teste de DNA, o que ainda não é aplicado pelo Governo Brasileiro.

Diante de tantas implicações e questionamentos, a única certeza em torno do mercado de animais silvestres é a de que ele não deveria existir. A tentativa de oficializar o comércio pode visar um maior controle, mas o fato é que lugar de animal silvestre é na natureza. A captura do mesmo pelo homem para ser um pet é apenas um ato de capricho, passando longe da necessidade e do princípio ético de que toda vida deve ser respeitada.

*Matéria publicada no informativo do Insituto Ecológico Aqualung n. 76 (novembro/dezembro 2007) - Clique aqui para a versão em pdf.

Riscos da propagação da idéia de ter um animal silvestre como pet

- As literaturas médicas e veterinárias citam diversas doenças (zoonoses) que podem ser veiculadas por animais silvestres, gerando possíveis problemas de saúde pública.

- Falta de conhecimento técnico por parte da maioria dos Médicos Veterinários para o atendimento dos animais silvestres a serem criados como animais de estimação. A disciplina sobre animais silvestres oferecida nos centros acadêmicos não faz parte da grade curricular obrigatória para esses profissionais no Brasil.



Foto: Jaqueline B. Ramos (onça em cativeiro - zoológico do CIGS, Manaus, AM)


- Os animais de cativeiro podem reagir a influências nocivas de ordem física, psíquica, infecciosa, capazes de perturbar seu equilíbrio interno (estresse), o que pode culminar em sua morte.

- Nos estabelecimentos comerciais da maioria das cidades brasileiras não são encontrados alimentos balanceados para a dieta de animais silvestres, incorrendo, assim, em fornecimento de alimentações inadequadas aos animais sob a guarda doméstica.

- Possibilidade de abandono do animal caso o dono desista da sua criação por não conseguir prover todos os cuidados necessários e avaliar que o mesmo não se adaptou ao ambiente doméstico. Este abandono poderá gerar um problema ambiental (introduzir espécies exóticas em ecossistemas) ou para outros cidadãos (acidentes ou contração de enfermidades).

- Os espécimes em cativeiro podem ser agressivos ou se tornarem agressivos no decorrer do tempo de convivência com seu detentor, podendo ocasionar acidentes graves.

- Incentivo a cultura de possuir animais silvestres, o que poderia provocar uma maior captura de animais nativos por pessoas que não possuem os valores necessários para a aquisição de um animal legalmente adquirido.

- O detentor de um animal silvestre legalmente adquirido poderá acobertar outros animais, sendo estes oriundos do tráfico.

Fonte: Ibama / DIFAU – Divisão de Fiscalização de Fauna

Mudança em Lei inglesa pode incentivar tráfico

Em outubro o Governo Britânico divulgou uma notícia que vai de encontro aos esforços de combate ao tráfico de animais silvestres. Depois de alguns meses de avaliação, definiu-se que 33 animais silvestres, totalizando 122 espécies, não eram mais tão perigosos a ponto de necessitarem de licença para serem comprados como animais de estimação por qualquer pessoa que assim desejasse.

Na prática isso significa que qualquer cidadão inglês pode ir a uma pet shop e comprar sagüis, micos, lemurs, gatos híbridos e até bichos preguiça sem qualquer espécie de controle. O governo se defende das críticas na mudança na Lei de Animais Silvestres Perigosos (Dangerous Wild Animals Act, em inglês) afirmando que o critério seguido foi apenas o do quanto os animais são perigosos para o homem. Questões de bem-estar animal e conservação seriam assuntos tratados por outras leis, como a de Bem-Estar Animal (Animal Welfare Act) e a CITES (Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora).

“Muitos animais silvestres podem até não ser propriamente perigosos para o homem, mas todos são extremamente difíceis de serem criados e precisam de cuidados de especialistas. Estamos muito desapontados e preocupados com a remoção desse grande número de espécies da lista”, diz Tim Thomas, cientista sênior do Departamento de Vida Selvagem da ONG inglesa RSPCA (Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals), referência no país em trabalhos de defesa de direitos dos animais.

Considerando que 30% dos animais que não precisam mais de licença, segundo a lei inglesa, são considerados ameaçados de extinção pela Red List e que 36% deles são originados da América do Sul, incluindo o Brasil, não é exagero fazer uma análise sobre as possíveis conseqüências que mudanças na lei de um país que “compra” os animais teriam em um dos países de origem dos mesmos.

“Esta mudança na Inglaterra pode ter uma forte influência no crescimento da demanda de animais silvestres dos países tropicais, consequentemente aumentando o tráfico. Animais como bicho preguiça e macaco de cheiro, por exemplo, não precisam mais de licença e isso pode gerar uma corrida para retirada de mais animais das florestas brasileiras, dificultando ainda mais o controle do tráfico”, alerta Vincent Kurt Lo, do Ibama SP.

Leia reportagem mais detalhada sobre mudança na lei inglesa no Ambiente-se in English.

Como denunciar o tráfico de animais?

Ibama – Linha Verde (todo o país)
0800 618080

Renctas (todo o país)
(61) 3368 8970
http://www.renctas.org.br/pt/informese/denuncie.asp

Disque Denúncia (Rio de Janeiro)
(21) 2253 1177

Presas - Programa de Reabilitação e Salvamento de Animais Silvestres (Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo)
(12) 3933 5993
http://www.iepa.org.br/

Curtas - Notas ambientais
por Jaqueline B. Ramos*

As últimas do aquecimento global em 2007

Várias notícias sobre as possíveis conseqüências do aquecimento global foram manchetes de jornais de todo mundo nos últimos meses, tornando o assunto cada vez mais presente no cotidiano de todos. Cientistas dinamarqueses, por exemplo, divulgaram resultado de uma recente pesquisa na qual se constatou que a camada de gelo da Groenlândia está derretendo muito mais rápido do que o previsto.

O degelo na Groenlândia é agora quatro vezes mais rápido do que no início da década, levando ao mar todos os anos icebergs equivalentes a um cubo de gelo gigante de 6,5 km de extensão. Se este ritmo continuar, isso significa que o nível dos oceanos aumentará 60 cm ao longo do século, superando a previsão da ONU de um aumento entre 20 e 60 cm. Ainda no extremo norte do planeta, mais precisamente no Oceano Ártico, a previsão é de menos gelo ainda. Estudo realizado por geofísicos norte-americanos e poloneses aponta um verão totalmente sem gelo no Ártico no curtíssimo prazo de cinco a seis anos. Sobre as até então estimativas oficiais de um verão com o Oceano Ártico aberto (sem geleiras) entre os anos de 2040 e 2100, os cientistas do recente estudo comentam que “os modelos climáticos globais subestimam a quantidade de calor transportada para o oceano de gelo.”

No outro pólo gelado, a Antártica, as previsões também não são muito otimistas. Segundo a WWF (World Wild Foundation), a população de pingüins antárticos sofreu uma forte redução devido à destruição dos locais dos ninhos e das fontes de alimentos causada pelo aquecimento global. A península Antártica se aquece a um ritmo cinco vezes superior ao da média mundial e isso afeta as quatro espécies de pingüins da região - o imperador (maior do mundo), o papua, o barbicha e o adélia. O relatório "Pingüins Antárticos e a Mudança Climática" informa que o gelo marinho cobre hoje uma área 40% inferior à de 26 anos atrás na costa oeste da península Antártica, afetando o ciclo de alimentação e reprodução dos animais.

Enquanto isso, em Bali...

Diante de todas estas notícias alarmantes, a 13ª Conferência da Convenção de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COP-13), ocorrida em Bali no início de dezembro, foi um dos acontecimentos ambientais mais esperados dos últimos anos (há quem diga que foi o evento mais importante desde a Rio 92). A expectativa em torno dos acordos a serem firmados era muito grande, mas a dificuldade de negociação de compromissos e metas entre os países, principalmente Estados Unidos, que nunca assinou o Protocolo de Quioto, surpreendeu todos que acompanhavam atentamente a definição de um novo pacto internacional para combater o aquecimento global.

A aprovação do texto que será a base para o documento substituto do Protocolo de Quioto até 2009 emperrou depois de um impasse sobre a inclusão da principal meta recomendada pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) – a redução de 25% a 40% da emissão de gases até 2020. A solução encontrada pela União Européia para convencer os Estados Unidos foi ceder e deixar apenas uma referência ao IPCC no início do texto, sem estabelecer metas.

Dificuldades a parte, o fato é que a assinatura do “Roteiro de Bali” permite que os países comecem a negociar as formas como atingirão os objetivos propostos. E os países desenvolvidos se comprometeram a transferir tecnologia para nações do Terceiro Mundo em prol do combate ao aquecimento global. Só isso já é suficiente para tornar 2008 um ano estratégico na avaliação dos impactos das mudanças climáticas.

O Brasil foi um dos 191 países presentes na COP-13 e anunciou no evento um fundo nacional para investimentos no combate ao desmatamento no valor de, aproximadamente, US$ 900 milhões. A novidade deste fundo é que a linha de investimento terá como base a redução das emissões de carbono obtidas com a queda do desflorestamento na Amazônia no ano de 2006, numa tentativa de colocar em prática a proposta de que reduções em derrubadas de florestas devem ser recompensadas.

Em defesa de Abrolhos

Não é de hoje que ambientalistas alertam sobre os perigos que ameaçam o arquipélago de Abrolhos, no extremo sul da Bahia. Em novembro as preocupações foram reforçadas durante uma manifestação com o objetivo de chamar a atenção dos governos estadual e, principalmente, federal sobre a importância de áreas protegidas na região.

Integrantes da Coalizão SOS Abrolhos, uma rede formada por organizações socioambientais e universidades, ressaltaram a situação precária das unidades de conservação do arquipélago e a necessidade de criação de outras UCs, que têm processos paralisados no Governo. O manifesto começou na Ilha de Santa Bárbara com a extensão de uma grande faixa apoiada em botes infláveis com a inscrição "Lula e Wagner, ABRam os OLHOS". Em seguida outras faixas foram abertas, só que estas debaixo d’água e com as seguintes mensagens: "Lula, a criação da Resex Cassurubá só depende de você"; "Lula, resgate a proteção do parque de Abrolhos"; "os manguezais são berçários dessa vida marinha".

O arquipélago de Abrolhos vem passando por uma séria crise já há alguns anos. O entorno do Parque Nacional Marinho (PARNAM) de Abrolhos, por exemplo, se encontra desprotegido devido à suspensão de sua zona de amortecimento (ZA), abrindo precedentes para atividades exploratórias de petróleo e gás. Além disso, os manguezais da região - berçários das espécies dos recifes de corais - estão vulneráveis devido a atividades como a carcinicultura (criação de camarões), que poderia ser controlada com a criação da Reserva Extrativista (RESEX) do Cassurubá.

De volta à natureza

A reintrodução de um raro casal de araras-azul-de-lear pela primeira vez em seu habitat natural, na Bahia, deu uma nova luz de esperança para a conservação de espécies de animais silvestres que são capturados ilegalmente dos ecossistemas brasileiros. No início de dezembro, o Programa de Conservação das Aves Silvestres, do Instituto Chico Mendes, reintroduziu os animais depois de quatro anos de recuperação e acompanhamento. As duas aves foram encontradas feridas em 2003 e receberam transmissores de rádio antes de voltar à vida livre. Em 2001 se estimava apenas 170 destas araras na natureza. Atualmente calcula-se cerca de 650, mas mesmo assim ainda são necessários muitos cuidados para que a espécie saia e se mantenha longe da lista dos ameaçados de extinção.

Noruega e florestas tropicais

A Noruega sai na frente e fecha com chave de ouro o ano de 2007. Pelo menos no campo das intenções. O país anunciou em dezembro a doação de US$ 2,8 bilhões (US$ 550 milhões por ano, até 2012) para combater o desmatamento em florestas tropicais. A doação foi originalmente proposta em uma carta enviada ao governo norueguês pelas organizações Rain Forest Foundation, da Noruega, e Amigos da Terra Noruega. O objetivo é incentivar outros governos a somar esforços na iniciativa de combate ao desmatamento em países tropicais. O anúncio também confirma a disposição da Noruega em apoiar o combate ao desmatamento no Brasil. Em outubro, os ministros do meio ambiente dos dois países, Erik Solheim e Marina Silva, fecharam acordo de cooperação no valor de US$10 milhões para o combate ao desmatamento nos estados brasileiros e a implantação de reservas extrativistas (Resex).

Restaurante ecológico


Restaurantes também podem ter um importante papel no combate aos impactos negativos no meio ambiente. Pelo menos é o que vem tentando mostrar o Acorn House, em Londres, que diz usar ingredientes produzidos de forma sustentável por produtores independentes, transformar todas as sobras em adubo ou lixo reciclável e usar fontes renováveis de energia o máximo possível. E a tentativa de ser um restaurante ambientalmente correto felizmente tem tido sucesso e aponta uma nova tendência. Incluído na nova edição do London Restaurant Guide, o guia de restaurantes oficial da capital britânica, o Acorn House tem recebido críticas elogiosas e para o jornal The Observer trata-se do "restaurante mais ético da Grã-Bretanha".

O chef do restaurante, Arthur Pott-Dawson, afirma que em um ano a idéia de um restaurante ecológico já provou ser viável financeiramente. "Se você compra os produtos da estação e produzidos localmente, sai mais barato. Estamos recebendo um grande apoio do público e não estamos perdendo dinheiro. Dentro de seis meses ou um ano seremos um modelo comercial de sucesso”, disse o chef em entrevista a BBC, afirmando que apenas deseja que as pessoas se conscientizem de como seu comportamento afeta o meio ambiente e de que há alternativas possíveis ao atual estilo de vida.

Perigo para tubarões e raias

Mais de 40% das espécies de tubarões e raias no Mar Mediterrâneo estão ameaçadas de extinção. A informação foi divulgada em um novo relatório da IUCN (World Conservation Union) e classifica o Mediterrâneo como um dos lugares mais perigosos do mundo para estes animais. A principal causa da ameaça é a sobrepesca, associada a eventos nos quais outros animais são capturados incidentalmente durante a pesca – bycatch, em inglês. Mas o levantamento também identificou problemas como destruição do habitat, pesca esportiva e outros distúrbios causados pelo homem.

O índice de tubarões e raias em perigo foi resultado de um workshop de especialistas no qual o status de 71 espécies foi avaliado de acordo com critérios da IUCN Red List (lista oficial dos animais ameaçados de extinção). A conclusão foi que 30 espécies se classificavam como ameaçadas, sendo 13 na categoria Criticamente Ameaçada, oito como Ameaçada e 9 como Vulnerável. Outras 18 espécies foram avaliadas como Quase Ameaçadas. Apenas 10 espécies são consideradas como Sem Ameaça (Least Concern) e 18 espécies não tiveram dados suficientes para serem classificadas.

Abelhas em prol da Amazônia

O processo de dispersão de sementes da árvore Angelim-rajado por abelhas sem ferrão do gênero Melipona foi testemunhado e registrado por especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) ao longo de um ano no campo. A constatação dos pesquisadores do Inpa, divulgada em dezembro, é de extrema importância por duas razões principais: a espécie madeireira em questão está presente na vida dos povos tradicionais da floresta e tem alto valor comercial e este é o terceiro caso no mundo, comprovado cientificamente, de melitocoria, a dispersão de sementes de plantas por abelhas. A dispersão da Angelim-rajado surpreendeu os pesquisadores pelo grande tamanho da semente carregada com resina pelas operárias. Estima-se que as abelhas sem ferrão são responsáveis por 30% a 90% da polinização de plantas em diferentes biomas brasileiros e na Amazônia a participação é acentuada, pois a floresta concentra a maior variedade desse tipo de abelha do mundo. A Angelim-rajado é muito usada na construção de paredes de casas ou no entalhe de móveis, como mesas e cadeiras.

Risco à espécie humana

Que a agressão ao meio ambiente compromete a qualidade de vida do homem todos já sabem. Mas segundo um relatório da ONU divulgado em outubro, a falta de providências contra alguns dos principais problemas ambientais que afetam o planeta estão colocando em risco a própria sobrevivência da espécie humana. "Problemas persistentes e difíceis de resolver continuam sem ser enfrentados, sem solução", disse o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, na época do lançamento do relatório.

O relatório Panorama Ambiental Global analisa as principais mudanças nas condições da água, do ar, da terra e da biodiversidade do planeta desde 1987 e identifica prioridades de ação. Entre os principais problemas identificados estão a degradação de áreas agrícolas, o desmatamento, a redução das fontes de água potável disponíveis e a pesca excessiva. "Problemas do passado continuam e novos estão surgindo: do crescimento acelerado das áreas sem oxigênio nos oceanos ao surgimento de novas e velhas doenças, ligadas em parte à degradação ambiental”, ressaltou Steiner.

Medicina sem crueldade

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) dá exemplo no que diz respeito à revisão de técnicas de ensino em prol da não crueldade contra animais. A direção do curso de medicina da Universidade anunciou em outubro que anestesiar animais de rua, na maioria cães, para ensinar procedimentos médicos como suturas, incisões e punções deixou de fazer parte da rotina dos seus professores e alunos. O curso montou um laboratório para as aulas práticas de técnica operatória com simuladores plásticos e sangue artificial. "Queríamos acabar com um problema que sempre existiu nas faculdades de medicina. Algumas criam os animais para usá-los nas aulas, ainda vivos. Mas, e depois, o que se faz com eles? Uma eutanásia provocada? Alguém vai passar a cuidar deles?", questiona o diretor da faculdade de medicina da UFRGS, Mauro Czepienewski. O diretor diz que os estudantes e professores se deparavam com um problema moral, de ter que abrir um cão vivo e, em seguida, descartá-lo.

O professor adjunto de urologia e um dos coordenadores do Laboratório de Técnica Operatória e Habilidades Cirúrgicas, Milton Berger, afirma que os alunos se sentem muito mais seguros para aprender. "O novo método tranqüiliza. Muitos tinham pena de treinar em cães. Os simuladores são mais próximos ao corpo humano, além de acabar com uma série de implicações morais."

Fontes: BBC Brasil, Agência Envolverde, Ambiente Brasil, Arca Brasil, O Eco

*Notas publicadas no informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 76 (novembro/dezembro 2007)

segunda-feira, janeiro 14, 2008

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Errata

Na matéria "Transgênicos e suas controvérsias" foi divulgada uma informação incorreta. No segundo parágrafo, linha 10, o texto dizia "... soja transgênica, uma soja resistente a herbicidas que tem a grande vantagem de não precisar desses produtos altamente poluidores." A informação correta é que a soja transgênica é resistente ao herbicida, o que faz com o uso do remédio seja utilizado em larga escala em suas plantações.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Transgênicos e suas controvérsias

Por Jaqueline B. Ramos*

Poucos assuntos geram tanta controvérsia entre a sociedade e entre os próprios pesquisadores, agricultores e ambientalistas como os transgênicos. O termo é sinônimo de Organismos Geneticamente Modificados, ou simplesmente OGMs. Como o nome diz, trata-se de animais e plantas que sofrem modificações na sua estrutura ao receberem genes de outras espécies em laboratórios através da tecnologia do DNA recombinante (ou engenharia genética). Vale ressaltar que OGMs que não recebem genes de outras espécies não são considerados transgênicos.

Pedindo licença para tentar simplificar a explicação científica, o objetivo da alteração genética é adequar, através da inserção de características não naturais, a planta ou o animal de modo que seu cultivo ou criação se torne mais produtivo (leia-se, em alguns casos, mais rentável para o produtor em termos econômicos) ou que o produto final gerado seja mais eficiente. Um exemplo bem conhecido é a soja transgênica, que nada mais é que uma soja resistente a herbicidas. Outro exemplo é um arroz modificado que está sendo estudado na Suíça e na Alemanha que poderá ajudar a combater a deficiência de vitamina A por ser mais rico em carotenóides.

Vários são as vantagens e desvantagens ressaltadas sobre os transgênicos, mas a preocupação e as discussões sobre este assunto se justificam porque o fato é que ainda não foram esclarecidas claramente as reais conseqüências de toda essa “mistura genética” para a saúde do homem e do meio ambiente. Embora os defensores dos transgênicos argumentem que a biotecnologia proporciona avanços na produção de alimentos, podendo ajudar a solucionar problemas nutricionais mundiais, há setores da sociedade que ainda temem os riscos e as incertezas que ainda perpassam sobre os resultados, a longo prazo, da utilização maciça desse tipo de tecnologia.

Transgênicos no Brasil e no mundo

No Brasil as organizações não governamentais Greenpeace e ASPTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa) lideram as campanhas de conscientização sobre os riscos e incertezas inerentes aos OGMs e lobbys contrários à sua produção e comercialização no país. Em junho desse ano, por exemplo, uma liminar suspendeu a liberação do milho Liberty Link, da Bayer, que havia sido concedida pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) em maio. A decisão da Justiça determinou que a CTNBio só poderá liberar variedades transgênicas de milho após a elaboração de normas de coexistência com variedades orgânicas, ecológicas e convencionais.

No entanto os trabalhos que visam o controle sobre os transgênicos no Brasil se tornaram ainda mais difíceis desde que o Governo sancionou a Lei 11.105/05. Esta vai contra todo o discurso promovido na corrida presidencial em 2002 - naquela época, o então candidato Lula formalizou seu compromisso de apoiar uma moratória à liberação do cultivo comercial e da comercialização de transgênicos no país por tempo indeterminado. Trocando em miúdos, a nova Lei de Biossegurança brasileira simplesmente passou a permitir que os transgênicos sejam introduzidos no meio ambiente e na alimentação humana e animal sem os necessários estudos de impacto ambiental e na saúde do Ministério do Meio Ambiente e da Saúde. Ou seja, tornou muito mais fácil a comercialização de OGMs e mais difícil o trabalho das entidades que lutam pelo seu controle.

Em outros países o panorama geral é o seguinte: na Europa alguns países têm autorizações para plantio de algumas espécies, como a Espanha e a França, que têm plantações de milho transgênico MON810, da Monsanto. Mas nunca o plantio é em larga escala. Outras nações, como Hungria e Áustria, decretaram a proibição de cultivo de transgênicos.

Os Estados Unidos é o país líder em plantio de larga escala e comercialização. Cerca de 50% de todos os transgênicos plantados no mundo estão lá. E também não há qualquer lei de rotulagem. A China não tem uma posição fechada sobre OGMs. No caso da soja eles não permitem o cultivo, mas liberam a importação, fazendo o esmagamento dos grãos diretamente nos portos para evitar contaminação. No caso do arroz, a política é desenvolver suas próprias variedades, não utilizando variedades das multinacionais já conhecidas.

Fontes: Greenpeace, ASPTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa) e NEAD (Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Agrário Rural)

Saiba mais:
Guia do Consumidor – Transgênicos (Greenpeace) http://www.greenpeace.org/brasil/transgenicos/consumidores

Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos (ASPTA – Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa)
http://www.aspta.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm

NEAD – Plantas Geneticamente Modificadas: Riscos e Incertezas: http://www.nead.org.br/index.php?acao=biblioteca&publicacaoID=344

BOX 1: Os prós e contras dos OGMs

Vantagens
· Aumento da produção de alimentos com redução nos custos de produção.
· Aumento da resistência induzida, diminuindo a necessidade do uso de herbicidas.
· Produção de alimentos de maior qualidade nutricional e menor perecibilidade.
· Produção de anticorpos em plantas transgênicas, com possibilidade de distribuição dos mesmos.

Desvantagens e riscos
· Incertezas em relação aos impactos na saúde humana, como possibilidade de aumento de alergias, dificuldades de tratamentos de algumas doenças por conta de resistência a antibióticos e intoxicações devido ao aumento de resíduos de agrotóxicos.
· Incertezas em relação aos danos causados ao meio ambiente, como o risco do que é chamado de fluxo gênico (transferência de genes da planta transgênica para uma espécie diferente que pode ser um parente silvestre ou plantas daninhas sexualmente compatíveis podendo gerar desequilíbrio nas cadeias alimentar e no ecossistema), desenvolvimento de resistência em pragas e doenças se houver a transferência do gene resistente da planta e impactos sobre a biodiversidade.
. Efeitos colaterais em gerais que não podem ser previstos em curto prazo.

BOX 2: Entrevista com Gabriela Vuolo (Coordenadora da Campanha de Engenharia Genética – Greenpeace Brasil)

Atualmente, quais são as maiores dúvidas em relação aos impactos negativos causados pelos OGMs?

Gabriela: As principais dúvidas se referem aos impactos à saúde e ao meio ambiente. Há estudos que afirmam que os transgênicos poderiam causar aumento no uso de agrotóxicos, contaminação genética, perda de biodiversidade, aparecimento de super-pragas, perda de variedades nativas etc. Dentre os impactos para a saúde, há estudos que relatam aumento na ocorrência de alergias, resistência a antibióticos, alteração no peso de cobaias e na estrutura de órgãos etc. O grande problema é que, até o momento, não há estudos conclusivos. A única coisa que se sabe é que os transgênicos são seres vivos que podem se reproduzir e que, portanto, não podem ser controlados depois que forem liberados no meio ambiente. Então, se algum agricultor utilizar plantas transgênicas, será possivel voltar atrás? Não.

O exemplo da soja transgênica já foi bem divulgado para o público em geral. Que outras espécies de plantas e animais passam mais comumente por modificações genéticas antes ou durante seu processo de produção?

Gabriela: Atualmente, 99% dos transgênicos plantados no mundo consistem em soja (61%), milho (23%), algodão (11%) e canola (5%). No Brasil os únicos OGMs liberados são soja e algodão. Existem outras espécies de OGMs que são plantadas em outros países, porém não em larga escala.
Num panorama geral, como está o Brasil em relação à legislação, comercialização e controle de produção de transgênicos? Que países estão mais avançados neste controle?

Gabriela: A legislação brasileira é razoavelmente avançada. Com relação à rotulagem dos produtos transgênicos, estamos muito próximos da lei européia no que diz respeito à porcentagem permitida (lá é de 0,9% e aqui é de 1%). E estamos mais avançados no que diz respeito aos produtos que precisam ser rotulados (lá, laticínios, ovos e outros produtos de origem animal não levam rótulo, e aqui sim). Com relação à lei de biossegurança, a nossa é boa em alguns aspectos (uma vez que tem 2 instâncias para aprovações comerciais, sendo elas a CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança e o CNBS – Conselho Nacional de Biossegurança), mas não tão boa em outros (já que concentra todo o poder nas mãos da CTNBio e retira a competência da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária e do Ibama nas avaliações de impacto na saúde e no meio ambiente). Além disso, a composição da CTNBio também é um problema, já que possui apenas 5 representantes da sociedade civil, contra 12 indicados diretamente pelo Ministério de Ciência e Tecnologia.

Por que motivos a Lei Federal instituída em 2003 que define a obrigatoriedade de informações sobre transgênicos na rotulagem dos produtos para consumo humano e animal não é cumprida?

Gabriela: A principal razão para a falta de cumprimento do decreto de rotulagem é a falta de vontade política. De acordo com a legislação, os órgãos responsáveis por fiscalizar a presença de OGMs em alimentos são o Ministério da Agricultura e a Anvisa. No entanto, a responsabilidade da Anvisa se restringe aos produtos que já estão nas gôndolas dos supermercados. Ou seja, todas as etapas anteriores, como a chegada da matéria prima nas fábricas, transformação disso em ingredientes para outras fábricas etc, são de responsabilidade do Ministério da Agricultura. E é de conhecimento público que este Ministério tem posição favorável aos transgênicos, não demonstrando então interesse em fiscalizar. Tampouco tem os recursos humanos e financeiros para tal.

Outro problema é que além de não fazer a fiscalização, o Ministério da Agricultura não permite que outros órgãos cumpram esse papel. A Secretaria de Agricultura do Paraná, por exemplo, pediu autorização ao Ministério para fazer essa fiscalização (que é de competência federal), mas o pedido foi negado. Resultado: o Ministério não faz o seu trabalho e não deixa ninguém fazer. Segundo a lei 11.105/05, a CNTBio deveria "prestar apoio técnico e de assessoramento ao Governo Federal na formulação, atualização e implementação da política de OGMs e seus derivados, bem como no estabelecimento de normas técnicas de segurança e de pareceres técnicos referentes à autorização para atividades que envolvam pesquisa e uso comercial dos mesmos". Porém, a CNTBio parece interpretar as questões de biossegurança como barreiras para o desenvolvimento da tecnologia. Uma ação muito contraditória, uma vez que essa comissão deveria acompanhar o desenvolvimento de áreas como biossegurança visando a proteção da saúde humana, dos animais e das plantas e do meio ambiente.

Como o consumidor brasileiro pode se precaver e buscar por informações sobre os produtos que compra no seu dia-a-dia?
Gabriela: O consumidor tem um papel fundamental na luta em favor de alimentos livres de OGMs e algumas atitudes via SACs, internet e nos supermercados têm sido de grande valia. Desde 2002, o Greenpeace trabalha com o Guia do Consumidor - lista de produtos com e sem transgênicos. Com o Guia é possivel identificar produtos que não contêm transgênicos e produtos que podem ter transgênicos. Como a rotulagem ainda não está sendo colocada efetivamente em prática, o Guia é hoje a única ferramenta para o consumidor que quer evitar os produtos transgênicos.

Qual é a posição oficial do Greenpeace em relação aos transgênicos no Brasil e qual é a estratégia da campanha de engenharia genética?

Gabriela: O Greenpeace faz campanha contra a liberação de transgênicos ou organismos geneticamente modificados (OGMs) no meio ambiente e se opõe ao seu uso na alimentação humana e animal. Para a organização, os resultados da utilização de transgênicos são imprevisíveis, incontroláveis e desnecessários. A campanha começou no Brasil em 1997 e nesses 10 anos consideramos que alcançamos muitas vitórias. A maior delas é a quantidade de indústrias de alimentos que baniram os ingredientes transgênicos de seus produtos. Em 2002, quando começamos a trabalhar nessa área, eram apenas 14 empresas. Hoje são 68. O decreto de rotulagem também é uma grande vitória, embora parcial (já que não há implementação). O direito à informação é fundamental para que os brasileiros possam escolher o que vão comer; e isso está garantido por esse decreto.
*Matéria publicada no informativo n. 75 (setembro/outubro 2007) do Instituto Ecológico Aqualung (clique aqui - versão em pdf).
Curtas

Por Jaqueline B. Ramos*

Animal silvestre não é pet!

Todo mundo sabe que animal silvestre não é bicho de estimação, que nasceu para viver na natureza, no seu habitat, e não dentro da casa de pessoas como artigo de colecionadores, peça de decoração ou brinquedo exótico para crianças. Até então a captura de animais com este fim era considerada ilegal, pelos motivos mais óbvios. Mas motivos não tão óbvios fizeram com que o Conselho Nacional do Meio Ambiente aprovasse em setembro uma resolução que estabelece critérios para a determinação de espécies silvestres a serem criadas e comercializadas como animais de estimação.

A resolução define os critérios a serem adotados pelo Ibama para a produção da lista de espécies de animais que poderão ser criadas em domicílio, que levará seis meses para ser feita. Independente das espécies que serão listadas, o grande problema é o Governo abrir precedentes para a possibilidade da domesticação de animais selvagens, indo na contra-mão de todo o trabalho educativo e de conscientização que vem sendo feito por ONGs e instituições ambientalistas e de defesa dos animais em todo o Brasil.

Um dos argumentos para a aprovação desta resolução é “regulamentar a criação comercial de animais silvestres”, que já é permitida no país mas não tem uma fiscalização muito rigorosa. Ou seja, o problema já existe e oficializar a domesticação dos animais o agrava ainda mais. Além do mais, em nenhum momento se pensa na questão sob a perspectiva dos animais ou ambiental. E o sofrimento pelo qual os animais silvestres “domesticados” passam fora de seu ambiente natural? E os impactos negativos de sua captura em larga escala nos seus ecossistemas de origem? Tudo isso em troca de um luxo do homem...

Feita a lista, o Ibama a submeterá à consulta pública e este é o momento de representantes de organizações públicas, privadas e da sociedade civil organizada tentarem derrubar a proposta. Afina de contas, animal silvestre não é pet!

Recém-descobertas e já correndo perigo

A cada dia que passa fica mais clara a necessidade dos cuidados progressivos que a humanidade deve ter para preservar a biodiversidade do planeta. Tanto da que já conhecemos como das novas espécies que são catalogadas todos os anos – o que só vem a reforçar a rica diversidade biológica que temos o privilégio de desfrutar e o dever de proteger.

Um recente trabalho desenvolvido na Amazônia não só descobriu novas espécies como já identificou os perigos que as recém-conhecidas já estão prestes a enfrentar. Cientistas do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa) descobriram quatro espécies de aves, dois macacos, um esquilo, dezenas de tipos de aranha e diversas plantas, entre elas duas palmeiras, que o homem ainda não havia catalogado. As novas espécies foram identificadas no trecho de terra existente entre os rios Purus e Madeira, nos estados do Amazonas e Rondônia, onde não há registro de presença humana nos últimos 100 anos.

De acordo com o Inpa, estas descobertas podem indicar que a área pesquisada seria uma das mais ricas em diversidade de fauna e flora da Amazônia. Mas mesmo antes de ser conhecida mais a fundo, esta área já estaria ameaçada por conta de dois grandes empreendimentos previstos para a região: as construções da BR 319 e do gasoduto que ligará Urucu (AM) a Porto Velho (RO). Sem contar os impactos das hidrelétricas no Rio Madeira.

Se já não bastasse destruir o que já é conhecido, riquezas recém-descobertas da Amazônia correm o risco de simplesmente desaparecer ainda antes entrarem nos livros de biologia...

Guerra a favor dos orangotangos

Poderia ser de uma forma bem menos catastrófica, mas a população de orangotangos da Indonésia só não se extinguiu devido à guerra civil que se instalou na província de Aceh, na ilha de Sumatra. A afirmação é de Ian Singleton, diretor científico do Programa de Conservação de Orangotangos da Sumatra. Segundo ele, a guerra teria evitado a entrada e instalação de madeireiras e empresas de extração de óleo vegetal em uma das mais ricas florestas tropicais do mundo.

“Se a guerra não tivesse acontecido e as empresas tivessem entrado e explorado a floresta, nós só teríamos alguns poucos orangotangos sobreviventes”, afirmou o diretor do programa. “Mas se o que foi conservado da floresta for destruído a partir de agora, os orangotangos voltarão a ficar em perigo, pois muitos irão morrer por conta da destruição de seu habitat”, alertou. Hoje existem cerca de 7.300 orangotangos na floresta da Sumatra. O número tem ficado estável nos últimos anos, mas mesmo assim representa a metade de indivíduos que habitavam a floresta no início dos anos 90 (cerca de 15 mil).

Espera-se somente que as autoridades competentes entendam que guerra não é recurso de conservação...

Renováveis, porém...

A atual campanha do Governo Lula de promoção dos biocombustíveis, em especial do etanol, usa como principal bandeira o fato deles serem renováveis e proporcionarem uma combustão mais limpa. No entanto, ambientalistas e pesquisadores tanto no Brasil como no exterior alertam sobre a necessidade de analisar os impactos negativos que podem ser gerados no processo de produção em massa desses combustíveis limpos.

Um desses alertas foi dado na World Water Week, em agosto, conferência mundial sobre água da ONU. Ressaltou-se que a produção de biocombustíveis pode exercer uma "nova e dramática" pressão sobre a ameaça global de escassez de água, caso práticas e estratégias inovadoras para o uso sustentável dos recursos hídricos não sejam implementadas em âmbito internacional. Em outras palavras, os especialistas presentes lembraram a importância de enfatizar o fator água no debate sobre os biocombustíveis.

Outra posição crítica em relação aos biocombustíveis foi apresentada por uma recente reportagem do jornal International Herald Tribune, na qual se afirma que a promoção dos biocombustíveis esconde "uma realidade mais dura para os cortadores de cana no Brasil". De acordo com o jornal, “os cortadores são migrantes que deixam suas famílias em busca de trabalhos que pagam cerca de US$ 1,35 por hora”. O texto relata a história de Manuel Rodrigues da Silva, hospitalizado após ser encontrado com exaustão durante uma inspeção do Ministério Público na fazenda onde trabalhava no interior de São Paulo. Segundo a reportagem, dados oficiais mostram que 312 trabalhadores do setor morreram no trabalho entre 2002 e 2005, enquanto outros 82.995 sofreram acidentes.

Desastres naturais em números

Ainda na metade do ano, a ONU divulgou um número que merece atenção. Em agosto, durante a conferência mundial World Water Week, na Suécia, a entidade mostrou que apenas no decorrer do primeiro semestre de 2007 117 milhões de pessoas em todo o mundo foram vítimas de cerca de cerca 300 desastres naturais. O resultado dessa catástrofe em valores monetários: um prejuízo de nada mais nada menos do que US$ 15 bilhões. Os principais problemas destacados em 2007 foram as secas devastadoras que aconteceram na China e na África e inundações neste último continente e também na Ásia. Desequilíbrio ambiental também dá prejuízo.

Tanto na terra, mas nem tanto no mar

Segundo um estudo apresentado no II Congresso Latino-Americano de Parques Nacionais e Outras Áreas Protegidas, realizado no início de outubro na Argentina, nos últimos 10 anos quase duplicou a superfície de áreas protegidas na América Latina e aumentou muito a participação das comunidades locais em sua preservação e manejo. No período a superfície protegida teria passado de 160 milhões de hectares para mais de 300 milhões, o que é motivo de orgulho para o continente.

Porém, no mesmo evento, o Programa Marinho Global da União Mundial para a Natureza (UICN) alerta que enquanto mais de 10% do território está protegido, a proporção de mares nessa condição não chega a 1%. “Se a América Latina pretende ser líder mundial em áreas protegidas, resta uma pendência: o mar”, disse ao jornal Terramérica Imène Meliane, especialista da UICN. “A região tem os mares mais produtivos do mundo, mas vive de costas para eles.”

Pelas baleias, golfinhos e crianças

O Japão continua na mira de ambientalistas e defensores de animais de todo o mundo. E dessa vez duas campanhas têm as crianças como parceiras nos argumentos para proteção de baleias e golfinhos. O Governo australiano lançou um apelo através de um vídeo no site You Tube com imagens de baleias, legendas em japonês e pedidos, feitos por crianças australianas, de fim de caça às baleias no Japão.

Já a Sea Shepherd Society “ataca” o país em outra frente. Todos os anos, entre os meses de outubro e março, os japoneses abrem temporada de caça a golfinhos e milhares de animais morrem nas mãos de pescadores. A carne é vendida em supermercados e também é servida em merendas escolares. A Sea Shepherd alerta que já foi comprovada que a carne de golfinho possui altos doses de substâncias tóxicas que podem ser letais para os seres humanos e que servir essa carne para crianças em escolas é um crime. Saiba mais sobre a campanha Toxic Lunch em
http://www.seashepherd.org/toxiclunch/.

Vôo limpo

A gasolina de aviação é hoje considerada um dos maiores vilões do aquecimento global por conta do alto índice de emissão de gases de efeito estufa. Pensando numa forma de oferecer uma aviação mais limpa, a empresa aérea neozelandesa Air New Zealand anunciou que planeja realizar o primeiro vôo-teste de um avião comercial movido parcialmente a biocombustível entre o fim de 2008 e o início de 2009. O vôo experimental, com um Boeing 747, deverá partir da cidade de Auckland e não levará passageiros. A empresa divulgou que um dos quatro motores do avião deverá ser movido a uma mistura de querosene e biocombustível e que o objetivo da experiência é pesquisar alternativas “verdes” junto com a fabricante de motores Rolls-Royce e a fabricante de aviões Boeing.

Nova Amazônia em 7 anos

Muitos já foram os planos e estratégias apresentadas para acabar com o desmatamento na Amazônia, com resultados os mais diversos. Mas segundo um grupo de ambientalistas de nove organizações não-governamentais, é possível chegar a este objetivo em sete anos. O que tornaria isso possível é uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados em Brasília chamada Pacto Nacional pela Valorização na Amazônia. O plano prevê metas progressivas de redução de desmatamento, a começar por 25% no primeiro e segundo anos, e ampliando anualmente as reduções em relação à área desmatada de 2005/2006, até eliminar totalmente o problema no sétimo ano.

Segundo os profissionais envolvidos na proposta, ela tem mais chance de dar certo do que outras que não saíram do papel porque inova ao implementar mecanismos de compensação econômica para quem se beneficia do desmatamento. Ou seja, a idéia é dar uma compensação para aqueles que ganham com o desmatamento, pois seria a única maneira deles aderirem à idéia da preservação. Por exemplo, oferecer ao dono de uma propriedade onde se pratica desmatamento os R$ 100 por hectare/ano que ele ganharia ao derrubar a floresta.

De acordo com as ONGs que assinam a proposta, para financiar esses mecanismos e a infra-estrutura inicial seriam necessários R$ 1 bilhão por ano, que poderiam ser pagos pelo Governo e pela iniciativa privada. Apresentada a proposta, sua aplicação depende agora apenas de vontade política. Apóiam a iniciativa as ONGs Instituto Socioambiental, Greenpeace, Instituto Centro de Vida, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, The Nature Conservancy, Conservação Internacional, Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, Imazon e WWF-Brasil.

Presídio ecologicamente correto

Prisão ou acampamento de férias? Esta é a pergunta que os responsáveis pela prisão de Bastoey, em uma ilha ao sul de Oslo, na Noruega, gostam de ouvir. Afinal de contas, a instituição, considerada uma prisão de segurança mínima, reivindica o título de primeiro presídio ecológico do mundo. E o que justificaria esse título? O fato da prisão não ter arame farpado ou portões e operar com painéis solares, calefação a lenha, reciclagem e produção de comida orgânica. Além disso, segundo a direção da prisão, seu objetivo é ensinar valores importantes, como o respeito ao ambiente e ao próximo, aos 115 detentos.

Para tal os detentos vivem em casas que não são trancadas e tomam conta de 200 galinhas, oito cavalos, 40 ovelhas e 20 vacas, cuidam dos campos, colhem frutas e pescam. E toda a produção agrícola da prisão é obtida sem produtos químicos artificiais e os animais são bem tratados. Mais do que presídio ecologicamente correto, Bastoey tinha que ganhar o título de comunidade modelo...

Fontes: BBC Brasil, Ambiente Brasil, Agência Envolverde, ENN (Environmental News Network)

* Notas publicadas no informativo n. 75 (setembro/outubro 2007) do Instituto Ecológico Aqualung
Revista dos Vegetarianos n. 12 (outubro 2007) - edição on line: http://www.europanet.com.br/euro2003/index.php?cat_id=950&pag_id=15850

Animal Rights 2007

Por Jaqueline B. Ramos*

A relação do veganismo com o controle do aquecimento global, estratégias para derrubar o AETA (Animal Enterprise Terrorism Act), emenda aprovada pelo Congresso dos EUA em 2006 que considera ativistas como terroristas, e o apoio ao movimento de Direitos Animais declarado pelo candidato a presidência dos EUA/2008 Dennis Kucinich, que (pasmem!) é vegano. Estes foram alguns temas de destaque da Animal Rights 2007, conferência nacional que é ponto de encontro todos os anos de ativistas de direitos animais dos Estados Unidos. No evento se discute e trocam-se idéias sobre os avanços e as principais questões que permeiam o movimento no país e algumas experiências estrangeiras.

A Animal Rights foi idealizada pela organização sem fins lucrativos FARM (Farm Animal Reform Movement) e é realizada há 15 anos (entre 1981 e 1987, em 1997 e todos os anos desde 2000). A conferência de 2007 aconteceu de 19 a 23 de julho no hotel Westin LAX, em Los Angeles (a cada ano o evento é realizado numa costa americana, se revezando entre as cidades de Los Angeles e Washington) e contou com aproximadamente 1000 participantes de todo os Estados Unidos. E este ano se bateu o recorde em número de outros países sendo representados: foram 10, entre eles o Brasil (o nutricionista George Guimarães, da nutriVeg e do VEDDAS, fez uma apresentação sobre a legislação brasileira de direitos animais em um dos painéis da conferência), a China, o México, a Índia, a Etiópia e a Austrália.



Nos cinco dias de conferência o clima foi de integração e, principalmente, acesso a muita informação sobre as últimas conquistas e desafios em prol dos animais em todas as áreas de atuação (produção, laboratórios, entretenimento, ações diretas etc) e sobre veganismo, considerado, por unanimidade, a forma mais prática de respeito aos direitos animais. Foram mais de 100 palestrantes de 70 entidades diferentes falando em 120 sessões e plenárias ao final de cada dia. Entre eles ativistas-celebridades, como Paul Watson, fundador da Sea Shepherd Conservation Society, mundialmente conhecido por suas ações diretas e arriscadas contra a caça de baleias na Antártica, e Howard Lyman, um ex-fazendeiro que se tornou vegano, falou abertamente sobre suas idéias no popularíssimo programa da Oprah Winfrey e se dedica a divulgar o veganismo como uma questão de sobrevivência do planeta.

Além das sessões e plenárias, os participantes tiveram a chance de visitar uma feira que contou com cerca de 90 expositores de roupas, acessórios, comida vegana e literatura e assistir a 50 vídeos-documentários sobre abuso contra animais e ações de defesa. A organização da conferência também preparou uma noite especial com o serviço de um jantar vegano oferecido pelo hotel, um leilão beneficente e entrega de prêmios para ativistas e personalidades que adeptos ao movimento, como o músico John Feldmann, guitarrista e líder da banda Goldfinger, que divulga o veganismo através de sua música e apóia abertamente movimentos como o SHAC (Stop Huntingdon Animal Cruelty) e a ALF (Animal Liberation Front, Frente de Libertação Animal, em português), este último conhecido por suas ações diretas em laboratórios.

Mas um dos pontos altos da conferência foi a crítica coletiva ao Animal Enterprise Terrorism Act, tema de várias palestras e de uma série de workshops. “Um dos destaques este ano foi o reforço da importância da defesa da liberdade de expressão particular e dos grupos ativistas, que fica ameaçada com o AETA”, diz Alex Hershaft, presidente da FARM e idealizador da Animal Rights, se referindo ao avanço nas discussões sobre as estratégias do movimento para unir forças e conseguir anular a emenda que coloca qualquer pessoa ou organização de defesa de animais no mesmo nível de terroristas, punindo inclusive protestos pacíficos.

Direitos Animais e Meio Ambiente

Outro destaque da Animal Rights 2007 foi a declaração oficial de apoio aos direitos animais dada por Dennis Kucinich, candidato à presidência dos EUA em 2008 e um dos únicos congressistas americanos adeptos da dieta vegana. Através de uma áudio-conferência, Kucinich falou para um auditório lotado sobre as suas crenças e o seu comprometimento no cenário político a favor da sustentabilidade para a preservação de todas as espécies de vida e do meio ambiente. “Tratar mal os animais reflete na paz do mundo”, afirma o candidato, ressaltando que ser vegano não somente rendeu melhorias à sua saúde, mas também reforçou o fato de acreditar que todas as espécies de animais são sagradas.

O discurso de sustentabilidade e com tiradas de visão holística de Kucinich foi o gancho para um outro assunto extremamente importante tratado na conferência este ano: a relação da dieta vegana com o controle do aquecimento global. Em outras palavras, a relação dos direitos animais com o equilíbrio ambiental do planeta. Ou simplesmente pode ser lido como Ativismo e Ambientalismo, o que um tem a ver com o outro? A resposta concluída foi: tudo. “Eu acredito que muitos veganos fazem a opção pela dieta pensando nos animais apenas. No entanto, eles acabam ajudando na melhoria de sua saúde e da saúde do planeta. Infelizmente muitos líderes ambientalistas ainda não se deram conta da importância da dieta vegana”, ressalta Hershaft, tratando este papel de equilíbrio do veganismo como um outro ponto forte do evento.

Saurabh F. Dalal, presidente da União Internacional Vegetariana/ América do Norte, fez uma apresentação sobre a influência da atual dieta onívora adotada pela humanidade nas mudanças climáticas em uma das plenárias principais que ajudou a enriquecer ainda mais a discussão de Direitos Animais e Meio Ambiente. “Ser vegano é fundamental, mas precisamos rever ainda mais nossos hábitos de consumo. Temos realmente que nos tornar mais verdes”, alertou Dalal, que foi agraciado com uma placa de reconhecimento por seu trabalho de multiplicação de idéias de vegetarianismo e ativismo iniciado em Washington, DC e que hoje abrange os Estados Unidos e outros países.


Retratando em números, a própria Organização das Nações Unidas, através de relatório oficial de 2006, já demonstrou e divulgou o fato de que a criação industrial de animais é responsável por aproximadamente 18% das emissões de gases de efeito estufa. Em termos comparativos esse número é maior, por exemplo, que o das emissões geradas pelos meios de transporte. Ou seja, a grande quantidade de carros representa um problema, mas já está provado que a dieta onívora globalizada tem impacto negativo ainda maior no aquecimento global. A solução para mudarmos esta situação? Dalal sugeriu a divulgação das vantagens da dieta herbívora como uma das estratégias de mitigação dos desequilíbrios ambientais, ressaltando a importância do trabalho do ativista.

“Além de mudanças no atual modelo energético, pensando numa escala mais generalista, é necessário trabalhar na conscientização das pessoas sobre estes fatos relacionados à sua alimentação. O resultado será uma mudança de comportamento e hábitos em larga escala, ingrediente principal para uma mudança de modelo da dieta global”, explicou Dalal. Seja no cenário da relação do ativismo com o meio ambiente ou nas controversas áreas de produção e experimentação com animais, pode-se afirmar que uma das principais reflexões deixadas pela Animal Rights 2007 para seus participantes é a seguinte: cabe aos ativistas divulgar informações e fazer esclarecimentos para o público em geral. Como bem ressaltou Michael Budkie, diretor da organização SAEN – Stop Animal Exploitation Now (Pare a Exploração Animal Agora), “as pessoas simplesmente não sabem o que acontece nos bastidores. Nós devemos dar a elas as informações. Esta é a nossa missão.”

* Jaqueline B. Ramos foi convidada pela organização da Animal Rights 2007 para fazer a cobertura fotográfica do evento (http://www.arconference.org/photos7/)

Saiba mais:
FARM - http://www.farmusa.org/
Conferência Animal Rights - http://www.arconference.org/
Equal Justice Alliance (organização contra o AETA) – http://www.noaeta.org/
União Internacional Vegetariana/América do Norte – http://www.ivu.org/vuna

Entrevista exclusiva: Capitão Paul Watson, Sea Shepherd Conservation Society


“Sou um ambientalista”

O capitão Paul Watson é uma das figuras mais respeitadas e controversas tanto no meio ambientalista como no de direitos dos animais. Fundador da Sea Shepherd Conservation Society, Watson participou de suas primeiras ações de protestos no final da década de 60, inclusive das que deram origem ao Greenpeace. Numa operação em 1975 testemunhou de seu barco uma situação que mudaria sua vida para sempre: a morte de uma baleia caçada por soviéticos. Desde então se dedica à defesa destes e de todos os outros animais marinhos através de ações diretas contra baleeiros e caçadores. E chama esse trabalho de ambientalismo, e não de ativismo.

Da saída do Greenpeace – há quem diga que ele foi expulso por divergência de táticas – a discursos nos quais afirma sem titubear, por exemplo, que um ambientalista que não suporta o vegetarianismo é um hipócrita, Watson coleciona atitudes e afirmações apoiadas por muitos e criticadas por outros. “Recebemos o rótulo de piratas do mar e não tenho medo de dizer que tenho muito orgulho disso. Um pirata resolve por ele mesmo, sem receber ordens do Governo. Nossa missão é salvar o planeta. Nossos clientes são os animais”, dispara para a platéia da Animal Rights sob aplausos numa das plenárias.

Em 2007 a Sea Shepherd completa 30 anos e Paul Watson e sua tripulação se preparam para voltar ao mar em ações no Japão e nas Ilhas Galápagos, no Equador. Entre um intervalo e outro das sessões da conferência em Los Angeles, o capitão deu esta entrevista para a Revista dos Vegetarianos:

Na sua opinião, quais foram as principais mudanças do movimento de defesa dos direitos dos animais que ocorreram da década de 70 até hoje?

Na verdade o movimento mudou bastante. Nos anos 70, por exemplo, as pessoas não sabiam o que era um vegano. Atualmente já é um termo bem mais conhecido e aceitável, o que representa uma grande mudança. Além disso, também não é difícil achar bons restaurantes veganos em todas as grandes cidades do mundo. O movimentou avançou tremendamente rápido e cada vez mais pessoas estão ingressando na comunidade vegetariana. Eu acredito que por volta do ano 2020 o mundo será majoritariamente vegetariano. Aí as pessoas lembrarão da cultura do século XX como algo bárbaro e primitivo, de um tempo em que as pessoas comiam carne.

A conexão entre os movimentos ambientalistas e os de direitos dos animais seria um dos grandes desafios do momento?

O que acho mais importante é o movimento ambientalista reconhecer um fato que é a base de tudo: ninguém é ambientalista se não apoiar o vegetarianismo. Uma coisa está intimamente ligada à outra. A indústria da carne emite mais gases de efeito estufa que a indústria automobilística. Quando você come um bife está também levando para a mesa milhares de galões de água. E ainda assim o movimento ambientalista, de uma forma geral, se nega a assumir isso. Todo mundo se diz ambientalista até que se impacte sua zona de conforto ou se ameace seu estilo de vida. A Sea Shepherd é um grupo conservacionista que defende questões de direitos dos animais e algumas vezes acabamos sendo julgados como radicais. Mas na verdade é nisso que consiste o trabalho de conservação. Não me considero um ativista de direitos dos animais. Sou um ambientalista.

Nas reuniões da Comissão Baleeira Internacional e da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas de Extinção, em maio e junho desse ano, a atuação da Sea Shepherd e de outras organizações garantiu a proteção das baleias com a sustentação da proibição da caça. Qual é a importância disso para o movimento?

Nossa principal vitória em prol das baleias foi em 1986 com a instituição da moratória global contra a caça. Mas infelizmente 18 mil baleias já foram mortas pelos japoneses desde então, o que demonstra que lidamos com uma atividade ilegal. A conquista esse ano foi termos conseguido manter a ilegalidade, o que ajuda muito, por exemplo, no controle do tráfico da Islândia e Noruega para o Japão. Mas as regras ainda precisam de mais força e é nesta linha que procuramos atuar. Não somos uma organização de protesto. A estratégia da Sea Shepherd é ir a campo para garantir a aplicação das leis internacionais de conservação e todas as suas regulamentações. Nossos protestos são até bem conservadores (risos).

Qual seria a melhor maneira de falar com consumidores em geral, pessoas que não são vegetarianas ou veganas, para passar a mensagem de que o ambientalismo começa pela boca?

A melhor maneira é assustá-los começando por esclarecer em que consiste a sua comida (risos). Há níveis aceitáveis de ingestão de algumas substâncias duvidosas contidas em alimentos industrializados e o consumidor não se dá conta do impacto disso. O mais importante é explicar o que as pessoas estão fazendo para a sua própria saúde. A maior parte dos problemas de saúde nos EUA e em outros países poderia ser resolvida simplesmente com uma mudança de dieta.

Você acompanha os trabalhos da Sea Shepherd no Brasil?

O Instituto Sea Shepherd Brasil é independente e administrado por brasileiros para tratar de questões locais. Eles tomam todas as decisões e estão muito envolvidos em ações de combate à pesca ilegal, um trabalho o qual incentivamos e encorajamos o desenvolvimento por parte de cada grupo localmente em seus países. Temos alguns integrantes brasileiros fazendo parte da tripulação de nosso navio principal e numa das vezes que fui ao Brasil tive a chance de participar de operações em Fernando de Noronha. Basicamente trocamos informações e apoiamos as ações uns dos outros.

Há regras de vegetarianismo para os integrantes da Sea Shepherd e de suas representações em outros países?

Não temos nenhuma regra específica de vegetarianismo para os integrantes. A Sea Shepherd internacional tem duas regras que obrigatoriamente devem ser seguidas: não se pode fazer nada que vá ferir pessoas e não fazemos acordos com os opositores. Porém, não abrimos mão da refeição nos navios. Eles são veganos e quem embarca nele acaba sendo vegano. Servimos ótimas refeições veganas e acreditamos que as pessoas têm a chance de experimentar e fazer suas próprias escolhas. Não acho que temos que forçar as pessoas a serem vegetarianas, mas sim dar bons exemplos para serem aplicados naturalmente por cada um.