sábado, junho 14, 2008

Negócios vegetarianos

Por Jaqueline B. Ramos*

É perfeito. Imagine fazer do vegetarianismo também o foco de sua atividade profissional, seja abrindo um negócio ou trabalhando como prestador de serviços. Ser um empreendedor vegetariano aplicando aquilo o que acredita em restaurantes, lojas de produtos naturais, serviços de buffet, marmitas e congelados, marcas de roupas, produtos de higiene artesanais, entre outras atividades. Agora não imagine apenas. Saiba que muitos vegetarianos já fazem isso e aliam um trabalho sustentável – para não dizer lucrativo, no bom sentido da palavra – com o prazer de difundir práticas de respeito, proteção e libertação animal.

“Nosso público é crescente e podemos dizer que o negócio é lucrativo. Mas também trabalhamos muito. A gente respira isso aqui e somos essencialmente cozinheiros, criando cardápios diferentes todos os dias e primando pela qualidade. E a maior compensação é ver como ajudamos a transformar as pessoas. Muitos se tornam vegetarianos depois de freqüentarem o restaurante”, conta o carioca José Roberto Machado, que junto com sua esposa, Maria Lúcia Moreira Machado, comanda, há três anos, o restaurante Caminho do Mar, localizado no Recreio, no melhor estilo entre mar e montanhas na cidade do Rio de Janeiro.

Zé Roberto e Maria Lucia são casados há 18 anos e veganos há pelo menos uns 15. Empreendedores natos, anteriormente ao restaurante situado a uma quadra da praia tiveram outros restaurantes, uma lanchonete e até uma padaria vegana em diferentes bairros cariocas. E segundo Zé Roberto, todos os estabelecimentos “bombaram”. O casal resolveu partir para o novo negócio porque não resistiu à oportunidade de montar um restaurante justamente tão próximo do mar e da montanha.

“Nosso público é bastante diversificado, de surfistas a artistas, inclusive muita gente de fora do Rio, que está na cidade a passeio ou a trabalho. Abrimos de domingo a domingo, faça chuva ou faça sol, e isso é uma marca da casa. Na verdade nossa melhor propaganda sempre foi o boca-a-boca. Aliás, essa é a melhor maneira de disseminar o vegetarianismo”, diz Zé Roberto, que também dá cursos de culinária na casa de pessoas que desejam adequar seus cardápios diários para uma dieta mais saudável.

O atendimento a um número significativo de onívoros e a oportunidade de passar a mensagem do vegetarianismo e demonstrar, na prática, o quanto os pratos sem ingredientes animais são saborosos e acessíveis são pontos comuns citados por donos de restaurantes vegetarianos. “Posso afirmar que 80% das pessoas que freqüentam o restaurante no horário de almoço não são vegetarianas. Nossa idéia é servir as refeições, ensinar as pessoas sobre veganismo e, acima de tudo, oferecer um ambiente onde elas se sintam bem. A força motriz do nosso negócio é a compaixão pelos animais e isso é o que nos impulsiona e dá prazer”, explica Paulo César Alves Nakashima, proprietário do badalado Lar Vegetariano Vegan, localizado no bairro da Lapa, em São Paulo.

O Lar Vegetariano Vegan já é conhecido do público vegano paulistano pelas noites especiais de sexta e sábado (vegan party e pizza vegana) e pela entrega a domicílio de pizzas veganas nos finais de semana. Para conseguir entrar na casa na noite de sábado, por exemplo, só é possível com reserva, o que demonstra o sucesso do negócio. Paulo e a esposa, Ivonete do Amaral Diaz Nakashima, abriram o restaurante na Lapa em setembro de 2005. Veganos há oito anos, tiveram experiências anteriormente com um outro restaurante vegetariano e com a produção de congelados.

“Abrimos o Lar a partir do que vivenciamos e de conversas com muitas pessoas que conhecemos, priorizando sempre pela qualidade e o oferecimento de serviços e produtos diferenciados. Felizmente o retorno tem sido muito bom, o que mostra que o público é crescente, o negócio é próspero. No momento estamos quitando as últimas dívidas, pois acabamos abrindo o restaurante praticamente sem capital de giro, o que foi extremamente difícil. Aliás, se puder dar um conselho para um futuro empreendedor, diria que separar a reserva é essencial na abertura do negócio”, ressalta Paulo.

Negócio e militância

O planejamento financeiro ressaltado por Paulo é, sem sombra de dúvidas, um ponto importantíssimo a ser considerado para abertura de qualquer novo estabelecimento por um pequeno empresário. E para o “empreendedor vegetariano”, soma-se a isso o dever moral de aliar negócios e militância, oferecendo, como uma espécie de brinde, informação diferenciada que agregue valor ao produto vendido ou serviço prestado. A história e o conceito por trás de “O TAO Natural”, um serviço de delivery de produtos vegetarianos, integrais e orgânicos em São Paulo, demonstra bem essa idéia.

“A nossa maior motivação é a possibilidade de ganhar dinheiro e o nosso sustento com algo que beneficia as pessoas. O TAO certamente é um comércio, mas também é uma militância, pois nos colocamos à disposição dos clientes e interessados para enviar receitas e esclarecer, dentro das nossas possibilidades, dúvidas sobre alimentação vegetariana. Principalmente aquele questionamento básico sobre reposição de proteína e ferro para quem está no momento de transição de dieta”, conta Adriana Gomes Guimarães, que toca o serviço de entregas dos produtos juntamente com o marido, Emerson Marinheiro, ambos ovo-lacto vegetarianos há seis anos.

“O TAO Natural” funciona há nove meses e já tem um público formado por vegetarianos, naturalistas, pessoas com problemas de saúde que precisam mudar a dieta, pais e mães preocupados com a saúde dos filhos e atletas – estes, aliás, formam um novo segmento muito importante para o negócio, segundo Adriana. O serviço de entregas a domicílio consiste na primeira experiência de empreendedorismo do casal – ela é profissional da área de Relações Públicas e ele, professor de Educação Física - e foi elaborado e implementado de maneira bastante cuidadosa e gradual. Tanto que os dois continuam com seus trabalhos originais e estão aos poucos, de acordo com o crescimento do negócio, migrando parte do seu tempo para o serviço.

“Estudamos apostilas do Sebrae, fizemos pesquisas de mercado e decidimos abrir algo que não requereu grande investimento, até porque não dispúnhamos de grande capital. Hoje já temos um lucro que faz o negócio valer a pena, apesar de ainda não podermos deixar nossos trabalhos paralelos. Mas acreditamos que conseguiremos fazer com que o TAO seja uma das nossas duas principais fontes de renda, com dedicação integral minha ou do meu marido, no prazo de 18 a 24 meses”, prevê Adriana.

A migração de um trabalho formal para um “empreendedorismo vegetariano” perseguida pelos donos de “O TAO Natural” é a base da história da Vegmatula, um serviço de entregas de marmitas veganas na área do bairro Vila Mariana, em São Paulo. André Cantu sempre fez suas experimentações na cozinha, mesmo antes de se tornar vegetariano, em 1999 (é vegano há dois anos). Forças do destino o levaram a trabalhar durante 16 anos na Eletropaulo e ao longo do tempo a motivação por fazer o que realmente gostava foi crescendo. O emprego público deu condições de André investir na montagem de uma cozinha industrial e em um curso técnico de nutrição na Fundação Getúlio Vargas. Até que em dezembro de 2007 ele se desligou da empresa e em janeiro deu início às atividades da Vegmatula com a esposa, Maria Del Pilar.

“É uma responsabilidade muito grande fazer comida vegetariana de qualidade, principalmente para atender o público onívoro. Atendemos muita gente que está em transição de dieta, que quer se alimentar melhor ou que está preocupada com o meio ambiente. E aí busca respostas no vegetarianismo”, conta André. “Nosso desafio maior é preparar um cardápio variado e saboroso, com pratos diferentes a cada dia. Para tal variamos nos temperos, usamos nossa receita de massa caseira vegana e “queimamos” os miolos para ser criativos. No final do dia estamos extremamente cansados, mas também extremamente gratos.”

Outro motivo de satisfação para os donos da Vegmatula é o sistema de entrega adotado: bicicletas. Dois entregadores – um vegano e um em vias de se tornar – pedalam das 11h às 13h levando as delícias veganas pela Vila Mariana e arredores de segunda à sexta de forma ambientalmente correta. “Por experiência própria e conversando com amigos percebi que existia demanda por marmitas veganas. E nesses poucos meses de trabalho já atestamos que há mesmo, que o negócio é viável. Tanto que não damos conta de entregar para todos que gostariam de receber. Fica aí o recado: há mercado para todo mundo e a concorrência é muito bem-vinda, principalmente para o vegetarianismo”, conclui André.

Sem CNPJ

Há também histórias que podemos chamar de “empreendedorismo sem CNPJ”, de vegetarianos que desenvolviam seus talentos como ativistas e que, com o passar do tempo, transformaram esse dom também na base de seu sustento através de trabalhos autônomos. É o caso da paulistana Luisa Pereira Santos, conhecida por suas camisetas e adesivos com mensagens e pelos sabonetes artesanais 100% vegetais. Luisa, vegetariana há nove anos e vegana há seis, começou a fazer camisetas como fonte de arrecadação de fundos para atividades sociais e de divulgação do veganismo.

“Com o tempo as pessoas começaram a encomendar os produtos e me dei conta que poderia fazer dessa atividade também a minha fonte de renda. Passei então a dedicar mais tempo ao veganismo, unindo o útil ao agradável. Faço minhas coisas em casa e a maior parte das vendas é pela internet e em eventos, além de alguns restaurantes e uma loja em São Paulo. Não tenho planos de abrir uma empresa ou coisa do gênero”, afirma Luisa, que criou a marca Bhumi (em sânscrito, a personificação do Planeta Terra) para batizar seus produtos – 25 tipos de camisetas, 15 de adesivos e 12 sabonetes de diferentes aromas, que produz e vende desde 2003.

Os planos de Luisa é investir mais na divulgação dos produtos pelo site e desenvolver novas estampas para camisetas. Num estilo parecido de trabalho autônomo, o também paulistano Lila Prasada é pau para toda obra quando o assunto é buffets e serviços de comida vegetariana para festas e eventos. Lacto-vegetariano há 15 anos, Lila começou a cozinhar há 11 em um templo Hare Krishna. E não parou mais. Descobriu que sua praia era alimentação sem carne e ao longo da última década já cozinhou em eventos diversos, indo da Verdurada e raves até encontros como o Fórum Social Mundial e almoços beneficentes, passando também pela produção de marmitas, congelados e até uma lanchonete vegana bem popular que teve no bairro do Braz, em São Paulo.

“A demanda por esse tipo de serviço é muito grande e é um mercado muito promissor. Sou bastante flexível e vou atendendo os clientes de acordo com o que precisam. Já cheguei a fazer três mil refeições por dia”, conta Lila, ressaltando que é uma atividade muito gratificante, mas também muito trabalhosa. “É importante que quem se interessa em trabalhar nesse ramo se informe, pesquise e estude. Como eu mesmo administro a prestação de serviços e coordeno um perfil de equipe para me ajudar dependendo de trabalho encomendado, já fiz curso de gestão na área de alimentação e, sempre que posso, vou a feira de alimentos para me atualizar das novidades”.

Da moda urbana ao campo

Pegando o gancho em raves e no público jovem, outra vegana coloca suas idéias em prática no seu negócio. Só que na área de moda. Ana Carolina Caliman, vegana há 12 anos, é uma das proprietárias da grife paulistana King 55, que tem três lojas na cidade e multimarcas que revendem suas peças no Brasil inteiro. O estilo é jovem com uma atitude rock e atual e uma linguagem mais street. A filosofia: o respeito aos animais e ao meio ambiente.

“Estamos sempre tentando inovar e procurando mais opções para substituir matérias-primas de origem animal. Às vezes deixamos de produzir e vender alguns produtos pela falta de materiais alternativos de qualidade, mas nem por isso deixamos de seguir nossos princípios. Nossos vendedores são treinados e no atendimento ao cliente sempre explicamos a filosofia da marca e o porquê do desenvolvimento de produtos sem crueldade”, revela Ana Carolina dando também como exemplo de diferencial da King 55 o fato da lavanderia onde se lavam os jeans e produtos diferenciados ser totalmente ecológica (com captação de água de chuva e reutilização).

Ana toca a King 55 desde meados de 2001 e a loja consiste na sua primeira experiência como empreendedora. Ela divide a sociedade do negócio com seu irmão, também vegano, o pai, que têm experiência de 20 anos no ramo de confecção, e a madrasta. Por ser dona da marca, já passou pela área financeira, de vendas e de gerenciamento de pedidos e hoje se dedica mais ao desenvolvimento de produtos. “Nossos clientes são pessoas que gostam de produtos diferenciados. A preocupação com meio ambiente e com os animais é algo natural e faz parte do DNA da marca. A empresa tem um formato pequeno e não tem intenção de crescer muito, para não perder a autenticidade e a personalidade que tem hoje”, conta.

Dando um salto de cenários, da moda urbana paulistana para os campos sulinos, um outro estilo de negócio também trabalha, entre outras idéias, com a crença de que o homem não deve causar sofrimento aos animais se não quer sentir dor. Trata-se da produção agroecológica de frutas, legumes e verduras e a empreendedora é a engenheira agrônoma Silvana Beatriz Boher, proprietária do Sítio Capororoca, localizado na área rural da cidade de Porto Alegre.

Vegetariana há quatro anos e agroecologista há 10, Silvana desenvolve as atividades no sítio desde 2001. Além do cultivo dos vegetais, com destaque para o de plantas comestíveis não convencionais, também tem uma agroindústria caseira para produção de geléias, compotas, conservas e pães, que são comercializados nas feiras ecológicas da cidade. “Além disso, trabalhamos com turismo rural, recebendo estudantes universitários para estagiar e turistas que desejam conhecer o funcionamento de uma propriedade agroecológica”, conta. “Apesar de ser uma atividade recente, a aceitação é muito boa. Ficamos surpresos com o grande número de pessoas não vegetarianas que nos visitam e expressam muita satisfação ao descobrir que é possível ter uma boa e saborosa refeição sem carne.”

Silvana explica que não houve uma preparação específica para o desenvolvimento de suas atividades e que tudo foi acontecendo como uma reação em cadeia. A maior motivação foi poder trabalhar com produtos mais saudáveis sem agredir o meio ambiente e respeitando os animais, morar no próprio local de trabalho e ter uma melhor qualidade de vida. E qualidade de vida, para um empreendedor vegetariano, está diretamente ligada à possibilidade de combinar trabalho, sustento e prazer de educar, disponibilizar informação e ser exemplo para uma conduta mais ética em relação aos seus semelhantes.

“Quando nos tornamos vegetarianos, direta e indiretamente mostramos a outras pessoas as vantagens da nossa conduta, tanto no que se refere ao consumo de alimentos mais saudáveis quanto à questão ética de não causar dor e sofrimento aos animais. O trabalho com plantas não convencionais abre um leque de alternativas alimentares baratas, de fácil obtenção, nutritivas e saborosas. Os grupos que vêm ao sítio passam a ter uma outra idéia sobre a natureza, a forma de preservá-la e a possibilidade de usufruí-la com o menor impacto possível”, conclui Silvana.

Dicas na hora de montar seu negócio

Gustavo Carrer, consultor de marketing do Sebrae-SP, tem mais de 10 anos de experiência com empresas de pequeno porte que atendem nichos específicos do mercado. Sobre o “empreendedorismo vegetariano”, o consultor tem algumas dicas aplicáveis aos que já são ou pensam em ser empresários focando em produtos ou serviços especializados.

Primeiramente, segundo o consultor, o empresário do ramo vegetariano deve ter como objetivo o atendimento do público que já é consciente e adepto da dieta. “É importante focar em atender bem quem já é vegetariano, o seu público-alvo. Pode-se fazer alguma campanha e passar informações visando a conscientização de outras pessoas, mas isso não pode ser mais importante do que a prestação do serviço ou a venda do produto, do contrário pode se perder o foco e o negócio se tornar insustentável”, diz.

Outra questão ressaltada por Gustavo é não ser radical a ponto de não atender não-vegetarianos – felizmente já vemos que isso não acontece, visto as histórias contadas na matéria. “Entender a natureza e os anseios do público, do vegetariano ao onívoro simpatizante, um comprador sazonal, é essencial para o sucesso do negócio. Aliás, uma das vantagens de um pequeno negócio direcionado a um nicho é o fato do empresário poder estar muito próximo do consumidor, entendendo suas demandas e adequando sua gestão para melhor atendê-lo”.

Outra vantagem ressaltada pelo consultor é a possibilidade de concentração de esforço – leia-se tempo e dinheiro – num mix de produtos e serviços com perfil específico, evitando gasto de energia que seria necessário para atender um público muito diversificado. “Mesmo assim é importante crescer com cuidado. A atividade que é de nicho exige que o empresário tenha um ciclo de atenção maior com os clientes. Como o público, em número de pessoas, tende a ser menor, uma falha pode colocar a perder todo o negócio. A tolerância do público é muito menor com as empresas menores”, completa.

Serviço

• Restaurante Caminho do Mar
Tel.: (21) 3413 0483

• Restaurante Lar Vegetariano Vegan
www.larvegetarianovegan.com.br
Tel.: (11) 3835 2490

• O TAO Natural (entrega de produtos vegetarianos e naturais)
www.otaonatural.com.br
Tel.: (11) 9825 6298

• Vegmatula (marmitas e congelados)
http://acantu.sites.uol.com.br
Tel.: (11) 5579 2273

• Bhumi (camisetas, adesivos e sabonetes 100% vegetais)
www.colchaderetalhos.net
Tels.: (11) 3205 4914, 9466 6806

• Buffets e Festas vegetarianos/veganos
Lilá Prasada
(11) 9530 9561

• King 55 (roupas / moda)
www.king55.com.br
Tels.: (11) 3083 1151, 3045 2654

• Sítio Capororoca (produtos agroecológicos)
www.caminhosrurais.tur.br
Tel.: (51) 3258 5607
* Publicado na Revista dos Vegetarianos, n. 20, junho 2008. Veja a edição completa aqui.

domingo, junho 01, 2008

Os impactos da alimentação para o meio ambiente


Por Jaqueline B. Ramos*

Quando falamos em sustentabilidade, pensamos em ações como não poluir, preservar áreas naturais, reciclar lixo, economizar água, dar preferência às fontes alternativas de energia etc. Mas raramente nos lembramos de relacionar uma de nossas atividades mais básicas com impactos negativos no meio ambiente: o ato de se alimentar. Nos primórdios da humanidade, a alimentação era baseada em frutas, raízes, carnes de animais caçados e outras fontes que não modificavam significativamente a natureza (pelo contrário, tudo fazia parte de um ciclo natural). Com o advento da agricultura e da domesticação de animais, há cerca de 12 mil anos, deu-se início à produção de alimentos.

A passagem do estado nômade para a fixação na terra marcou o início do que chamamos “desenvolvimento da humanidade”. Com o passar dos séculos, o homem foi criando novas formas de manejo do solo e as populações concentradas nas cidades cresceram em ritmo progressivo, aumentando a demanda por alimentos. Até que a chegada da Era Industrial, no final do século XVIII, intensificou a aglomeração de pessoas no ambiente urbano, colocando fim, definitivamente, na ligação direta que o ser humano tinha com a natureza para a obtenção de alimentos. O resultado disso tudo é uma agricultura transformada em indústria que passou a utilizar métodos artificiais, como fertilizantes e pesticidas químicos, irrigação, manipulação genética e uso de hormônios em animais, visando sempre o aumento da produção (e o lucro). Sem contar a dependência por combustíveis fósseis, inclusive no transporte, por longas distâncias, dos alimentos. É a cadeia alimentar industrial.

Se por um lado todo esse advento é considerado positivo, sendo denominado como desenvolvimento ou modernidade, por outro é fato que o modelo de alimentação industrializado é um forte candidato a causar sérios danos à conservação do meio ambiente e também à saúde do homem. E por incrível que pareça, a maior parte das pessoas atualmente não se dá conta disso. A origem dos alimentos que consome simplesmente não faz parte da sua lista de prioridades e a alimentação, o ato mais corriqueiro e básico do dia-a-dia, não é visto sob a perspectiva ambiental ou da sustentabilidade.

“Comer é um ato agrícola, disse, numa frase famosa, Wendell Berry (fazendeiro e economista americano). É também um ato ecológico, além de um ato político. Ainda que muito tenha sido feito para obscurecer esse fato bastante simples, o que e como comemos determinam, em grande parte, o que fazemos do nosso mundo – e o que vai acontecer com ele. (...) Muita gente hoje parece totalmente satisfeita comendo na extremidade da cadeia alimentar industrial sem parar para pensar no assunto”, escreve o jornalista norte-americano Michael Pollan, no seu livro “Dilema do Onívoro”. O jornalista passou cinco anos investigando os bastidores da cadeia industrial alimentícia nos Estados Unidos, reconstituindo o trajeto dos pratos mais consumidos e analisando o caminho percorrido pelo alimento da origem à mesa.

Insumos químicos, agrotóxicos, erosão do solo...

Como afirma o jornalista norte-americano, comer é um ato ecológico, o que faz com que todo cidadão deva, idealmente, ficar atento à origem do alimento que consome e analisar criticamente as técnicas empregadas no sistema de produção. A qualidade e pureza dos alimentos, a sustentabilidade (social e ecológica) dos métodos de produção e os problemas e desigualdades existentes na sua distribuição são algumas das questões que devemos analisar em busca de uma alimentação mais sustentável. Em tempo: é fato que se produz alimento em quantidade suficiente para atender 100% da população mundial. Dificuldades de acesso aos alimentos pela parcela mais carente da sociedade decorrem de problemas sociais e econômicos, que por sua vez causam desequilíbrios na distribuição.

Destacando algumas problemáticas da agricultura moderna para o meio ambiente, uma primeira questão a ser analisada é o uso de insumos químicos. Visando melhorar a produtividade e assegurar índices de produção, agricultores costumam utilizar adubo e fertilizantes em suas plantações. O adubo mais simples, natural e antigo é o esterco, que misturado a restos de vegetais e fermentado de forma correta resulta no composto orgânico. Mas para ser empregado em larga escala, o processo do fertilizante natural se tornou inviável, economicamente falando. Para os empresários do agrobusiness, passou a ser mais rentável o uso de agroquímicos (agrotóxicos e fertilizantes, principalmente), inclusive para viabilizar o cultivo intensivo de uma única cultura em uma área (as monoculturas, principais vilãs da qualidade do solo).

Os fertilizantes industriais contêm altas concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio e metais pesados. O nitrogênio, por exemplo, pode se acumular no solo e ser transformado, por processos químicos, em nitrato. Além de ser um composto cancerígeno, o nitrato pode contaminar o solo e também ser conduzido aos lençóis subterrâneos, contaminando a água.

Outro problema gerado neste cenário é o desequilíbrio ecológico causado pela própria prática da monocultura regada por fertilizantes químicos. Entre os principais indicadores do desequilíbrio está o aparecimento de pragas, doenças e ervas daninhas, que por sua vez são combatidas com agrotóxicos - inseticidas, herbicidas e fungicidas. Ou seja, mais uma carga de substâncias químicas tóxicas bombardeando o meio ambiente e a saúde de quem consome os alimentos, pois estes acabam guardando resíduos dos agrotóxicos e têm alta probabilidade de ficarem contaminados.

Como mais um remediador para o desequilíbrio ecológico conduzido pelo próprio homem e visando, sempre, produtos finais comercialmente mais lucrativos, entram em cena os alimentos transgênicos. Tratam-se de organismos geneticamente modificados (OGMs) desenvolvidos em laboratório. Entre os objetivos da manipulação genética está o de criar plantas mais resistentes a pragas ou até mais resistentes a determinados agrotóxicos. Alimentos transgênicos já são comercializados em vários países – entre eles o Brasil – e ainda há muitas controvérsias em relação aos prós e contras da manipulação genética para a saúde das pessoas e os impactos no meio ambiente. Enquanto os debates e as pesquisas avançam, o importante é o consumidor se informar e exigir a rotulagem dos alimentos transgênicos, de forma a ter condições de decidir por consumir ou não um OGM.

Erosão e o impacto do bife

Uma questão importante decorrente da agricultura moderna é o fenômeno chamado de “erosão genética”. A interferência do homem nas variedades tradicionais com a manipulação de plantas e animais pode consistir em uma ameaça para a diversidade genética, a principal responsável pela capacidade de resistência, imunidade e sobrevivência das espécies.

Quando falamos em erosão é importante também lembrar do processo de degradação do solo decorrente do uso de práticas agrícolas inadequadas e da monocultura combinada com a mecanização, o corte de espécies nativas, a queima da vegetação e a pecuária intensiva. Aliás, esta última rende um capítulo à parte na discussão sobre alimentação sustentável, visto que o aumento no consumo de carne e de seus derivados sobrepôs formas naturais (e mais éticas) de criação dos animais, sem contar os problemas ambientais decorrentes da pecuária.

Numa sociedade majoritariamente onívora, o “impacto do bife” passa por questões de ordem moral – não é à toa a afirmação de que se os abatedouros tivessem paredes de vidro, muita gente se tornaria vegetariana - e também de ordem ambiental. Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês) em 2006 alertou para o fato de que “estoques de animais vivos” mantidos para alimentação são responsáveis por 18% da emissão de todos os gases causadores do aquecimento global, porcentagem que supera, por exemplo, as emissões causadas por todos os veículos automotores do mundo somados.

O levantamento da FAO inclui as emissões de metano provocadas pelo sistema digestivo dos animais, as emissões de CO2 geradas pelas queimadas para a formação de pastos, a energia – quase sempre à base de queima de combustíveis fósseis – usada na fabricação de insumos agrícolas, a energia gasta na produção de ração e no bombeamento de água, a energia dos procedimentos de abate e processamento das carcaças, o combustível usado no transporte de animais vivos e de produtos processados de carne, entre outras questões relacionadas à pecuária.

Seja analisando as técnicas industriais agrícolas ou o modelo intensivo da pecuária, o fato é que a humanidade atingiu um limite perigoso na história de uma relação insustentável com a natureza para obtenção de fontes de alimentos. E nesse momento é importante que cada um, como consumidor, pare para pensar mais criticamente e faça escolhas mais criteriosas e cuidadosas. Como afirma o autor de “Dilema do Onívoro” em um dos trechos do livro, “a insensatez demonstrada na busca por alimentos não é um fenômeno novo. No entanto, os novos atos de insensatez que estamos cometendo na nossa cadeia alimentar industrial hoje são de um tipo diferente. Ao substituir a energia solar pelo combustível fóssil, ao criar milhões de animais em rígidas condições de confinamento, ao alimentar esses animais com comida para a qual sua evolução não os adaptou, e ao nos alimentarmos com comidas que são muito mais insólitas do que imaginamos, estamos pondo em grave risco nossa saúde e a saúde do mundo natural.”

Fontes: Cartilha Alimentos IDEC, livro “Dilema do Onívoro” (editora Intrínseca) e Sociedade Vegeteriana Brasileira (SVB).

Saiba mais: Livro “Dilema do Onívoro”, de Michael Pollan (editora Intrínseca); “Pequeno Guia de Alimentação Saudável e Consumo Responsável”, de Eduardo Guagliardi e Jane Broch (editora Coluna do Saber)

O que o consumidor pode fazer em prol de uma alimentação sustentável

# Informar-se sobre a importância da agricultura sustentável e seus benefícios para a produção de alimentos, inclusive em relação à saúde dos indivíduos e ambientes.
# Apoiar propostas de produção regional, especialmente a familiar e a associada, com o objetivo de fortalecer a segurança alimentar local e reduzir o desperdício de energia no transporte.
# Exigir que os produtores respeitem as leis ambientais, assim como a legislação trabalhista, e que utilizem métodos menos impactantes ao meio ambiente, adquirindo produtos elaborados com este diferencial.
# Demandar que os vendedores de alimentos estimulem a produção ecológica, inclusive solicitando a certificação dos produtores por um organismo independente, para que possa ter certeza de que os mesmos cumprem todas as exigências ambientais.
# Organizar-se em cooperativas de consumo que estimulem a produção sustentável local e regional.

Fonte: Cartilha Alimentos (IDEC)

*Publicado no informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 -março/abril 2008. Veja o informativo completo aqui.

Curtas
Por Jaqueline B. Ramos*
Líder em desmatamento...

Recentemente o Brasil ganhou notoriedade mundial, mas com um dado que não é motivo nenhum para orgulho. Segundo o relatório Global Monitoring Report, realizado pelo Banco Mundial (Bird) e divulgado no início do mês de abril, a maior parte do desmatamento mundial vem se dando no Brasil e na Indonésia, nesta ordem. No ranking publicado no relatório, relativo ao período de 2000 a 2005, desmatou-se um total de 31 mil quilômetros de área florestal, seguido pela Indonésia, que somou 18,7 mil quilômetros, e o Sudão, que derrubou 5,9 mil quilômetros de sua área florestal.

Brasil e Indonésia são os dois países que detêm as maiores áreas florestais do mundo. De acordo com o relatório, em ambos os casos o desmatamento progressivo tem como causa a transformação das florestas em terras agrícolas. Aqui, a derrubada de florestas se dá por uma demanda específica por carne, soja e madeira. Já na Indonésia a demanda é por madeira e por terras para a obtenção do óleo de palma. Mas em um dado o Brasil ainda se mostrou numa situação mais delicada que a Indonésia: enquanto lá os índices de desmatamento se mostraram inalterados desde 1990, aqui os números cresceram de 2,7 milhões de hectares devastados na década de 90 para 3,1 milhões, segundo o levantamento do Bird.

... e Amazônia em risco (mesmo debaixo de chuva)

E em nível nacional as notícias sobre avanços no desmatamento também são delicadas. E envolvem nada mais nada menos do que a Amazônia. Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na floresta continuou em alta em fevereiro, mês de chuva e, por isso, período no qual historicamente assiste-se a uma diminuição na derrubada da floresta. O sistema Deter do Inpe, que detecta a devastação em tempo real, mostrou que foram derrubados no mês de fevereiro 724 quilômetros quadrados de floresta, número 12% maior que os 639 quilômetros quadrados derrubados em janeiro. O primeiro semestre é considerado como “inverno” na Amazônia, por ser o período de estação chuvosa, e a época na qual o desmatamento tende a cair.

Tubarões em risco

A espécie de tubarão conhecida como “tubarão-martelo” entrará oficialmente na lista de animais ameaçados de extinção em 2008, conforme anunciado recentemente pela IUCN (World Conservation Society) na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência. A causa maior, segundo a organização, é a caça indiscrimada dos animais para atender o mercado bilionário das barbatanas, além da pesca predatória nos oceanos, que fazem os animais como vítimas nas redes e armadilhas.

Estima-se que a população de várias espécies de tubarões, entre os quais o “tubarão-tigre”, o “tubarão-de-cabeça-chata” e o “tubarão-negro”, diminuiu cerca de 95% desde a década de 70. De acordo com a IUCN, o “tubarão-martelo”, que entrará na lista de ameaçados na categoria “globally endangered” (ameaçado globalmente), corre um risco maior pelo fato dos animais jovens habitarem águas rasas perto de costas, fazendo isso como uma forma de fugir de predadores naturais. “Muitos tubarões estão agora em risco de extinção como resultado de um processo de captura descontrolada que acontece há vários anos”, anunciou a IUCN. A atividade de pesca de tubarões em águas internacionais é feita sem qualquer tipo de restrição e uma resolução das Nações Unidas já propõe a regulamentação urgente de cotas de pesca e a proibição da caça para a prática (cruel e covarde) do corte das barbatanas.

Menos embalagens

Todo mundo já ouviu falar sobre a importância na redução do uso de embalagens e de sacolas plásticas. E uma campanha conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente desde o mês de março tem como objetivo reforçar o conceito, incentivando os brasileiros a praticar o consumo sustentável. Com o slogan “A escolha é sua, o planeta é nosso”, a campanha Consumo Consciente de Embalagens consiste numa tentativa de despertar o consumidor a prestar atenção no que está em volta do produto que ele compra, levando em conta a variável ambiental. As embalagens consistem em um terço do lixo doméstico no país e a campanha orientará produtores, varejistas e consumidores sobre as vantagens na utilização de meios alternativos. Um dos focos é o incentivo da substituição de sacolinhas plásticas, usadas principalmente nos supermercados, por sacolas retornáveis, que são reutilizáveis.

“Rio de Janeiro” desintegrado

O processo de aquecimento global deu mais um sinal de seu avanço. E dessa vez no pólo sul, mais especificamente no mar do oeste da Antártica.
Um bloco gigantesco de gelo, que em tamanho se equipara à área da cidade do Rio de Janeiro, entrou em colapso e se desintegrou ao longo do mês de março, conforme divulgou o Centro Britânico de Pesquisas da Antártica. Segundo os cientistas, que acompanharam o fenômeno através de imagens de satélite e imagens feitas por cinegrafistas a partir de sobrevôos no local, a desintegração do imenso bloco de gelo, formado no local há 1,5 mil anos, é definitivamente resultado do aumento progressivo da temperatura no planeta.

Robôs cobaias

No lugar de animais, robôs sendo testados em experiências em laboratórios. Esse avanço importantíssimo para uma ciência mais ética dá seu primeiro passo com cientistas americanos fazendo testes preliminares com substâncias químicas em células criadas artificialmente. Segundo artigo publicado na revista Science, duas agências do governo americano estão estudando a possibilidade de usar robôs de alta-velocidade para a realização de testes de identificação de substâncias químicas com efeitos tóxicos.

O objetivo, em longo prazo é desenvolver métodos de testes que não dependam de animais e sejam rigorosos o suficiente para ser aprovados pelos reguladores. Embora os cientistas afirmem que ainda há muitos anos pela frente até que os testes sem o envolvimento de animais se tornem rotina, esse tipo de pesquisa demonstra que a era de robôs cobaias é uma realidade que se demonstra cada vez mais plausível.

Baterias ecológicas

Pesquisadores do Laboratório Nacional de Luz Sincroton, em Campinas (SP), estudam novos materiais visando tornar baterias de celular e de notebooks em materiais menos impactantes para o meio ambiente – e, também, mais eficientes. Atualmente essas baterias são um problema na hora do descarte, sendo consideradas como lixo eletrônico, cuja eliminação é muito complicada. De acordo com o laboratório, o caminho para baterias com melhor desempenho e mais ecológicas é o uso de materiais nanoestruturados, ou seja, materiais dispostos em partículas muito pequeninas (na ordem de 0,0000000001 metros). Através da nanotecnologia, a intercalação do lítio com o óxido de cobalto na composição das baterias se tornaria muito maior, e, conseqüentemente, mais eficiente e segura para o descarte na natureza.

Fim das queimadas em canaviais

O Governo do Estado de São Paulo e a Orplana (Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil) assinaram no início de março um acordo que antecipa o prazo para se colocar fim na prática das queimadas nos canaviais e estipula a tomadas de ações de sustentabilidade ambiental no setor. De acordo com o Protocolo Agroambiental, lançado em abril do ano passado e assinado por representantes de 13 mil fornecedores do setor sucroalcooleiro, o prazo para a eliminação das queimadas era o ano 2021. Com este acordo o prazo foi antecipado para 2014, tendo ainda possibilidade, como dizem fontes do Governo, de ser adiantado em mais dois anos.

Segundo o Secretário do Meio Ambiente, Francisco Graziano Neto, até agora 141 das 170 indústrias do setor aderiram ao acordo, o que representaria uma redução da área queimada em 109 mil hectares no primeiro ano do funcionamento das diretrizes de conduta ambiental. Ainda de acordo com o secretário, o Estado hoje já colhe 47% da cana-de-açúcar de forma mecanizada, sem queimadas.

Aquecimento global no Brasil

O Jornal Diário de Pernambuco publicou em março o mapa da área do Brasil que mais vai sofrer o impacto do aquecimento global, localizada no semi-árido nordestino. A partir de análises elaboradas pelo cientista José Marengo, um dos principais estudiosos do aquecimento global e mudanças climáticas do Brasil, o aumento da temperatura agravará os problemas de uma região que já sofre com a seca e a miséria da população.

Segundo a reportagem, a área em questão tem 193 mil quilômetros quadrados e está localizada nos limites de três estados - sudeste do Piauí, oeste de Pernambuco e Norte da Bahia. Lá se encontram os piores indicadores sócio-econômicos do país. A reportagem diz que “a maioria das projeções de clima mostra que nesta mesma área a vegetação pode virar de caatinga para vegetação de tipo cactácea e os indicadores sociais são muito baixos, o que dificulta a adaptação das pessoas à alteração climática”. Ainda, segundo o trabalho, “em época de seca, por exemplo, a única alternativa que resta para parte da população é a emigração – tornando-se ‘flagelados’, no vocabulário tradicional, ou ‘refugiados ambientais’, no vocabulário da Era do Aquecimento”.

Velocidade limpa

Cientistas britânicos apresentaram na Feira de Automóveis realizada na Suíça, em março, um produto que seria o sonho de consumo dos apaixonados por velocidade que são conscientes dos impactos ambientais causados por veículos. O Lifecar, carro esporte que chega à velocidade de 150km/h e não emite dióxido de carbono, foi mostrado e comemorado na feira.

O carro, movido a hidrogênio, produz muito pouco barulho e apenas vapor d’água de seu exaustor. O uso de células de combustível avançadas e de um sistema de armazenamento de energia dá ao Lifecar autonomia de 400 km por tanque de hidrogênio. “O conceito básico era construir um carro esporte para lazer e divertimento, que funcionasse como uma vitrine da tecnologia e tivesse capacidade de correr 240 km por galão”, declarou na época da feira a fabricante de carros esportes clássicos Morgan, responsável pelas pesquisas que geraram o Lifecar. Por enquanto o carro de velocidade limpo ainda é um conceito, mas a fabricante não descarta a produção do automóvel para o mercado no futuro, caso ele tenha boa aceitação do público.

Galápagos eólica

Em fevereiro o Governo do Equador deu o primeiro passo para pôr fim à dependência do petróleo do arquipélago de Galápagos. No dia 18 foi inaugurado um parque eólico de US$ 10,8 milhões na ilha de San Cristóbal, que foi celebrado com a declaração do Governo de que o arquipélago ficará livre de combustíveis fósseis até o ano de 2015. Atualmente Galápagos tem 30 mil habitantes e recebe mais de 120 mil turistas por ano. Entre os recursos que chegam do continente para abastecer as ilhas estão grandes quantidades de óleo combustível, usadas para transporte e geração de energia.

Em 2001, um navio-tanque bateu contra um recife exatamente em San Cristóbal e derramou cerca de 568 mil litros de combustível no oceano. Por sorte as correntes desviaram o óleo dos ecossistemas onde vivem milhares de espécies endêmicas do arquipélago e os impactos não foram tão grandes. Mesmo assim, o susto fez com que Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Rússia fizessem uma associação com o Equador, com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e com nove das maiores empresas hidrelétricas do mundo para construir o Projeto Eólico San Cristóbal. Cerca de 50% da energia da ilha agora procede das três turbinas eólicas de 800 quilowatts instaladas.

Chimpanzés não são entretenimento

Especialistas em grandes primatas de renome internacional lançaram um apelo em prol do respeito aos chimpanzés usando argumentos científicos. Em artigo publicado na revista Science no mês de março, nomes como Jane Goodall (primeira cientista a demonstrar que os chimpanzés selvagens também fabricam e usam ferramentas, como as pessoas) e Brian Hare (um dos maiores especialistas na vida mental e social da espécie) afirmam que é preciso parar o quanto antes com o uso de chimpanzés, os parentes mais próximos do homem no mundo animal, como garotos-propaganda e astros da TV ou do cinema.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que os macacos-artistas distorcem a percepção do público sobre a situação da espécie, levando as pessoas a acreditar que se trata de um animal que pode ser usado como bicho de estimação e que não está ameaçado de extinção. Segundo os cientistas-autores do estudo, o objetivo é mostrar que a representação inadequada dos chimpanzés tem conseqüências amplas na atitude do público, que por sua vez têm efeitos ligados à preservação da espécie. Estudos feitos com visitantes em zoológicos americanos mostraram que embora mais de 90% das pessoas soubessem que gorilas e orangotangos estão ameaçados de extinção, menos de 70% delas estavam cientes de que os chimpanzés também estão ameaçados.

Além disso, o estudo também aponta problemas de bem-estar enfrentados pelos chimpanzés “domesticados”: os animais criados por pessoas têm dificuldade para conviver com seus semelhantes e desenvolvem problemas comportamentais que vão da impotência à automutilação, sem contar os maus-tratos sofridos em resposta às atitudes selvagens e naturais dos bichos.

Fontes: BBC, ENN – Environmental News Network, jornal O Globo, Ambiente Brasil, EcoAgência de Notícias, Agência Envolverde
*Publicado no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 - março/abril 2008. Veja o informativo completo aqui.
Pelos homens e pelos animais...

Veterinários da WSPA têm acesso liberado para ajudar animais em Mianmar

Foto: divulgação WSPA
Uma equipe da WSPA que avalia as necessidades dos animais e presta ajuda em casos de desastre recebeu no dia 23 de maio permissão para entrar em Mianmar e começar a dar assistência aos animais dos quais as comunidades locais tanto dependem.

A equipe conta com cinco veterinários, que chegarão na segunda e na terça-feira, logo depois de a WSPA entregar 31 toneladas de ração para os animais. Essa ração será recebida em Mianmar pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), com quem iremos trabalhar.

O líder da equipe, Dr. Ian Dacre, disse hoje que a união das organizações contribui para se conseguir bons resultados:

– Mal podemos esperar para entrar e começar a ajudar os animais. Fazendo isso, nós também iremos melhorar a situação das pessoas que contam com esses animais como alimento e meio de vida. Nosso plano é trabalhar em conjunto com agências humanitárias e usar a logística de trabalho que elas já estabeleceram para prestar ajuda.

A WSPA é a primeira organização de bem-estar animal a receber acesso a Mianmar. Ela irá distribuir alimento, evitar a disseminação de doenças e aliviar o sofrimento dos animais sobreviventes, o que é de vital importância para a recuperação e a segurança alimentar das comunidades afetadas pelo Ciclone Nargis.

segunda-feira, abril 21, 2008



Matar não é a solução

Estado de SP proíbe a matança indiscriminada de animais em CCZs

No último dia 17 as pessoas que acreditam na necessidade do desenvolvimento de políticas públicas sérias para o controle populacional de animais de rua abandonados (principalmente cães e gatos) tiveram um motivo para comemorar. O Governador do Estado de São Paulo, José Serra, sancionou a Lei 12.916, de autoria do Deputado Feliciano Filho (PV), que institui que os centros de controle de zoonoses, canis municipais e congêneres não poderão mais matar os animais de como forma de controle populacional.

Na prática isso significa que a matança indiscriminada de cães e gatos nos CCZs do estado de SP será considerada crime a partir de agora. Trata-se de uma vitória para os animais e um alerta para um problema de saúde pública que é crescente em muitos centros urbanos. A implementação da lei deve ser comemorada, mas ao mesmo tempo é necessário que o Governo providencie mecanismos de controle e fiscalização da prática e que a população participe ativamente divulgando e aplicado no seu dia-a-dia os conceitos de posse (ou guarda) responsável e incentivando a adoção de animais.

Segue abaixo o relato do Deputado Feliciano sobre a lei.

Abs,
Jaqueline B. Ramos

VITÓRIA DOS ANIMAIS. RESPEITO À VIDA!

17/04/2008 - Por Deputado Feliciano Filho - PV

No dia 17 de abril de 2001 quando minha cachorrinha Aila me levou até o centro de zoonoses de Campinas fiquei tão horrorizado com o que vi, e naquele momento fiz uma promessa que daquele segundo em diante dedicaria a minha vida aos animais e lutaria para acabar com as mortes nos centros de controle de zoonoses. Exatamente no dia 17 de abril de 2008, ou seja, há exatos sete anos, consegui cumprir minha promessa.

Foi uma luta muito dura árdua, onde renunciei a minha vida pessoal, mas compensou, pois a partir de agora com a aprovação da Lei 12.916 de minha autoria, os centros de controle de zoonoses (carrocinhas), canis municipais e congêneres não poderão mais matar os animais indefesos, que não tem voz nem a quem recorrer, de forma indiscriminada, como forma de controle populacional, sendo apenas permitida a eutanásia em animais que apresentem males ou doenças incuráveis ou enfermidades infecto-contagiosas que coloquem em risco a saúde pública, devendo ser justificada por laudo técnico que ficará á disposição das entidades de Proteção Animal.

Esta nova Lei autoriza o Governo do estado a fazer convênios com os municípios no intuito de instituir políticas públicas corretas para os animais tais como: castração, identificação e conscientização da população.

Os cães comunitários também estão protegidos, vale lembrar que "Cão Comunitário" é aquele que estabelece com a comunidade laços de dependência e manutenção, embora não possua responsável único e definido, a partir de agora serão recolhidos para esterilização e registro, sendo posteriormente devolvidos aos locais de origem.

Quanto à questão dos cães com mordedura injustificada comprovada por laudo médico, estes serão encaminhados para programas especiais de adoção, podendo somente ser sacrificado após o prazo de 90 dias de seu recolhimento. São Paulo mais uma vez sai na frente dando exemplo, e não tenho dúvida que outros estados seguirão o mesmo caminho.

A APROVAÇÃO DESSA LEI CONFIGURA-SE EM UM ATO HISTÓRICO, DIVISOR DE ÁGUAS E MUDANÇA DE PARADIGMA, POIS ACABA COM UMA PRÁTICA ARCAICA, INEFICÁZ, CRUEL E DESUMANA, ALÉM DE ESTAR DE ACORDO COM O QUE É PRECONIZADO PELA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA DE SAÚDE E COM O PRÓPRIO BEPA (BOLETIM DA SECRETARIA DO ESTADO DE SÃO PAULO).

QUERO CUMPRIMENTAR O GOVERNADOR PELO SEU DISCERNIMENTO, LUCIDEZ, E RESPONSABILIDADE COM A COISA PÚBLICA, A PROBLEMÁTICA DOS ANIMAIS NÃO É SÓ UMA QUESTÃO HUMANITÁRIA, MAS TAMBÉM DE SAÚDE PÚBLICA, MEIO AMBIENTE E DE RESPEITO AO DINHEIRO PÚBLICO; POIS, AS PREFEITURAS, DE UMA FORMA GERAL, GASTAM TRÊS VEZES MAIS PARA PIORAR UMA SITUAÇÃO QUE CRESCE DE FORMA GEOMÉTRICA AO PASSO QUE PODERIAM GASTAR UM TERÇO TRABALHANDO NAS CAUSAS PARA RESOLVER O PROBLEMA.


Temos vagas
O crescimento da produção de biodiesel está puxando a oferta de empregos e os salários em toda a cadeia, mas treinamento e especialização fazem a diferença para empregados e patrões
Usina de biodiese Bsbios, no RS (divulgação)
Por Jaqueline B. Ramos, de São José dos Campos*
* Publicado na Revista BiodieselBR, ano 1, número 4, abril/maio 2008

O aumento na produção de biodiesel no Brasil, impulsionado nos últimos três anos pela Lei 11.097, traz uma série de vantagens ambientais, econômicas e sociais para o país. E uma demanda em específico é também muito importante quando se pensa nos benefícios da produção do combustível verde no longo prazo: a mão-de-obra qualificada para atuar no setor. Por ser uma área relativamente nova, a oferta de empregos na área de biodiesel – do suporte para produção de matéria-prima até o produto final – caminha em ritmo crescente. O resultado é a criação de um nicho de mercado promissor, que abrirá espaço para profissionais que estiverem dispostos a se especializar.

Em outras palavras, quando se fala em empregos no setor de biodiesel, o maior desafio hoje é adequar a oferta de profissionais à pronta demanda por parte das usinas. “Para trabalhar com biodiesel, o ideal é que o profissional tenha conhecimento da área de extração de óleos vegetais e/ou da área petroquímica. A produção de biodiesel é justamente a junção dessas duas áreas. Até achamos profissionais experientes e com este perfil no mercado, mas mesmo assim ainda é necessário treinamento para adequação às novas tecnologias”, explica Erasmo Carlos Batistella, diretor de operações da Bsbios, usina instalada na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul.

O treinamento específico oferecido pelas próprias empresas é uma realidade comum para qualificação da mão-de-obra no setor. A Bsbios, por exemplo, montou um curso junto com a escola local do Senai (Serviço Nacional da Indústria) e com a Intecnial, empresa representante da tecnologia norte-americana importada pela usina, para os 70 funcionários que contratou para dar início à operação da usina há cerca de um ano.

Num panorama geral os empregos se concentram nas áreas de química, biologia, engenharia mecânica e engenharia química, formações de nível superior ligadas às atividades de processo. As usinas também empregam profissionais de formação técnica especializados em mecatrônica, elétrica e química, que geralmente atuam nas atividades de laboratório e operacional. E pensando na cadeia produtiva como um todo, o mercado também gerou um número significativo de empregos para engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas, por conta dos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento de novas culturas em pequenas propriedades rurais incentivados por programas de geração de renda no campo do Governo Federal.

Formação especializada

A formação de pós-graduação tem uma grade que leva o aluno ao conhecimento técnico de todos os elos da cadeia do biodiesel, da agricultura à certificação, passando pela produção, co-produtos e armazenamento. Mas uma das características mais importantes para a formação de um bom profissional na área é a aplicação de uma visão ambiental, que perpassa todas as etapas da cadeia produtiva.

“Os profissionais da área de biocombustíveis, obrigatoriamente, devem ter uma formação mais ecológica. A cadeia produtiva do biodiesel apresenta tanto entraves tecnológicos como ambientais e de gestão”, afirma Iracema Andrade Nascimento, diretora de Pesquisa e Pós-graduação da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FCT), na Bahia, e coordenadora do Mestrado Profissional em Bioenergia oferecido pela instituição.

O mercado formal de biodiesel é novo e exige formação adequada, mas esta deve ser combinada com pioneirismo e inovação. “Os problemas só são vencidos com um planejamento que tenha como uma de suas metas a formação de pessoal qualificado e a atuação de especialistas com uma visão mais eclética” aponta a diretora da FCT.

O diferencial está na implementação de inovações em termos de melhorias tecnológicas e ajustes gerenciais que venham dar competitividade aos custos de produção. “As usinas sentem falta de gestores. Muitas mudanças vão acontecer no mercado diante da necessidade das empresas honrarem o compromisso de adição de biodiesel ao óleo diesel”, explica Osmar de Carvalho Bueno, coordenador do curso de Gestão da Cadeia Produtiva de Biocombustíveis, com ênfase em biodiesel, especialização oferecida pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp).

Salários em alta

Mesmo com o aumento de preço das principais matérias-primas, a tendência para o biodiesel é de forte crescimento, estimulando a oferta de empregos e valorizando as profissões. “É muito provável que a Bsbios contrate mais profissionais a cada ano, e isso vai aquecer ainda mais o mercado.” constata Batistella.

“No geral, os salários pagos aos profissionais da área ainda estão dentro da média de mercado, mas, com base no crescimento projetado para a atividade e na escassez de profissionais prontamente capacitados, a tendência atual é de crescimento dos salários no curto prazo”, ressalta Iracema.

A usina gaúcha já sente os reflexos desse crescimento. "Podemos afirmar que os salários de nossos empregados já têm valores um pouco mais altos do que a média da região”, constata o diretor de operações.

A perspectiva de bons salários aliados à atuação num setor comumente associado a equilíbrio ambiental e desenvolvimento sustentável pode ser a base para uma carreira dos sonhos. E a especialização é um passo importantíssimo para um emprego movido a diesel limpo, mas é a visão ambiental, multidisciplinar e integrada, que faz o especialista ser um profissional do futuro na área de biodiesel.

BOX: Cursos de qualificação

Latu-sensu (especialização)

Gestão da cadeia produtiva de biocombustíveis, com ênfase em biodiesel (Faculdade de Ciências Agrárias, UNESP – Botucatu, SP)
www.fca.unesp.br/pos_graduacao/latosensu/index.php

Pós-Graduação em biodiesel (Centro Federal de Educação Tecnológica de Rio Verde - Cefet-RV, Goiás)
http://www.cefetrv.edu.br/

Strict-sensu (mestrados profissionais)

Mestrado profissional em Agroenergia (Escola de Economia, Fundação Getúlio Vargas – São Paulo, SP)
http://www.eesp.fgv.br/

Mestrado profissional em Bionergia (Faculdade de Tecnologia e Ciências - Salvador, BA)
www.ftc.br/ftc/bioenergia/apresentacao.php

BOX: Desenvolvimento local

Não há dúvidas em relação ao potencial da indústria do biodiesel no incremento do desenvolvimento local nos municípios onde as usinas se instalam. E representantes do próprio poder público das cidades beneficiadas fazem questão de exaltar as vantagens que o biodiesel traz para o seu município e região.

“A construção da indústria da Agrenco na nossa cidade só trouxe benefícios. As obras geraram um aumento muito grande na oferta de empregos na área de construção civil, tanto que profissionais da região tiveram que migrar para a cidade, para atender os serviços que não demos conta sozinhos.” conta Mateus Palmas de Farias, prefeito da cidade de Caarapó, no sudoeste do Mato Grosso do Sul”. Com isso os profissionais se valorizaram e agora recebem salários melhores. “Um pedreiro que trabalhava por R$ 700 por mês, hoje não faz serviços por menos de R$ 1.200”, confirma o prefeito.

A usina da Agrenco em Caarapó já começa a operar este mês (abril) e as obras duraram cerca de três anos. Neste período foram 15 empreiteiras com canteiros de obras que empregaram aproximadamente 15 mil pessoas (1000 contratados por empresa). O crescimento significativo da população flutuante no município aqueceu o mercado imobiliário e agora a cidade tem seus imóveis mais valorizados, sem contar o aumento no volume de vendas por parte de fornecedores locais de materiais de construção. Com a expectativa de que muitos trabalhadores permaneçam na cidade para trabalhar na usina, a previsão é que a economia local continue em plena expansão.

Compromisso social

Mas entre tantos benefícios, o prefeito da cidade sul matogrossense faz questão de ressaltar duas questões que considera vitais para a cidade com a chegada da Agrenco: o incentivo à agricultura familiar e o compromisso social da empresa com o município. “Desde a sua chegada na cidade, a Agrenco vem realizando um trabalho muito importante com os pequenos produtores locais, investindo no desenvolvimento das culturas de mamona, girassol e pinhão-manso. A empresa também patrocinou a reforma e ampliação de uma creche municipal que atende cerca de 200 crianças, o que é extremamente significativo para nós”, conta Mateus.

Em relação à arrecadação de impostos, o prefeito de Caarapó explica que o aumento no valor de tributos recolhidos ainda não foi sentido porque o próprio município ofereceu incentivos de isenção para que a usina se instalasse na cidade. Mas, com o iminente início da operação, a previsão é de aumento substancial na arrecadação.

domingo, abril 13, 2008

Lâmpadas de Água

quinta-feira, abril 03, 2008

Vender ou não animais silvestres, eis a questão...

por Jaqueline B. Ramos*

Mesmo sendo ameaçada de extinção, a ararajuba é uma das espécies que constam na proposta de lista do Ibama de animais silvestres que poderão ser comercializados oficialmente como pets. Proposta gera polêmica e reacende debate ético sobre "pets selvagens"

Há pouco menos de um mês deu-se início uma batalha no campo da comercialização de animais silvestres no Brasil. De um lado o Ibama, que lançou uma consulta pública, que será finalizada neste próximo dia 6 de abril, sobre a lista que define 54 espécies nativas como as únicas que poderão ser vendidas como pets. Do outro os criadores comerciais, dizendo que a lista é muito restritiva e consiste numa ameaça aos trabalhos de conservação que poderiam ser feitos com os investimentos na reprodução dos bichos criados em cativeiro. E no meio disso tudo estão os animais, vivendo em cativeiro ou correndo riscos na natureza, o tráfico a todo vapor e os questionamentos éticos sobre a aquisição de uma espécie selvagem como animal de companhia.

Das 54 espécies listadas pelo Ibama, 51 são aves (a maior parte psitacídeos, como os papagaios) e três são répteis (iguana e dois lagartos). E pára por aí. Se esta lista for aprovada, nenhum primata ou outro mamífero brasileiro, por exemplo, poderá mais ser vendido como animal de companhia. Mas porque uma mudança como essa depois de tanto tempo de comércio legalizado? Segundo a COEFA, Coordenação de Gestão do Uso de Espécies de Fauna do Ibama em Brasília, setor que liderou o trabalho de definição das espécies, os objetivos da lista são combater o tráfico, problema antigo e crescente no Brasil, e aprimorar o trabalho de controle dos técnicos do instituto, que passariam a ter um documento oficial como base para consulta no processo de fiscalização.

Leia a reportagem completa no site O ECO aqui.

*Publicado no site O ECO em 03/04/2008

quarta-feira, março 19, 2008


Uso racional de água: a importância da conservação dos recursos hídricos

Rio Solimões, Amazonas (foto: Jaqueline B. Ramos)

Por Jaqueline B. Ramos*


Você ouve falar todo dia que é importante não desperdiçar água, do contrário ela um dia pode acabar e levar países a guerras no futuro. Mas aí você lembra das aulas na escola onde a professora explicava o ciclo de renovação da água, da evaporação e o retorno em forma de chuva, e se pergunta: se a água é um recurso renovável, qual é o motivo de tanta preocupação? E a resposta é: o impacto, pela ação desenfreada do homem, no ciclo de renovação natural dos recursos hídricos. Em outras palavras: a água vem sendo consumida de forma tão rápida e intensa que não dá tempo de ser renovada (ou de ser tratada de forma viável para sua reutilização ou devolução à natureza).

Além do consumo desenfreado, o desmatamento de áreas naturais e a poluição de rios e mananciais são outros agravantes da conservação dos recursos hídricos. A Organização das Nações Unidas pra Agricultura e Alimentação (FAO) estima que 30% das grandes bacias hidrográficas em todo o planeta já tenham perdido mais da metade de sua cobertura vegetal original, resultando numa redução significativa da quantidade de água disponível.

Outro dado alarmante é que se calcula que 50% dos rios do mundo já estão tão poluídos por esgotos, dejetos industriais e agrotóxicos a ponto de existirem casos irreversíveis, nos quais as fontes de água ficam impossibilitadas de se recuperar e serem utilizadas novamente. É o exemplo do rio Huangpu, maior fonte de água da capital chinesa Xangai. Ele está tão contaminado por poluentes industriais e agrícolas que não registra vida aquática há mais de 20 anos. Aliás, a China, país que mais cresce no mundo e detentor de 20% da população mundial, é um dos que apresentam os problemas mais graves de escassez de água.

Em relação ao consumo progressivo, estima-se que, enquanto a população mundial duplicou no último século (hoje somos mais de seis bilhões de pessoas), o consumo por água aumentou em sete vezes. Os motivos são o crescimento das atividades agrícolas e industriais e da urbanização e a intensificação da ocupação do homem nas bacias hidrográficas. Considerando o fato de que a quantidade de água existente não mudou – 97% consistem em água salgada, 2% correspondem ao gelo nos pólos e topo de montanhas e apenas 1% é água doce disponível para consumo humano -, não é difícil de prever problemas de demanda maior que oferta.

Segundo o Conselho Internacional “World Water”, no ano de 2015 cerca de 3,5 milhões de pessoas viverão em lugares com problemas de escassez de água. A previsão de especialistas é que os maiores problemas de acesso à água de qualidade se dêem em grandes cidades, principalmente naquelas dos “países em desenvolvimento”, que devem assistir a um crescimento maior de sua população. Calcula-se, por exemplo, que toda a água subterrânea da China desapareça em 2030 e que pelo menos 40% da população dos países africanos e 20% dos latino-americanos não terão acesso à água adequada para consumo já nas próximas décadas.

E no Brasil, como estamos?

O Brasil detém 14% da água doce do mundo e 30% dos mananciais subterrâneos (tendo inclusive a maior parte do aqüífero Guarani, o segundo maior reservatório subterrâneo contínuo do mundo). Cerca de 60% da bacia amazônica, que escoa cerca de 1/5 do volume de água doce no planeta, estão em território brasileiro. Analisando esses números pode-se arriscar afirmar que estamos numa situação privilegiada. No entanto, tal privilégio não justifica que devamos relaxar em relação ao uso racional de água e sua conservação.

O patrimônio hídrico do Brasil é um dos mais importantes do planeta, o que nos dá uma imensa responsabilidade em relação à gestão estratégica das nossas águas. Além disso, mesmo diante de tanta abundância também temos nossos paradoxos: no mesmo país que tem exuberante disponibilidade hídrica há áreas críticas de escassez, como é o caso da região semi-árida dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Um dos planos do Governo para atendimento das cerca de 12 milhões de pessoas que já sofrem pela dificuldade de acesso à água é a integração do rio São Francisco com as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional, a chamada Transposição do São Francisco, um projeto com controvérsias técnicas e cujas obras, já iniciadas, são comumente objeto de protesto principalmente por parte de ambientalistas.

Outro paradoxo da nossa imensa riqueza hídrica é o desperdício da água que temos o privilégio de acessar. Em novembro de 2007, o Instituto Socioambiental (ISA) divulgou dados alarmantes a respeito da situação do abastecimento público e saneamento básico nas 27 capitais brasileiras. Em linhas gerais, o estudo revelou que quase a metade – 45% - da água retirada dos mananciais destas cidades é desperdiçada em vazamentos, fraudes e sub-medições. Isso leva a um número de 6,14 bilhões de litros de água jogados fora por dia, ou 2.457 piscinas olímpicas. Esse volume de água é suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas durante um dia, o equivalente a população de um país como a Argentina. Porto Velho joga fora mais de 70% da água captada, detendo a liderança desse tipo de problema.

Se não bastasse o desperdício, o consumo per capita, ainda segundo o estudo do ISA, também é maior que o recomendado pela ONU – 110 litros por dia. A média de consumo mensurada nas capitais é de 150 litros e São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória chegam a consumir mais de 220 litros/habitante/dia. Dados de saneamento básico não são menos desanimadores: quase metade da população das capitais, o equivalente a 19 milhões de pessoas, tem seus esgotos despejados nos rios e no mar sem qualquer tratamento. E cerca de 70% dessas pessoas não têm sequer a coleta e o afastamento dos resíduos, convivendo de perto com a água contaminada. Um dos resultados é um grande número de internações na rede pública de saúde ocasionadas por doenças transmitidas pela água.

Numa breve análise sobre a situação dos recursos hídricos no Brasil e no mundo, já é possível entender melhor porque o ciclo natural da água que aprendemos na escola não está mais conseguindo cumprir sua função de renovação como deveria. E os atuais eventos climáticos resultantes do aquecimento global tornam a probabilidade de uma escassez generalizada de água ainda mais iminente. O impacto na distribuição de chuvas pode gerar secas intensas em determinadas regiões, agravando o cenário de que nem sempre a Natureza oferece a água no lugar, momento e quantidade que precisamos.

Portanto, no próximo dia 22 de Março, o Dia Mundial da Água, lembre-se que há mais motivos de alerta do que comemoração. Fique atento, se informe e faça o que puder para mudar hábitos individuais e coletivos de consumo, de forma a colaborar com o uso racional da água, a conservação dos recursos hídricos e a sua própria qualidade de vida em médio e longo prazos. A água é um recurso insubstituível e não há fontes alternativas para assegurar a saúde das pessoas e do planeta.

Fontes:
ANA – Agência Nacional de Águas: http://www.ana.gov.br/
Instituto Socioambiental (ISA) – Campanha “De Olho nos Mananciais”: http://www.mananciais.org.br/
World Water Council: http://www.worldwatercouncil.org/

Saiba mais:
Water Footprint: http://www.waterfootprint.org/

BOX: Dicas de economia de água em casa

De acordo com a Organização das Nações Unidas, cada pessoa necessita de 110 litros de água por dia para atender as necessidades de consumo e higiene. No entanto, no Brasil este consumo pode chegar a mais de 200 litros/dia, o que significa desperdício de recursos naturais e dinheiro. Veja abaixo algumas dicas de como economizar água sem prejudicar a saúde, a higiene e a limpeza da casa – elas já são bem conhecidas, mas sempre é válido reforçar:

· Tome banhos menos demorados e feche o registro na hora de se ensaboar.
· Reaproveite a água que cai do chuveiro e dos ciclos da máquina de lavar para molhar plantas e outras atividades de limpeza da casa.
· Escove os dentes também com o registro fechado e enxágüe a boca com um copo de água.
· Nunca use a privada como lixeira ou cinzeiro e nunca acione a descarga à toa, pois ela gasta muita água. Mantenha a válvula da descarga sempre regulada e conserte os vazamentos assim que eles forem notados.
· Ao lavar louça, primeiro limpe os restos de comida dos pratos e panelas com esponja e sabão e só depois abra a torneira para molhá-los. Ensaboe tudo que tem que ser lavado e, então, abra a torneira novamente para novo enxágüe. Só ligue a máquina de lavar louça quando ela estiver cheia.
· Junte bastante roupa suja antes de ligar a máquina ou usar o tanque. Não lave uma peça por vez. Caso use lavadora de roupa, procure utilizá-la cheia e ligá-la no máximo três vezes por semana.
· Use um regador para molhar as plantas ao invés de utilizar a mangueira. Para economizar, a rega durante o verão deve ser feita de manhãzinha ou à noite, o que reduz a perda por evaporação.
· Uma piscina de tamanho médio exposta ao sol e à ação do vento perde aproximadamente 3.785 litros de água por mês por evaporação. Com uma cobertura, a perda é reduzida em 90%.
· Adote o hábito de usar a vassoura, e não a mangueira, para limpar a calçada e o pátio da sua casa.

Saiba mais: Programa de Uso Racional da Água/Sabesp – http://www.sabesp.com.br/

BOX: Cobrança pelo uso dos recursos hídricos no Brasil deve gerar R$ 27 milhões em 2008

A Agência Nacional de Águas (ANA) espera arrecadar R$ 27,4 milhões nas bacias do rio Paraíba do Sul e dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) ao longo de 2008. O montante será proveniente da cobrança pelo uso da água de 347 usuários. O dinheiro arrecadado será totalmente transferido para as agências de água das bacias de origem para investimentos em ações de recuperação dos rios, conforme decisão dos respectivos comitês.O valor estimado para este ano supera o de 2007, quando ficou em torno de R$ 22 milhões. Só na bacia PCJ devem ser arrecadados R$ 17,7 milhões – os quais serão cobrados de 97 usuários de recursos hídricos: 50 da indústria; 24 de saneamento, 14 de irrigação, entre outros. Já a bacia do Paraíba do Sul conta com 250 usuários sujeitos à cobrança: são 84 da indústria; 74 de saneamento; 44 de mineração; 32 de irrigação etc. Estima-se que, juntos, eles contribuirão com R$ 9,7 milhões.
Fonte: Revista Digital Água on Line: http://www.aguaonline.com.br/

BOX: Números sobre o uso da água no mundo

Ao contrário do que muitos pensam, o setor que mais utiliza água no mundo não é o industrial, mas o da Agricultura. Estima-se que as atividades agropecuárias – irrigação, tratamento de animais e lavagem de instalações e máquinas – usem cerca de 67% dos recursos hídricos disponíveis, sendo de longe o que mais gasta e o que mais precisa de esforços para o não-desperdício e conservação.

Em segundo lugar estão as Indústrias, utilizando cerca de 23% da água do mundo como matéria-prima para produção de alimentos, papel, tecidos etc. Por último está o que se chama de Abastecimento Público, com aproximadamente 10%, que engloba o uso doméstico (distribuição à residências, hospitais, escolas, parques públicos, combate a incêndios etc) e o uso comercial (escritórios, shopping centers, bares, restaurantes etc).


Fonte: Livro “Como Cuidar do seu Meio Ambiente” (BEI)

*Publicado originalmente no informativo n. 77 (janeiro/fevereiro 2008) do Instituto Ecológico Aqualung. Versão em PDF aqui.

*Publicado também na EcoAgência de Noticias.

Curtas

por Jaqueline B. Ramos*

Últimas da Amazônia 1

Apesar de anunciar oficialmente um possível ritmo de diminuição nos índices de desmatamento da Amazônia, dados relativos à expansão da pecuária na floresta mostram que a tendência não é bem de conservação. Segundo recente reportagem do jornal Folha de São Paulo, entre os anos de 2004 e 2007, somente o estado do Pará aumentou a exportação de carne proveniente da Amazônia Legal em 7.800%.

O crescimento, tão alto que chega a ser incomensurável, tem ligação direta com o aumento do desmatamento, que por sua vez é incentivado por terras baratas e crédito oficial a juros subsidiados. Ou seja, graças a um empurrãozinho do Governo, sai muito mais barato desmatar que investir na recuperação de pastos. Juntando isso ao preço elevado dos produtos agrícolas no mercado mundial, agropecuaristas se vêem num cenário perfeito para avançar sobre a Amazônia em busca de terras baratas e desocupadas para colocar seu gado e plantar suas monoculturas de soja.

Últimas da Amazônia 2


Numa espécie de resposta aos dados alarmantes de desmatamento da floresta que vem sendo divulgados, o Governo anunciou um pacote que visa dar anistia a quem derrubou ilegalmente áreas na Amazônia Legal. De acordo com o plano, que ainda está em estudo pelos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, empresas e agricultores poderão manter 50% das fazendas desmatadas, voltar à legalidade e ter direito ao crédito agrícola oficial se aceitarem recuperar e repor a floresta da outra metade de suas propriedades.

Fazendo as contas, se o plano for aprovado isso significa que o Governo vai legalizar 220 mil quilômetros quadrados de Amazônia desmatada ilegalmente, uma área correspondente à soma dos estados do Paraná e Sergipe. Detalhe: a obrigatoriedade estabelecida no Código Florestal define uma reserva legal correspondente a 80% do tamanho do imóvel, podendo desmatar e produzir nos demais 20%. Felizmente, a idéia é que o código continue valendo para que não derrubou floresta e para novos proprietários.

Mesmo defendendo o raciocínio que é melhor 50% da mata recuperada do que zero, o Governo abriu espaço para discussões e críticas em relação à "anistia dos desmatadores". "Se a decisão não vier acompanhada de outras medidas, como o controle do crédito e a punição para os que agem na clandestinidade, não resolverá nada", disse à imprensa Adalberto Veríssimo, diretor e pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), ao ser perguntado sobre o pacote do Governo.

Baleias em perigo...

Se não bastasse a abertura da temporada de caça às baleias na Antártica, liderada pelos japoneses, do outro lado do mundo, mas precisamente na costa atlântica da Patagônia argentina, especialistas estão tentando descobrir a causa de uma mortandade atípica dos animais. De acordo com o Programa de Monitoramento Sanitário da Baleia-Franca, realizado há cinco anos por três entidades não-governamentais no sul do país, a média anual de mortes saltou de 40 para 85 entre os meses de outubro e novembro.

Com cerca de 5,3 mil exemplares, a colônia de baleias-franca que chega todos os anos à costa Argentina para o período de reprodução é uma das maiores do mundo e atrai milhares de turistas. No entanto, a mortalidade em 2007 foi a maior registrada desde 1971. A grande maioria dos animais mortos é de filhotes e os cientistas trabalham com diversas hipóteses para a causa das mortes, entre elas (e a mais provável) a contaminação causada pelas toxinas das microalgas que dão origem à maré vermelha.

Enquanto isso, na Antártica, as baleias não são vítimas da maré vermelha, mas continuam na mira dos navios japoneses. Neste verão protestos em campo lideradas pelo governo da Austrália e pelas ONGs Sea Shepherd e Greenpeace conseguiram deter algumas ações dos baleeiros, mas mesmo assim algumas capturas aconteceram. E para a situação ficar ainda pior, o grupo conservacionista Humane Society International denunciou que mais da metade das baleias assassinadas em águas da Antártica nos últimos meses estavam grávidas. Das 505 baleias minke capturadas, 262 eram fêmeas grávidas. “São horríveis estatísticas que o governo japonês disfarça como ciência”, declarou Nicola Beynon, porta-voz do grupo na Austrália.

... nos mares ameaçados

Ao que tudo indica, o homem não vêm dando trégua para as baleias e nem para os oceanos. Pelo menos é o que mostra um recente estudo internacional divulgado em fevereiro cujo resultado principal foi a verificação de que nada mais nada menos do que 40% das águas do planeta estão severamente afetadas devido aos impactos antrópicos sobre os mares. Ainda segundo o estudo, apenas 4% de toda a superfície aquática se encontra em níveis aceitáveis de preservação.

Pesquisadores analisaram 17 tipos de impactos humanos nos ecossistemas marinhos, entre eles a pesca predatória, a poluição e o aquecimento, e montaram um mapa, com o objetivo de que o documento auxilie os governos e ONGs no planejamento de novas ações de conservação. Embora a costa brasileira não se encontre entre as regiões mais críticas, o litoral do sudeste, em específico, foi considerado uma área sob alto impacto, devido ao lançamento indiscriminado de esgoto e lixos doméstico e industrial.

Bem-estar aquático

No meio de tantas notícias desanimadoras, uma decisão de uma corte distrital da Califórnia, nos Estados Unidos, pode ser considerada uma luz no fim do túnel. A corte direcionou à Marina norte-americana uma proibição preliminar do uso de sonares de baixa freqüência - Low Frequency Active (LFA) – durante testes e treinamentos em áreas identificadas como habitats de mamíferos aquáticos em situação de risco. Sinais de baixa freqüência dos sonares alcançam grandes profundidades e reverberam nos oceanos em níveis que podem impactar signficativamente o sistema de comunicação, baseado em som, de vários seres marinhos (reprodução, busca por comida etc).

A decisão da Justiça californiana, feita no início do ano, foi celebrada por instituições que desenvolvem trabalhos de conservação e proteção animal. "Esta decisão representa uma nova esperança para a vida de baleias e outros mamíferos aquáticos", declarou Jeffrey Flocken, diretor em Washington do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW, em inglês).

Hamburguers mais conscientes

E falando em bem-estar animal, um dos maiores inimigos dos defensores dos direitos dos animais, o MacDonald's, está anunciando medidas que visam melhorar as condições de bem-estar dos animais que dão origem à matéria-prima dos sanduíches. Pelo menos foi o que anunciou a rede britânica da lanchonete no início do ano, afirmando que bem-estar animal está se tornando um assunto muito discutido e considerado pelo consumidor nos dias atuais.

O MacDonald's na Grã-Bretanha vem servindo ovos de galinhas criadas fora de confinamento há 10 anos e recentemente anunciou que está estudando mecanismos de uma criação ainda mais livre das aves. A rede também estaria estudando formas de criar porcos de forma a que eles possam praticar seu comportamento natural, uma vez que no confinamento o estresse faz que um animal morda o rabo do outro, causando sérios ferimentos (e fazendo com que os criadores optem por uma amputação do rabo como medida preventiva para o problema). Em declaração oficial, a rede britânica da marca teria afirmado que "não se importa em pagar um preço justo por um padrão maior de bem-estar dos animais, porque acredita que isso agrega valor aos produtos e é reconhecido pelos clientes."

Como construir uma casa sustentável

Cada vez vai ficando mais difícil afirmar que a construção de uma casa sustentável não é possível por falta de informação ou conhecimento técnico. A Finep - Financiadora de Estudos e Projetos, empresa ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, disponibilizou para download gratuito o livro "Habitações de baixo custo mais sustentáveis: a Casa Alvorada e o Centro Experimental de Tecnologias Habitacionais Sustentáveis." A obra, resultado do Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare), reúne o histórico e os princípios norteadores dos estudos sobre construções e projetos mais sustentáveis desenvolvidos por integrantes do Núcleo Orientado para a Inovação na Edificação (Norie), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Além de apresentar princípios gerais e diretrizes da sustentabilidade, a publicação descreve detalhadamente estratégias específicas adotadas na busca de conforto ambiental e eficiência energética, aproveitamento e reuso de recursos naturais, gestão da água da chuva e de águas residuais, paisagismo sustentável, escolha de materiais e sistemas construtivos, entre inúmeros outros aspectos priorizados pela construção sustentável. Mais informações no site do programa Habitare - www.habitare.org.br.

Shark oil-free

Uma boa notícia para a conservação de tubarões no mundo foi divulgada recentemente pela ONG Oceana. Depois de se engajar em uma grande campanha mundial contra o uso de óleo de fígado de tubarão - conhecido como squalene, em inglês - em cosméticos, a organização recebeu um comunicado oficial da multinacional Unilever anunciando que a empresa decidiu parar com o uso da substância na produção de suas linhas de cosméticos, entre as quais as famosas Pond's e Dove. A empresa declarou que fará a substituição por uma versão vegetal do óleo e que a nova linha de produção shark oil-free deve levar os primeiros produtos ao mercado já em abril desse ano.

O óleo squalene é encontrado em grandes quantidades em fígados de tubarões, principalmente dos que vivem em maior profundidade. Devido ao valor comercial da substância, usado como emoliente em vários produtos, a captura dos animais especificamente para extração do óleo alcançou níveis alarmantes. Isso contribuiu para a diminuição significativa da população de algumas espécies e levou alguns tubarões para a lista vermelha de ameaçados de extinção. A Europa é o continente que mais extrai e comercializa o óleo de tubarão.

Transgênicos liberados

Na contra-mão sobre os questionamentos e dúvidas acerca dos alimentos transgênicos, o Governo Brasileiro liberou, no início de fevereiro, o plantio e comercialização de duas variedades de milhos transgênicos: um da Bayer (Liberty Link) e um da Monsanto (MON810). Segundo o Greenpeace Brasil, sete dos 11 ministros do Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) ignoraram a documentação fornecida que apresentava evidências contra os milhos geneticamente modificados. Votaram a favor da liberação dos milhos transgênicos os ministros da Agricultura, Ciência e Tecnologia, Relações Exteriores, Desenvolvimento, Defesa, Justiça e Casa Civil. E contra, os representantes das pastas de Saúde, Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário e Aqüicultura e Pesca.

“Infelizmente os ministros do Conselho cometeram o mesmo erro de cientistas da CTNBio ao ignorarem tantos documentos importantes que colocam em dúvida a segurança desses milhos. Alguns países europeus proibiram nos últimos meses a comercialização desses produtos justamente por conta dos problemas apontados por essa documentação”, aponta Gabriela Vuolo, coordenadora da campanha de Engenharia Genética do Greenpeace Brasil. A ONG declarou que agora vai iniciar campanha para alertar a população brasileira sobre os riscos desses produtos e que também pretende cobrar das autoridades e empresas o respeito à lei de rotulagem, que exige a identificação de todos os produtos fabricados no país com 1% ou mais de matéria-prima transgênica. Esta lei está em vigor desde 2004, mas só começou a ser cumprida este ano, e, mesmo assim, apenas por duas empresa (Cargill e Bunge) para um único produto (óleo de soja).

Soluções em energia

Investimentos de R$ 220 milhões em processos de geração de energia que não agridam o meio ambiente. Trata-se de um centro de desenvolvimento montado pela Vale do Rio Doce e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que leva o nome "CDTE - Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Energia". A sede da nova empresa será no Rio de Janeiro, mas o centro de desenvolvimento das tecnologias e processos funcionará no Parque Tecnológico da cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Sendo uma das maiores consumidoras de energia do país, a Vale do Rio Doce está buscando diversificar e otimizar sua matriz energética utilizando mais carvão térmico, combustíveis renováveis e gás natural.

Lixeira flutuante


A maior lixeira do mundo equivale a duas vezes o tamanho dos Estados Unidos e (pasmem!) está no mar. Oceanógrafos norte-americanos chamam as 100 milhões de toneladas de resíduos que flutuam no Oceano Pacífico do Japão ao Havaí de "sopa de plástico". A lixeira flutuante vem sendo acompanhada desde 1997 e, infelizmente, não tem parado de crescer. Charles Moore, oceanógrafo que descobriu o fenômeno, afirma que os resíduos não biodegradáveis mantêm-se concentrados devido às correntes oceânicas, a 500 milhas náuticas da costa da Califórnia.

Cerca de um quinto dos resíduos seriam provenientes de descargas de navios e de plataformas petrolíferas e o restante teria origem no continente.
Por isso, o alerta de Moore é que, a menos que os consumidores reduzam os seus resíduos plásticos, a lixeira pode duplicar de tamanho nos próximos dez anos. Em tempo: segundo a ONU, os resíduos de plástico são responsáveis pela morte de mais de um milhão de aves marinhas e mais de cem mil mamíferos marinhos por ano.

Fontes: BBC Brasil, O ECO, ENN (Environmental News Network), Greenpeace Brasil, Folha de SP, Agência Fapesp

*Publicado no informatino n. 77 (janeiro/fevereiro 2008) do Instituto Ecológico Aqualung. Versão em PDF aqui.

terça-feira, março 11, 2008

Incentivo negativo

por Jaqueline B. Ramos*

O sagui-de-duas-cores, animal brasileiro ameaçado de extinção, é um dos que não necessitam mais de licença para serem pets no Reino Unido (foto: Dominic Wormell/BBC)
Em outubro de 2007, o Governo Britânico divulgou uma notícia que pode minar os esforços de combate ao tráfico de animais silvestres nos países que “abastecem” o comércio ilegal. Após avaliação e consultas técnicas, definiu-se que 33 animais silvestres, totalizando 120 diferentes espécies, não seriam perigosos o suficiente a ponto de necessitarem de licença para serem comprados como animais de estimação pelo público em geral. A decisão levou a uma mudança na lei de Animais Silvestres Perigosos (Dangerous Wild Animals – DWA Act, em inglês) e levantou questionamentos no próprio país.
Na prática, esta mudança significa que qualquer cidadão britânico pode ir a uma pet shop e comprar sagüis, micos, lemurs, pequenos felinos selvagens e até bichos-preguiça sem qualquer espécie de controle. O Departamento para Assuntos de Meio Ambiente, Alimentação e Rurais (DEFRA, em inglês), órgão governamental responsável pela aplicação da lei DWA, se defende das críticas afirmando que o critério seguido foi apenas o do quanto os animais são perigosos para o homem.

Leia a reportagem completa no site O ECO aqui.

* Publicado no site O ECO em 10/03/2008

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Transporte os animais com cuidado, por favor...

Por Jaqueline B. Ramos

Imagine uma viagem de horas, dias e até mesmo semanas em um ambiente lotado e sujo e em temperaturas extremas. O que para nós é cenário de pesadelo, para alguns animais (infelizmente) é realidade. Esta situação é vivida por milhares de bois, vacas, porcos, ovelhas, cavalos, entre outros animais, que são transportados freqüentemente por milhares de quilômetros, por estradas ou pelo mar, e em condições desumanas para chegar num destino final que definitivamente não paga a viagem: o abate.

O questionamento sobre esta dura realidade vivida pelos animais de produção está sendo feito pela campanha Trate com Cuidado, lançada mundialmente no dia 12 de fevereiro pela Sociedade Mundial de Proteção Animal (World Society for the Protection of Animals - WSPA) juntamente com outras organizações internacionais de bem-estar animal. A campanha está divulgando vídeos feitos com câmeras escondidas ao longo de dois anos. A investigação mostra a brutalidade desnecessária com que os animais são tratados e revela que muitos acabam adoecendo ou até mesmo morrendo, devido às péssimas condições a que são submetidos.

A campanha visa alertar os Governos dos países que exportam os animais sobre a crueldade e maus-tratos por trás do transporte, mostrando que é uma escolha ruim tanto para os animais como para os países. “O sofrimento por que esses animais passam é inaceitável no século 21. E não só isso: o transporte de animais vivos faz os países exportadores deixarem de arrecadar tributos e gerar empregos. É preciso substituir essa atividade pelo comércio de carne industrializada somente e pôr fim a esse transporte que não faz mais sentido”, declarou, no lançamento da campanha, Antonio Augusto Silva, Diretor Regional da WSPA Brasil.

Em tempo: o transporte de carne resfriada e congelada é possível, viável e acontece há mais de 125 anos. Por que não levar os animais para um abatedouro próximo da criação e optar pelo risco de espalhar doenças pelo mundo com o transporte dos animais é uma pergunta que não quer calar...

Rotas cruéis: Cada nação exporta determinados tipos de animais, mas as rotas destacadas pela campanha são: Brasil para Líbano, com 183 mil bois por ano que viajam por 3 semanas; Austrália para Oriente Médio, com 4 milhões de ovelhas, 600 mil bois e 57 mil gansos por ano sendo transportados por 3 semanas, podendo chegar até 32 dias para as ovelhas; Canadá para o Havaí, com 15 mil suínos por ano viajando por 7 dias; e Espanha para Itália, com 10 mil cavalos por ano transportados por 36 horas.

Entre as condições desumanas destacadas, segue um relato do modo como os bois são levados do Brasil para o Líbano: a viagem começa no porto amazônico de Belém, onde o gado é comprimido em caminhões sob o abrasador calor amazônico. Durante quatro dias são incapazes de se mover ou deitar e não recebem nem alimento nem água. Os que caem são esmagados ou feridos. No navio, a utilização de ferrões elétricos para carregá-los aumenta ainda mais o estresse do gado enfraquecido. Esmagados contra animais estranhos, os animais se ferem uns aos outros na sua agitação. Insolações, traumas e doenças respiratórias serão dizimadores numa jornada de 17 dias.

Brasil: A campanha enfatiza o comércio internacional, mas o transporte inadequado de animais dentro de um país de dimensão continental como o Brasil também é uma questão delicada. Basta olhar nas rodovias e estradas e perceber as condições de transporte de grande parte dos caminhões de “carga viva” para fazer um flagrante. É caso destes suínos sendo transportados no interior do Estado de São Paulo (fotos tiradas em setembro de 2006). Não precisa ser nenhum especialista para ver que não é a forma mais adequada de transportar os animais.













Fotos: Jaqueline B. Ramos

Outro dado alarmante, fornecido pela WSPA Brasil: em 2007, 1750 animais brasileiros se afogaram quando um navio de transporte de animais vivos afundou parcialmente num porto da Venezuela. Os seus restos em decomposição contaminaram as praias e a linha costeira.

Para se informar melhor sobre a problemática do Transporte de Animais e ver como pode ajudar, veja os vídeos (atenção, as imagens são fortes) e assine a carta a ser encaminhada para o Governo brasileiro no site http://www.handlewithcare.tv/br/. Divulgue a campanha para familiares e amigos e quando ver animais sendo transportados em condições inadequadas, denuncie ao órgão ambiental mais próximo.

Curtas


Recall de bifes

No dia 18 de fevereiro o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos anunciou o maior recall de carne da história do país – 64,9 milhões de quilos. Uma empresa da Califórnia está sendo acusada de ter abatido animais que estavam em condições de saúde adversas. A empresa também está sendo investigada por crueldade contra animais. Vídeos feitos com câmeras escondidas pelo próprio Departamento mostram animais doentes sendo maltratados e cenas como caminhões empurrando gado e animais levando choques elétricos.

O Governo americano acredita que a maior parte da carne determinada a ser retornada já foi consumida, mas garante que há uma possibilidade remota da mesma causar problemas de saúde para os consumidores. O Secretário de Agricultura, Ed Shafer, declarou que ficou espantado com um manejo tão desumano dos animais, que resulta em violações no regulamento de segurança alimentar.

Leia a matéria completa (em inglês) em http://news.bbc.co.uk/go/em/fr/-/1/hi/world/americas/7249911.stm

Por dentro da mente dos animais


Fotos: Vince Musi, National Geographic

A revista National Geographic do mês de março traz uma foto-reportagem que vai agradar a todos que acreditam que os animais são muito mais inteligentes do que o Ser Humano pensa. O fotógrafo Vince Musi apresenta fotos extremamente expressivas e histórias de animais cujo comportamento e cognição são estudados até hoje e ajudam o próprio homem a entender como se dá o nosso processo de aprendizagem. Entre esse animais estão bonobos, border colliers, roedores e até abelhas.

Segundo o fotógrafo, o trabalho não foi só de fotografar os animais, mas tentar captar o que passa por dentro de suas mentes. A conclusão é que animais são muito mais espertos do que você pode imaginar... As fotos acima são só uma palhinha do trabalho de Musi. Veja mais fotos da reportagem e um vídeo do fotógrafo no site da National Geographic.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008















Rafting no Rio Paraíba do Sul

No dia 16 de fevereiro, o projeto Rio Vivo, da rede Band Vale, em conjunto com a Cia do Rafting, empresa de ecoturismo, promoveu uma atividade de educação ambiental muito interessante em São José dos Campos (SP). Um grupo de 40 pessoas, entre os quais representantes do governo local, ambientalistas e jornalistas, foi convidado a fazer um rafting num trecho do rio Paraíba do Sul na cidade. Detalhe: diferentemente dos rios em parques e reservas onde se costuma praticar o esporte, esta descida foi feita num ambiente poluído.

O objetivo deste rafting foi justamente mostrar a situação atual do Paraíba do Sul, que tem entre as maiores causas da sua poluição o crescimento progressivo da ocupação humana na sua área de influência e o desenvolvimento de atividades exploratórias, como a extração de areia, nas áreas de várzea e no entorno do rio.

André Miragaia, Secretário de Meio Ambiente de São José dos Campos, participou do rafting e deu o que pode ser considerada como uma boa notícia: a Prefeitura da cidade está renovando seu contrato com a Sabesp e prevê que até 2011 pelo menos 80% do esgoto da cidade passem a ser tratados. E a meta é que até 2015 se consiga tratar todo o esgoto que chega ao Paraíba através de seus afluentes. Em tempo: a maior parte das cidades do Vale do Paraíba tratam 0% do seu esgoto, refletindo a triste tendência nacional de que quase metade da população das capitais, o equivalente a 19 milhões de pessoas, tem seus esgotos despejados nos rios e no mar sem qualquer tipo de tratamento.

domingo, fevereiro 17, 2008