terça-feira, setembro 23, 2008

Curtas ambientais

Por Jaqueline B. Ramos*

Condenação em massa

Numa decisão inédita, a Justiça Federal da cidade de Eunápolis, na Bahia, condenou empresa e órgãos ambientais juntamente por desmatamento de uma área de 96 mil hectares da Mata Atlântica. A empresa é a Veracel Celulose e os órgãos ambientais são o Centro de Recursos Ambientais (CRA), de âmbito estadual, e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente – IBAMA. A ação foi movida pelo Ministério Público Federal, que denunciou a concessão ilegal de licenças dadas pelos órgãos para a empresa plantar eucalipto em área de mata nativa no extremo sul do estado entre os anos de 1993 e 1996.

A Veracel terá que restaurar, com vegetação nativa, a área desmatada e também foi condenada a pagar uma multa de R$ 20 milhões pelo desmatamento da Mata Atlântica. O CRA foi condenado a pagar 10% do total da multa e o IBAMA terá que apresentar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) do processo de licenciamento da Veracel.

O padre José Koopmans, de Teixeira de Freitas (BA), acompanhou todo o processo de implantação da empresa e foi um dos responsáveis pela denúncia no Ministério Público. Ele declarou para a imprensa na época da divulgação da sentença: "Apenas agora, quinze anos depois, estamos vendo o resultado das primeiras denúncias que fizemos contra a Veracel. Ficou comprovado que aquele processo de implantação sem os estudos necessários foi ilegal". Este é mais um alerta sobre a fragilidade do processo de licenciamento ambiental conduzido pelo Governo, que muitas vezes acaba concedendo licenças sem os critérios técnicos necessários.

Ainda sobre a Mata Atlântica

Mesmo reconhecendo ilegalidades cometidas contra a Mata Atlântica e com a Justiça definindo condenações que visam ajudar na sua recuperação, as notícias sobre a conservação do bioma brasileiro mais ameaçado não são muito boas. Segundo a Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), um estudo realizado pela Universidade do Paraná (UFPR) conclui que a regeneração do bioma é mais complicada do que se imaginava e pode levar milhares de anos.

Com base nos dados de 18 florestas do sul e sudeste do Brasil, os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos para calcular o tempo necessário para que a Mata Atlântica recupere suas características originais. E chegaram à conclusão que algumas áreas levariam de 100 a 300 anos para se recuperar, enquanto outras levariam de mil a quatro mil anos. Para a professora Márcia Rodrigues, do Laboratório de Ecologia Vegetal do Departamento de Botânica da UFPR, a demora para recuperar a Mata Atlântica está ligada à ação do homem no meio ambiente. "Os órgãos ambientais precisam de mais profissionais, pois seus trabalhos ficam aquém do esperado. Além disso, é necessário dar condições econômicas para a população carente que vive próxima às áreas, que acaba usando os recursos da floresta.”

Alimentos X Biodiesel

No cenário de conflito entre alimentos e biodiesel, que vem ganhando manchetes internacionais, um projeto de lei brasileiro tem como objetivo criar um sistema de controle para que a produção de alimentos não fique comprometida. Trata-se do PL 3508/08, do deputado Cleber Verde (PRB-MA), que obriga o produtor rural a plantar um hectare de alimentos para cada hectare que cultivar com lavouras destinadas à produção de biodiesel.

O texto do PL define que o produtor rural informará anualmente ao órgão competente a destinação de suas áreas de lavouras e terá prazo de três anos, contados da data de vigência da lei, para se adaptar às regras. Quem violar a lei ficará impedido de obter financiamentos com recursos do crédito rural por, no mínimo, cinco anos, além de outras sanções definidas em regulamento.

Na avaliação do autor do PL, o Brasil tem perseguido agressiva política de promoção da produção de biodiesel, além da produção de etanol. "A posição do governo é que o país dispõe de terra suficiente para produzir alimentos e combustíveis, não tendo de optar entre um ou outro. Mas o governo esquece que são necessários "investimentos pesados" para correção e descompactação do solo, fertilização e combate de pragas”, declarou o deputado. O PL está sendo analisado, em caráter conclusivo, por comissões da Câmara dos Deputados.

Boas e más notícias para os primatas

Os últimos meses foram de boas e más notícias para os primatas. Enquanto primatólogos anunciavam a descoberta de 125 mil gorilas-da-planície-ocidental nas profundezas da floresta equatorial da República do Congo, um levantamento divulgado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) indica que quase metade das espécies de primatas corre risco de extinção.

Começando pela notícia boa, a descoberta no Congo foi muito celebrada pelo fato dos gorilas estarem entre os primatas mais ameaçados do mundo, pela pressão de caça e do vírus Ebola. E acredita-se agora que a população estimada da espécie possa dobrar. Levantamentos feitos nos anos 80 indicavam que a população dos gorilas era inferior a 100 mil indivíduos e previa-se um declínio de, pelo menos, 50% desde então. Agora estima-se que a população real deve estar entre 175 mil e 225 mil gorilas.

Mas nem por isso os conservacionistas devem relaxar achando que os animais estão salvos. "Não podemos nos tornar complacentes. O Ebola é capaz de matar milhares deles num período muito curto", afirmou para a imprensa Emma Stokes, membro da equipe de pesquisa com os grandes primatas. Nesta mesma linha mais alarmista, a IUCN divulgou a notícia ruim: quase metade das 634 espécies e subespécies dos parentes mais próximos do homem corre risco de desaparecer. A pior situação estaria na Ásia, onde 71% dos primatas foram classificados como "vulneráveis", "ameaçados" ou "criticamente ameaçados".

Segundo a IUCN, a destruição de habitats naturais e, mais recentemente, a caça para o comércio ilegal ou a alimentação explicam a dizimação das espécies. Na América do Sul, a IUCN considera que 40% das espécies de primatas estão correndo perigo e apresentou, no meio do alarme, um caso brasileiro como sinônimo de sucesso: a preservação de micos-leões na Mata Atlântica. Na lista vermelha, a IUCN passou a considerar como “ameaçadas" – e não "criticamente ameaçadas" - duas espécies de micos-leões, os dourados e os pretos.

Estrada amiga dos animais

O Brasil ganha uma estrada 'amiga dos animais'. Com o intuito de diminuir as mortes por atropelamento, que hoje são consideradas como a segunda maior causa da perda de biodiversidade em todo o planeta, ficando atrás apenas da destruição dos ambientes naturais, a rodovia ES-060 (Rodovia do Sol), no Espírito Santo, conta com profissionais que percorrem a estrada recolhendo e identificando os animais atropelados. A intenção é entender os padrões dos acidentes para assim elaborar novas maneiras de lidar com o problema.

A rodovia, que corta três unidades de conservação e liga Vitória e Guarapari, é a única que realiza o monitoramento sistemático de animais silvestres atropelados. As rondas na estrada são feitas a cada 90 minutos, todos os dias do ano e durante 24 horas, num trecho de 57,7 km. Nos Estados Unidos 1 milhão de vertebrados são atropelados por dia em rodovias. No Brasil, apesar de não existirem estimativas sobre o número de animais mortos nessa situação, acredita-se que o índice também seja elevado.

Só faltava essa!

Se não bastassem todos os problemas já enfrentados pela Amazônia, um órgão governamental da Malásia anunciou em julho a intenção de introduzir plantações para extração de óleo de palma na floresta. O Departamento para Desenvolvimento de Terras da Malásia (FELDA, em inglês) declarou que pretende plantar, imediatamente, 100 mil hectares de palmeiras na Amazônia Brasileira. Para o governo do país asiático, a introdução da produção de óleo de palma na Amazônia poderia servir como um modelo de uso sustentável da terra. Mas para os ambientalistas, que já conhecem todos os problemas de destruição de florestas tropicais ligados à extração do óleo de palma, a “exportação” da atividade para a maior floresta tropical do mundo é motivo de muita preocupação.

Fome Zero?

Permitir a caça eventual e em quantidade insignificante de animais silvestres para subsistência do vendedor ou de sua família. Esta é a “proposta de fome zero” do deputado amazonense Silas Câmara, do Partido Social Cristão, autor do Projeto de Lei 2.800/2008. O parlamentar defende sua proposta citando um caso recente de um pai de cinco filhos menores que foi preso por vender periquitos em Manaus. Câmara deu a seguinte declaração à imprensa: “Ele não teria outra forma para sustentar a família. Enquanto isso, os verdadeiros predadores da nossa fauna, os grandes traficantes de animais silvestres, inclusive com redes de tráfico internacional, continuam livres para praticar seus delitos.”

Para Ana Nira Junqueira, médica veterinária consultora da Sociedade Mundial de Proteção aos Animais (WSPA, em inglês), “o projeto é um retrocesso. Abre brechas para traficantes e oportunistas seguirem atuando. A solução é o governo dar condições para que as pessoas vivam dignamente sem cometer crimes ou afetar a conservação das espécies.” O diretor de Uso da Biodiversidade e Florestas do Ibama tem a mesma opinião. Segundo Antônio Carlos Hummel, “o projeto do parlamentar é puro equívoco. Também é muito subjetivo, pois não detalha o que seria uma caça eventual e em quantidade insignificante. A lei já permite a venda de animais silvestres, desde que venham de criadouros autorizados.”

Circo legal não tem animal

Os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraíba e quase 50 cidades, entre as quais Curitiba, Florianópolis e Campo Grande, já têm leis que proíbem o uso de animais em circos. Manter animais em cativeiro para demonstração em espetáculos é uma prática arcaica e o seu fim em todo o país é, se tudo der certo, apenas uma questão de tempo.

O Projeto de Lei 7291, de 2006, está sob análise da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. O projeto dispõe sobre o registro dos circos e o emprego de animais da fauna silvestre brasileira e exótica na atividade circense. Já foi apresentado na Câmara parecer favorável à proibição de animais em espetáculos, mas a pressão dos proprietários de circos pela manutenção da prática é grande e tem influenciado muitos políticos.

No dia 4 de novembro, uma audiência pública no Congresso Nacional abrirá o assunto para discussão e isso definirá, em grande parte, o fim ou não do uso de animais em circos no Brasil. A aprovação de uma lei federal que proíbe o uso de animais em circos colocará o Brasil ao lado de países como Áustria, Dinamarca, Finlândia e Índia, que já oficializaram o fim de circos com animais em seus territórios.

Abaixo assinado para o Congresso Nacional pedindo o fim do uso de animais em circos no Brasil - http://www.petitiononline.com/circobr/petition-sign.html

Pecuária vilã

Cientistas e pesquisadores brasileiros que se reuniram em agosto em Cuiabá, Mato Grosso, na 8ª Conferência Internacional de Áreas Úmidas, lançaram a seguinte conclusão: assim como a Amazônia, a pecuária intensiva também ameaça o Pantanal. A maior planície alagada do mundo já teve 17% da sua paisagem natural devastada e dados da Embrapa de 2004 sugerem que a pecuária intensiva é a grande responsável pela alteração da sua paisagem.

Walfrido Tomás, especialista em gestão da biodiversidade da Embrapa Pantanal, declarou para a BBC Brasil no decorrer da conferência: “a pecuária intensiva está se difundindo no Pantanal, principalmente por meio de pessoas de fora da região, e tem desmatado muito mais do que a tradicional pecuária pantaneira”. De acordo com os cientistas, a pecuária tradicional é mais compatível com o ecossistema do Pantanal porque o pantaneiro vive de acordo com o ciclo das águas da região, não desmata para plantar pasto artificial e sabe quais plantas podem retirar do pasto natural.

Estabilize agora!

Em julho, o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU) fez mais uma afirmação alarmante sobre os efeitos das mudanças climáticas no mundo. Segundo o órgão, a humanidade tem apenas sete anos para estabilizar as emissões de gases que causam o efeito estufa. "Temos uma janela de oportunidade de apenas sete anos, pois as emissões terão que chegar ao máximo até 2015 e diminuir depois disso. Não podemos permitir um atraso maior", explicou declarou Rajendra Pachauri, presidente do IPCC.

A declaração do IPCC foi feita durante uma reunião do órgão com ministros da União Européia ocorrida em Paris. Ainda de acordo com o órgão, as tentativas de enfrentar o problema vão fracassar se o bloco europeu não assumir a liderança nas negociações mundiais. "Se a União Européia não liderar, temo que qualquer tentativa de fazer mudanças e de gerenciar o problema da mudança climática vá desmoronar. Vocês não conseguirão trazer os Estados Unidos para as negociações”, afirmou Pachauri durante o encontro.

Fontes: Ambiente Brasil, RMA, Agência Brasil, BBC Brasil, O Globo on line, Agência Envolverde, O ECO

* Publicado no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung (n. 80 - julho/agosto 2008). Acesse aqui.

sexta-feira, agosto 22, 2008

quinta-feira, agosto 07, 2008

Na lente do satélite, crônica da Amazônia

por Jaqueline B. Ramos*
Tudo começou com uma demanda da extinta SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) no início da década de 70, que pediu ajuda ao grupo de sensoriamento remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE para monitorar, através de imagens de satélite, o processo de ocupação da Amazônia subsidiado pelo Governo. O objetivo era conferir se o desmatamento – leia-se pastagens - estava acontecendo, para justificar os recursos financeiros liberados para o “desenvolvimento da região”. Apesar de não ser para fins de conservação e proteção da floresta, esta demanda rendeu os primeiros frutos do que em 1988 seria chamado de Prodes (Programa de Cálculo de Desflorestamento da Amazônia), um dos sistemas de monitoramento mais avançados do mundo para identificação e quantificação de processos de desmatamento em áreas florestais.

Em linhas gerais, o Prodes consiste em um sistema que utiliza imagens de diversos satélites de monitoramento da superfície terrestre com alta resolução espacial – mede as taxas de corte raso para incrementos superiores a 6,25 hectares – e baixa resolução temporal. Sua função é contabilizar anualmente (de julho a setembro) a área total desmatada e sua principal vantagem é a precisão do geo-referenciamento dos polígonos de deflorestamento. Ao longo dos 20 anos de sua implementação, o Prodes avançou da era analógica para a digital e hoje as estimativas anuais de taxas de desflorestamento da Amazônia Legal estão em constante aperfeiçoamento, graças aos avanços da tecnologia de sensoriamento remoto e das técnicas de interpretação de imagens.
(...)

Fiscalização: uma das grandes vantagens proporcionadas pelo Prodes foi o amadurecimento da crítica feita aos órgãos públicos fiscalizadores em relação à eficiência do controle de desmatamento na Amazônia. Se no início da década a crítica era sobre um possível ocultamento de dados de desmatamento, hoje, 20 anos depois do início do monitoramento, chega-se a uma conclusão mais grave: além de medir o crescente desmatamento na Amazônia, o Prodes acaba medindo a incapacidade dos órgãos responsáveis pela fiscalização em coibir as ações de desmatamento “fotografadas”, algumas vezes, em tempo real.
(...)

Leia a matéria completa no site O ECO - clique aqui.

*Publicado no site O ECO em 07/08/2008

quinta-feira, julho 31, 2008


No dia 4 de novembro, uma audiência pública no Congresso Nacional definirá, em grande parte, o fim ou não do uso de animais em circos no Brasil. Para discutir a questão estarão presentes organizações de proteção animal, por um lado, e donos de circos com animais, por outro.

Atualmente, o PL 7291/2006 está sob análise da Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados, que o votará em breve. O relator do projeto, deputado Antônio Carlos Biffi (PT-MS), já apresentou parecer favorável à proibição, na forma do substitutivo (pág 17 à 20). Entretanto, a pressão dos proprietários de circos pela manutenção da prática é grande e tem influenciado muitos políticos.

Abaixo Assinado pelo fim dos animais em circos - assine aqui. Os estados de SP, RJ, RS, PE e PB e várias outras cidades já têm leis que proíbem circos com animais. Uma lei federal acabará por vez com a prática em todo o país.

O apoio de toda a população através do abaixo-assinado é muito importante para aprovação do PL 7291/2006. A alma do circo é o artista!

Mais informações:

WSPA - http://www.wspabrasil.org/circo-legal.html

Animais de Circo - http://www.animaisdecirco.org/edu_flash.html (apresentação em flash)

terça-feira, julho 29, 2008

Curtas ambientais

por Jaqueline B. Ramos*

Destaque: “Nossa saúde é inseparável da saúde do mundo natural”

Às vésperas da 9ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica, ocorrida no final de maio na Alemanha, a IUCN (International Union for Conservation of Nature) anunciou o lançamento de um livro com informações que demonstram, de forma clara e objetiva, a ligação direta da saúde humana com a biodiversidade do planeta. “Sustentando a vida: como a saúde humana depende da biodiversidade” (‘Sustaining Life: How Human Health Depends on Biodiversity’, editado por Oxford University Press) consiste em um detalhado estudo assinado por especialistas que mostra que uma nova geração de antibióticos e novos remédios para tratamentos de doenças como a osteoporose, falência dos rins e câncer estão ameaçados caso o mundo não faça algo para reverter os crescentes números de destruição de animais e plantas nos ambientes naturais.

Aaron Bernstein é pesquisador da Escola de Medicina da Universidade de Harvard e um dos autores do livro. Ele deu esta pequena entrevista, por e-mail, para o Informativo do Instituto Ecológico Aqualung:

O livro demonstra cientificamente que muitos estudos para avanços na medicina podem ficar comprometidos devido às altas taxas de extinção de espécies registradas. Você poderia destacar as principais ameaças?
Aaron: Apresentamos sete estudos de caso com ursos, caranguejo-ferradura, anfíbios, tubarões, primatas não-humanos, plantas giminospérmicas (com sementes desprotegidas) e moluscos e todos reforçam o fato das espécies ameaçadas serem muito importantes para a medicina. No caso do gênero dos moluscos, por exemplo, dentro dos quais podemos pensar em cerca de 700 espécies que vivem nos recifes de corais, é comprovado que eles produzem provavelmente o maior número e diversidade de substâncias terapêuticas usadas em tratamentos médicos.

Considerando que o Brasil é um dos países mais ricos do mundo em termos de biodiversidade, qual seria o papel do país neste contexto?
Aaron:
Há muitas espécies brasileiras, principalmente de sapos, nas quais vários novos peptideos antimicrobianos (pequenas proteínas que têm capacidade de matar bactérias) já foram identificados, inclusive alguns que ajudaram no desenvolvimento de remédios e avanços no tratamento de hipertensão no decorrer do último século. Felizmente, nenhuma dessas espécies se encontra ameaçada, mas o rápido crescimento do número de espécies brasileiras entrando na Red List alerta para o risco de não termos chance de conhecer animais e plantas antes deles desaparecerem.

Você afirmaria que o principal objetivo do livro é alertar os Governos sobre a importância da preservação da biodiversidade para questões de saúde pública?
Aaron:
Sim, esperamos que o livro seja uma inspiração para mudanças políticas, mas também queremos ajudar todos a perceber que a nossa saúde é inseparável da saúde do mundo natural.

Origem da carne brasileira

O ex-beatle Paul McCartney tem feito um apelo, nos últimos meses, para as pessoas repensarem sua dieta em prol do meio ambiente. Mesmo não se tornando vegetarianas, ele afirma que a diminuição do consumo de carne, escolhendo dias específicos para cortá-la do cardápio, já seria de grande valia para a saúde do planeta. O argumento do músico inglês é embasado em pesquisas e dados que mostram o significativo impacto ambiental causado pela pecuária industrial, passando pela degradação de florestas para formação de pasto e pela grande quantidade de água utilizada para a criação dos animais.

Além do cenário internacional, a discussão sobre pecuária e problemas ambientais também vem ganhando manchetes de jornais no Brasil, pois o assunto está diretamente ligado à devastação da Amazônia. Visando descobrir se a carne vendida não provém de área de desmatamento ou de trabalho escravo e alertar o consumidor sobre a importância de conhecer a origem do produto comprado, o IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor divulgou, no dia do meio ambiente (05/06), o resultado obtido depois de pedir informações detalhadas sobre a origem da carne vendida nas principais redes de supermercado do país. Infelizmente as informações passadas não foram muito convincentes ou esclarecedoras, segundo o instituto.

Em geral, as respostas das empresas afirmam que existe a preocupação sobre a origem da carne, sendo relatada a inclusão de cláusulas contratuais que garantem esse compromisso por parte dos fornecedores. As empresas também afirmaram realizar um controle da efetividade dessas cláusulas, para alguns aspectos, porém não especificaram como é feita essa verificação. Apenas o Carrefour e o grupo Pão de Açúcar detalharam alguns procedimentos de rastreabilidade, mas estes ficam restritos a programas de qualidade específicos que não englobam toda a carne comercializada.

Com o objetivo de incentivar a população a cobrar dos supermercados esse controle de rastreabilidade da carne, o IDEC disponibiliza nos sites www.idec.org.br e www.climaeconsumo.org.br um cartão postal eletrônico que pode ser redirecionado para as empresas. Além disso, o instituto aconselha o consumidor a buscar outros meios para fazer esse questionamento, como pessoalmente nos supermercados ou via Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC).

Alerta sobre aumento do nível do mar

Em abril um grupo de pesquisadores britânicos e finlandeses divulgou uma descoberta que tornam ainda mais sérias as previsões sobre os impactos do aquecimento global. Uma nova análise demonstra que o nível dos oceanos pode aumentar em 1,5 metro até o final deste século. Esta previsão funciona como um alerta se comparada aos números que foram divulgados oficialmente em 2007 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês): o aumento previsto do nível do mar era de 28 a 43 centímetros até 2100.

Um metro e meio é três vezes mais do que o sugerido pelo IPCC e poderá representar um grande impacto em países mais baixos, como Bangladesh, que tem entre 80% e 90% do seu território dentro de um metro ou mais do nível do mar "Nos últimos 2 mil anos a média global foi muito estável, variou apenas cerca de 20 centímetros", afirmou Svetlana Jevrejeva, uma das cientistas autoras do estudo, à BBC. "Mas, no final do século, prevemos que o nível do mar deve subir entre 80 centímetros e 1,5 metro. O aumento rápido nos próximos anos está associado ao derretimento rápido das camadas de gelo.”

Etanol sustentável

"Uma solução climática no mundo não passa por abandonar um combustível por outro. Todos terão de estar envolvidos.” Com esta afirmação, Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção da ONU para Mudanças Climáticas, ressaltou para a imprensa mundial em junho que o etanol brasileiro não gera desmatamento e é sustentável, numa comparação ao biocombustível de óleo de palma e ao etanol do milho, e que muitas das críticas ao combustível vêm da indústria do petróleo.

O representante da ONU também alertou que os países emergentes e produtores de etanol devem estar abertos a debater com o setor do petróleo sobre alternativas de tecnologias limpas. "O que precisamos é que todos se sentem à mesa para discutir. A solução para a questão climática não será a de escolher entre um ou outro combustível. O debate sobre o futuro do etanol precisa ser mais sofisticado", disse. Segundo Boer, o critério de sustentabilidade será o que determinará se o etanol poderá ou não fazer parte da solução climática no mundo de redução das emissões de gás carbônico.

Oceanos “asfixiados”

No mês em que se comemorou o Dia Mundial dos Oceanos (08/06), a WWF (World Wide Foundation) divulgou dados nada animadores sobre a saúde dos mares. De acordo com relatório concluído pela ONG internacional, cerca de 200 mil km² do fundo do mar estão praticamente mortos, número quase quatro vezes maior do que o identificado em estudo similar feito há 13 anos. As principais ameaças para os oceanos são o descarte de lixo nas águas, a pesca predatória e as mudanças climáticas. Tudo isso leva a uma “asfixia das águas”, com a diminuição drástica dos níveis de oxigênio, e a graves conseqüências ecológicas e econômicas para os povos que dependem dos oceanos.

A pesca predatória também gera um outro efeito que indica sérios desequilíbrios nos ecossistemas marinhos: a dramática proliferação de medusas nos oceanos de todo o planeta. O Instituto Oceanográfico de Paris advertiu que as medusas, criaturas marinhas sem cérebro, compostas em sua maior parte por água, foram ocupando em silêncio o vazio deixado pelo voraz apetite humano por pescado. O veneno desses invertebrados, usado para defesa, é bastante forte e mata, por ano, mais pessoas do que ataques de tubarão.

Mas o mais alarmante é que o aumento populacional das medusas tem devastado as espécies marinhas nativas dos mares. Quando atuns, tubarões e tartarugas se tornam mais raros, as medusas perdem seus predadores e, por sua vez, se alimentam de pequenos peixes e de zooplâncton através dos seus tentáculos venenosos. Por isso é difícil que os peixes voltem a habitar lugares colonizados por medusas, mesmo se a atividade pesqueira comercial for reduzida.

Não ao comércio de madeira ilegal

Os Estados Unidos deu um passo à frente no processo de combate à extração de madeira ilegal no mundo. No dia 19 de junho, o Congresso norte-americano aprovou legislação histórica que proíbe a importação de madeira ilegal, incluindo não apenas madeira em tora, mas também diversos produtos florestais, indo de móveis a papéis. Isto faz com que o país seja o primeiro no mundo a proibir comércio de madeira ilegal.

A nova legislação é uma emenda de um estatuto centenário que combate o tráfico de fauna e flora silvestre. Em 180 dias, prazo para a lei entrar em vigor, passa a ser uma violação à lei federal americana a "importação, exportação, transporte, venda, recebimento, aquisição ou compra" de qualquer planta que tiver sido "retirada, possuída, transportada ou vendida" em violação às leis estrangeiras, incluindo proibição ou autorização de exploração madeireira, medidas de proteção florestal e legislação tributária.

Os efeitos da nova lei americana serão importantes para o Brasil: os Estados Unidos são o maior importador individual de madeira amazônica, sendo responsáveis pela compra de 25% do total de madeira extraída na região."Como boa parte da madeira produzida na Amazônia é ilegal, a decisão do Congresso americano pode fechar uma parte importante do mercado para a madeira brasileira", declarou Marcelo Marquesini, coordenador do programa de madeira do Greenpeace na Amazônia.

Desperdício de água

A água desperdiçada nas capitais do Brasil daria para abastecer 38 milhões de pessoas, aproximadamente a população de países como a Argentina. A constatação é do Instituto Socioambiental (ISA), após realização de pesquisa concluída no final do ano passado. Averiguou-se que em várias cidades brasileiras os mananciais apresentam problemas de poluição e de desperdício de água nas redes de distribuição. “A gente perde por dia, antes de chegar à casa dos consumidores, uma quantidade de água muito grande”, disse Marússia Whately, coordenadora do ISA, em entrevista à Rádio Nacional.

Embora o Brasil seja um dos países com maior quantidade de água – cerca de 12% de água potável –, a distribuição no território nacional não é adequada. São Paulo, por exemplo, é uma cidade que já vive o chamado “estresse hídrico” (muita gente e pouca água). Já existe uma produção de água muito próxima do que se precisa tirar dos mananciais para consumo, mas o desperdício de água “pelo caminho” ainda é muito grande. Em São Paulo esse número chega a 30%, o equivalente ao abastecimento de 4 milhões de pessoas.

Aviação limpa

Durante a Cúpula de Aviação e Meio Ambiente, realizada em abril na Suíça, representantes dos principais nomes da indústria da aviação mundial - incluindo a brasileira Embraer - comprometeram-se a acelerar as medidas que diminuam seu impacto no meio ambiente, especialmente no que se refere ao aquecimento global. As empresas reconheceram suas "responsabilidades ambientais" e se comprometeram a fazer todo o possível para minimizar os efeitos causados pela indústria da aviação.

Organizações como a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo, na sigla em inglês) expressaram a intenção de impulsionar o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias, especialmente para viabilizar combustíveis mais limpos. As empresas também afirmaram estarem dispostas a otimizar a eficiência dos combustíveis de suas frotas e em melhorar a elaboração de rotas aéreas, a gestão do tráfego aéreo e as infra-estruturas aeroportuárias. Segundo dados da ONU, a aviação é responsável por 2% das emissões globais de gás carbônico e está previsto que passe a ser responsável por 3% até 2050.

Fontes: BBC Brasil, IUCN, Ambiente Brasil, Agência Envolverde, WWF e Rádio Nacional

*Publicado na edição n. 79 (maio/junho 2008) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung (acesse aqui).
Project R&R: Release & Restitution for Chimpanzees in U.S. Laboratories
Exemplo de construção sustentável: prédio Swiss Re Tower, em Londres, que consome 50% menos energia que edifícios de porte similar

Construção sustentável: o desafio da eficiência ambiental, social e econômica

Por Jaqueline B. Ramos*

A aplicação de conceitos de conservação ambiental e sustentabilidade deve começar dentro de casa. Mas, idealmente mesmo, deve começar na fase da construção do imóvel, seja para uso residencial ou comercial. Entre os vários argumentos para não se colocar em dúvida o porquê da Construção Sustentável, há um que se destaca: muitos não sabem, mas 50% dos gases que provocam o efeito do aquecimento da atmosfera são produzidos e emitidos por atividades da indústria de construção, superando, por exemplo, a poluição que impacta a temperatura global causada por meios de transporte.

Mas o que é Construção Sustentável? As primeiras citações do conceito foram feitas na década de 70, quando a humanidade se viu às voltas com a crise do petróleo. Mas o primeiro grande evento internacional que abordou especificamente o tema aconteceu em 1997, na cidade de Helsink, na Finlândia. Como todos os temas na área ambiental, o conceito de construção sustentável vem amadurecendo e ganhando novas prioridades desde então. De uma forma geral pode-se definir que consiste num sistema construtivo que promove alterações conscientes no entorno, de forma a atender as necessidades de edificação, habitação e uso do homem moderno, preservando o meio ambiente e os recursos naturais, garantindo qualidade de vida para as gerações atuais e futuras (conceito baseado na definição de desenvolvimento sustentável, do relatório Bruntland/ONU).

Ao longo dos anos e com a colocação das ações construtivas em prática, percebeu-se que a construção sustentável não consiste numa “receita de bolo” para resolução de problemas pontuais, mas sim numa forma de pensar a construção de forma multidisciplinar, aliando questões ambientais, sociais e econômicas e usando diferentes áreas de conhecimento para atingir os objetivos de sustentabilidade propostos.

Dentro do conceito de construção sustentável engloba-se desde o modelo mais antigo conhecido como Earthship – sistema arquitetônico de habitação autônoma criado nos anos 70 baseado no uso de resíduos como material de construção, economia e reaproveitamento de água e uso de energia alternativa e de fontes renováveis – até, por exemplo, a idéia de edificação saudável - preserva o meio ambiente e também protege seus ocupantes ou moradores da poluição dos grandes centros urbanos, não sendo uma fonte geradora de doenças, a exemplo do que é conhecido como SEE – Síndrome do Edifício Doente.

O fato é que a construção de uma casa verdadeiramente ecológica, com impactos ambientais minimizados ou eliminados ainda consiste em um desafio, conforme cita Vanderley M. John, Conselheiro e Diretor do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) em entrevista concedida ao Informativo do Instituto Ecológico Aqualung. Segundo Dr. John, a formação de recursos humanos que permitam colocar em prática avanços já conhecidos em termos de uso eficiente de energia e de água, uso de materiais de alto durabilidade e renováveis e busca da qualidade ambiental interna e externa, preceitos da construção sustentável, é urgente no Brasil, pois o setor tem forte tendência para se desenvolver no país. Leia abaixo a entrevista:

Entrevista: Vanderley M. John, Doutor em Engenharia Civil, Conselheiro e Diretor do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS)

O Conselho Brasileiro de Construção Sustentável - CBCS é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que tem por objetivo contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável por meio da geração e disseminação de conhecimento e da mobilização da cadeia produtiva da construção civil, de seus clientes e consumidores. Na visão da entidade, a sustentabilidade deve contemplar as dimensões social, econômica e ambiental da cadeia produtiva da indústria da construção civil. “Estamos trabalhando na formação de redes para o desenvolvimento de novas soluções e produtos, no fomento da formação de recursos humanos e de uma cultura da construção sustentável junto ao mercado e aos consumidores”, diz Dr. John.

IEA: Quais são os principais princípios da Construção Sustentável? O conceito de construção sustentável também engloba princípios de responsabilidade social?

Dr. John: A construção sustentável engloba o 'triple botton line' - meio ambiente,social e economia. Para equilibrar os impactos ambientais e sociais com os resultados econômicos, não devemos pensar só na construção civil. O foco é o ciclo de vida do edifício, pois a maior parte dos impactos ambientais e sociaisocorrem ao longo da utilização do edifício e mesmo a demolição tem impactoimportante.

Existem problemas universais, como mudança climática, emissão de CO2,preservação da natureza etc. Mas os problemas em cada localidade são diferentes. Por exemplo, para os americanos reduzirem a emissão de CO2 , é prioritário trabalhar a questão energética. No Brasil a prioridade talvez seja a questão amazônica, que, na construção, se traduz no uso de madeiras.

A construção sustentável não tem receitas. O desafio é buscar soluções que propiciem um ambiente construído com conforto e segurança, com menor impacto ambiental e maximizando os benefícios para sociedade como um todo (não apenas usuários diretos, mas também trabalhadores, vizinhos etc). Envolve questões diversas, como trabalhar exclusivamente dentro da formalidade ou legalidade (nada de material ou serviços sem nota ou com nota suspeita, respeito a toda a legislação etc), buscar soluções tecnológicas que reduzam o impacto da construção, uso e operação, manutenção e desmobilização do edifício. Temos uma necessidade de discutir sustentabilidade em habitações para classe média e baixa e habitações sociais também. Estas são responsáveis por boa parte dos materiais de construção.

IEA: Quais são os principais materiais usados atualmente para construções sustentáveis? Estes materiais são facilmente encontrados no mercado brasileiro? Seu preço é muito mais alto do que o dos materiais tradicionais?

Dr. John: Normalmente espera-se que seja feita uma lista de materiais sustentáveis e dos não-sustentáveis. Esta divisão não é possível, com exceção de alguns materiais que representam riscos à saúde dos usuários. A sustentabilidade de um material depende de seu processo de produção (matérias-primas, eficiência energética, tipo de combustível etc), da responsabilidade social da empresa que o produz e de sua utilização.. Não é sustentável utilizar um material produzido de forma eco-eficiente e socialmente responsável em uma aplicação para a qual ele não foi desenhado ou o consumo seja, exageradamente, elevado, que resulte em baixa durabilidade, ou ainda, em uma construção que utilize mão-de-obra informal ou desrespeite a legislação urbanística.


Assim, a sustentabilidade é produto de uma combinação de seleção correta domaterial para a aplicação em questão, seleção do fornecedor, que sejaeco-eficiente e socialmente responsável, detalhamento do produto que garantadurabilidade, utilização, manutenção e disposição final adequada. Nem sempre a madeira é mais sustentável que o concreto armado, por exemplo. Se a madeira for produto de extração ilegal, não é sustentável. Por outro lado, se for produzida por manejo florestal (certificada, preferencialmente), somente será sustentável se aplicada de forma durável. Eu diria que a durabilidade é combinar os materiais, cada um em uma aplicação na qual é mais eco-eficiente, selecionar fornecedores, projetar de forma a minimizar consumo do mesmo e protegê-lo da degradação.

IEA: É mais fácil aplicar conceitos de construção sustentável em nívelresidencial ou comercial/industrial (ou vice-versa)? Por que?

Dr. John: Depende de onde o imóvel estiver localizado e da função deste. Se for imóvel residencial na cidade de São Paulo, as questões da água e distâncias de transporte são fundamentais. Em grandes cidades, a permeabilidade do solo e a presença de vegetação são também fundamentais, particularmente em áreas adensadas. Infra-estrutura para coleta seletiva é importante. A energia ésempre importante.

No meio da Amazônia, um edifício em concreto exige o transporte de materiais por longas distâncias, e isso não é sustentável. Se não for economicamente viável não é sustentável. Em cada empreendimento pode se fazer muita coisa em prol da sustentabilidade. Basta a decisão e o desenvolvimento de soluções. Naturalmente soluções avançadas, mais radicais, como incorporação de painéis fotovoltaicos e vidros extremamente sofisticados, que melhoram muito a eco-eficiência, ainda são um investimento caro, em algumas situações. Se o objetivo for fazer uma obra que seja um marco na sustentabilidade, ela não vai sair barata. Mas, embora estas obras sejam inspiradoras, elas em si não são suficientes. Precisamos mudar a construção média.

IEA: Existem normas ou processos de certificação para construções sustentáveis?

Dr. John: O que se vê hoje são os 'edifícios verdes'. Duas metodologias estrangeiras começam a ser aplicadas no mercado brasileiro: a norte-americana LEED e a francesa HQE. Várias instituições de pesquisa brasileiras, dentre elas o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, estão discutindo metodologias próprias.

Em primeiro lugar, certificação nada mais é que uma forma de comunicação. Nomundo inteiro a quantidade de edifícios certificados é pequena, pois elessão desenhados para identificar uma elite de empreendimentos. O LEED estimater certificado 1% do mercado dos EUA, boa parte de edifícios pertencentes aórgãos públicos. Olhado do ponto de vista do número de empreendimentos, oimpacto da certificação é pequeno. Ocorre que estas certificações sãodesenhadas para destacar edifícios que adotam soluções muito avançadas, queatendam problemas prioritários para a sustentabilidade local. Diferente das certificações de qualidade, estas certificações são, por definição, não escaláveis. Algumas centenas ou milhares de edifícios certificados, por si,não vão alterar a sustentabilidade da construção brasileira, a menos que estes empreendimentos sejam indutores: inspirem novos empreendedores, criem mercados para produtos ecoeficentes e incentivem inovações tecnológicas.

Estamos no inicio do movimento, mas temos bases muito boas. Temos muitosprodutos no mercado (aquecedores solares, equipamentos para economia de água e energia, cimentos e aço mais eco-eficientes) e alguns estão entre os melhores do mundo. A certificação de madeiras avança. A qualidade melhorou bastante. Mas falta conhecimento. A formação de recursos humanos é urgente ecertamente é o nosso maior desafio.

IEA: Qual é a situação do Brasil no desenvolvimento e implementação deprojetos de construção sustentável, comparado com outros países? Que país mais se destaca atualmente?

Dr. John: Estamos naturalmente atrasados, mas estamos nos movimentando. O Brasil tem um patrimônio enorme já acumulado. Eletricidade renovável, indústrias de cimento, plástico e aço modernas e, na média, muito eco-eficientes, com produtos modernos, água etc.

Certamente a Inglaterra é o país mais avançado, pois tem uma política pública abrangente e progressiva, sofisticada. O sistema é complexo e único, e hoje tem 65 mil edifícios certificados e 200 mil em certificação. E algumas cidades já estão transformando os critérios de certificação de green buidling em regras municipais. Não tem nada igual no mundo. A Holanda também tem um sistema de políticas públicas muito avançado e, o mais interessante, não dá importância à certificação. A França tem um sistema de políticas públicas diferenciado (incluindo a certificação do impacto ambiental e da saúde dos materiais), que mais recentemente envolveu a criação de um sistema de avaliação chamado HQE.

IEA: Qual seriam as principais dicas para uma pessoa que vai construir uma casa do zero e pretende seguir os preceitos da construção sustentável – que entidades procurar, recorrer a que tipo de profissionais, quais seriam os principais fornecedores, cuidados na compra do terreno etc?

Dr. John: Economia de água, energia e segregação dos resíduos recicláveis sãofundamentais e dependem dos usuários. Energia é usar janelas, desligar a luze substituir as lâmpadas incandescentes por fluorescentes compactas. Trocara geladeira e outros equipamentos PROCEL A. E usar com sabedoria.Água é manutenção de vasos sanitários e torneiras: acabar com vazamentos e torneiras pingando. E também trocar vasos sanitários e válvulas hidras por novos de 6L. Isto é muito importante em condomínios, onde se precisa mobilizar a todos. Uma dica é acompanhar o consumo mensal destes dois insumos.

BOX: Nove princípios da Construção Sustentável

Segundo os sistemas de certificação que são referência na área de construção sustentável no mundo – BREEAM (Inglaterra), Green Star (Austrália), LEED (Estados Unidos) e HQE (França), existem nove princípios que norteiam as diretrizes de uma obra que se proponha a ser ambientalmente equilibrada. São eles:

Planejamento Sustentável da Obra
Aproveitamento passivo dos recursos naturais
Eficiência energética
Gestão e economia da água
Gestão dos resíduos na edificação
Qualidade do ar e do ambiente interior
Conforto termo-acústico
Uso racional de materiais
Uso de produtos e tecnologias ambientalmente amigáveis

Fonte: IDHEA – Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica

BOX: Dicas de Construção e Habitação Sustentável

Uso eficiente de energia

1. Especificação de equipamentos com menor consumo e melhor eficiência possível na utilização do gás natural para todos os fins;
2. Iluminação de baixo consumo energético nas áreas comuns de uso contínuo, e iluminação “incandescente” com acionadores por sensor de presença nas áreas de uso esporádico ou intermitente. Este princípio, com maior tolerância, também é válido para as unidades privadas;
3. Planejamento do consumo energético e utilização de equipamentos para gerar energia em períodos de pico;
4. Melhor aproveitamento possível da iluminação natural, levando-se em conta a necessidade do seu controle;
5. Melhor condição de conforto térmico evitando a incidência da radiação solar direta através da adoção de soluções arquitetônicas tipo brises-soleil, venezianas, telas termo-screen externas, prateleiras de luz, vidros especiais que dispensam o uso de brises etc.;
6. Implementação e otimização de ventilação natural;
7. Adoção preferencial de acabamentos claros nas áreas de grande incidência de luz solar;
8. Tratamento das coberturas do edifício analisando a possibilidade de implementação de áreas verdes ou, caso esta solução não seja possível, utilizar pinturas reflexivas para diminuir a absorção de calor para o edifício;
9. Uso de soluções alternativas de produção de energia como a eólica ou a solar, de acordo com as condições locais. A indústria brasileira está se tornando cada vez mais forte na produção de equipamentos para estes fins, tornando viáveis estes projetos.

Uso eficiente de água

1. Captação, armazenamento e tratamento de águas pluviais para reutilização na irrigação, limpeza, refrigeração, sistema de combate a incêndio e demais usos permitidos para água não potável;
2. Utilização de bacias acopladas e válvulas especiais com o fluxo opcional por descarga, ou de sistemas a vácuo;
3. Reaproveitamento das águas de lavagem, com tratamento local, para utilização sanitária;
4. Utilização de torneiras com acionamento eletrônico ou temporizador por pressão em todas as aplicações passíveis.

Uso de materiais certificados e renováveis

1. Maximização na especificação de materiais sustentáveis objetivando o maior volume possível de utilização de materiais certificados, de manejo sustentável e recicláveis;
2. Planejamento para maior durabilidade possível nas especificações visando alta performance e evitando obsolescência prematura;
3. Utilização de materiais cujos processos de extração de matérias primas, beneficiamento, produção, armazenamento e transporte causem menor índice de danos ao meio ambiente e não estejam baseados em condições de trabalho indignas para os operários.

Qualidade ambiental interna e externa

1- Projetar utilizando técnicas que permitam uma construção mais econômica, menos poluente e que impacte de forma menos agressiva o meio ambiente;
2- Evitar ao máximo a impermeabilização do solo;
3- Evitar danos à fauna, flora, eco-sistema local e ao meio ambiente;
4- Planejar toda a obra e futura operação do edifício procurando minimizar a geração de lixo e resíduos;
5- Evitar todo e qualquer tipo de contaminação, degradação e poluição de qualquer natureza, visual, sonora, ar, luminosa etc;
6- Promover a segurança interna e externa do edifício e seus usuários;
7- Implantação e otimização de todos os recursos para a correta coleta seletiva do lixo, visando a reciclagem de materiais e a menor geração de resíduos descartáveis;
8- Evitar grandes movimentos de terra, preservando sempre que possível a conformação original do terreno;
9- Elaborar um plano eficiente de drenagem do solo para durante e após a execução das obras, evitando-se danos como erosão ou rebaixamento de lençol freático.

Fonte: ASBEA – Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura

* Publicado na edição n. 79 (maio/junho 2008) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung (acesse aqui).

segunda-feira, junho 23, 2008

Quem disse que os animais não são inteligentes?


quarta-feira, junho 18, 2008


"Os impactos da alimentação para o meio ambiente" no site do Instituto Akatu

Comer é um ato agrícola, disse um fazendeiro e economista americano, mas é também um ato ecológico e um ato político.

Por Jaqueline B. Ramos*


*Publicado originalmente no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung (n. 78 - março/abril 2008) e posteriormente na Agência Envolverde.

sábado, junho 14, 2008

Negócios vegetarianos

Por Jaqueline B. Ramos*

É perfeito. Imagine fazer do vegetarianismo também o foco de sua atividade profissional, seja abrindo um negócio ou trabalhando como prestador de serviços. Ser um empreendedor vegetariano aplicando aquilo o que acredita em restaurantes, lojas de produtos naturais, serviços de buffet, marmitas e congelados, marcas de roupas, produtos de higiene artesanais, entre outras atividades. Agora não imagine apenas. Saiba que muitos vegetarianos já fazem isso e aliam um trabalho sustentável – para não dizer lucrativo, no bom sentido da palavra – com o prazer de difundir práticas de respeito, proteção e libertação animal.

“Nosso público é crescente e podemos dizer que o negócio é lucrativo. Mas também trabalhamos muito. A gente respira isso aqui e somos essencialmente cozinheiros, criando cardápios diferentes todos os dias e primando pela qualidade. E a maior compensação é ver como ajudamos a transformar as pessoas. Muitos se tornam vegetarianos depois de freqüentarem o restaurante”, conta o carioca José Roberto Machado, que junto com sua esposa, Maria Lúcia Moreira Machado, comanda, há três anos, o restaurante Caminho do Mar, localizado no Recreio, no melhor estilo entre mar e montanhas na cidade do Rio de Janeiro.

Zé Roberto e Maria Lucia são casados há 18 anos e veganos há pelo menos uns 15. Empreendedores natos, anteriormente ao restaurante situado a uma quadra da praia tiveram outros restaurantes, uma lanchonete e até uma padaria vegana em diferentes bairros cariocas. E segundo Zé Roberto, todos os estabelecimentos “bombaram”. O casal resolveu partir para o novo negócio porque não resistiu à oportunidade de montar um restaurante justamente tão próximo do mar e da montanha.

“Nosso público é bastante diversificado, de surfistas a artistas, inclusive muita gente de fora do Rio, que está na cidade a passeio ou a trabalho. Abrimos de domingo a domingo, faça chuva ou faça sol, e isso é uma marca da casa. Na verdade nossa melhor propaganda sempre foi o boca-a-boca. Aliás, essa é a melhor maneira de disseminar o vegetarianismo”, diz Zé Roberto, que também dá cursos de culinária na casa de pessoas que desejam adequar seus cardápios diários para uma dieta mais saudável.

O atendimento a um número significativo de onívoros e a oportunidade de passar a mensagem do vegetarianismo e demonstrar, na prática, o quanto os pratos sem ingredientes animais são saborosos e acessíveis são pontos comuns citados por donos de restaurantes vegetarianos. “Posso afirmar que 80% das pessoas que freqüentam o restaurante no horário de almoço não são vegetarianas. Nossa idéia é servir as refeições, ensinar as pessoas sobre veganismo e, acima de tudo, oferecer um ambiente onde elas se sintam bem. A força motriz do nosso negócio é a compaixão pelos animais e isso é o que nos impulsiona e dá prazer”, explica Paulo César Alves Nakashima, proprietário do badalado Lar Vegetariano Vegan, localizado no bairro da Lapa, em São Paulo.

O Lar Vegetariano Vegan já é conhecido do público vegano paulistano pelas noites especiais de sexta e sábado (vegan party e pizza vegana) e pela entrega a domicílio de pizzas veganas nos finais de semana. Para conseguir entrar na casa na noite de sábado, por exemplo, só é possível com reserva, o que demonstra o sucesso do negócio. Paulo e a esposa, Ivonete do Amaral Diaz Nakashima, abriram o restaurante na Lapa em setembro de 2005. Veganos há oito anos, tiveram experiências anteriormente com um outro restaurante vegetariano e com a produção de congelados.

“Abrimos o Lar a partir do que vivenciamos e de conversas com muitas pessoas que conhecemos, priorizando sempre pela qualidade e o oferecimento de serviços e produtos diferenciados. Felizmente o retorno tem sido muito bom, o que mostra que o público é crescente, o negócio é próspero. No momento estamos quitando as últimas dívidas, pois acabamos abrindo o restaurante praticamente sem capital de giro, o que foi extremamente difícil. Aliás, se puder dar um conselho para um futuro empreendedor, diria que separar a reserva é essencial na abertura do negócio”, ressalta Paulo.

Negócio e militância

O planejamento financeiro ressaltado por Paulo é, sem sombra de dúvidas, um ponto importantíssimo a ser considerado para abertura de qualquer novo estabelecimento por um pequeno empresário. E para o “empreendedor vegetariano”, soma-se a isso o dever moral de aliar negócios e militância, oferecendo, como uma espécie de brinde, informação diferenciada que agregue valor ao produto vendido ou serviço prestado. A história e o conceito por trás de “O TAO Natural”, um serviço de delivery de produtos vegetarianos, integrais e orgânicos em São Paulo, demonstra bem essa idéia.

“A nossa maior motivação é a possibilidade de ganhar dinheiro e o nosso sustento com algo que beneficia as pessoas. O TAO certamente é um comércio, mas também é uma militância, pois nos colocamos à disposição dos clientes e interessados para enviar receitas e esclarecer, dentro das nossas possibilidades, dúvidas sobre alimentação vegetariana. Principalmente aquele questionamento básico sobre reposição de proteína e ferro para quem está no momento de transição de dieta”, conta Adriana Gomes Guimarães, que toca o serviço de entregas dos produtos juntamente com o marido, Emerson Marinheiro, ambos ovo-lacto vegetarianos há seis anos.

“O TAO Natural” funciona há nove meses e já tem um público formado por vegetarianos, naturalistas, pessoas com problemas de saúde que precisam mudar a dieta, pais e mães preocupados com a saúde dos filhos e atletas – estes, aliás, formam um novo segmento muito importante para o negócio, segundo Adriana. O serviço de entregas a domicílio consiste na primeira experiência de empreendedorismo do casal – ela é profissional da área de Relações Públicas e ele, professor de Educação Física - e foi elaborado e implementado de maneira bastante cuidadosa e gradual. Tanto que os dois continuam com seus trabalhos originais e estão aos poucos, de acordo com o crescimento do negócio, migrando parte do seu tempo para o serviço.

“Estudamos apostilas do Sebrae, fizemos pesquisas de mercado e decidimos abrir algo que não requereu grande investimento, até porque não dispúnhamos de grande capital. Hoje já temos um lucro que faz o negócio valer a pena, apesar de ainda não podermos deixar nossos trabalhos paralelos. Mas acreditamos que conseguiremos fazer com que o TAO seja uma das nossas duas principais fontes de renda, com dedicação integral minha ou do meu marido, no prazo de 18 a 24 meses”, prevê Adriana.

A migração de um trabalho formal para um “empreendedorismo vegetariano” perseguida pelos donos de “O TAO Natural” é a base da história da Vegmatula, um serviço de entregas de marmitas veganas na área do bairro Vila Mariana, em São Paulo. André Cantu sempre fez suas experimentações na cozinha, mesmo antes de se tornar vegetariano, em 1999 (é vegano há dois anos). Forças do destino o levaram a trabalhar durante 16 anos na Eletropaulo e ao longo do tempo a motivação por fazer o que realmente gostava foi crescendo. O emprego público deu condições de André investir na montagem de uma cozinha industrial e em um curso técnico de nutrição na Fundação Getúlio Vargas. Até que em dezembro de 2007 ele se desligou da empresa e em janeiro deu início às atividades da Vegmatula com a esposa, Maria Del Pilar.

“É uma responsabilidade muito grande fazer comida vegetariana de qualidade, principalmente para atender o público onívoro. Atendemos muita gente que está em transição de dieta, que quer se alimentar melhor ou que está preocupada com o meio ambiente. E aí busca respostas no vegetarianismo”, conta André. “Nosso desafio maior é preparar um cardápio variado e saboroso, com pratos diferentes a cada dia. Para tal variamos nos temperos, usamos nossa receita de massa caseira vegana e “queimamos” os miolos para ser criativos. No final do dia estamos extremamente cansados, mas também extremamente gratos.”

Outro motivo de satisfação para os donos da Vegmatula é o sistema de entrega adotado: bicicletas. Dois entregadores – um vegano e um em vias de se tornar – pedalam das 11h às 13h levando as delícias veganas pela Vila Mariana e arredores de segunda à sexta de forma ambientalmente correta. “Por experiência própria e conversando com amigos percebi que existia demanda por marmitas veganas. E nesses poucos meses de trabalho já atestamos que há mesmo, que o negócio é viável. Tanto que não damos conta de entregar para todos que gostariam de receber. Fica aí o recado: há mercado para todo mundo e a concorrência é muito bem-vinda, principalmente para o vegetarianismo”, conclui André.

Sem CNPJ

Há também histórias que podemos chamar de “empreendedorismo sem CNPJ”, de vegetarianos que desenvolviam seus talentos como ativistas e que, com o passar do tempo, transformaram esse dom também na base de seu sustento através de trabalhos autônomos. É o caso da paulistana Luisa Pereira Santos, conhecida por suas camisetas e adesivos com mensagens e pelos sabonetes artesanais 100% vegetais. Luisa, vegetariana há nove anos e vegana há seis, começou a fazer camisetas como fonte de arrecadação de fundos para atividades sociais e de divulgação do veganismo.

“Com o tempo as pessoas começaram a encomendar os produtos e me dei conta que poderia fazer dessa atividade também a minha fonte de renda. Passei então a dedicar mais tempo ao veganismo, unindo o útil ao agradável. Faço minhas coisas em casa e a maior parte das vendas é pela internet e em eventos, além de alguns restaurantes e uma loja em São Paulo. Não tenho planos de abrir uma empresa ou coisa do gênero”, afirma Luisa, que criou a marca Bhumi (em sânscrito, a personificação do Planeta Terra) para batizar seus produtos – 25 tipos de camisetas, 15 de adesivos e 12 sabonetes de diferentes aromas, que produz e vende desde 2003.

Os planos de Luisa é investir mais na divulgação dos produtos pelo site e desenvolver novas estampas para camisetas. Num estilo parecido de trabalho autônomo, o também paulistano Lila Prasada é pau para toda obra quando o assunto é buffets e serviços de comida vegetariana para festas e eventos. Lacto-vegetariano há 15 anos, Lila começou a cozinhar há 11 em um templo Hare Krishna. E não parou mais. Descobriu que sua praia era alimentação sem carne e ao longo da última década já cozinhou em eventos diversos, indo da Verdurada e raves até encontros como o Fórum Social Mundial e almoços beneficentes, passando também pela produção de marmitas, congelados e até uma lanchonete vegana bem popular que teve no bairro do Braz, em São Paulo.

“A demanda por esse tipo de serviço é muito grande e é um mercado muito promissor. Sou bastante flexível e vou atendendo os clientes de acordo com o que precisam. Já cheguei a fazer três mil refeições por dia”, conta Lila, ressaltando que é uma atividade muito gratificante, mas também muito trabalhosa. “É importante que quem se interessa em trabalhar nesse ramo se informe, pesquise e estude. Como eu mesmo administro a prestação de serviços e coordeno um perfil de equipe para me ajudar dependendo de trabalho encomendado, já fiz curso de gestão na área de alimentação e, sempre que posso, vou a feira de alimentos para me atualizar das novidades”.

Da moda urbana ao campo

Pegando o gancho em raves e no público jovem, outra vegana coloca suas idéias em prática no seu negócio. Só que na área de moda. Ana Carolina Caliman, vegana há 12 anos, é uma das proprietárias da grife paulistana King 55, que tem três lojas na cidade e multimarcas que revendem suas peças no Brasil inteiro. O estilo é jovem com uma atitude rock e atual e uma linguagem mais street. A filosofia: o respeito aos animais e ao meio ambiente.

“Estamos sempre tentando inovar e procurando mais opções para substituir matérias-primas de origem animal. Às vezes deixamos de produzir e vender alguns produtos pela falta de materiais alternativos de qualidade, mas nem por isso deixamos de seguir nossos princípios. Nossos vendedores são treinados e no atendimento ao cliente sempre explicamos a filosofia da marca e o porquê do desenvolvimento de produtos sem crueldade”, revela Ana Carolina dando também como exemplo de diferencial da King 55 o fato da lavanderia onde se lavam os jeans e produtos diferenciados ser totalmente ecológica (com captação de água de chuva e reutilização).

Ana toca a King 55 desde meados de 2001 e a loja consiste na sua primeira experiência como empreendedora. Ela divide a sociedade do negócio com seu irmão, também vegano, o pai, que têm experiência de 20 anos no ramo de confecção, e a madrasta. Por ser dona da marca, já passou pela área financeira, de vendas e de gerenciamento de pedidos e hoje se dedica mais ao desenvolvimento de produtos. “Nossos clientes são pessoas que gostam de produtos diferenciados. A preocupação com meio ambiente e com os animais é algo natural e faz parte do DNA da marca. A empresa tem um formato pequeno e não tem intenção de crescer muito, para não perder a autenticidade e a personalidade que tem hoje”, conta.

Dando um salto de cenários, da moda urbana paulistana para os campos sulinos, um outro estilo de negócio também trabalha, entre outras idéias, com a crença de que o homem não deve causar sofrimento aos animais se não quer sentir dor. Trata-se da produção agroecológica de frutas, legumes e verduras e a empreendedora é a engenheira agrônoma Silvana Beatriz Boher, proprietária do Sítio Capororoca, localizado na área rural da cidade de Porto Alegre.

Vegetariana há quatro anos e agroecologista há 10, Silvana desenvolve as atividades no sítio desde 2001. Além do cultivo dos vegetais, com destaque para o de plantas comestíveis não convencionais, também tem uma agroindústria caseira para produção de geléias, compotas, conservas e pães, que são comercializados nas feiras ecológicas da cidade. “Além disso, trabalhamos com turismo rural, recebendo estudantes universitários para estagiar e turistas que desejam conhecer o funcionamento de uma propriedade agroecológica”, conta. “Apesar de ser uma atividade recente, a aceitação é muito boa. Ficamos surpresos com o grande número de pessoas não vegetarianas que nos visitam e expressam muita satisfação ao descobrir que é possível ter uma boa e saborosa refeição sem carne.”

Silvana explica que não houve uma preparação específica para o desenvolvimento de suas atividades e que tudo foi acontecendo como uma reação em cadeia. A maior motivação foi poder trabalhar com produtos mais saudáveis sem agredir o meio ambiente e respeitando os animais, morar no próprio local de trabalho e ter uma melhor qualidade de vida. E qualidade de vida, para um empreendedor vegetariano, está diretamente ligada à possibilidade de combinar trabalho, sustento e prazer de educar, disponibilizar informação e ser exemplo para uma conduta mais ética em relação aos seus semelhantes.

“Quando nos tornamos vegetarianos, direta e indiretamente mostramos a outras pessoas as vantagens da nossa conduta, tanto no que se refere ao consumo de alimentos mais saudáveis quanto à questão ética de não causar dor e sofrimento aos animais. O trabalho com plantas não convencionais abre um leque de alternativas alimentares baratas, de fácil obtenção, nutritivas e saborosas. Os grupos que vêm ao sítio passam a ter uma outra idéia sobre a natureza, a forma de preservá-la e a possibilidade de usufruí-la com o menor impacto possível”, conclui Silvana.

Dicas na hora de montar seu negócio

Gustavo Carrer, consultor de marketing do Sebrae-SP, tem mais de 10 anos de experiência com empresas de pequeno porte que atendem nichos específicos do mercado. Sobre o “empreendedorismo vegetariano”, o consultor tem algumas dicas aplicáveis aos que já são ou pensam em ser empresários focando em produtos ou serviços especializados.

Primeiramente, segundo o consultor, o empresário do ramo vegetariano deve ter como objetivo o atendimento do público que já é consciente e adepto da dieta. “É importante focar em atender bem quem já é vegetariano, o seu público-alvo. Pode-se fazer alguma campanha e passar informações visando a conscientização de outras pessoas, mas isso não pode ser mais importante do que a prestação do serviço ou a venda do produto, do contrário pode se perder o foco e o negócio se tornar insustentável”, diz.

Outra questão ressaltada por Gustavo é não ser radical a ponto de não atender não-vegetarianos – felizmente já vemos que isso não acontece, visto as histórias contadas na matéria. “Entender a natureza e os anseios do público, do vegetariano ao onívoro simpatizante, um comprador sazonal, é essencial para o sucesso do negócio. Aliás, uma das vantagens de um pequeno negócio direcionado a um nicho é o fato do empresário poder estar muito próximo do consumidor, entendendo suas demandas e adequando sua gestão para melhor atendê-lo”.

Outra vantagem ressaltada pelo consultor é a possibilidade de concentração de esforço – leia-se tempo e dinheiro – num mix de produtos e serviços com perfil específico, evitando gasto de energia que seria necessário para atender um público muito diversificado. “Mesmo assim é importante crescer com cuidado. A atividade que é de nicho exige que o empresário tenha um ciclo de atenção maior com os clientes. Como o público, em número de pessoas, tende a ser menor, uma falha pode colocar a perder todo o negócio. A tolerância do público é muito menor com as empresas menores”, completa.

Serviço

• Restaurante Caminho do Mar
Tel.: (21) 3413 0483

• Restaurante Lar Vegetariano Vegan
www.larvegetarianovegan.com.br
Tel.: (11) 3835 2490

• O TAO Natural (entrega de produtos vegetarianos e naturais)
www.otaonatural.com.br
Tel.: (11) 9825 6298

• Vegmatula (marmitas e congelados)
http://acantu.sites.uol.com.br
Tel.: (11) 5579 2273

• Bhumi (camisetas, adesivos e sabonetes 100% vegetais)
www.colchaderetalhos.net
Tels.: (11) 3205 4914, 9466 6806

• Buffets e Festas vegetarianos/veganos
Lilá Prasada
(11) 9530 9561

• King 55 (roupas / moda)
www.king55.com.br
Tels.: (11) 3083 1151, 3045 2654

• Sítio Capororoca (produtos agroecológicos)
www.caminhosrurais.tur.br
Tel.: (51) 3258 5607
* Publicado na Revista dos Vegetarianos, n. 20, junho 2008. Veja a edição completa aqui.

domingo, junho 01, 2008

Os impactos da alimentação para o meio ambiente


Por Jaqueline B. Ramos*

Quando falamos em sustentabilidade, pensamos em ações como não poluir, preservar áreas naturais, reciclar lixo, economizar água, dar preferência às fontes alternativas de energia etc. Mas raramente nos lembramos de relacionar uma de nossas atividades mais básicas com impactos negativos no meio ambiente: o ato de se alimentar. Nos primórdios da humanidade, a alimentação era baseada em frutas, raízes, carnes de animais caçados e outras fontes que não modificavam significativamente a natureza (pelo contrário, tudo fazia parte de um ciclo natural). Com o advento da agricultura e da domesticação de animais, há cerca de 12 mil anos, deu-se início à produção de alimentos.

A passagem do estado nômade para a fixação na terra marcou o início do que chamamos “desenvolvimento da humanidade”. Com o passar dos séculos, o homem foi criando novas formas de manejo do solo e as populações concentradas nas cidades cresceram em ritmo progressivo, aumentando a demanda por alimentos. Até que a chegada da Era Industrial, no final do século XVIII, intensificou a aglomeração de pessoas no ambiente urbano, colocando fim, definitivamente, na ligação direta que o ser humano tinha com a natureza para a obtenção de alimentos. O resultado disso tudo é uma agricultura transformada em indústria que passou a utilizar métodos artificiais, como fertilizantes e pesticidas químicos, irrigação, manipulação genética e uso de hormônios em animais, visando sempre o aumento da produção (e o lucro). Sem contar a dependência por combustíveis fósseis, inclusive no transporte, por longas distâncias, dos alimentos. É a cadeia alimentar industrial.

Se por um lado todo esse advento é considerado positivo, sendo denominado como desenvolvimento ou modernidade, por outro é fato que o modelo de alimentação industrializado é um forte candidato a causar sérios danos à conservação do meio ambiente e também à saúde do homem. E por incrível que pareça, a maior parte das pessoas atualmente não se dá conta disso. A origem dos alimentos que consome simplesmente não faz parte da sua lista de prioridades e a alimentação, o ato mais corriqueiro e básico do dia-a-dia, não é visto sob a perspectiva ambiental ou da sustentabilidade.

“Comer é um ato agrícola, disse, numa frase famosa, Wendell Berry (fazendeiro e economista americano). É também um ato ecológico, além de um ato político. Ainda que muito tenha sido feito para obscurecer esse fato bastante simples, o que e como comemos determinam, em grande parte, o que fazemos do nosso mundo – e o que vai acontecer com ele. (...) Muita gente hoje parece totalmente satisfeita comendo na extremidade da cadeia alimentar industrial sem parar para pensar no assunto”, escreve o jornalista norte-americano Michael Pollan, no seu livro “Dilema do Onívoro”. O jornalista passou cinco anos investigando os bastidores da cadeia industrial alimentícia nos Estados Unidos, reconstituindo o trajeto dos pratos mais consumidos e analisando o caminho percorrido pelo alimento da origem à mesa.

Insumos químicos, agrotóxicos, erosão do solo...

Como afirma o jornalista norte-americano, comer é um ato ecológico, o que faz com que todo cidadão deva, idealmente, ficar atento à origem do alimento que consome e analisar criticamente as técnicas empregadas no sistema de produção. A qualidade e pureza dos alimentos, a sustentabilidade (social e ecológica) dos métodos de produção e os problemas e desigualdades existentes na sua distribuição são algumas das questões que devemos analisar em busca de uma alimentação mais sustentável. Em tempo: é fato que se produz alimento em quantidade suficiente para atender 100% da população mundial. Dificuldades de acesso aos alimentos pela parcela mais carente da sociedade decorrem de problemas sociais e econômicos, que por sua vez causam desequilíbrios na distribuição.

Destacando algumas problemáticas da agricultura moderna para o meio ambiente, uma primeira questão a ser analisada é o uso de insumos químicos. Visando melhorar a produtividade e assegurar índices de produção, agricultores costumam utilizar adubo e fertilizantes em suas plantações. O adubo mais simples, natural e antigo é o esterco, que misturado a restos de vegetais e fermentado de forma correta resulta no composto orgânico. Mas para ser empregado em larga escala, o processo do fertilizante natural se tornou inviável, economicamente falando. Para os empresários do agrobusiness, passou a ser mais rentável o uso de agroquímicos (agrotóxicos e fertilizantes, principalmente), inclusive para viabilizar o cultivo intensivo de uma única cultura em uma área (as monoculturas, principais vilãs da qualidade do solo).

Os fertilizantes industriais contêm altas concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio e metais pesados. O nitrogênio, por exemplo, pode se acumular no solo e ser transformado, por processos químicos, em nitrato. Além de ser um composto cancerígeno, o nitrato pode contaminar o solo e também ser conduzido aos lençóis subterrâneos, contaminando a água.

Outro problema gerado neste cenário é o desequilíbrio ecológico causado pela própria prática da monocultura regada por fertilizantes químicos. Entre os principais indicadores do desequilíbrio está o aparecimento de pragas, doenças e ervas daninhas, que por sua vez são combatidas com agrotóxicos - inseticidas, herbicidas e fungicidas. Ou seja, mais uma carga de substâncias químicas tóxicas bombardeando o meio ambiente e a saúde de quem consome os alimentos, pois estes acabam guardando resíduos dos agrotóxicos e têm alta probabilidade de ficarem contaminados.

Como mais um remediador para o desequilíbrio ecológico conduzido pelo próprio homem e visando, sempre, produtos finais comercialmente mais lucrativos, entram em cena os alimentos transgênicos. Tratam-se de organismos geneticamente modificados (OGMs) desenvolvidos em laboratório. Entre os objetivos da manipulação genética está o de criar plantas mais resistentes a pragas ou até mais resistentes a determinados agrotóxicos. Alimentos transgênicos já são comercializados em vários países – entre eles o Brasil – e ainda há muitas controvérsias em relação aos prós e contras da manipulação genética para a saúde das pessoas e os impactos no meio ambiente. Enquanto os debates e as pesquisas avançam, o importante é o consumidor se informar e exigir a rotulagem dos alimentos transgênicos, de forma a ter condições de decidir por consumir ou não um OGM.

Erosão e o impacto do bife

Uma questão importante decorrente da agricultura moderna é o fenômeno chamado de “erosão genética”. A interferência do homem nas variedades tradicionais com a manipulação de plantas e animais pode consistir em uma ameaça para a diversidade genética, a principal responsável pela capacidade de resistência, imunidade e sobrevivência das espécies.

Quando falamos em erosão é importante também lembrar do processo de degradação do solo decorrente do uso de práticas agrícolas inadequadas e da monocultura combinada com a mecanização, o corte de espécies nativas, a queima da vegetação e a pecuária intensiva. Aliás, esta última rende um capítulo à parte na discussão sobre alimentação sustentável, visto que o aumento no consumo de carne e de seus derivados sobrepôs formas naturais (e mais éticas) de criação dos animais, sem contar os problemas ambientais decorrentes da pecuária.

Numa sociedade majoritariamente onívora, o “impacto do bife” passa por questões de ordem moral – não é à toa a afirmação de que se os abatedouros tivessem paredes de vidro, muita gente se tornaria vegetariana - e também de ordem ambiental. Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês) em 2006 alertou para o fato de que “estoques de animais vivos” mantidos para alimentação são responsáveis por 18% da emissão de todos os gases causadores do aquecimento global, porcentagem que supera, por exemplo, as emissões causadas por todos os veículos automotores do mundo somados.

O levantamento da FAO inclui as emissões de metano provocadas pelo sistema digestivo dos animais, as emissões de CO2 geradas pelas queimadas para a formação de pastos, a energia – quase sempre à base de queima de combustíveis fósseis – usada na fabricação de insumos agrícolas, a energia gasta na produção de ração e no bombeamento de água, a energia dos procedimentos de abate e processamento das carcaças, o combustível usado no transporte de animais vivos e de produtos processados de carne, entre outras questões relacionadas à pecuária.

Seja analisando as técnicas industriais agrícolas ou o modelo intensivo da pecuária, o fato é que a humanidade atingiu um limite perigoso na história de uma relação insustentável com a natureza para obtenção de fontes de alimentos. E nesse momento é importante que cada um, como consumidor, pare para pensar mais criticamente e faça escolhas mais criteriosas e cuidadosas. Como afirma o autor de “Dilema do Onívoro” em um dos trechos do livro, “a insensatez demonstrada na busca por alimentos não é um fenômeno novo. No entanto, os novos atos de insensatez que estamos cometendo na nossa cadeia alimentar industrial hoje são de um tipo diferente. Ao substituir a energia solar pelo combustível fóssil, ao criar milhões de animais em rígidas condições de confinamento, ao alimentar esses animais com comida para a qual sua evolução não os adaptou, e ao nos alimentarmos com comidas que são muito mais insólitas do que imaginamos, estamos pondo em grave risco nossa saúde e a saúde do mundo natural.”

Fontes: Cartilha Alimentos IDEC, livro “Dilema do Onívoro” (editora Intrínseca) e Sociedade Vegeteriana Brasileira (SVB).

Saiba mais: Livro “Dilema do Onívoro”, de Michael Pollan (editora Intrínseca); “Pequeno Guia de Alimentação Saudável e Consumo Responsável”, de Eduardo Guagliardi e Jane Broch (editora Coluna do Saber)

O que o consumidor pode fazer em prol de uma alimentação sustentável

# Informar-se sobre a importância da agricultura sustentável e seus benefícios para a produção de alimentos, inclusive em relação à saúde dos indivíduos e ambientes.
# Apoiar propostas de produção regional, especialmente a familiar e a associada, com o objetivo de fortalecer a segurança alimentar local e reduzir o desperdício de energia no transporte.
# Exigir que os produtores respeitem as leis ambientais, assim como a legislação trabalhista, e que utilizem métodos menos impactantes ao meio ambiente, adquirindo produtos elaborados com este diferencial.
# Demandar que os vendedores de alimentos estimulem a produção ecológica, inclusive solicitando a certificação dos produtores por um organismo independente, para que possa ter certeza de que os mesmos cumprem todas as exigências ambientais.
# Organizar-se em cooperativas de consumo que estimulem a produção sustentável local e regional.

Fonte: Cartilha Alimentos (IDEC)

*Publicado no informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 -março/abril 2008. Veja o informativo completo aqui.

Curtas
Por Jaqueline B. Ramos*
Líder em desmatamento...

Recentemente o Brasil ganhou notoriedade mundial, mas com um dado que não é motivo nenhum para orgulho. Segundo o relatório Global Monitoring Report, realizado pelo Banco Mundial (Bird) e divulgado no início do mês de abril, a maior parte do desmatamento mundial vem se dando no Brasil e na Indonésia, nesta ordem. No ranking publicado no relatório, relativo ao período de 2000 a 2005, desmatou-se um total de 31 mil quilômetros de área florestal, seguido pela Indonésia, que somou 18,7 mil quilômetros, e o Sudão, que derrubou 5,9 mil quilômetros de sua área florestal.

Brasil e Indonésia são os dois países que detêm as maiores áreas florestais do mundo. De acordo com o relatório, em ambos os casos o desmatamento progressivo tem como causa a transformação das florestas em terras agrícolas. Aqui, a derrubada de florestas se dá por uma demanda específica por carne, soja e madeira. Já na Indonésia a demanda é por madeira e por terras para a obtenção do óleo de palma. Mas em um dado o Brasil ainda se mostrou numa situação mais delicada que a Indonésia: enquanto lá os índices de desmatamento se mostraram inalterados desde 1990, aqui os números cresceram de 2,7 milhões de hectares devastados na década de 90 para 3,1 milhões, segundo o levantamento do Bird.

... e Amazônia em risco (mesmo debaixo de chuva)

E em nível nacional as notícias sobre avanços no desmatamento também são delicadas. E envolvem nada mais nada menos do que a Amazônia. Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na floresta continuou em alta em fevereiro, mês de chuva e, por isso, período no qual historicamente assiste-se a uma diminuição na derrubada da floresta. O sistema Deter do Inpe, que detecta a devastação em tempo real, mostrou que foram derrubados no mês de fevereiro 724 quilômetros quadrados de floresta, número 12% maior que os 639 quilômetros quadrados derrubados em janeiro. O primeiro semestre é considerado como “inverno” na Amazônia, por ser o período de estação chuvosa, e a época na qual o desmatamento tende a cair.

Tubarões em risco

A espécie de tubarão conhecida como “tubarão-martelo” entrará oficialmente na lista de animais ameaçados de extinção em 2008, conforme anunciado recentemente pela IUCN (World Conservation Society) na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência. A causa maior, segundo a organização, é a caça indiscrimada dos animais para atender o mercado bilionário das barbatanas, além da pesca predatória nos oceanos, que fazem os animais como vítimas nas redes e armadilhas.

Estima-se que a população de várias espécies de tubarões, entre os quais o “tubarão-tigre”, o “tubarão-de-cabeça-chata” e o “tubarão-negro”, diminuiu cerca de 95% desde a década de 70. De acordo com a IUCN, o “tubarão-martelo”, que entrará na lista de ameaçados na categoria “globally endangered” (ameaçado globalmente), corre um risco maior pelo fato dos animais jovens habitarem águas rasas perto de costas, fazendo isso como uma forma de fugir de predadores naturais. “Muitos tubarões estão agora em risco de extinção como resultado de um processo de captura descontrolada que acontece há vários anos”, anunciou a IUCN. A atividade de pesca de tubarões em águas internacionais é feita sem qualquer tipo de restrição e uma resolução das Nações Unidas já propõe a regulamentação urgente de cotas de pesca e a proibição da caça para a prática (cruel e covarde) do corte das barbatanas.

Menos embalagens

Todo mundo já ouviu falar sobre a importância na redução do uso de embalagens e de sacolas plásticas. E uma campanha conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente desde o mês de março tem como objetivo reforçar o conceito, incentivando os brasileiros a praticar o consumo sustentável. Com o slogan “A escolha é sua, o planeta é nosso”, a campanha Consumo Consciente de Embalagens consiste numa tentativa de despertar o consumidor a prestar atenção no que está em volta do produto que ele compra, levando em conta a variável ambiental. As embalagens consistem em um terço do lixo doméstico no país e a campanha orientará produtores, varejistas e consumidores sobre as vantagens na utilização de meios alternativos. Um dos focos é o incentivo da substituição de sacolinhas plásticas, usadas principalmente nos supermercados, por sacolas retornáveis, que são reutilizáveis.

“Rio de Janeiro” desintegrado

O processo de aquecimento global deu mais um sinal de seu avanço. E dessa vez no pólo sul, mais especificamente no mar do oeste da Antártica.
Um bloco gigantesco de gelo, que em tamanho se equipara à área da cidade do Rio de Janeiro, entrou em colapso e se desintegrou ao longo do mês de março, conforme divulgou o Centro Britânico de Pesquisas da Antártica. Segundo os cientistas, que acompanharam o fenômeno através de imagens de satélite e imagens feitas por cinegrafistas a partir de sobrevôos no local, a desintegração do imenso bloco de gelo, formado no local há 1,5 mil anos, é definitivamente resultado do aumento progressivo da temperatura no planeta.

Robôs cobaias

No lugar de animais, robôs sendo testados em experiências em laboratórios. Esse avanço importantíssimo para uma ciência mais ética dá seu primeiro passo com cientistas americanos fazendo testes preliminares com substâncias químicas em células criadas artificialmente. Segundo artigo publicado na revista Science, duas agências do governo americano estão estudando a possibilidade de usar robôs de alta-velocidade para a realização de testes de identificação de substâncias químicas com efeitos tóxicos.

O objetivo, em longo prazo é desenvolver métodos de testes que não dependam de animais e sejam rigorosos o suficiente para ser aprovados pelos reguladores. Embora os cientistas afirmem que ainda há muitos anos pela frente até que os testes sem o envolvimento de animais se tornem rotina, esse tipo de pesquisa demonstra que a era de robôs cobaias é uma realidade que se demonstra cada vez mais plausível.

Baterias ecológicas

Pesquisadores do Laboratório Nacional de Luz Sincroton, em Campinas (SP), estudam novos materiais visando tornar baterias de celular e de notebooks em materiais menos impactantes para o meio ambiente – e, também, mais eficientes. Atualmente essas baterias são um problema na hora do descarte, sendo consideradas como lixo eletrônico, cuja eliminação é muito complicada. De acordo com o laboratório, o caminho para baterias com melhor desempenho e mais ecológicas é o uso de materiais nanoestruturados, ou seja, materiais dispostos em partículas muito pequeninas (na ordem de 0,0000000001 metros). Através da nanotecnologia, a intercalação do lítio com o óxido de cobalto na composição das baterias se tornaria muito maior, e, conseqüentemente, mais eficiente e segura para o descarte na natureza.

Fim das queimadas em canaviais

O Governo do Estado de São Paulo e a Orplana (Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil) assinaram no início de março um acordo que antecipa o prazo para se colocar fim na prática das queimadas nos canaviais e estipula a tomadas de ações de sustentabilidade ambiental no setor. De acordo com o Protocolo Agroambiental, lançado em abril do ano passado e assinado por representantes de 13 mil fornecedores do setor sucroalcooleiro, o prazo para a eliminação das queimadas era o ano 2021. Com este acordo o prazo foi antecipado para 2014, tendo ainda possibilidade, como dizem fontes do Governo, de ser adiantado em mais dois anos.

Segundo o Secretário do Meio Ambiente, Francisco Graziano Neto, até agora 141 das 170 indústrias do setor aderiram ao acordo, o que representaria uma redução da área queimada em 109 mil hectares no primeiro ano do funcionamento das diretrizes de conduta ambiental. Ainda de acordo com o secretário, o Estado hoje já colhe 47% da cana-de-açúcar de forma mecanizada, sem queimadas.

Aquecimento global no Brasil

O Jornal Diário de Pernambuco publicou em março o mapa da área do Brasil que mais vai sofrer o impacto do aquecimento global, localizada no semi-árido nordestino. A partir de análises elaboradas pelo cientista José Marengo, um dos principais estudiosos do aquecimento global e mudanças climáticas do Brasil, o aumento da temperatura agravará os problemas de uma região que já sofre com a seca e a miséria da população.

Segundo a reportagem, a área em questão tem 193 mil quilômetros quadrados e está localizada nos limites de três estados - sudeste do Piauí, oeste de Pernambuco e Norte da Bahia. Lá se encontram os piores indicadores sócio-econômicos do país. A reportagem diz que “a maioria das projeções de clima mostra que nesta mesma área a vegetação pode virar de caatinga para vegetação de tipo cactácea e os indicadores sociais são muito baixos, o que dificulta a adaptação das pessoas à alteração climática”. Ainda, segundo o trabalho, “em época de seca, por exemplo, a única alternativa que resta para parte da população é a emigração – tornando-se ‘flagelados’, no vocabulário tradicional, ou ‘refugiados ambientais’, no vocabulário da Era do Aquecimento”.

Velocidade limpa

Cientistas britânicos apresentaram na Feira de Automóveis realizada na Suíça, em março, um produto que seria o sonho de consumo dos apaixonados por velocidade que são conscientes dos impactos ambientais causados por veículos. O Lifecar, carro esporte que chega à velocidade de 150km/h e não emite dióxido de carbono, foi mostrado e comemorado na feira.

O carro, movido a hidrogênio, produz muito pouco barulho e apenas vapor d’água de seu exaustor. O uso de células de combustível avançadas e de um sistema de armazenamento de energia dá ao Lifecar autonomia de 400 km por tanque de hidrogênio. “O conceito básico era construir um carro esporte para lazer e divertimento, que funcionasse como uma vitrine da tecnologia e tivesse capacidade de correr 240 km por galão”, declarou na época da feira a fabricante de carros esportes clássicos Morgan, responsável pelas pesquisas que geraram o Lifecar. Por enquanto o carro de velocidade limpo ainda é um conceito, mas a fabricante não descarta a produção do automóvel para o mercado no futuro, caso ele tenha boa aceitação do público.

Galápagos eólica

Em fevereiro o Governo do Equador deu o primeiro passo para pôr fim à dependência do petróleo do arquipélago de Galápagos. No dia 18 foi inaugurado um parque eólico de US$ 10,8 milhões na ilha de San Cristóbal, que foi celebrado com a declaração do Governo de que o arquipélago ficará livre de combustíveis fósseis até o ano de 2015. Atualmente Galápagos tem 30 mil habitantes e recebe mais de 120 mil turistas por ano. Entre os recursos que chegam do continente para abastecer as ilhas estão grandes quantidades de óleo combustível, usadas para transporte e geração de energia.

Em 2001, um navio-tanque bateu contra um recife exatamente em San Cristóbal e derramou cerca de 568 mil litros de combustível no oceano. Por sorte as correntes desviaram o óleo dos ecossistemas onde vivem milhares de espécies endêmicas do arquipélago e os impactos não foram tão grandes. Mesmo assim, o susto fez com que Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Rússia fizessem uma associação com o Equador, com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e com nove das maiores empresas hidrelétricas do mundo para construir o Projeto Eólico San Cristóbal. Cerca de 50% da energia da ilha agora procede das três turbinas eólicas de 800 quilowatts instaladas.

Chimpanzés não são entretenimento

Especialistas em grandes primatas de renome internacional lançaram um apelo em prol do respeito aos chimpanzés usando argumentos científicos. Em artigo publicado na revista Science no mês de março, nomes como Jane Goodall (primeira cientista a demonstrar que os chimpanzés selvagens também fabricam e usam ferramentas, como as pessoas) e Brian Hare (um dos maiores especialistas na vida mental e social da espécie) afirmam que é preciso parar o quanto antes com o uso de chimpanzés, os parentes mais próximos do homem no mundo animal, como garotos-propaganda e astros da TV ou do cinema.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que os macacos-artistas distorcem a percepção do público sobre a situação da espécie, levando as pessoas a acreditar que se trata de um animal que pode ser usado como bicho de estimação e que não está ameaçado de extinção. Segundo os cientistas-autores do estudo, o objetivo é mostrar que a representação inadequada dos chimpanzés tem conseqüências amplas na atitude do público, que por sua vez têm efeitos ligados à preservação da espécie. Estudos feitos com visitantes em zoológicos americanos mostraram que embora mais de 90% das pessoas soubessem que gorilas e orangotangos estão ameaçados de extinção, menos de 70% delas estavam cientes de que os chimpanzés também estão ameaçados.

Além disso, o estudo também aponta problemas de bem-estar enfrentados pelos chimpanzés “domesticados”: os animais criados por pessoas têm dificuldade para conviver com seus semelhantes e desenvolvem problemas comportamentais que vão da impotência à automutilação, sem contar os maus-tratos sofridos em resposta às atitudes selvagens e naturais dos bichos.

Fontes: BBC, ENN – Environmental News Network, jornal O Globo, Ambiente Brasil, EcoAgência de Notícias, Agência Envolverde
*Publicado no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 - março/abril 2008. Veja o informativo completo aqui.
Pelos homens e pelos animais...

Veterinários da WSPA têm acesso liberado para ajudar animais em Mianmar

Foto: divulgação WSPA
Uma equipe da WSPA que avalia as necessidades dos animais e presta ajuda em casos de desastre recebeu no dia 23 de maio permissão para entrar em Mianmar e começar a dar assistência aos animais dos quais as comunidades locais tanto dependem.

A equipe conta com cinco veterinários, que chegarão na segunda e na terça-feira, logo depois de a WSPA entregar 31 toneladas de ração para os animais. Essa ração será recebida em Mianmar pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), com quem iremos trabalhar.

O líder da equipe, Dr. Ian Dacre, disse hoje que a união das organizações contribui para se conseguir bons resultados:

– Mal podemos esperar para entrar e começar a ajudar os animais. Fazendo isso, nós também iremos melhorar a situação das pessoas que contam com esses animais como alimento e meio de vida. Nosso plano é trabalhar em conjunto com agências humanitárias e usar a logística de trabalho que elas já estabeleceram para prestar ajuda.

A WSPA é a primeira organização de bem-estar animal a receber acesso a Mianmar. Ela irá distribuir alimento, evitar a disseminação de doenças e aliviar o sofrimento dos animais sobreviventes, o que é de vital importância para a recuperação e a segurança alimentar das comunidades afetadas pelo Ciclone Nargis.