quinta-feira, maio 13, 2010

A força do cyberativismo ambiental


Por Jaqueline B. Ramos*

Cada vez mais, ativistas do mundo inteiro recorrem às diferentes ferramentas da internet para trocar informações, denunciar agressões ao meio ambiente e
organizar protestos.


Ativismo sempre foi uma palavra de ordem de muita força na defesa do meio ambiente. E, nos últimos anos, com o avanço exponencial da internet, o ativismo através da rede – ou cyberativismo – se desenvolveu em proporções inimagináveis, envolvendo
um crescente número de pessoas de uma forma cada vez mais intensa e comprometida. Bom para o meio ambiente, que tem ao seu lado mais um forte aliado.

Cyberativismo consiste num modelo de atuação que utiliza as novas tecnologias de informação e comunicação – ou, no jargão internético, TICs – como palco de suas ações e parâmetro estrutural de sua organização. “A importância da internet hoje para as nossas campanhas é indiscutível, tanto no sentido de informar as pessoas como no de sensibilizar e facilitar a participação. E isso acaba se transformando numa forte ferramenta de pressão política, pois fica evidente para o governo que o público vê o que está acontecendo, entende o quanto aquilo pode impactar suas
vidas e exige ações de mudança”, afirma Mariana Schwarv, publicitária da área de marketing online do Greenpeace Brasil. “A verdade é que a internet dá voz a todo mundo.”

O Greenpeace é um dos principais exemplos de organização que “usa e abusa” da internet tanto para seustrabalhos de informação e conscientização como de levantamento de recursos. E no Greenpeace Brasil não é diferente. A estratégia é usar os diferentes recursos oferecidos hoje pela rede para atingir um número cada vez maior de pessoas com uma linguagem clara e objetiva. Em termos práticos, isso significa que o Greenpeace está em todas as modernas redes sociais – Orkut, Facebook e Twitter, por exemplo – e utiliza recursos como vídeos, animações e flash
para tornar as mensagens digitais cada vez mais acessíveis.

Os números confirmam o sucesso do cyberativismo da ONG. O cadastro base de cyberativistas do Greenpeace Brasil é composto atualmente por nada mais nada menos que 260 mil nomes. E o Twitter da organização tem mais de 32 mil seguidores, sendo o maior e o que faz mais sucesso entre todos os escritórios do Greenpeace no mundo – incluindo o internacional, que tem “apenas” 14 mil seguidores.

“Usamos o Twitter há pouco mais de seis meses e felizmente tem sido um grande sucesso. Procuramos twittar notícias e também informações de serviço para os internautas, bem como ações ao vivo, o que desperta um grande interesse. Em termos de volume de pessoas envolvidas, também destacamos o Orkut, que reúne comunidades ligadas diretamente às nossas campanhas e também comunidades simpatizantes”, diz Mariana. Ela destaca a recente campanha online sobre a MP-458 (de regularização fundiária da Amazônia), na qual divulgaram os telefones do gabinete do presidente Lula e cujo resultado foi que os internautas lotaram a caixa postal presidencial com mensagens contrárias à aprovação da lei.

O jornalista e escritor Vilmar Berna, um dos precursores no movimento de divulgação de informações no movimento ambiental brasileiro, é um dos entusiastas da internet e do cyberativismo. Editor do Portal do Meio Ambiente e fundador da Rede Brasileira de Informação Ambiental(Rebia), ele lembra que a internet é um território livre, não controlado por político algum. “Todos sabem o poder que o povo tem e não há um político que não tema esse poder popular. Nesse contexto, a internet assume um papel muito importante”, garante.

Inclusão digital e atuação in loco

Em meio ao avanço exponencial do cyberativismo, com todos os modernos recursos
oferecidos pela rede, uma questão merece ser ressaltada: o acesso, propriamente dito, à internet. Apesar de ser um veículo democrático e livre, a web ainda é um privilégio que não alcança nem 20% da sociedade brasileira. E isso é um ponto que merece ser considerado.

“Acho que todos os recursos cumprem seu papel na rede virtual. São ferramentas de comunicação livres e interativas, de mão dupla, em que a gente é influenciado e também influencia. O desafio é promover a inclusão digital de mais e mais brasileiros e lutar pela democratização da informação socioambiental, pois, sem
acesso adequado à informação, dificilmente a sociedade conseguirá avançar a tempo rumo a um modelo diferente de desenvolvimento deste que está conduzindo a humanidade ao colapso", afirma Vilmar.

Outro desafio para o cyberativismo é a sua utilização de forma inteligente. Em outras palavras, é saber usar a internet e as TICs como plataformas e objetos de organização, para dar visibilidade à causa e recrutar novos ativistas, mas nunca substituir a atuação in loco. A opinião é do jornalista Pedro Penido, especialista em comunicação online e em produção para mídias digitais.

“Apesar de inicialmente o cyberativismo ser muito sedutor e apresentar possibilidades
muito interessantes, a médio e longo prazos há o risco dessas opções removerem do ativismo sua essência e torná-lo apenas um ensaio, enquadrado de acordo com as limitações midiáticas da web. Acredito que a internet e o ciberespaço possam ser utilizados de maneira inteligente como plataformas de lançamento de campanhas, como repositórios de informações qualificadas, dados e estatísticas, como opção de organização de grupos e troca rápida e segura de informações. Mas o cyberativismo nunca pode tomar o lugar da atuação in loco”, conclui Penido.

Os recursos Web 2.0 para o cyberativismo

Twitter
A característica principal do Twitter é a
de seu imediatismo, da velocidade das
informações e da possibilidade de “seguir”
(ouvir) apenas quem interessa a você. Da mesma
maneira, você só será “seguido” (ouvido) por pessoas
que se interessam pelo seu campo de atuação. É uma boa opção
por oferecer opções de aprofundamento das informações para
públicos já filtrados/segmentados. O Twitter pode ser utilizado
para compartilhar informações mais específicas e detalhadas.
Além disso, é um fator mobilizador, uma vez que permite alcance
e penetração de maneira rápida e precisa.

Redes Sociais (Ning)
O Ning é uma estrutura nova na internet. Seu principal objetivo
não é o de reunir pessoas apenas, mas o de reunir pessoas que
queiram reunir pessoas. O Ning permite que você crie sua própria
rede social, organizando-a de acordo com suas necessidades
e oferecendo múltiplas ferramentas e recursos para que sua
experiência seja interessante e atraente, de modo que pessoas
possam se inscrever na rede recém-criada e nela compartilharem
informações. Pode servir como repositório de dados, fotos, vídeos,
agenda e informações que podem ser difundidas no Twitter,
por exemplo.

Facebook e Orkut
Facebook e Orkut são redes de relacionamento gigantescas, com
milhões de usuários. A entrada de um movimento de ativismo
nessas redes pode funcionar como chamariz para a causa.
As palavras que regem a participação de um movimento ativista
nessas redes são visibilidade e recrutamento. No entanto, não se
pode esperar que tenham a mesma profundidade que outros recursos
destinados exclusivamente ao movimento ou à causa.

Blogs
Blogs servem às mais variadas causas, projetos e interesses. É
uma ferramenta para dizer as coisas na internet, de acordo com
uma rotina de publicação e política editorial mais livre de amarras
institucionais. Blogs são mais limitados em termos interacionais,
porém mais avançados em termos “jornalísticos” (mediadores
de informação). E isso, quando bem utilizado e pensado, pode
servir como salvaguarda de múltiplas necessidades ao longo de
um processo mobilizador.

Listas de discussão
Mesmo tendo perdido parte de sua força para a popularização
das redes sociais atuais, as listas de discussão sempre podem
servir como mantenedoras da organização informacional e
estrutural de um movimento. Nelas sabe-se da participação
de cada um. Nelas acontecem demonstrações de opinião que
permitem desdobramentos mais intensos e menos “imediatistas”.
Conservando todas as características do uso dos e-mails,
as listas de discussão podem ser uma viga mestra dentro de
um movimento, ou, no mínimo, a responsável por permitir uma
visualização da participação das pessoas.


Fonte: Pedro Penido (Meio Digital)

* Publicado na revista Senac Educação Ambiental - julho/dezembro 2009. Leia a edição completa aqui.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Por Jaqueline B. Ramos*
O chimpanzé Jeber teve seus dentes arrancados no circo (crédito: projeto GAP)

Elefantes em um circo na Europa (crédito: CAPS)

Faze é um urso negro americano de pouco mais de 15 anos. Viveu toda sua vida em carretas de circos. Foi viciado em Coca-Cola, teve seus dentes cerrados e as garras de suas patas dianteiras arrancadas. Hoje parece mais um cachorro, pois perdeu todo o seu instinto selvagem. Gaya é uma leoa que foi resgatada quando tinha aproximadamente 13 anos. Estava muito desnutrida, a ponto de não parar em pé, e tinha uma grande quantidade de bicheira nas patas. Também tinha uma grave infecção bucal pelo fato de seus dentes caninos estarem serrados. Os chimpanzés Jeber e Tyson, de 18 anos, foram vendidos ainda filhotes para um circo, onde foram violentamente castrados (mutilados) e tiveram todos os seus dentes arrancados. Quando foram confiscados viviam acorrentados em jaulas minúsculas e em péssimo estado.

Faze, Gaya, Jeber e Tyson são alguns exemplos de animais que sofreram por anos a fio em circos e tiveram a sorte de serem resgatados. Hoje todos eles vivem em santuários no interior de São Paulo, recebem o tratamento digno que merecem e se recuperam, aos poucos, dos traumas físicos e psicológicos que lhe foram covardemente impostos. Mas um grande número de animais no Brasil e no mundo ainda está sob o domínio de empresários do mundo circense cuja idéia é ganhar dinheiro a qualquer custo – inclusive ao custo da exploração e maus-tratos dos animais.

Felizmente essa triste realidade está com os dias cada vez mais contados no Brasil. Ao lado de outros sete países que já proíbem animais em circos (ver boxe), o Brasil vê avançar a aprovação do Projeto de Lei 7291/2006, que dispõe sobre a proibição federal de uso de animais (selvagens e domésticos) em picadeiros. O PL estava tramitando na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados desde 2006. Depois de muitas campanhas e pressão política, foi finalmente aprovado por unanimidade no dia 3 de junho desse ano, passando para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

No CCJ o PL teve como relator o deputado federal Ricardo Tripoli (PSDB/SP), conhecido político que milita na causa da proteção animal, e no dia 17 de novembro passou por mais uma aprovação. O próximo passo agora é que o PL vá ao Plenário da Câmara. “A aprovação do nosso relatório representa uma evolução na legislação brasileira, sobretudo para a defesa animal”, declarou o deputado após a aprovação da proposta de lei em novembro.

Atualmente não se tem previsão de quando exatamente o PL será aprovado definitivamente na Câmara para ir a votação no Senado e, finalmente, para sanção presidencial. Outra questão importante do PL é que é dado o prazo de oito anos para os circos “se desfazerem”, ficando proibido desde então o seu uso nos espetáculos. As dúvidas pairam em torno sobre o bem-estar destes animais “que não dão mais lucros” ao circo, se estes animais poderão ser usados nas “propagandas” dos circos e sobre a sua destinação no final dos oito anos, uma vez que se sabe que hoje não há santuários suficientes e centros de reabilitação com a estrutura mínima para recebê-los e mantê-los.

Controvérsias à parte – e que devem ser seriamente tratadas pelos órgãos governamentais responsáveis -, não há dúvidas de que o Projeto de Lei Federal é, antes de tudo, um marco para se pôr fim a uma prática tão cruel. “Já é tempo de o Brasil dar um basta à exploração dos animais nesse tipo de atividade recreativa. Forçar animais a desempenhar ações estranhas a seu comportamento natural constitui violência e abuso contra eles. A evolução espiritual do povo, somada ao refinamento da educação ambiental, deve repelir esse tipo de espetáculo”, diz o promotor público Laerte Levai, de São José dos Campos. “Os animais merecem ser respeitados pelo que são, o seu valor inerente, e não pelo que podem servir ao ser humano. Nesse sentido, precisamos superar o antropocentrismo com uma visão mais generosa da natureza, em que a ética e a solidariedade possam alcançar as demais espécies”, completa.

O avanço do PL pode ser encarado como um reflexo da pressão exercida pelas campanhas, pela conscientização do público sobre os óbvios maus-tratos sofridos pelos animais e também pelas próprias conquistas em termos de legislação em nível mais regional. Hoje seis estados brasileiros e mais de cinqüenta cidades já proíbem a apresentação de circos com animais em seus territórios, além de dois estados estarem com suas leis em tramitação (ver boxe).

E um dos melhores exemplos sobre o avanço do meio jurídico brasileiro em relação à proibição de circos com animais foi uma sentença dada pelo Juiz de Direito Gustavo Alexandre Berluzzo, de São José dos Campos, em fevereiro de 2007 contra o circo Le Cirque, que havia chegado na cidade para fazer espetáculos com animais. Um dos trechos da sentença afirma: “Nota-se ainda que os animais de circo, observadas as condições em que vivem (se é que vivem, pois estão longe do habitat e ficam aprisionados) sofrem de forma continua sérios abusos e limitações que devem ser obstados pelo Estado, que tem o dever de preservação do meio ambiente sadio e equilibrado, como claramente recomenda a Constituição Federal. No caso de animais de circo, a Legislação Estadual Bandeirante é categórica em proibir a apresentação e a utilização dos mesmos, independentemente da ocorrência ou não de maus-tratos, pois reconhece a Lei que esta conduta acarreta aos animais uma cruel e abusiva subjugação”.

Uma questão também de segurança: A cidade de Belo Horizonte foi a última a aprovar sua lei municipal de proibição de circos com animais, no início de dezembro. Minas Gerais é um dos estados brasileiros com forte tradição circense, onde a opinião pública ainda se arrisca a defender que os animais seriam muito bem tratados por “suas famílias” nos circos. O fato da capital do estado sair na frente e afirmar oficialmente, através de uma lei específica, que a prática retrógrada está proibida é, sem sombra de dúvidas, um divisor de águas.

Outro ponto importante da lei da capital mineira é que uma das fortes justificativas dadas pelos parlamentares para a sua aprovação foi a questão de segurança relacionada a viagens e exibições de animais selvagens para o público. O argumento foi baseado na história do menino José Miguel dos Santos Fonseca, de apenas seis anos, que foi morto por leões do Circo Vostok em Recife no ano 2000. Na época o caso comoveu a sociedade, principalmente depois que foi comprovada a causa da tragédia: os leões estavam famintos há dias.

“Não somos contra os circos como atividade cultural. Ele é uma das manifestações culturais mais antigas do homem e tem como objetivo entreter adultos e crianças através das habilidades dos artistas que dedicam suas vidas ao espetáculo. Mas a riqueza do talento artístico que faz uma criança sorrir nada tem a ver com o cenário de animais selvagens mantidos em cativeiro e sendo tratados como objetos de uma atração”, ressalta a advogada Selma Mandruca, presidente do Projeto GAP (Proteção dos Grandes Primatas) Brasil, uma das ONGs que participam ativamente das campanhas contra o uso de animais em circos. “É importante deixar claro que nosso objetivo é expor à sociedade o valor do trabalho dos artistas circenses, valorizando a atividade artística e demonstrando que o uso de animais no picadeiro é uma atividade arcaica e antiética”, conclui.

Por que dizer não a animais em circos

• Animais em circo sofrem uma vida inteira de maus-tratos. Estes não incluem apenas as formas desumanas de treinamento (em sua maioria com o uso de choques, chicotes ou bastões pontiagudos), mas também os espetáculos em si, onde os animais, por sofrerem agressões para um suposto aprendizado, se comportam como nunca se comportariam na natureza, apenas por um capricho do ser humano. Além disso, passam suas vidas em espaços muito pequenos e em constante transporte, circunstâncias que causam alto grau de estresse e traumas diversos (psicológicos e físicos) aos animais. E, para piorar a situação, muitas vezes não têm à disposição alimento de qualidade ou em quantidade suficiente.

• Animais em circo expõem as pessoas a muitos riscos. Não é possível prever como um animal estressado irá reagir em uma determinada situação. Além disso, muitas vezes permanecem em instalações inadequadas e frágeis, expondo os funcionários do circo e a população em geral. Vários acidentes já foram documentados inúmeras vezes pela mídia.

• Animais em circo podem transmitir doenças aos seres humanos, visto que não existe vacinação eficiente para os animais selvagens.

• Animais em circo estimulam o tráfico de animais selvagens ao redor do mundo, prática reconhecidamente cruel e criminosa.

Fonte: WSPA (Sociedade Mundial para Proteção Animal)

Onde já é proibido circos com animais

Países onde é proibido o uso de animais selvagens em circos:

• Áustria (primeiro país da União Européia a banir o uso de animais selvagens em circos).
• Costa Rica
• Croácia
• Israel
• Cingapura
• Bolívia (foi o primeiro país do mundo a banir também o uso de animais domésticos nos circos).
• Bulgária (tem até 2015 para se adaptar à regra).

Países onde é parcialmente proibido o uso de animais selvagens em circos:

• Bélgica: proibido usar animais selvagens capturados.
• República Tcheca: proibido o uso de primatas recém-nascidos, pinípedes (certos mamíferos marinhos), cetáceos (exceto delfinídeos), rinocerontes, hipopótamos e girafas.
• Estônia: proibido usar animais selvagens capturados.
• França: proibido, desde 2007, o uso de girafas, hipopótamos e rinocerontes.
• Índia: é ilegal exibir, treinar ou fazer apresentações com ursos, macacos, tigres, panteras ou leões.
• Polônia: proibido usar animais selvagens capturados.
• Espanha: o uso de grandes primatas nos circos será proibido quando o governo concluir o apoio ao Great Ape Project. A Câmara de Vereadores de Barcelona proibiu apresentações de animais selvagens ou exóticos em locais de sua propriedade.
• Taiwan: a Wildlife Conservation Law - Lei de Preservação da Vida Selvagem - sofreu emenda em 2007 para proibir os circos de importar e exportar animais protegidos, como leões, tigres, elefantes e macacos.
• Finlândia, Suécia e Dinamarca: proibiram a manutenção de animais selvagens em gaiolas nos circos. Entretanto, eles permitem o uso de elefantes e outras espécies exóticas fora de gaiolas.

No Brasil

Estados: Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul
Em tramitação: Ceará, Santa Catarina
Mais de 50 cidades em todo o país, entre as quais Juiz de Fora (MG), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC).

Para saber mais:

• AILA – Aliança Internacional do Animal - http://www.aila.org.br/circo1.htm
• Campanha da ANIDA – Associação Nacional pela Implementação dos Direitos dos Animais - http://www.animaisdecirco.org/
• Jornal Tribuna Animal - http://www.tribunaanimal.com/animais_circo.htm
• CAPS – ONG de Proteção a Animais em Cativeiro (em inglês) - http://www.captiveanimals.org/


*Publicada na Revista dos Vegetarianos / fevereiro 2010




segunda-feira, novembro 30, 2009

Artigo sobre Direitos dos Grandes Primatas na Revista Galileu

Charge: Revista Galileu


Homem Primata (pág. 96, Revista Galileu - dezembro 2009)

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG87243-7962,00-HOMEM+PRIMATA.html

por Jaqueline B. Ramos (jornalista ambiental e Gerente de Comunicação do Great Ape Project - GAP - www.projetogap.org.br)

Biologicamente falando, os seres humanos não são nada além de grandes primatas. Guardamos com as outras quatro espécies deste grupo inúmeras semelhanças, inclusive genéticas e comportamentais. Mas não há duvida de que em termos racionais somos mais desenvolvidos. Agora, em pleno século XXI, temos que começar a arcar com as responsabilidades que essa racionalidade nos traz. E apoiar a Declaração Mundial dos Direitos dos Grandes Primatas é justamente entender essa posição especial que o ser humano ocupa no meio natural, ao lado de outros seres vivos.

Direito à vida, à liberdade e à não-tortura. Entendemos que chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos são tão merecedores da concessão desses direitos quanto os seres humanos. Não que os outros animais não mereçam respeito e que todos os abusos praticados contra eles não devam ser condenados. Mas no caso dos grandes primatas isso fica mais evidente devido à sua proximidade conosco. Não podemos abrir mão de cuidar dos nossos primos evolutivos e ter isso como uma bandeira de uma grande causa.

A declaração é bem clara em seus princípios. Defendemos que a vida de todos os grandes primatas deve ser protegida e que seus membros não podem ser mortos, exceto em circunstâncias estritamente definidas, como, por exemplo, legítima defesa. Que os grandes primatas não podem ser privados arbitrariamente da sua liberdade, tendo o direito de viver livres em seu habitat e que, em cativeiro, têm o direito de viver com dignidade e serem protegidos da exploração comercial. E que a imposição deliberada de dor intensa, física ou psíquica, sem motivo ou por um suposto benefício de outros, é considerada uma tortura e é uma ofensa da qual devem ser protegidos.

Aqui no Projeto GAP defendemos essa proposta desde seu surgimento na década de 90. Os quatro santuários afiliados ao projeto no Brasil abrigam mais de 70 chimpanzés, que em sua maioria foram resgatados de situações de maus-tratos e condições inadequadas de vida em circos, espetáculos e zoológicos. O dia-a-dia nos santuários reforça a percepção que temos do grau de humanidade dos chimpanzés e demonstra o quanto a privação dos direitos propostos na declaração pode gerar sofrimento e seqüelas, algumas vezes irreversíveis, em nossos parentes mais próximos no mundo animal. E se isso pode ser evitado, por que não fazê-lo? Afinal de contas, como os parentes mais "espertos", isto é o mínimo que devemos fazer.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Parceria


O Ambiente-se fez uma parceria com o projeto Rio Vivo, da TV Band Vale, para publicação das matérias no blog do projeto. Veja aqui.

terça-feira, setembro 29, 2009

RECICLAGEM: TECNOLOGIAS E MATERIAIS

Por Jaqueline B. Ramos *

Para ter uma conduta sustentável no dia-a-dia, todo mundo deve ter em mente o conceito dos 5Rs: Repensar os hábitos de consumo e descarte, Recusar e não consumir produtos que prejudicam o meio ambiente e a saúde, Reduzir o consumo desnecessário, Reutilizar e recuperar ao máximo antes de descartar e, finalmente, promover a Reciclagem dos materiais descartados.

Em linhas gerais, a Reciclagem promove benefícios não só ambientais, mas também sociais e econômicos. Além de diminuir a pressão sobre os recursos naturais, processos de reciclagem geram trabalho e renda para um grande número de pessoas. A reciclagem converte, através de processos industriais e, em alguns casos, até artesanais, a matéria-prima do lixo descartado em produto semelhante ao inicial ou em outro produto.

O primeiro passo para entender a reciclagem é mudar o conceito que se tem de lixo como uma coisa suja e inútil. A verdade é que, por conta de diferentes tecnologias e materiais, é possível trazer de volta ao ciclo produtivo o que tinha sido jogado fora. Daí a origem do nome Re – repetir - e cycle (ciclo, em inglês).

Mesmo sem um marco regulatório para a reciclagem, o Brasil consegue movimentar cerca de R$ 8 bilhões anuais com o setor, gerando renda a 800 mil catadores, mantendo 550 cooperativas e empregando formalmente 50 mil pessoas em indústrias destinadas ao reaproveitamento do lixo seco. Hoje a reciclagem atinge 12% do lixo urbano no país, com potencial para atingir muito mais se os processos passarem a ter mais incentivo do Poder Público.

Veja a seguir um panorama das tecnologias e métodos de reciclagem de diferentes materiais já colocados em prática:

Aço

A reciclagem do aço é tão antiga quanto a própria história da utilização do metal pela humanidade. A lata jogada no lixo pode voltar infinitas vezes em forma de tesoura, maçaneta, arame, automóvel ou uma nova lata. O aço se funde à temperatura de 1.300 graus centígrados e assume um novo formato sem perder suas características de dureza, resistência e versatilidade. Ou seja, ele é infinitamente reciclado.

A ferrugem (oxidação) que vai consumindo o aço colocado em contato com a natureza faz com ele seja o único material de embalagem degradável num prazo médio de 3 anos. Reutilizar a lata de aço é outra forma de economizar energia, matéria-prima e tratamento do lixo.

Alumínio

O alumínio é um dos materiais que tem maior reciclabilidade, ou seja, pode ser produzido inúmeras vezes sem perder suas qualidades no processo de reaproveitamento. O exemplo clássico é a lata de alumínio para bebidas, que após processo industrial se transforma novamente em lata e pode voltar ao ciclo de produção de forma infinita.

A reciclagem de alumínio é feita tanto a partir de sobras do próprio processo de produção como de sucata gerada por produtos com vida útil esgotada. Na verdade a reciclagem tornou-se uma característica intrínseca da produção de alumínio, pois as empresas sempre tiveram a preocupação de reaproveitar retalhos de chapas, perfis e laminados gerados durante o processo de fabricação.

A cada quilo de alumínio reciclado, cinco quilos de bauxita (minério de onde se produz o alumínio) são poupados. Para se reciclar uma tonelada de alumínio gasta-se somente 5% da energia que seria necessária para se produzir a mesma quantidade de alumínio primário.

Embalagens PET

Quando reciclada, a embalagem PET (polietileno tereftalato) tem inúmeras vantagens sobre outras embalagens do ponto vista da energia consumida, consumo de água, impacto ambiental e benefícios sociais. O polímero de PET é um poliéster, um dos plásticos mais reciclados em todo o mundo devido a sua extensa gama de aplicações: fibras têxteis, tapetes, carpetes, não-tecidos, embalagens, filmes, fitas, cordas, compostos, entre outros.

A reciclagem de PET pode ser dividida em quatro etapas: coleta, seleção, revalorização e transformação. As etapas de coleta e seleção representam o grande desafio da reciclagem do PET pós-consumo. Milhões de dólares são gastos em logística, distribuição e marketing para que os consumidores comprem produtos embalados em PET.

A etapa de transformação utiliza o material revalorizado e o transforma em outro produto vendável, o produto reciclado. A etapa de revalorização realiza a descontaminação e adequação do material coletado e selecionado para que possa ser utilizado como matéria prima na indústria de transformação. A embalagem PET é 100% reciclável.

Embalagens Tetrapak

Uma das novidades da reciclagem da embalagem longa-vida / tetra pak é o processo Plasma. Por esse método, papel, alumínio e plástico da embalagem são reaproveitados. Antes, somente o papelão era reciclado. O processo foi desenvolvido no Brasil pelas empresas Tetra Pak, Klabin e TSL Ambiental.O sistema já despertou interesse de outros países e usa energia elétrica para produzir um jato de plasma e aquecer a 15 mil graus Celsius a mistura de plástico e alumínio. Assim, o plástico é transformado em parafina e o alumínio é recuperado. Um dos projetos que mais faz sucesso utilizando esta tecnologia é a transformação do plástico e alumínio das embalagens em placas e telhas recicladas para construção civil.

Entulho

O maior problema para a reciclagem de entulho é o desperdício e a disposição inadequada em terrenos baldios e margens de rios. Os custos destes problemas são distribuídos por toda a sociedade, não só pelo aumento do custo final das construções como também pelos custos de remoção e tratamento do entulho.

Os resíduos de construção e demolição consistem em concreto, estuque, telhas, metais, madeira, gesso, aglomerados, pedras, carpetes etc. Muitos desses materiais e a maior parte do asfalto e do concreto utilizado em obras podem ser reciclados. É possível produzir agregados - areia, brita e bica corrida para uso em pavimentação, contenção de encostas, canalização de córregos, e uso em argamassas e concreto. Da mesma maneira, pode-se fabricar componentes de construção - blocos, briquetes, tubos para drenagem, placas.

A reciclagem de entulho pode ser realizada com instalações e equipamentos de baixo custo, apesar de existirem opções mais sofisticadas tecnologicamente. Havendo condições, pode ser realizado na própria obra que gera o resíduo, eliminando os custos de transporte.

Papel

A reciclagem do papel é tão importante quanto sua fabricação, pois a matéria-prima do produto já está escassa devido a todos os problemas de desmatamento de florestas. Na fabricação de uma tonelada de papel a partir de papel usado, o consumo de água é muitas vezes menor e o consumo de energia cai pela metade. Economizam-se 2,5 barris de petróleo, 98 mil litros de água e 2.500 kw/h de energia elétrica com uma tonelada de papel reciclado.

O papel reciclado pode ser aplicado em caixas de papelão, sacolas, embalagens para ovos, bandejas para frutas, papel higiênico, cadernos e livros, material de escritório, envelopes, papel para impressão, entre outros usos.

Pneus

O surgimento dos pneus de borracha fez com que fossem substituídas as rodas de madeira e ferro, usadas em carroças e carruagens desde os primórdios da História. Porém, a utilização dos pneus de borracha trouxe consigo a problemática do impacto ambiental, uma vez que a maior parte dos pneus descartados fica abandonado em locais inadequados e causa grandes transtornos para a saúde e a qualidade de vidas humanas.

Uma forma encontrada para amenizar esse impacto foi a utilização das metodologias de reciclagem e reaproveitamento, como a recauchutagem, que tem sido um mecanismo bastante utilizado para conter o descarte de pneus usados. Esta técnica permite que o recauchutador adicione novas camadas de borracha nos pneus velhos, aumentando a vida útil do pneu em 100% e proporcionando uma economia de cerca de 80% de energia e matéria-prima em relação à produção de pneus novos.

O processo de recuperação e regeneração dos pneus exige a separação da borracha vulcanizada de outros componentes (como metais e tecidos, por exemplo). Os pneus são cortados em lascas e purificados por um sistema de peneiras. As lascas são moídas e depois submetidas à digestão em vapor d'água e produtos químicos, como álcalis e óleos minerais, para desvulcanizá-las.

Vidro

O vidro é uma mistura de areia, barrilha, calcário, feldspato e aditivos que, derretidos a cerca de 1.550°C, formam uma massa semi-líquida que dá origem a embalagens ou a vidros planos. O principal componente do vidro é a sílica. É possível fazer vidro só com a fusão da sílica. Boa parte dessas matérias primas é importada ou provém de jazidas em franco esgotamento.

Na reciclagem do vidro, o caco funciona como matéria-prima já balanceada, podendo substituir o feldspato que tem função fundente, pois o caco precisa de menos temperatura para fundir. Os cacos devem ser separados por cor (transparente, marrom e verde). O vidro comum funde a uma temperatura entre 1000oC e 1200oC, enquanto que a temperatura de fusão da fabricação do vidro, a partir dos minérios, ocorre entre 1500 oC e 1600 oC.

A fabricação do vidro a partir dos cacos economiza energia gasta na extração, beneficiamento e transporte dos minérios não utilizados. A economia de energia é a principal vantagem do processo.

Fontes: Ambiente Brasil, Cempre, Tetrapak

DADOS E CURIOSIDADES SOBRE RECICLAGEM

Fonte: Ambiente Brasil

*Publicado na edição n. 86 (julho/agosto 2009) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung

CURTAS AMBIENTAIS

Por Jaqueline B. Ramos*

Amazônia em regeneração

De acordo com recente levantamento consolidado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cerca de 20% das áreas desmatadas na Amazônia possuem florestas em regeneração. É a primeira vez que essas matas secundárias - também chamadas capoeiras - são mapeadas em detalhe, com base em imagens de satélite.Os resultados já estão prontos para os Estados de Mato Grosso, Pará e Amapá, que juntos têm uma média de 19,5% de áreas desmatadas em regeneração. Os demais Estados serão mapeados até o fim do ano e segundo pesquisadores do Inpe a média não deve variar muito.

Vistas do solo, as capoeiras podem até parecer uma floresta nativa, com árvores grandes. Porém, vários estudos relatam que elas dificilmente recuperam a biodiversidade das florestas primárias que foram derrubadas. São tipicamente formadas por menos espécies, tanto de flora quanto de fauna, e têm menos biomassa - o que significa, também, menos carbono.

Mapa climático circuito Rio-SP

As maiores cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, terão seus riscos e impactos do aquecimento global mapeados por um estudo inédito do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em conjunto com a Unicamp. O projeto foi anunciado em julho e segundo o pesquisador Carlos Nobre, coordenador do mapeamento pelo Inpe, a idéia é traçar os principais impactos e propor ações para amenizar os efeitos do aquecimento global nas duas cidades.

O mapeamento no Rio e SP consiste numa proposta piloto que servirá para posterior aplicação em outras metrópoles brasileiras. Os cientistas pretendem detalhar as vulnerabilidades a partir de um conjunto de dados sobre as duas cidades que inclui aspectos urbanos, socieconômicos e geográficos. A previsão é que o estudo esteja concluído em 2010, para ser apresentado aos governos federal, estadual e municipal para a tomada de decisões sobre as ações propostas para minimizar os efeitos do aquecimento global.

Parque Eólico Brasileiro

No mês de agosto o Brasil ganhou um novo Parque Eólico, localizado no Ceará. O empreendimento é fruto da aliança entre dois grandes líderes no setor energético na América Latina: Cemig e IMPSA. Com 325 hectares e 19 aerogeradores, o Parque Eólico de Praias de Parajuru funcionará em conjunto com outras duass usinas a serem construídas no estado: Praia do Morgado e Volta do Rio.

Juntas, as três usinas terão capacidade para gerar 99,6 MW. A intenção é que nos próximos 20 anos esta energia gerada seja comercializada para a Eletrobrás. Os parques eólicos fazem parte do Programa de Incentivo a Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), desenvolvido pelo Governo Federal, sob coordenação do Ministério de Minas e Energia (MME). A iniciativa visa fomentar o desenvolvimento das fontes renováveis como as eólicas, biomassas, solares, e de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH’s).

Bolívia sai na frente contra a exploração de animais em circos

A Bolívia saiu na frente no movimento contra o uso de animais em circos. Em julho o presidente Evo Morales assinou uma nova lei que proíbe o uso de qualquer animal em circo. Países como Áustria, Costa Rica, Finlândia e Dinamarca já proíbem há alguns anos animais em circos, mas apenas animais selvagens ou de determinadas espécies. A lei boliviana é a primeira do mundo que proíbe tanto o uso de animais domésticos como selvagens nos picadeiros.

A lei, apresentada pela congressista Ximena Flores of Potosi, surgiu como resultado das evidências de maus-tratos encontradas em uma investigação secreta realizada por uma ONG de proteção animal. Ela considera que o confinamento, privação e maus-tratos impostos aos animais nos circos são atos de crueldade extrema. Os circos terão o prazo de um ano para adequar-se completamente à nova regra, e durante esse período serão duramente fiscalizados pelo governo.

Corais em perigo

Nos últimos meses vários foram os alertas dados por cientistas a respeito dos riscos de extinção de importantes recifes de corais. O renomado cientista Charlie Veron, líder científico do Instituto Australiano de Ciência Marinha, declarou à imprensa mundial que “Não há saída. A Grande Barreira de Corais da Austrália vai desaparecer em 20 anos ou menos.”

“Quando se atingir os altos índices de dióxido de carbono previstos para o período de 2030 e 2060, todos os recifes de corais estarão condenados à extinção. Eles serão os primeiros ecossistemas do mundo a entrar em colapso. Isso é atestado por todos os cientistas e organizações que estudam corais”, alerta Veron.

Alex Rogers, da Sociedade Zoológica de Londres e do Programa Internacional sobre o Estado do Oceano, também declarou recentemente: "A cozinha pegou fogo e o incêndio se espalha pela casa. Se agirmos de modo rápido e decisivo, poderemos apagá-lo antes que o dano se torne irreversível".

Em linhas gerais os cientistas ressaltam que oceanos cada vez mais ácidos e águas cada vez mais quentes, por causa das emissões de dióxido de carbono, podem extinguir os recifes dos mares até o fim deste século Os oceanos absorvem grandes quantidades de CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis e esta absorção prejudica o processo de calcificação usado por criaturas marinhas para criar conchas e os recifes de coral.

Raio-X do ambiente aquático

Paralelo aos alertas dos perigos sofridos pelos corais, no Brasil o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o documento Fauna Ameaçada de Extinção: Invertebrados Aquáticos e Peixes – 2009. O documento é o quarto e último de uma série lançada pelo órgão, desde 2006, trazendo informações sobre aves; mamíferos, répteis e anfíbios; e insetos e outros invertebrados terrestres que podem entrar em extinção, totalizando uma lista de 632 espécies.

No documento recém-lançado, afirma-se que atualmente há no país 238 espécies e subespécies de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados de extinção. Entre elas, 41 apresentam estado mais crítico, como o marisco-do-junco, o ouriço-do-mar irregular, o cação-bico-doce e o surubim.A maioria desses animais com risco de desaparecer tem seu habitat em regiões de Mata Atlântica e em estados litorâneos, onde a ação do homem, principalmente com o crescimento das construções imobiliárias, interfere no ciclo natural das espécies.

Segundo Lícia Leone Couto, bióloga do IBGE, a extinção dos animais está ligada à atividade humana. "A principal causa de extinção é a destruição do habitat das espécies e isso ocorre prioritariamente pela ação do homem. Por isso, o mapa aponta maior risco de extinção de animais que têm maior ocorrência em cidades costeiras, que têm grande atividade de construções imobiliárias", explicou.

Medicina sem vivissecação

Passados dois anos desde que o sacrifício de animais foi abolido no curso de Medicina da UFRGS, professores e alunos estão muito satisfeitos. Conflito ético sobre o uso de animais vivos foi o principal motivo para a troca por modelos artificiais nas aulas práticas.

Alunos e professores garantem não haver nenhum prejuízo para o aprendizado médico. “Abolimos o uso de animais porque hoje não se precisa mais disso”, destaca o diretor da Famed, o médico endocrinologista Mauro Antônio Czepielewski. Não faltaram razões, pois havia alunos que não concordavam com o sacrifício dos cães e outros bichos nas aulas. Além da questão ética, a pressão das entidades protetoras dos animais era cada vez maior, conta o diretor.

A mudança foi bastante discutida, e resultou na implantação de um Laboratório de Técnica Operatória, que funciona apenas com réplicas artificiais das partes do corpo humano, explica o diretor. O projeto todo, com reforma de instalações e aquisição dos modelos, importados, custou cerca de R$ 300 mil, com recursos da própria Ufrgs, Famed, Hospital de Clínicas (o hospital universitário) e Promed, um programa do Ministério da Saúde que incentiva mudanças nos currículos dos cursos de medicina.

Em busca da pecuária ambientalmente correta

Depois de sofrer problemas com a comercialização de gado criado em áreas de desmatamento e após um mês de negociação, os dois maiores frigoríficos do Pará e o governo do estado assinaram um acordo com o Ministério Público Federal (MPF) para adequar a produção pecuária às regras ambientais.

O termo de ajuste de conduta assinado com os frigoríficos Bertin e Minerva prevê uma moratória ao desmatamento, ou seja, as empresas compradoras vão exigir que os pequenos fornecedores comprovem que o gado não foi criado em área desflorestada ilegalmente, embargadas ou que utilizem mão de obra análoga à escravidão. Além disso, deverão exigir o reflorestamento de áreas degradadas e o licenciamento ambiental.

Os frigoríficos terão que informar a origem da carne aos consumidores e ao MPF, que vai checar a existência de trabalho escravo, crimes ambientais ou problemas fundiários, como de grilagem ou invasão de terras indígenas e unidades de conservação.Com a assinatura do acordo, as empresas que receberam a recomendação do MPF para encerrar os contratos com os frigoríficos poderão retomar as operações, entre eles os grupos Pão de Açúcar, Carrefour e Wal Mart, que suspenderam as compras de carne dessas empresas desde o mês de junho.

Mata Atlântica on line

No mês de julho, o Instituto BioAtlântica lançou a plataforma GeoAtlântica, que contém dados sobre o bioma mais ameaçado no Brasil: a Mata Atlântica. Mais de 50 fontes contribuíram para a consolidação da base de dados, que inclui informações sobre infra-estrutura, estradas, vias, dutos, portos, hidrelétricas. Foram listadas todas as Unidades de Conservação, federais, municipais e particulares, sendo a base mais completa sobre as UCs nas regiões que agregam a Mata Atlântica..O acesso é gratuito e visa auxiliar no planejamento de ações ambientais. O usuário pode fazer consultas e montar mapas específicos usando filtros e combinando os dados da maneira que julgar necessário. A ideia é que a ferramenta funcione como um suporte para a tomada de decisões no que diz respeito à preservação e conservação da floresta. A plataforma pode ser acessada pelo endereço: www.bioatlantica.org.br/geoatlantica

Brasil na liderança do comércio de agrotóxicos

De acordo com estudo da consultoria alemã Kleffmann Group, o Brasil é atualmente o maior mercado de agrotóxicos do mundo. O levantamento foi encomendado pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que representa os fabricantes, e mostra que essa indústria movimentou no ano passado US$ 7,1 bilhões. O segundo colocado são os Estados Unidos, com US$ 6,6 bilhões.

Em 2007, a indústria nacional girou US$ 5,4 bilhões, segundo Lars Schobinger, presidente da Kleffmann Group no Brasil. O consumo cresceu no país, apesar de a área plantada ter encolhido 2% em um ano.

Mesmo liderando o comércio, o consumo por hectare ainda é pequeno em relação a outros países. De acordo com o levantamento, o gasto do produtor brasileiro com agrotóxico ainda é pequeno. Em 2007, gastou-se US$ 87,83 por hectare. Na França, os produtores desembolsaram US$ 196,79 por hectare, enquanto no Japão a despesa foi de US$ 851,04.

Ajuda para descarte adequado de baterias e óleo de cozinha

O consumidor brasileiro tem mais duas opções para fazer o descarte de alguns resíduos mais complexos de forma ambientalmente correta. Pilhas e baterias usadas podem ser levadas às agências do Banco Real e colocadas no Papa-Pilhas.

As pilhas e baterias de celulares, câmeras digitais, controle remoto, relógios etc contém materiais que contaminam o solo e os lençóis freáticos, deixando-os impróprios para utilização e consumo. Por isso a necessidade do descarte adequado e especial, e não simplesmente no lixo comum.

Na mesma linha está o óleo de cozinha usado, que despejado na rede de esgoto pode contaminar uma grande quantidade e água – calcula-se que um litro de óleo contamine um milhão de litros de água. Sem contar que ainda provoca a impermeabilização dos leitos e terrenos próximos, contribuindo para a ocorrência de enchentes.

Óleo de cozinha usado pode ser levado em recipientes de plástico ou vidro para qualquer loja das redes Pão de Açúcar e Extra. Todo óleo de cozinha coletado será encaminhado para cooperativas e empresas recicladoras, que o utilizarão como matéria-prima para a produção de biocombustível.

Fontes: Ambiente Brasil, ENN, Ecoagência de Notícias, Portal do Meio Ambiente

*Publicado na edição n. 86 (Julho/Agosto 2009) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung

quinta-feira, agosto 13, 2009

O PROBLEMA DA PECUÁRIA NA AMAZÔNIA BRASILEIRA


Por Jaqueline B. Ramos*

Os impactos ambientais da chamada pecuária industrial, ou pecuária em larga escala, foram alertados pela primeira vez em nível mundial pela ONU em 2006. Neste ano a FAO, agência da ONU para Agricultura e Alimentação, lançou o relatório “A Grande Sombra dos Estoques Vivos: questões ambientais e opções" (Lifestock's Long Shadow: environmental issues and options, em inglês). O documento analisou os impactos ambientais relacionados a toda a cadeia da pecuária industrial. Entre os resultados mais alarmantes estava a conclusão de que a indústria da carne (que inclui todos os seus derivados) é responsável por nada mais nada menos do que 18% do total das emissões de gases causadores do aquecimento global, valor maior que a soma da poluição causada por todos os meios de transporte (13%).

As discussões sobre a problemática ambiental da pecuária não poderiam excluir o Brasil, que atualmente é o segundo maior produtor e maior exportador de carne bovina do mundo. Uma análise mais crítica da relação direta da pecuária bovina com o desmatamento de uma das suas maiores riquezas, a Amazônia, passou a ser inevitável. Em 2008, a OSCIP “Amigos da Terra – Amazônia Brasileira” lançou o relatório “O Reino do Gado”, cujo principal alerta é que “a pecuarização da Amazônia se intensificou de maneira sem precedentes ao longo dos últimos cinco anos e o fenômeno requer uma atenção nova e especial, em quantidade e qualidade, por parte das autoridades governamentais, da cadeia comercial, de instituições financeiras, cientistas e organizações da sociedade civil.” (ver mais dados no boxe).

Os dados já alarmantes divulgados pela “Amigos da Terra” se reforçaram recentemente com um trabalho investigativo realizado pela ONG Greenpeace e consolidado num relatório intitulado “A Farra do Boi na Amazônia”, lançado no início de junho. Em linhas gerais, o relatório alerta sobre a relação direta do desmatamento da floresta com o avanço do gado (ver gráfico) e ressalta o fato de que a carne e couro produzidos à custa de irregularidades ambientais chega a continentes como a América do Norte, Europa e até Ásia.

O documento aponta, por exemplo, grandes frigoríficos exportadores – corporações como Bertin, JBS e Marfrig - negociando gado oriundo de terra indígena e áreas embargadas pelo Ibama por excesso de desmatamento. “Este relatório é fruto de um trabalho de três anos de investigação de oito escritórios do Greenpeace pelo mundo, que mapearam a cadeia produtiva da pecuária do desmatamento patrocinado por grandes frigoríficos exportadores até a chegada aos consumidores dentro e fora do Brasil”, explica Márcio Astrini, coordenador da Campanha Desmatamento Zero Amazônia do Greenpeace, ressaltando que uma ação civil pública impetrada pelo Ministério Pública do Pará contra as atividades ilegais dos frigoríficos reforçou as evidências do relatório.

Governo é sócio no desmatamento: Uma das maiores críticas feitas pelo Greenpeace no relatório é o fato do governo brasileiro investir em grandes companhias do setor pecuário por meio do BNDES. Em outras palavras, mega empreendimentos em conjunto com o governo patrocinam o desmatamento da floresta. “Na verdade, o BNDES tem ações nestas empresas, quer dizer, tem porcentagem no lucro. Após a divulgação do relatório o banco decidiu rescindir o contrato e cobrou explicações sobre as denúncias de ilegalidade”, diz Astrini.

Além da decisão do BNDES, a repercussão da investigação do Greenpeace já proporcionou algumas vitórias. Em meados de junho o Banco Mundial também declarou a rescisão de contrato de empréstimo de US 90 milhões com a Bertin até a empresa apresentar explicações sobre as irregularidades ambientais. E grandes redes de supermercados como Wall Mart, Carrefour e Pão de Açúcar e marcas mundiais como Timberland, Adidas, Nike, Reebok, Hugo Boss, Gucci e Prada exigiram garantias sobre o couro proveniente dos frigoríficos citados no relatório.

“Agora vamos acompanhar os compromissos feitos por estas grandes redes, pressionar os frigoríficos e cobrar uma posição oficial do Governo Brasileiro, que até 20 depois do lançamento do relatório não tinha se pronunciado oficialmente”, informa Astrini.

O papel do consumidor: Não é difícil concluir que a pecuária, associada ao desmatamento ilegal, é uma atividade colonizadora que não tem competidores no mesmo nível capazes de valorizar a floresta em pé. Manejo florestal e serviços ambientais ainda não fazem parte das opções econômicas da Amazônia de forma séria e contundente. Diante desse cenário, quais seriam os caminhos para mitigar o conflito pecuária X floresta em pé?

“O maior desafio é montar uma sistemática de produção pecuária que seja responsável e sustentável em termos de sócio-biodiversidade. Para isso, são necessárias medidas que passam por responsabilizar a produção quanto ao cumprimento da legislação ambiental e trabalhista, implantação de rastreabilidade no rebanho e de melhores práticas que aliem produtividade e conservação Essas são premissas de sustentabilidade que quebram a performance atual de rentabilidade às custas de terra barata e sem cuidados, migratória sobre a floresta”, explica Paulo Gustavo Prado, diretor de Política Ambiental da Conservação Internacional (CI-Brasil).

E é justamente nessa cobrança de critérios de sustentabilidade que entra a responsabilidade do consumidor. “O papel do consumidor é o de sempre exigir sustentabilidade e boas práticas como garantia de conservação do meio ambiente e das culturas tradicionais que existem no norte do Cerrado e na Amazônia”, diz Prado. “Temos um passo a passo no nosso site para o consumidor se informar sobre o que deve fazer para não consumir produtos advindos do desmatamento da Amazônia. Nossa orientação é que as pessoas se informem sobre o problema, conheçam os seus direitos como consumidor e comprem somente das empresas que assumiram publicamente o compromisso de lutar contra o desmatamento”, conclui Astrini.

Saiba mais:

Relatório “A Farra do Boi na Amazônia” e dicas do que o consumidor pode fazer - http://www.greenpeace.org/brasil/amazonia/gado

Relatório “O Reino do Gado” - http://www.amazonia.org.br/arquivos/259381.pdf

Floresta na “pata do boi”

• O rebanho bovino na Amazônia Legal atingiu aproximadamente 74 milhões de cabeças de gado, ou 3,3 por habitante, o triplo da média nacional. No Mato Grosso chega-se a 9,3 cabeças por habitante e em Rondônia, 7,7.

• De cada quatro cabeças adicionais de gado no Brasil nos últimos 5 anos, 3 são oriundas da Amazônia.

• Entre dezembro de 2003 e dezembro de 2006 quase não houve crescimento no rebanho fora da Amazônia Legal, sendo que 96% de todo o crescimento registrado no período no país são oriundos da Amazônia.

• O aumento na produção de carne na Amazônia (estimado em aproximadamente 1,5 milhão de toneladas equivalente-carcaça (designa o peso da carne produzida, com osso ou desossada, dependendo do caso) ao longo dos últimos cinco anos) supera o aumento na exportação registrado ao longo do mesmo período (aproximadamente 1,4 milhão de toneladas equivalente-carcaça).

• Um terço das exportações brasileiras de carne in natura em 2007 é oriunda de exportação direta da Amazônia, notadamente dos estados de Mata Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Desde 2004 o Pará aumentou sua exportação direta (em peso) em 7800%, Rondônia em 1350%, Tocantins em 150% e Mato Grosso em 360%.

Fonte: Relatório “O Reino do Gado” (Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, 2008)

O pesadelo da MP 458

Além dos números alarmantes da pecuária avançando na Amazônia, a floresta sofreu outro duro golpe recentemente. Dessa vez diretamente do Governo Brasileiro, que aprovou a Medida Provisória 458, sancionada pelo Presidente Lula com apenas um veto no final de junho.

A MP determina que 67,4 milhões de hectares de terras públicas na Amazônia serão privatizadas para seus novos proprietários praticamente sem custo e sem a fiscalização do Estado. As áreas ocupadas de até 100 hectares serão doadas. A partir daí e até 400 hectares, será cobrado apenas um valor simbólico de seus ocupantes. As áreas maiores, com até 1.500 hectares, serão alienadas a valor de mercado, mas com prazo de carência de 20 anos. Na prática isso significa misturar posseiros legítimos com grileiros de terras, regularizando a preço de banana e estimulando, no final, ocupações ilegais.

Em suma, a aprovação da MP 458 é um dos piores pesadelos para ambientalistas e ONGs que vem lutando contra o avanço desenfreado do desmatamento da floresta, estimulado pela ambição econômica. Segundo Paulo Gustavo Prado, diretor de Política Ambiental da Conservação Internacional (CI-Brasil), os principais problemas da MP 458 são:

1 - Não é amarrada ao Zoneamento Ecológico-Econômico e não se antecede fortalecendo as Terras Indígenas e as Unidades de Conservação ali existentes como condição prévia;
2 - Não vende, mas doa a propriedade (aos pequenos) gerando paternalismo e pouco apego à terra, uma vez que os beneficiários podem vendê-la na etapa seguinte e ser solicitante em outra área à frente, mesmo como grileiro, servindo de ponta-de-lança para o agronegócio;
3 - O agronegócio, por sua vez, pode comprar, inclusive como pessoa jurídica, e tem prazo curto para revender;
4 - As pesquisas de cadeia de domínio são expeditas e sem a investigação que seria necessária, podendo validar grileiros.


*Publicada no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 85 (maio/junho 2009). PDF do informativo aqui.

Curtas Ambientais

por Jaqueline B. Ramos*

Irrigação de precisão

A irrigação é considerada a atividade campeã no ranking de desperdício de água. Mas em tempos de necessidade de racionalização do uso de água, a tendência é que atividade passe a utilizar métodos cada vez mais sustentáveis. E a Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq) da USP está contribuindo para isso. Pesquisadores estão desenvolvendo novas técnicas de irrigação que utilizam menos água e obtêmo a mesma eficiência produtiva.

A nova técnica de irrigação utiliza microtubos de polipropileno. Esses microtubos têm diâmetros internos que variam entre 0,6 mm e 1,5 mm. "Os métodos que consomem mais água no meio agrícola estão sendo substituídos gradativamente por métodos que consomem menos água, o que mostra uma significativa conscientização por parte de produtores e da comunidade científica", comenta o professor Tarlei Arriel Botrel, que está coordenando o grupo de pesquisadores da Esalq.

O microtubo é um emissor simples, de baixo custo, com o grande benefício de melhor adaptação em condições de topografias onduladas e montanhosas. E os resultados já alcançados com os microtubos em laboratório atendem ao conceito da irrigação de precisão. Este conceito considera que cada planta se desenvolve de maneira particular, atrelado a fatores como clima, solo e variabilidade genética. Então é feita uma análise da planta em questão e fica estabelecida a demanda hídrica específica, contribuindo assim para o uso racional de água.

Pele de tubarão ecológica

Pesquisadores da Universidade da Flórida estão estudando o processo de fixação de cracas (moluscos) nos cascos de navios com o objetivo de diminuir a poluição “descarregada” nos mares. A formação da camada viva aumenta o arrasto da embarcação em 20%, levando a um consumo maior de combustível em cerca de 40%.

Retirar as cracas dos grandes navios é impraticável. Assim, a única saída é evitar a fixação dos micro-organismos. Descartando a opção de tintas tóxicas (biocidas), comumente usadas por navios militares, os pesquisadores começaram a analisar a própria natureza – mais especificamente os seres marinhos - para buscar uma solução para o problema.

O questionamento inicial foi por que animais como tubarões e baleias não são “atacados” pelo problema. Aí se descobriu que o padrão de pele dos tubarões oferece uma resposta adequada e evita o crescimento do biofilme de cracas. O resultado foi a fabricação de imitações desses padrões em laboratório, uma espécie de pele artificial de tubarão batizada de Sharklet. Além dos resultados positivos no combate à proliferação de cracas, o novo material também inibe o crescimento de bactérias, podendo ser utilizado em hospitais e em outros locais públicos para evitar a proliferação de microorganismos danosos à saúde.

Tubarões, mais uma vez, comprovadamente ameaçados

Enquanto alguns pesquisadores se dão conta do quanto a pele dos tubarões pode ajudar a diminuir a poluição causada pelo combustível de grandes navios, outros atestam 32% das 64 espécies de tubarões e raias de profundidade (pelágicos) estão ameaçadas de extinção. O alerta foi dado em junho pelo grupo de especialistas em tubarões da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

A porcentagem de espécies ameaçadas é maior entre aquelas que são pescadas em alto mar, chegando a 52%. Muitos destes tubarões eram pescados “por acidente” nas atividades de pesca industrial de atum e bacalhau. Mas com o tempo ganharam valor comercial, devido a sua carne e barbatanas serem usadas, principalmente, no mercado asiático.

Os tubarões são muito impactados pela sobrepesca pelo fato de levarem muitos anos para se reproduzir. O grupo de especialistas da IUCN pede que os Governos estabeleçam limites para pesca de tubarões e raias baseados em dados científicos e considerando critérios de preservação.
Aeromóvel finalmente no Brasil

O projeto do aeromóvel, criado pelo engenheiro brasileiro Oskar Coester, data da década de 70 e o máximo que conseguiu “decolar” no Brasil foi a implementação de um trecho de testes em Porto Alegre em 1983. Na Indonésia, o veículo – que não tem piloto ou motores, é movido a ar, impulsionado por grandes ventiladores instalados nas extremidades dos condutores - é usado desde 1989. E finalmente, por conta das obras previstas para a Copa de 2014, o projeto ganhará sua primeira versão prática em solo brasileiro.

Cada vagão do aeromóvel pode transportar 140 passageiros. No Brasil a implantação da primeira linha comercial do veículo será na sua terra natal, Porto Alegre, num trecho de pouco menos de um quilômetro que interligará o Aeroporto Internacional Salgado Filho à estação mais próxima do trem metropolitano. O custo inicial estimado para esta obra é de R$ 30 milhões. “Quando o modelo do aeromóvel for viabilizado (economicamente), poderá suprir necessidades internas do país no transporte automatizado de pessoas e, no futuro, até sistemas de transportes de massa. Melhorar o acesso aos aeroportos é uma necessidade que surgiu com a crise do setor aéreo”, comentou Kasper numa reportagem no site O ECO.

Segundo o seu criador, o aeromóvel resolve um dos principais problemas do transporte urbano nacional: a relação entre peso morto e carga útil. Enquanto a maioria dos carros no país pesa uma tonelada e carrega uma pessoa, o veículo movido a ar muda essa relação para 40 quilos para cada passageiro. Com menos peso, há economia de energia, mais segurança e maior eficiência no transporte público.

Pantanal em risco

Um estudo pioneiro divulgado para a revista Época recentemente revela um alerta (infelizmente) já esperado: o Pantanal, a maior área alagada do mundo sustentada por um frágil equilíbrio entre os períodos de cheia e de seca, já perdeu 40% de sua cobertura vegetal. Os maiores responsáveis apontados pelo estudo são a expansão da pecuária e a produção de carvão vegetal para siderúrgicas.

O mapeamento que levantou o risco em que se encontra o Pantanal foi feito por cinco entidades ambientalistas – WWF Brasil, SOS Mata Atlântica, Conservação Internacional, Avina e Ecoa. Um detalhamento mostra que embora as áreas de planície estejam bem preservadas, a região das terras altas, onde estão as cabeceiras dos rios responsáveis pelos ciclos de cheia, já tem 58% das matas comprometidas.

A ampliação de pastagens é uma das principais causas do desmatamento no Pantanal. Nos últimos seis anos foram abertos 12.000 quilômetros quadrados de novos pastos na região, o equivalente a dez municípios do Rio de Janeiro. O desmatamento para pastagens somado a queima de vegetação para a produção de carvão cria o cenário que coloca em risco uma das maiores riquezas do Brasil.

Ecossistemas marinhos on line

Já está no ar o site www.wdpa-marine.org., que traz informações completas e atualizadas sobre a situação dos ecossistemas marinhos ao redor do planeta. Construído pelas equipes do Centro Mundial de Monitoramento de Conservação das Nações Unidas (UNEP-WCMC) com a União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), o projeto do site visa ajudar os países a reverem suas proporções de ambientes marinhos protegidos – hoje menos e 1% é protegido. De acordo com o portal, as 67 unidades de conservação marinhas brasileiras protegem 16.5% do nosso mar territorial.

Destino final: lixões

De acordo com a própria Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), a maioria dos municípios no Brasil ainda usa lixões como destinação final de seus resíduos, sem qualquer proteção sanitária. A revelação foi feita recentemente pelo presidente da entidade, Diógenes Del Bel, numa entrevista para a Agência Brasil.

O poder público, nos municípios, ainda não conseguiu sequer erradicar os lixões. Então, nós temos municípios com custo zero na destinação dos seus resíduos”, disse Del Bel na entrevista, ressaltando que inclusive uma parte do lixo industrial é tratada por empresas de pequeno e médio portes que não dão uma destinação adequada.

Apesar das deficiências, Del Bel revelou que as perspectivas de crescimento do setor são boas, principalmente com a introdução de novas tecnologias – que devem ser precedidas pela implantação de políticas públicas. Entre estas tecnologias estão a incineração com recuperação de energia, a manufatura reversa de diversos bens de consumo no fim de vida e a descontaminação de resíduos após o consumo para reaproveitamento.

Brasil pró bem-estar animal

A campanha internacional pelo reconhecimento mundial do bem-estar animal junto à ONU tem o Brasil como um forte aliado. Nós somos o segundo país com maior número de participantes do abaixo-assinado pela Declaração Universal de Bem-Estar Animal – DUBEA, ficando atrás somente dos Estados Unidos. A petição brasileira tem 232 mil assinaturas e a americana, 327 mil.

E em maio uma assinatura muito importante se juntou ao abaixo-assinado brasileiro: a do Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. A DUBEA foi lançada mundialmente em 2006 pela WSPA - Sociedade Mundial de Proteção Animal lançou, em junho de 2006, com o objetivo de estabelecer critérios uniformes para a proteção dos animais em todo o mundo. A declaração consiste numa espécie de acordo que estabelece diretrizes básicas de bem-estar, reconhecendo os animais como seres sencientes (que têm sentimentos) e sua proteção como importante meta para o pleno desenvolvimento social das nações.
Para assinar a declaração acesse http://www.animalsmatter.org/.

Dentistas verdes

A odontologia também pode ter responsabilidade ambiental. Esta é a proposta da ONG Turma do Bem, que criou o projeto “Dentista Verde”. O projeto propõe práticas sustentáveis aos profissionais de odontologia no cuidado de seus pacientes e do planeta, que são apresentadas no Manual do Dentista Verde.

O manual traz dicas práticas para que os dentistas contribuam com a sustentabilidade do planeta. A publicação orienta os profissionais a incorporarem atitudes concretas em seu dia-a-dia e em seu ambiente de trabalho, como lidar com produção e tratamento de resíduos sólidos, uso de energia, emissão de gases efeito estufa e o relacionamento com fornecedores. A idéia principal é mostrar que pequenas atitudes dão uma grande contribuição para o futuro do planeta.

O manual é um dos itens do kit que será vendido aos dentistas voluntários ligados à Turma do Bem, que hoje somam mais de cinco mil em todos os estados brasileiros. O kit também contém duas latas para coleta de escovas dentais e tubos de pasta de dente usados. Este material será recolhido e entregue a um artista plástico, que criará uma escultura para ser exposta ao público e fomentar a discussão sobre produção de lixo.

Fontes: Ambiente Brasil, O ECO, Revista Época, Agência Brasil, IUCN

*Publicado no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 85 (maio/junho 2009). PDF do informativo aqui.

domingo, junho 14, 2009

Selos orgânicos: será que você pode confiar neles?



Por Jaqueline B. Ramos*

O biólogo Ricardo Nehrer é vegetariano há 26 anos e sempre que possível procura comprar alimentos orgânicos. Ele acredita que o consumo de orgânicos significa proteção ao próprio corpo, no sentido integral – físico, mental e emocional – por conta dos agrotóxicos e efeitos sinérgicos dos venenos usados na agricultura tradicional. No entanto, Ricardo diz que além do preço e da disponibilidade dos produtos orgânicos no mercado, uma das dificuldades em relação ao consumo de orgânicos é a certificação, que ainda é uma dúvida que paira sobre os consumidores, principalmente para os que estão em fase transição de dieta.

A vontade de consumir orgânicos indo de encontro às dúvidas sobre a confiabilidade na certificação desse tipo de produto, como colocado por Ricardo, é um questionamento comum entre quase todos os vegetarianos. Primeiramente, onde acho alimentos orgânicos para comprar? E quando acho, o que devo verificar para ter certeza e confiar que realmente estou comprando e consumindo um produto livre de uso de agrotóxicos e outros venenos?

Uma boa notícia é que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) está finalmente regulamentando a atividade no país. Desde o dia 29 de dezembro de 2007 a agricultura orgânica no Brasil passou a ter critérios para o funcionamento de todo o seu sistema de produção, desde a propriedade rural até o ponto de venda. Até então não existia, por mais incrível que isso possa parecer, critérios definidos que regulamentassem a atividade no país – que atualmente tem 15 mil produtores numa área estimada de 800 mil hectares.

O que acontecia é a atuação de mais de 20 certificadoras “carimbando” produtos com o atestado de orgânicos. Para o consumidor final, tamanha diversidade de entidades pode gerar dúvidas em relação à confiabilidade no selo – principalmente os das certificadoras que são menos conhecidas - e à procedência do produto. Em que selo devo confiar? Será que os critérios de uns são mais “justos” do que os de outros?

“Hoje as certificadoras usam critérios diferentes e alguns divergem, o que não quer dizer que uma certificadora é melhor que a outra. A questão é que isso gera um debate sobre a credibilidade e acaba confundindo o consumidor final. A regulamentação é um avanço, tanto para o consumidor como para o mercado em si, pois também estimula mais investimentos no setor”, explica Ming Liu, coordenador da Organics Brasil, um projeto que engloba mais de 70 produtores e visa agregar valor aos produtos orgânicos brasileiros principalmente para o mercado de exportação.

O Decreto nº 6323, publicado em dezembro de 2007, regulamenta a Lei nº 10.831/2003, que trata sobre a produção, armazenamento, rotulagem, transporte, certificação, comercialização e fiscalização dos produtos e cria o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica. Em termos práticos isso significa que o Governo vai credenciar, acompanhar e fiscalizar os organismos responsáveis pela avaliação da conformidade orgânica e que está sendo criado um selo único para “carimbar” um produto nacional como orgânico.

O processo de regulamentação está tramitando e a regulamentação começará a valer de fato em janeiro de 2010. No início desse ano o MAPA abriu uma consulta pública para o modelo de selo orgânico que passará a ser usado para todos os produtos certificados como orgânico. Isso significa que o consumidor não terá mais que avaliar diferentes selos, e sim prestar atenção se o produto tem o selo nacional.

“Não há dúvidas de que a legislação só traz benefícios para o setor e que facilitará bastante a vida do consumidor, que precisa sempre estar muito bem informado sobre os critérios que fazem um produto ser considerado orgânico para fazer sua opção de compra”, diz Ming Liu.

Produção local e preço: A partir do ano que vem o consumidor poderá fazer qualquer questionamento de dúvidas sobre produtos orgânicos diretamente aos fiscais do Ministério de Agricultura. Por outro lado, os varejistas (supermercados e lojas especializadas) também serão responsáveis pelos alimentos que vendem e poderão ser multados caso não sigam as regras estabelecidas. Mas por hora, até a nova legislação de fato começar a funcionar, o momento é de o consumidor se informar para entender de forma cada vez mais clara como funciona o processo de produção orgânica e fazer a sua escolha com plena consciência.

“O consumidor deve estar sempre muito atento. Hoje há produtos à venda que colocam a palavra orgânico no rótulo, ou as palavras "feito com ingredientes orgânicos”, como uma maneira de atrair consumidores. Para que um alimento seja realmente orgânico pelo menos 95% dos ingredientes devem ser orgânicos”, esclarece Sylvia Wachsner coordenadora OrganicsNet, um projeto da Sociedade Nacional de Agricultura que apóia pequenos e médios produtores orgânicos na profissionalização de seus negócios.

No caso de legumes, verduras e alimentos frescos, o processo de produção orgânica é certificado de acordo com os critérios estabelecidos pelo organismo certificador. Para os produtos industrializados, o processo é certificado e há a exigência de que os ingredientes usados sejam orgânicos certificados. Existem até casos de empresas que produzem de forma convencional e orgânica, em lotes e espaços devidamente separados.

Quando o assunto é certificação de carne orgânica, há ainda algumas controvérsias sobre a real sustentabilidade da produção (ver boxe). No caso de cosméticos também há uma discussão conceitual sobre o uso ou não de ingredientes sintéticos. Porém, critérios e discussões à parte, é preciso que o consumidor exercite seu poder de discernimento para fazer a escolha pelo produto que mescle responsabilidade ambiental e social e benefícios para a sua saúde. Neste cenário entra o conceito de produção local, considerado por alguns especialistas como a evolução do conceito de alimentos orgânicos.

Mais do que a eliminação de impacto ambiental negativo, o que faz uma produção ser considerada orgânica é o fato de praticar o equilíbrio entre o ambiental, o social e o econômico. Ou seja, não basta eliminar o uso de agrotóxicos, é preciso pensar em toda a cadeia produtiva, passando pelas condições de trabalho dos profissionais envolvidos, a geração de renda para comunidades tradicionais e o impacto do armazenamento e transporte dos produtos. A resposta para associar todas essas características em um único produto muitas vezes passa pela produção local.

É uma questão de escolha: mais vale comprar um quilo de frutas orgânicas certificadas produzidas há vários quilômetros de distância da sua casa ou comprar um quilo de frutas produzidas, de forma mais artesanal, por uma cooperativa ou comunidade local de sua região, que pode ainda não ter condições de custear o processo de certificação? A decisão final cabe ao consumidor a partir de sua análise do que considera mais orgânico no sentido conceitual da palavra. Devido a grandes redes de lojas de produtos orgânicos, como a Whole Foods, nos Estados Unidos esta discussão está mais avançada no sentido de questionar se é possível aliar produção orgânica com produção em larga escala.

Outra variável que está sempre presente na opção pela compra de um produto orgânico é o preço, que invariavelmente ainda é bem maior, no Brasil, do que os dos produtos convencionais. “Os alimentos orgânicos são mais caros por diversos fatores: são produzidos por centenas de pequenos agricultores familiares em pequenas áreas, ou seja, não temos escala de produção. O custo da logística de levar pequenos volumes de produtos orgânicos é também muito elevado. A certificação ainda é muito onerosa. O prazo de conversão da agricultura convencional para orgânica é de uns dois ou três anos, tempo no qual a produtividade cai, causando prejuízo aos produtores”, explica Sylvia, da OrganicsNet.

Numa explicação mais simplista, o preço mais alto pode ser explicado pela velha lei da oferta e demanda. Na Europa e Estados Unidos, onde a produção e consumo de orgânicos se mostram mais avançados, o custo dos produtos certificados não fica acima de 30%, em média. E nos últimos meses, mesmo com a crise econômica, se assistiu a uma diminuição da produção, mas não do consumo.

O Brasil é o terceiro país com maior área certificada para produção de orgânicos no mundo, ficando atrás somente da Austrália e Argentina. Só que a maior parte do que é produzido nacionalmente seguindo critérios de produção orgânica é direcionada ao mercado internacional. A falta de regulamentação para o setor era, até então, um problema, até para medir estatísticas e avaliar a evolução do mercado interno. Mas é fato que a agricultura orgânica cresce no Brasil, numa faixa estimada de 20 a 30% ao ano. Supermercados continuam incrementando seus produtos e o espaço em prateleiras, investindo em orgânicos, o que indica que existe um negócio em expansão.

“Sempre terá uma diferença de preço entre um produto convencional e um orgânico, mas há condições desta diferença ficar cada vez menor, e aí o produto orgânico vira uma commodity. Para tal precisamos não só ter legislação adequada, mas também de educação dos consumidores, que devem primeiramente receber informações para ter condições de fazer a opção pelo orgânico e progressivamente aumentar a porcentagem de consumo”, conclui Ming Liu.

Dicas para o consumidor de produtos orgânicos

1 – Informe-se: procure sempre informações sobre o que são os alimentos orgânicos e se informe sobre o local de sua origem e modo de produção, suas vantagens para a saúde e para o meio ambiente, os critérios de certificação, o porquê os preços serem superiores etc. O ato de consumir produtos orgânicos é, antes de tudo, um ato de consumo consciente, que só é possível com informação, esclarecimento e conscientização.

2 – Segurança alimentar: não confunda orgânicos com segurança alimentar. Não é porque um alimento é orgânico que não deve ser higienizado e manuseado da forma como é aconselhada para preservar a saúde do consumidor. Ou seja, é preciso lavar frutas, legumes e verduras orgânicas da mesma forma como as convencionais.

3 – Analise a cadeia produtiva: além dos critérios de certificação orgânica, procure analisar a cadeia produtiva do alimento como um todo, baseado nas informações que tiver sobre a origem e processo para obtenção do produto. Considere as vantagens relacionadas à produção local em sua região para analisar os ativos e passivos socioambientais e fazer a escolha do melhor produto para consumo.

A controversa carne orgânica

Para um público de vegetarianos, falar sobre controvérsias no que é chamado de processo de produção de carne orgânica é algo óbvio. A proposta de “bois felizes” é controversa e gera muita discussão, mas é fato de que o filão “pecuária orgânica” está em expansão no Brasil, refletindo o próprio crescimento da pecuária industrial para exportação. Por mais que existam regras de manejo e origem do animal, alimentação, medidas sanitárias, medicamentos e métodos de transporte e abate, questões relacionadas tanto ao bem-estar dos animais como o direito de usá-los para alimentação não ficam fora da discussão.

E os próprios especialistas da área de orgânicos ressaltam que a criação de animais para alimentação de forma orgânica ainda carrega algumas contradições no que diz respeito aos impactos ambientais e sociais propriamente ditos. “Um peixe hoje para ser considerado orgânico só pode ser de criação em tanque, tratado com ração orgânica. Mas isso é muito discutível, porque os impactos ambientais de fazendas marinhas são muito grandes. Sem contar o impacto para pescadores mais tradicionais”, exemplifica Ming Liu, coordenador da Organics Brasil.

Benefícios dos alimentos orgânicos

Atualmente todos sabem que um alimento orgânico é muito mais que um produto sem agrotóxicos. Na verdade, ele é resultado de um sistema de produção agrícola que busca o equilíbrio entre todos os recursos naturais envolvidos na agricultura (solo, água, plantas, animais, insetos etc.) e os seres humanos. Esta prática da agricultura aplicada em harmonia com a natureza é chamada de agroecologia.

E além dos benefícios para o meio ambiente e para as pessoas envolvidas num processo agroecológico, já está mais do que comprovado que o alimento orgânico tem vantagens significantes para a saúde do consumidor. Não só pelo fato de ter quantidades ínfimas de patógenos e resíduos químicos, mas também por ter maior valor nutricional em comparação com o alimento de origem agrícola convencional. Ou seja, a teoria de que adubos químicos garantem maior valor nutricional simplesmente cai por terra.

A riqueza nutricional dos alimentos orgânicos foi devidamente oficializada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) depois da divulgação de uma pesquisa no Journal of Applied Nutrition (Jornal da Nutrição Aplicada), em 1993. A pesquisa foi realizada em Chicago, nos Estados Unidos, e analisou amostras de maça, batata, pêra, trigo e milho, orgânicos e convencionais. E a conclusão foi surpreendente no que diz respeito à diferença acentuada no conteúdo de alguns minerais essenciais – e na quantidade de mercúrio, substância extremante prejudicial à saúde. Veja abaixo os principais resultados:

MINERAL % superior do alimento orgânico
Cálcio 65
Ferro 73
Magnésio 118
Molibdênio 178
Fósforo 91
Potássio 125
Zinco 60
Mercúrio MENOS 29 %

*Publicado na edição de junho 2009 da Revista dos Vegetarianos

Projeto Mucky: protegendo nossos menores primatas


Acima: saguis em reabilitação nos recintos (fotos de Jaqueline B. Ramos)

A sagui Gorgonzola em sessão de hidroterapia (divulgação Mucky)

Por Jaqueline B. Ramos*

Provolone e Gorgonzola não andavam e chegaram com hernias e sem pêlo no corpo. Bill teve uma perna amputada por conta de uma fratura exposta e tem problemas emocionais que o levam a se automutilar. Mickaela tem traumas dos quais nunca conseguiu se recuperar e até hoje não consegue se socializar e vive sozinha.

Estas são algumas das histórias de sagüis que hoje são tratados e vivem sob cuidados constantes em cativeiro no Projeto Mucky, único no gênero no Brasil localizado numa área de 20 mil m2 em Itu, no interior de São Paulo.

Prestes a completar 24 anos, o projeto dá assistência a primatas brasileiros, em especial os calitriquídeos, popularmente conhecidos como sagüis. O Mucky recebe aqueles mais vitimados por ações inconseqüentes do homem e oferece o tratamento adequado para estes animais viverem, com o devido respeito que merecem, em cativeiro (pois a grande maioria não teria mais condições de ser reintroduzida na natureza). E o curioso é que estes tratamentos são exclusivamente alternativos, com direito à prescrição de florais e outros remédios fitoterápicos, sessões de massagem e até hidroterapia.

Além de problemas físicos e psicológicos causados pela captura, transporte e maus-tratos em geral característicos do comércio ilegal, vários animais chegam ao projeto com sérios problemas de deficiência nutricional. Na maior parte das vezes causados por pessoas que os compraram como “pets”, achando que poderiam tratá-los como um cão ou gato doméstico. Ledo engano: sagüis são animais silvestres que pertencem exclusivamente à natureza, ao seu habitat natural, e não devem viver presos em casas ou apartamentos.

“Seqüelas de desnutrição é um problema muito comum. Mas também temos muitos casos de sagüis vítimas mesmo de covardia, como é o caso de Funcho, que foi cegado com cigarro. Há também casos de sagüis que estão paraplégicos e que, felizmente, se adaptaram a um aparelho que criamos que permite que eles se locomovam. Aliás, há casos tão complexos e tristes que quando vemos que eles conseguem se locomover e vocalizar, por exemplo, já comemoramos como uma grande vitória”, explica Lívia Botar, fundadora e coordenadora do Projeto Mucky.

Lívia é formada em Educação Física e tem pós-graduação em Ecologia e Educação Ambiental. Há 24 anos se deparou com um sagüi-de-tufo-preto que estava com uma corda entranhada na cintura. O resgate e o difícil tratamento do sagüi, que foi batizado de Mucky, deu o pontapé inicial para a criação do projeto. E desde então Lívia e sua equipe não pararam mais de ajudar nossos pequenos macaquinhos.

Para ajudar os sagüis, adote uma pessoa: Como várias outras ONGs ambientais, o Mucky, a duras penas, recebe os animais resgatados de condições de maus-tratos e conta apenas com apoio de padrinhos e algumas empresas parceiras (Descarpak, Odontovet, Farmácia Buenos Aires e Núcleo de Diagnóstico Veterinário). O tratamento e acompanhamento dos 187 animais são feitos por uma equipe de 12 tratadores, contando com Lívia, quando o ideal era uma equipe de, no mínimo, 15 pessoas.

Segundo Lívia, a maior dificuldade para manter o trabalho e cuidar de mais animais são os gastos com os funcionários e a necessidade de mais contratações. Por isso, uma das principais campanhas do projeto atualmente é a de apadrinhamento de funcionários, que pode ser feito tanto por um grupo de pessoas físicas como por uma empresa.

“Os nossos tratadores são pessoas muito especiais e isso é fundamental para a recuperação e bem-estar dos sagüis. A maior parte está com a gente há muitos anos e tem um grande conhecimento pela vivência, no dia-a-dia, com os animais. É um trabalho muito delicado, individualizado, como se fosse cuidar de uma criança”, diz Lívia, ressaltando que o manejo dos sagüis é complexo porque eles se estressam facilmente e que está longe de ser um trabalho mecânico.

Ter um grupo de tratadores especiais e dedicados é um diferencial do Mucky, mas isso não prescinde da necessidade urgente de mais apoio financeiro e resulta em muito sacrifício por parte dos colaboradores. Que o diga Vanessa da Silva Souza, tratadora no projeto há oito anos.

“É um trabalho que exige muita paciência e envolvimento, porque na verdade você está lutando por uma causa. Temos que observar individualmente cada um dos sagüis para identificar mudanças no comportamento ou algum sintoma físico de doença. Cada um tem a sua história e precisamos ficar atentos ao seu bem-estar mental, para também melhorar o físico”, diz Vanessa, que trocou alunos na escola primária pelos sagüis.

Vanessa ainda ressalta que como a equipe é pequena, é necessário se desdobrar. Mas o resultado final é prazeroso, porque “você trabalha em prol de alguma coisa”. “Aprendo muito com toda a equipe, que é muito envolvida. Pela minha experiência de professora, também monitoro alguns grupos de alunos em visitas de educação ambiental. O mais importante é mostrar que, na verdade, estes animais deveriam estar na natureza”, conclui a tratadora, que afirma que a grande lição é que as pessoas não devem comprar animais silvestres.

Educação ambiental: Apesar das dificuldades, o esforço para salvar o sagüi Mucky ganhou cada vez mais força ao longo dos 24 anos e hoje o projeto tem como missão o compromisso com a vida. Além do trabalho de tratamento e recuperação dos sagüis, o Mucky também é referência por seu trabalho de educação ambiental e de combate ao tráfico de animais silvestres, sem contar que as instalações do projeto seguem todo um conceito ambiental, com horta orgânica, compostagem de lixo e plantio de mudas nativas.

"Nossa perspectiva aqui no projeto é ambiental. Fazemos muitos trabalhos de educação ambiental demonstrando, através das histórias dos animais que tratamos, a importância do equilíbrio dos ecossistemas e da interação do homem com a natureza de uma forma harmônica. E esta é a filosofia de todos que trabalham conosco. Aliás, é isso que faz dar tudo certo", diz Lívia.

Como ajudar

Pessoas físicas e jurídicas (empresas) podem ajudar fazendo apadrinhamento de funcionários, apadrinhamento de sagüis, doações e comprando produtos da loja virtual. O projeto não é aberto à visitação para o público em geral. Visitas monitoradas podem ser agendadas com antecedência por escolas e pelas pessoas/empresas madrinhas dos funcionários e/ou dos animais. Também é possível fazer trabalho voluntário, estágio e pesquisas de campo. Os contatos do projeto para obtenção de maiores informações são:

Site: http://www.projetomucky.com.br/
E-mail: projetomucky@projetomucky.com.br
Telefone: (11) 4023-0143

Espécies do Projeto Mucky

Os sagüis são os menores primatas do mundo e são brasileiros, endêmicos dos biomas do país. Infelizmente são vítimas constantes de tráfico e tentativas de domesticação, todas, sem exceção, completamente inadequadas.

Além de sagüis, o Projeto Mucky também abriga um casal de micos-de-cheiro (Saimiri vanzolinii) e um casal de bugios-ruivos (Alouatta guariba), que já tem um filhote de pouco mais de um ano. Estas duas espécies e mais o sagüi-branco-da-amazônia são as únicas em que a reprodução é permitida (e até esperada), pois são espécies ameaçadas de extinção. Já com os sagüis, todos os machos são vasectomizados para evitar a reprodução e facilitar o controle em cativeiro. Atualmente o projeto abriga 187 animais em 84 recintos. Veja abaixo as espécies abrigadas pelo Mucky:

Calitriquídeos (sagüis)

Sagüi-do-tufo-preto
Sagüi-do-tufo-branco
Sagüi-leãozinho
Sagüi kuhlíi
Sagüi-da-cara-branca
Sagüi-da-serra
Sagüi-branco-da-amazônia

Cebídeo

Mico-de-cheiro

Atelidae

Bugio ruivo
*Publicado no edição n. 84 (março-abril 2009) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung. Veja aqui.