quarta-feira, agosto 18, 2010

RODEIOS

Em alguns Estados ele já é probido por lei. Conheça um pouco sobre os bastidores dessa infeliz e cruel atividade que ganhou aparência de entretenimento

Por Jaqueline B. Ramos*


Se você visse uma pessoa aflita, sofrendo deliberadamente por 8 segundos, você consideraria isso um abuso, um exemplo de maus-tratos? A resposta é quase óbvia. Pois o argumento ensaiado “eles se apresentam na arena apenas por 8 segundos” é o principal usado pelos participantes e defensores dos eventos conhecidos como rodeios, nos quais touros e cavalos – e, em alguns casos, até bezerros e novilhos - são montados e/ou laçados e submetidos a uma espécie de desafio para que um peão se exiba para o público demonstrando seu “domínio sobre o animal”.


A origem dos rodeios data do final do século XIX nos Estados Unidos, quando cowboys começaram a competir entre si para ver quem tinha mais habilidade e coragem para dominar os “animais ferozes do Velho Oeste”. Com o tempo a atividade ganhou a roupagem de entretenimento sob o argumento de que consistia em uma manifestação cultural. Cultura e países a parte, o fato é que é uma prática marcada pela subjugação dos animais e movida atualmente por grandes grupos econômicos que visam o lucro do “show” da montaria na arena, geralmente atrelado a grandes espetáculos musicais e venda de comida e bebida.


“É impossível pensar que as provas dos rodeios são realizadas sem causar nenhum incômodo ou impacto negativo para os animais. A situação de maus-tratos é inerente a qualquer tipo de rodeio, seja os com grande produção ou os com menos estrutura. No Brasil, dependendo da região, pode mudar um pouco a roupagem, mas o comprometimento do bem-estar e integridade dos animais se dá da mesma forma”, explica a médica veterinária Vânia Plaza Nunes, que acompanha a problemática dos rodeios há vários anos.


Vânia foi diretora do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, que no ano de 2006 conduziu um estudo técnico a pedido da Promotoria de Justiça de Barretos (SP) no famoso rodeio da cidade. Como já era de se esperar, o estudo apontou com dados e fatos todas as questões que comprometiam a integridade física e mental dos animais de uma forma bem abrangente, analisando desde a fase de treinamento e condições de alojamento até os riscos da atividade para as pessoas envolvidas.


“Entre os inúmeros problemas que detectamos pode-se destacar as condições inadequadas dos alojamentos, o condicionamento para suportar barulho, conviver com outros animais, ficar acordado por várias horas e suportar mudanças térmicas e uma alimentação exageradamente rica em carboidrato. Tudo isso vai contra a natureza dos animais e causa, no mínimo, stress, sem contar outras várias questões, como lesões pelo uso de equipamentos e pelas brigas entre animais”, conta a médica veterinária, ressaltando os problemas vão muito além do momento do evento em si.


O trabalho em Barretos contou com a vitória de a Justiça proibir a prova de laço de bezerro no evento, que não acontece desde 2007. Hoje a meta é lutar para proibir a prova conhecida como bulldog (ver mais detalhes no boxe).


Crueldade além da arena: Retomando o argumento mais famoso dos cowboys brasileiros, mesmo que o sofrimento dos animais fosse por apenas 8 segundos, isso por si só isso já justificaria as condições de maus-tratos a que são submetidos nas provas de rodeios. E quando nos damos conta de que a crueldade ocorre por muito mais que 8 segundos, fica mais fácil ainda concluir porque os rodeios consistem numa prática, no mínimo, ultrapassada.


“A verdade é que não existe rodeio sem crueldade. Os maus-tratos não se limitam ao momento que o animal adentra a arena. Normalmente eles são alugados ou pertencem a companhias de rodeios, são transportados por horas em más condições e, ao chegarem ao destino, aguardam mais longas horas até o início do espetáculo. Muitas vezes são provocados, açoitados e expostos a volumes sonoros altíssimos”, alerta o deputado federal Ricardo Trípoli (PSDB-SP), que sempre trabalhou com causas ambientais e de defesa dos animais. “O suplício não cessa, se estende da criação, transporte e espera, ao corredor, ao brete e à arena. E o pior é que no outro dia tudo se repete.”


Trípoli é muito crítico à legislação vigente que regulamenta os rodeios e os instrumentos que podem ser utilizados nos animais (Lei Estadual 10359/99 – SP e Lei Federal 10519/02). Segundo o deputado, elas foram elaboradas pelo setor no intuito de garantir o negócio e tentar minimizar as severas críticas da sociedade. Como os maus-tratos vão muito além dos instrumentos utilizados e da “performance” na arena, é necessária a incidência de outras normas, principalmente a própria Constituição Federal, que no artigo 225 veda a submissão de animais a crueldades, e a Lei de Crimes Ambientais (9605/98), que também resguarda os animais de abusos e maus-tratos.


“Estamos numa luta grande no Congresso contra a bancada ruralista, que pretende retirar do rol de maus-tratos os animais domésticos e domesticados, para que não se tipifique crime maltratá-los”, conta o deputado, ressaltando o importante papel do Ministério Público e da sociedade em geral na fiscalização e denúncia de maus-tratos nesse tipo de atividade, para que as leis sejam não só cumpridas, mas, sobretudo, melhoradas.


Segundo Trípoli, para se colocar um fim aos rodeios no país, é preciso, antes de tudo, uma inversão de paradigma. Se não houver informação e conscientização da sociedade, não será possível vislumbrar a alteração deste cenário. “A questão não se limita aos interesses econômicos. É claro que o poderia proporciona atingir a mídia e à população, mas é preciso mudar a cultura, a postura e incutir em nossos valores o respeito à vida, prioritariamente. Rodeio é um lazer primitivo e ignorante e não deve ser confundido com a cultura de um povo”, conclui Trípoli.


Linguagem dos rodeios


Laçada de bezerro: um animal de apenas 40 dias é perseguido em velocidade sendo laçado e derrubado ao chão. Pode ocorrer ruptura na medula espinhal, ocasionando morte instantânea, e alguns ficam paralíticos ou sofrem rompimento parcial ou total da traquéia. Pode também ocorrer a ruptura de diversos órgãos internos, levando o animal a uma morte lenta e dolorosa.


Laço em dupla/Team roping: dois peões correm e um deve laçar a cabeça do animal e o outro, as pernas traseiras. Em seguida os peões esticam o boi entre si, resultando em ligamentos e tendões distendidos, além de músculos machucados.


Bulldog: dois peões ladeiam o animal, que é derrubado por um deles, segurando pelos chifres e torcendo seu pescoço.


Sedem ou sedenho: é um artefato de couro ou crina que é amarrado ao redor do corpo do animal (sobre pênis ou saco escrotal) e que é puxado com força no momento em que o animal sai à arena. Além do estímulo doloroso, pode provocar rupturas viscerais, fraturas ósseas, hemorragias subcutâneas, viscerais e internas e, dependendo do tipo de manobra e do tempo em que o animal fique exposto a tais fatores, pode levar ao óbito.


Objetos pontiagudos: pregos, pedras, alfinetes e arames em forma de anzol são colocados nos sedenhos ou sob a sela do animal.


Peiteira e sino: consiste em outra corda ou faixa de couro amarrada e retesada ao redor do corpo, logo atrás da axila. O sino pendurado na peiteira constitui-se em mais um fator estressante pelo barulho produzido.


Esporas: às vezes pontiagudas, são aplicadas pelo peão tanto na região do baixo-ventre do animal como em seu pescoço, provocando lesões e perfuração do globo ocular.


Choques elétricos e mecânicos: aplicados nas partes sensíveis do animal antes da entrada na arena.


Provas da crueldade


  • O médico veterinário norte-americano Dr. C.G. Haber, que passou 30 anos como inspetor federal de carne, viu vários animais descartados de rodeios sendo vendidos para abate. Ele descreveu os animais como "tão machucados que as únicas áreas em que a pele estava ligada à carne eram cabeça, pescoço, pernas e abdome. Eu vi animais com 6 a 8 costelas quebradas à partir da coluna, muitas vezes perfurando os pulmões. Eu vi de 2 a 3 galões de sangue livre acumulado sobre a pele solta. Estes ferimentos são resultado dos animais serem laçados nos torneios de laçar novilhos ou quando são montados através de pulos nas luta de bezerros."

  • Em um estudo conduzido pela organização norte-americana Humane Society, dois cavalos conhecidos pelos seus temperamentos gentis foram submetidos ao uso da cinta no flanco. Ambos pularam dando coices até a cinta sair. Então vários cavalos do circuito de rodeio foram liberados dos currais sem a cinta no flanco e não pularam nem deram coices, mostrando que o comportamento selvagem e frenético é induzido pelos cowboys e promotores dos rodeios.

  • No Brasil há um estudo bem conhecido coordenado pela Dra. Irvênia Prada, especialista em anatomia animal da USP. Ao observar as fotos dos animais em plena atividade no rodeio, a especialista declara: "os olhos dos animais mostram uma grande área arredondada, luminosa, conseqüente à dilatação de sua pupila. Na presença de luz, a pupila tende a diminuir de diâmetro (miose). Ao contrário, a dilatação da pupila (midríase) acontece na diminuição ou ausência de luz, na vigência de processo doloroso intenso e na vivência de fortes emoções e que acompanham situações de perigo iminente, caracterizando a chamada Síndrome de Emergência de Canon. No ambiente da arena de rodeio, o esperado seria que os animais estivessem em miose, pela presença de luz. Assim, a midríase que exibem é altamente indicativa de que estejam na vigência da síndrome, o que caracteriza o sofrimento mental."

Onde os rodeios já são proibidos no Brasil


O Estado do Rio de Janeiro já proíbe a realização de rodeios em seu território e diversos municípios nos estados da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo também (entre eles Campinas, São José dos Campos, Sorocaba, Taubaté, Santo André, Santos, Ubatuba e São Bernardo do Campo). E a proibição da atividade está em tramitação nos estados do Ceará e Santa Catarina.


*Matéria publicada na edição de agosto de 2010 da Revista dos Vegetarianos


quinta-feira, maio 13, 2010

EDUCAÇÃO HUMANITÁRIA

Fonte: WSPA


Respeito a todas as formas de vida

por Jaqueline B. Ramos*

“A forma como tratamos os animais nos afeta como humanos - a qualidade de vida animal afeta a qualidade de vida humana”. Esta frase foi apresentada numa publicação da ONG inglesa Sociedade Mundial para Proteção Animal (WSPA) no ano 2000 e pode ser considerada como um dos preceitos de uma nova metodologia de educação transformadora chamada de Educação Humanitária (EH).

Em linhas gerais, a Educação Humanitária é aquela que faz professores, alunos e pais refletirem sobre a coexistência de todas as formas de vida no planeta. É um conceito que engloba todas as formas de educação para justiça social, cidadania, questões ambientais e o bem-estar dos animais. A educação humanitária reconhece a interdependência de todos os seres vivos e é baseada em valores de respeito a todas as formas de vida, apreciação da diversidade e tolerância das diferenças.

Assim como a Educação Ambiental, a EH se constitui em um instrumento fundamental para fazer frente aos problemas decorrentes do modelo de desenvolvimento econômico que impõe padrões de produção e consumo insustentáveis. Estes padrões acabam refletindo negativamente na relação humanos e não-humanos, a exemplo da violência por que passa a sociedade contemporânea, impressa tanto simbolicamente como na violência física propriamente dita.

Nesse contexto, a EH se propõe a oferecer instrumentos de construção e crítica da realidade nas comunidades escolares. A meta é que a metodologia desperte na comunidade o enfrentamento das contradições, dos desequilíbrios socioambientais, e conseqüentemente, a mudança na forma de tratamento dispensado aos animais - que, em grande medida, são considerados como meros objetos passíveis de subjugação para o atendimento de interesses diversos da atividade humana – e aos seus próprios semelhantes.

Bem-estar animal contra a violência: A percepção da senciência dos animais, de que os mesmos têm sentimentos e necessidades, e de que as ações promovidas pelos humanos geram impactos sobre o ambiente e demais formas de vida, configura a trilha para solucionar vários dos dilemas morais e abrir espaço para o respeito à diversidade e ao direito à vida de todos os seres vivos.

Diante disso vale ressaltar que umas das bases da EH é o “link da violência”, já divulgado largamente por vários estudos de psicologia. As pesquisas demonstram claramente uma correlação entre a crueldade contra animais na infância e a posterior prática da criminalidade. Em alguns casos há registros que tais atos foram inclusive precursores do abuso contra crianças.

Considera-se que valores como compaixão, respeito, tolerância, solidariedade e empatia em relação a outros seres são fundamentais para a formação de cidadãos gentis, atenciosos, cuidadosos e amorosos, contribuindo, assim, para quebrar o ciclo da violência e para dar lugar a uma sociedade mais justa e harmoniosa. Assim, pode-se afirmar que o abuso contra os animais não é um fato isolado. Ele está relacionado a um universo complexo de relações familiares perturbadas e usar esta ligação para uma educação transformadora é uma estratégia eficiente.

O livro “Abuse, Domestic Violence and Animal Abuse: Linking the Circles of Compassion for Prevention and Intervention (Abuso, Violência Doméstica e Abuso de Animais: fazendo o link dos ciclos de compaixão para prevenção e intervenção)”, de Frank R. Ascione e Phil Arkow, enfatiza que os programas de prevenção da violência são aprimorados quando se inclui práticas de proteção animal e se reconhece que os maustratos contra animais são uma questão de bemestar humano.

A experiência em Brasília: A EH tem uma experiência precursora no Distrito Federal, com o Programa “Escola é o Bicho – Educação Humanitária em Bem-Estar Animal”. Resultado de uma parceria da ONG WSPA com o projeto governamental “Escola de Natureza”, o programa é desenvolvido desde outubro de 2007 com o objetivo que docentes do DF incorporem a dimensão do bem-estar animal no contexto escolar – além de contribuir com o programa do Governo do Distrito Federal de redução da violência nas escolas.

O Programa “Escola é o Bicho” foi concebido a partir de dois eixos – a formação de educadores humanitários (curso de 90 horas certificado pela Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação – EAPE) e a criação dos Grupos de Bem-Estar Animal (GBEAs) nas escolas e comunidades dos participantes do curso. Tanto o conteúdo desenvolvido no curso quanto o conjunto de atividades propostas para os GBEAs buscam informar e sensibilizar as pessoas para a percepção e envolvimento em ações proativas que promovam o protagonismo infanto-juvenil e o exercício dos princípios e valores da educação humanitária.

Com o auxílio de recursos da educomunicação e da arte-educação, o “Escola é o Bicho” contribui para promover o diálogo entre os saberes e provocar a cidadania viva e crítica em relação à responsabilidade de cada um e de toda a comunidade escolar pela vida em todas as suas manifestações. Entre os destaques do programa está a organização de eventos educativos e culturais no Dia Mundial dos Animais (4 de outubro), o desenvolvimento da campanha “Circo legal não tem animal” e exposições diversas com a participação dos alunos e seus trabalhos versando sempre sobre o tema “Para mim os animais importam”.

Os GBEAS já criados também vêm se destacando dentro do programa. De acordo com a professora Rosemeyre Gontijo, do GBEA Lobo Guará (Escola CEF 02 do Guará), o “Escola é o Bicho” tem se mostrado como importante ferramenta para o enfrentamento de problemas
relativos ao comportamento dos alunos. “Estamos tendo êxito no processo de sensibilização, por meio dos temas relativos ao respeito aos animais. É um assunto que os alunos gostam, ficam motivados e assim percebemos a interação deles no processo. Desta forma, vemos surgir mais respeito para com os colegas, a família e a comunidade desde que começamos este trabalho. Mas é um trabalho que tem que ser construído dia-a-dia”.

Outro GBEA cujos resultados positivos com a criançada já são facilmente visíveis é o Esperança, formado por alunos do 2º e 5º anos do Ensino Fundamental da Escola Classe 206 Sul. No dia 17 de setembro, por exemplo, o GBEA organizou o “Dia de Soltar os Bichos” na escola, no qual os alunos fizeram diversas apresentações artísticas. Depois de ler um trecho da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, o aluno Lucas Miguel disse “Ninguém vê a beleza essencial de um animal enjaulado e sim a sombra de sua beleza perdida”. Já a aluna Laura disse: “Pense bem! Se fizéssemos um minuto de silêncio veríamos o quanto os animais presos em jaulas sentem desespero e gritam por liberdade!”

Principais aprendizados da educação em bem-estar animal

 Saber que os animais têm necessidades, que humanos interagem com outros animais e que nós compartilhamos o mesmo ambiente com outros seres vivos.
 Entender como ações humanas podem afetar os animais e outros seres vivos e que, por causa disso, nós temos o dever de lhes prestar cuidados. Entender que freqüentemente nos deparamos com dilemas morais e que as pessoas têm opiniões diferentes.
 Adquirir habilidades para comunicação eficaz (para que possamos explicar melhor
nossas ideias e responsabilidades), demonstrando os níveis apropriados de cuidados e empatia.
 Desenvolver e mostrar atitudes de amabilidade, respeito, responsabilidade.

Valores da Educação Humanitária

 Desenvolve a sensibilidade para com todas as formas de vida, apreciação da diversidade e tolerância das diferenças.
 Estimula as crianças a terem mais compaixão e a aprenderem a viver com mais respeito por todos (o que se enquadra em qualquer política anti-intimidações e aborda o ciclo de violência inter-pessoal e abuso animal).
 Promove oportunidades para as crianças desenvolverem um sentimento de admiração, responsabilidade e dever de cuidar do mundo natural e seu meio ambiente. A educação humanitária torna claro que nós compartilhamos o mundo com outros animais que têm necessidades e sentimentos.
 Contribui para o desenvolvimento de atitudes e pensamento crítico das crianças
(o que aumenta sua auto-estima).

*Publicado no Informativo do Insituto Ecológico Aqualung n. 89 - janeiro/fevereiro 2010. Veja o informativo completo aqui.

CURTAS AMBIENTAIS

Por Jaqueline B. Ramos*

“Limpeza marinha” comprometida


Um recente estudo feito pela Universidade de
São Paulo (USP) concluiu que ambientes
marinhos que vivenciam um maior impacto de
atividades humanas e um maior nível de
contaminação fecal têm sua reciclagem natural
alterada. O motivo é a redução de diversidade
das bactérias chamadas de quitinolíticas,
microrganismos fundamentais para os
ecossistemas marinhos. Elas produzem uma
enzima conhecida como quitinase, que exerce
papel importante no processo de degradação
da quitina, principal constituinte do exoesqueleto
dos artrópodes e moluscos. A pesquisa foi
orientada pela professora Irma Rivera, que
coordena o projeto de pesquisa Diversidade de
microrganismos marinhos, com ênfase em
proteobactérias vibrios, colífagos, leveduras e
bactérias quitinolíticas na região costeira do
estado de SP. “O nível de contaminação fecal
presente em cada ambiente estudado
influenciou significativamente a diversidade e o
potencial enzimático das bactérias. A maior
diversidade – abrangendo 19 gêneros – foi
encontrada nas amostras do canal de São
Sebastião e de Ubatuba, que têm médio e baixo
nível de impacto antropogênico”, explica.


Lixo virando energia

Gerar energia a partir do aproveitamento do lixo
doméstico é uma idéia que está mais próxima de
virar realidade no Brasil. Pelo menos no segmento
de plástico. Inspiradas em tecnologias existentes
em outros países do mundo baseadas no poder
calorífico das sacolas plásticas e na discussão mais
ativa da Política Nacional de Resíduos Sólidos,
grandes empresas do setor já anunciam possíveis
resultados práticos já para 2010. “Estamos
analisando alternativas tecnológicas para a
solução energética (do uso do lixo e das sacolas
plásticas), que não pelo tradicional sistema de
queima”, revelou recentemente o diretor de
Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Jorge
Soto. Já a Plastivida assinou em setembro um
acordo com a Associação Brasileira de Empresas
de Limpeza e Resíduos Especiais (Abrelpe) para
promover a reciclagem energética dos resíduos
sólidos no Brasil. Ao mesmo tempo, intensificou
as conversações com parlamentares para incluir
o tema na Política Nacional de Resíduos Sólidos.
O Brasil ainda analisa a viabilidade da construção
da primeira usina de reciclagem em larga escala,
mas países como Japão e Alemanha já têm parte
significativa do lixo destinado à geração
energética. Segundo levantamento da Plastivida,
há mais de 850 usinas de reciclagem energética
ao redor do mundo. Por aqui, a única unidade -
ainda em escala piloto - a apresentar números
significativos é a Usinaverde, um projeto
instalado no campus da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ).


Biocombustível no ar

A Agência internacional de Transportes Aéreos
(Iata) anunciou em outubro que prevê o uso de
6% a 7% de biocombustíveis na frota mundial
de aviões até o ano de 2020, com o objetivo do
setor atingir as metas de redução das emissões
de CO2. A Iata representa 230 companhias
aéreas e 93% do tráfego aéreo no mundo e prevê
uma melhora da utilização do combustível nos
aviões de 1,5% ao ano até 2020, além de uma
redução da metade das emissões até 2050, em
relação a 2005, e uma estabilização das emissões
a partir de 2020. Atualmente a Iata trabalha no
desenvolvimento de biocombustíveis de segunda
geração, elaborados com algas que podem ser
misturadas ao querosene comum. A idéia é obter
a certificação destes biocombustíveis em 2010.
Segundo a agência, o setor aéreo emite
aproximadamente 620 milhões de toneladas de
CO2 ao ano e conseguiu reduzi-las em 70
milhões de toneladas ano passado graças à
melhorias no controle do tráfego aéreo e no
encurtamento de alguns itinerários.


Drástica redução de desmatamento
na Amazônia


O governo brasileiro assumiu oficialmente o
compromisso de reduzir em 80% o
desmatamento da Amazônia até o ano de 2020,
evitando a emissão de 4,8 bilhões de toneladas
de CO2. A meta audaciosa foi anunciada em
outubro pelo próprio presidente Lula e foi
ratificada na COP-15, em Copenhague, em
dezembro. De acordo com estimativas
governamentais, cerca de 60% das emissões
brasileiras de gases-estufa são provenientes das
queimadas.O número divulgado por Lula
respalda a proposta do Ministério do Meio
Ambiente para a reunião da ONU, segundo a
qual o Brasil estabilizaria suas emissões de 2020
em valores de 1994 com a redução do
desmatamento também em outros biomas, a
ampliação do uso de biocombustível e um maior
investimento em hidrelétricas. O governo
brasileiro também ressalta a importância da
contrapartida dos países ricos, que devem assumir
compromissos não apenas para diminuir as
emissões, mas também de “pagar” pelo estrago
que já fizeram.

Consumo consciente em escolas

Projetos de consumo consciente de energia
elétrica e água desenvolvidos em escolas públicas
do estado de São Paulo já estão apresentando
resultados bastante significativos. Segundo
dados da Companhia de Saneamento Básico do
Estado de São Paulo – Sabesp, a redução do
consumo médio de água já chegou a 37%,
considerando o trabalho desenvolvido com o
Programa de Uso Racional da Água (Pura) em
quase 700 escolas públicas. A água economizada
pelas escolas é suficiente para abastecer cerca de
16 mil pessoas. E a partir de 2010, o Programa
de Eficiência Energética, da Secretaria da
Educação, em parceria com a AES Eletropaulo,
pretende gerar uma economia de até R$ 1,7
milhão. Para a redução de consumo de energia
elétrica estão sendo trocadas lâmpadas e reatores
por aparelhos mais modernos e econômicos. A
medida deve gerar uma economia de
aproximadamente 5.850 MWh/ano, o
equivalente ao abastecimento de 6.790
residências durante um ano.

Medição de poluição sonora marinha

Pesquisadores da Universidade do Algarve, de
Portugal, criaram uma espécie de gravador digital
para medir a poluição sonora submarina. O
objetivo é proteger baleias, golfinhos e peixes
medindo a poluição sonora no mar e evitando
problemas como ruptura de ligações sociais,
perda de sensibilidade auditiva temporária e
permanente e maior cansaço dos animais por
gastarem mais energia para se comunicarem e
localizarem alimentos. O protótipo do aparelho
começará a ser introduzido no mercado em 2010.
Os ruídos subaquáticos provocados por
explosões durante obras marítimas e barulhos
das explorações petrolíferas e a poluição sonora
provocada por cargueiros e petroleiros nos
portos marítimos e nas suas rotas perturbam os
animais marinhos e podem, nos casos mais
severos, causar a morte de forma indireta. Para
os golfinhos e baleias, por exemplo, que se
comunicam por meio do som com diversos fins,
é fundamental que nada quebre essa dimensão
comunicacional. O protótipo português está em
sintonia com resoluções da União Européia, que
aprovou uma diretiva em 2008 com objetivo cujo
objetivo é atingir metas de qualidade ambiental
do ruído debaixo de água até 2020.

Selo único para orgânicos

Depois de um ano de estudos e consulta pública
à sociedade, o Ministério da Agricultura instituiu
o selo único para produtos orgânicos no Brasil
em novembro. O selo só pode ser usado nos
orgânicos produzidos em unidades credenciadas
pelo ministério e visa padronizar os critérios de
certificação dos produtos advindos de sistemas
naturais e sem agrotóxicos, facilitando também
a escolha e segurança da origem do produto por
parte do consumidor. A partir de agora a exceção
da obrigatoriedade de certificação dos orgânicos
vale para os produtos da agricultura familiar, que
podem ser vendidos diretamente aos
consumidores, desde que os agricultores estejam
vinculados a uma organização de controle social
(OCS). De acordo com o Ministério da
Agricultura, o selo só será conferido após
rigorosos exames de controle de qualidade de
solo, da água e reciclagem de matéria orgânica.

* Publicado no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 89 - janeiro/fevereiro 2010. Veja o informativo completo aqui.


A força do cyberativismo ambiental


Por Jaqueline B. Ramos*

Cada vez mais, ativistas do mundo inteiro recorrem às diferentes ferramentas da internet para trocar informações, denunciar agressões ao meio ambiente e
organizar protestos.


Ativismo sempre foi uma palavra de ordem de muita força na defesa do meio ambiente. E, nos últimos anos, com o avanço exponencial da internet, o ativismo através da rede – ou cyberativismo – se desenvolveu em proporções inimagináveis, envolvendo
um crescente número de pessoas de uma forma cada vez mais intensa e comprometida. Bom para o meio ambiente, que tem ao seu lado mais um forte aliado.

Cyberativismo consiste num modelo de atuação que utiliza as novas tecnologias de informação e comunicação – ou, no jargão internético, TICs – como palco de suas ações e parâmetro estrutural de sua organização. “A importância da internet hoje para as nossas campanhas é indiscutível, tanto no sentido de informar as pessoas como no de sensibilizar e facilitar a participação. E isso acaba se transformando numa forte ferramenta de pressão política, pois fica evidente para o governo que o público vê o que está acontecendo, entende o quanto aquilo pode impactar suas
vidas e exige ações de mudança”, afirma Mariana Schwarv, publicitária da área de marketing online do Greenpeace Brasil. “A verdade é que a internet dá voz a todo mundo.”

O Greenpeace é um dos principais exemplos de organização que “usa e abusa” da internet tanto para seustrabalhos de informação e conscientização como de levantamento de recursos. E no Greenpeace Brasil não é diferente. A estratégia é usar os diferentes recursos oferecidos hoje pela rede para atingir um número cada vez maior de pessoas com uma linguagem clara e objetiva. Em termos práticos, isso significa que o Greenpeace está em todas as modernas redes sociais – Orkut, Facebook e Twitter, por exemplo – e utiliza recursos como vídeos, animações e flash
para tornar as mensagens digitais cada vez mais acessíveis.

Os números confirmam o sucesso do cyberativismo da ONG. O cadastro base de cyberativistas do Greenpeace Brasil é composto atualmente por nada mais nada menos que 260 mil nomes. E o Twitter da organização tem mais de 32 mil seguidores, sendo o maior e o que faz mais sucesso entre todos os escritórios do Greenpeace no mundo – incluindo o internacional, que tem “apenas” 14 mil seguidores.

“Usamos o Twitter há pouco mais de seis meses e felizmente tem sido um grande sucesso. Procuramos twittar notícias e também informações de serviço para os internautas, bem como ações ao vivo, o que desperta um grande interesse. Em termos de volume de pessoas envolvidas, também destacamos o Orkut, que reúne comunidades ligadas diretamente às nossas campanhas e também comunidades simpatizantes”, diz Mariana. Ela destaca a recente campanha online sobre a MP-458 (de regularização fundiária da Amazônia), na qual divulgaram os telefones do gabinete do presidente Lula e cujo resultado foi que os internautas lotaram a caixa postal presidencial com mensagens contrárias à aprovação da lei.

O jornalista e escritor Vilmar Berna, um dos precursores no movimento de divulgação de informações no movimento ambiental brasileiro, é um dos entusiastas da internet e do cyberativismo. Editor do Portal do Meio Ambiente e fundador da Rede Brasileira de Informação Ambiental(Rebia), ele lembra que a internet é um território livre, não controlado por político algum. “Todos sabem o poder que o povo tem e não há um político que não tema esse poder popular. Nesse contexto, a internet assume um papel muito importante”, garante.

Inclusão digital e atuação in loco

Em meio ao avanço exponencial do cyberativismo, com todos os modernos recursos
oferecidos pela rede, uma questão merece ser ressaltada: o acesso, propriamente dito, à internet. Apesar de ser um veículo democrático e livre, a web ainda é um privilégio que não alcança nem 20% da sociedade brasileira. E isso é um ponto que merece ser considerado.

“Acho que todos os recursos cumprem seu papel na rede virtual. São ferramentas de comunicação livres e interativas, de mão dupla, em que a gente é influenciado e também influencia. O desafio é promover a inclusão digital de mais e mais brasileiros e lutar pela democratização da informação socioambiental, pois, sem
acesso adequado à informação, dificilmente a sociedade conseguirá avançar a tempo rumo a um modelo diferente de desenvolvimento deste que está conduzindo a humanidade ao colapso", afirma Vilmar.

Outro desafio para o cyberativismo é a sua utilização de forma inteligente. Em outras palavras, é saber usar a internet e as TICs como plataformas e objetos de organização, para dar visibilidade à causa e recrutar novos ativistas, mas nunca substituir a atuação in loco. A opinião é do jornalista Pedro Penido, especialista em comunicação online e em produção para mídias digitais.

“Apesar de inicialmente o cyberativismo ser muito sedutor e apresentar possibilidades
muito interessantes, a médio e longo prazos há o risco dessas opções removerem do ativismo sua essência e torná-lo apenas um ensaio, enquadrado de acordo com as limitações midiáticas da web. Acredito que a internet e o ciberespaço possam ser utilizados de maneira inteligente como plataformas de lançamento de campanhas, como repositórios de informações qualificadas, dados e estatísticas, como opção de organização de grupos e troca rápida e segura de informações. Mas o cyberativismo nunca pode tomar o lugar da atuação in loco”, conclui Penido.

Os recursos Web 2.0 para o cyberativismo

Twitter
A característica principal do Twitter é a
de seu imediatismo, da velocidade das
informações e da possibilidade de “seguir”
(ouvir) apenas quem interessa a você. Da mesma
maneira, você só será “seguido” (ouvido) por pessoas
que se interessam pelo seu campo de atuação. É uma boa opção
por oferecer opções de aprofundamento das informações para
públicos já filtrados/segmentados. O Twitter pode ser utilizado
para compartilhar informações mais específicas e detalhadas.
Além disso, é um fator mobilizador, uma vez que permite alcance
e penetração de maneira rápida e precisa.

Redes Sociais (Ning)
O Ning é uma estrutura nova na internet. Seu principal objetivo
não é o de reunir pessoas apenas, mas o de reunir pessoas que
queiram reunir pessoas. O Ning permite que você crie sua própria
rede social, organizando-a de acordo com suas necessidades
e oferecendo múltiplas ferramentas e recursos para que sua
experiência seja interessante e atraente, de modo que pessoas
possam se inscrever na rede recém-criada e nela compartilharem
informações. Pode servir como repositório de dados, fotos, vídeos,
agenda e informações que podem ser difundidas no Twitter,
por exemplo.

Facebook e Orkut
Facebook e Orkut são redes de relacionamento gigantescas, com
milhões de usuários. A entrada de um movimento de ativismo
nessas redes pode funcionar como chamariz para a causa.
As palavras que regem a participação de um movimento ativista
nessas redes são visibilidade e recrutamento. No entanto, não se
pode esperar que tenham a mesma profundidade que outros recursos
destinados exclusivamente ao movimento ou à causa.

Blogs
Blogs servem às mais variadas causas, projetos e interesses. É
uma ferramenta para dizer as coisas na internet, de acordo com
uma rotina de publicação e política editorial mais livre de amarras
institucionais. Blogs são mais limitados em termos interacionais,
porém mais avançados em termos “jornalísticos” (mediadores
de informação). E isso, quando bem utilizado e pensado, pode
servir como salvaguarda de múltiplas necessidades ao longo de
um processo mobilizador.

Listas de discussão
Mesmo tendo perdido parte de sua força para a popularização
das redes sociais atuais, as listas de discussão sempre podem
servir como mantenedoras da organização informacional e
estrutural de um movimento. Nelas sabe-se da participação
de cada um. Nelas acontecem demonstrações de opinião que
permitem desdobramentos mais intensos e menos “imediatistas”.
Conservando todas as características do uso dos e-mails,
as listas de discussão podem ser uma viga mestra dentro de
um movimento, ou, no mínimo, a responsável por permitir uma
visualização da participação das pessoas.


Fonte: Pedro Penido (Meio Digital)

* Publicado na revista Senac Educação Ambiental - julho/dezembro 2009. Leia a edição completa aqui.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Por Jaqueline B. Ramos*
O chimpanzé Jeber teve seus dentes arrancados no circo (crédito: projeto GAP)

Elefantes em um circo na Europa (crédito: CAPS)

Faze é um urso negro americano de pouco mais de 15 anos. Viveu toda sua vida em carretas de circos. Foi viciado em Coca-Cola, teve seus dentes cerrados e as garras de suas patas dianteiras arrancadas. Hoje parece mais um cachorro, pois perdeu todo o seu instinto selvagem. Gaya é uma leoa que foi resgatada quando tinha aproximadamente 13 anos. Estava muito desnutrida, a ponto de não parar em pé, e tinha uma grande quantidade de bicheira nas patas. Também tinha uma grave infecção bucal pelo fato de seus dentes caninos estarem serrados. Os chimpanzés Jeber e Tyson, de 18 anos, foram vendidos ainda filhotes para um circo, onde foram violentamente castrados (mutilados) e tiveram todos os seus dentes arrancados. Quando foram confiscados viviam acorrentados em jaulas minúsculas e em péssimo estado.

Faze, Gaya, Jeber e Tyson são alguns exemplos de animais que sofreram por anos a fio em circos e tiveram a sorte de serem resgatados. Hoje todos eles vivem em santuários no interior de São Paulo, recebem o tratamento digno que merecem e se recuperam, aos poucos, dos traumas físicos e psicológicos que lhe foram covardemente impostos. Mas um grande número de animais no Brasil e no mundo ainda está sob o domínio de empresários do mundo circense cuja idéia é ganhar dinheiro a qualquer custo – inclusive ao custo da exploração e maus-tratos dos animais.

Felizmente essa triste realidade está com os dias cada vez mais contados no Brasil. Ao lado de outros sete países que já proíbem animais em circos (ver boxe), o Brasil vê avançar a aprovação do Projeto de Lei 7291/2006, que dispõe sobre a proibição federal de uso de animais (selvagens e domésticos) em picadeiros. O PL estava tramitando na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados desde 2006. Depois de muitas campanhas e pressão política, foi finalmente aprovado por unanimidade no dia 3 de junho desse ano, passando para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

No CCJ o PL teve como relator o deputado federal Ricardo Tripoli (PSDB/SP), conhecido político que milita na causa da proteção animal, e no dia 17 de novembro passou por mais uma aprovação. O próximo passo agora é que o PL vá ao Plenário da Câmara. “A aprovação do nosso relatório representa uma evolução na legislação brasileira, sobretudo para a defesa animal”, declarou o deputado após a aprovação da proposta de lei em novembro.

Atualmente não se tem previsão de quando exatamente o PL será aprovado definitivamente na Câmara para ir a votação no Senado e, finalmente, para sanção presidencial. Outra questão importante do PL é que é dado o prazo de oito anos para os circos “se desfazerem”, ficando proibido desde então o seu uso nos espetáculos. As dúvidas pairam em torno sobre o bem-estar destes animais “que não dão mais lucros” ao circo, se estes animais poderão ser usados nas “propagandas” dos circos e sobre a sua destinação no final dos oito anos, uma vez que se sabe que hoje não há santuários suficientes e centros de reabilitação com a estrutura mínima para recebê-los e mantê-los.

Controvérsias à parte – e que devem ser seriamente tratadas pelos órgãos governamentais responsáveis -, não há dúvidas de que o Projeto de Lei Federal é, antes de tudo, um marco para se pôr fim a uma prática tão cruel. “Já é tempo de o Brasil dar um basta à exploração dos animais nesse tipo de atividade recreativa. Forçar animais a desempenhar ações estranhas a seu comportamento natural constitui violência e abuso contra eles. A evolução espiritual do povo, somada ao refinamento da educação ambiental, deve repelir esse tipo de espetáculo”, diz o promotor público Laerte Levai, de São José dos Campos. “Os animais merecem ser respeitados pelo que são, o seu valor inerente, e não pelo que podem servir ao ser humano. Nesse sentido, precisamos superar o antropocentrismo com uma visão mais generosa da natureza, em que a ética e a solidariedade possam alcançar as demais espécies”, completa.

O avanço do PL pode ser encarado como um reflexo da pressão exercida pelas campanhas, pela conscientização do público sobre os óbvios maus-tratos sofridos pelos animais e também pelas próprias conquistas em termos de legislação em nível mais regional. Hoje seis estados brasileiros e mais de cinqüenta cidades já proíbem a apresentação de circos com animais em seus territórios, além de dois estados estarem com suas leis em tramitação (ver boxe).

E um dos melhores exemplos sobre o avanço do meio jurídico brasileiro em relação à proibição de circos com animais foi uma sentença dada pelo Juiz de Direito Gustavo Alexandre Berluzzo, de São José dos Campos, em fevereiro de 2007 contra o circo Le Cirque, que havia chegado na cidade para fazer espetáculos com animais. Um dos trechos da sentença afirma: “Nota-se ainda que os animais de circo, observadas as condições em que vivem (se é que vivem, pois estão longe do habitat e ficam aprisionados) sofrem de forma continua sérios abusos e limitações que devem ser obstados pelo Estado, que tem o dever de preservação do meio ambiente sadio e equilibrado, como claramente recomenda a Constituição Federal. No caso de animais de circo, a Legislação Estadual Bandeirante é categórica em proibir a apresentação e a utilização dos mesmos, independentemente da ocorrência ou não de maus-tratos, pois reconhece a Lei que esta conduta acarreta aos animais uma cruel e abusiva subjugação”.

Uma questão também de segurança: A cidade de Belo Horizonte foi a última a aprovar sua lei municipal de proibição de circos com animais, no início de dezembro. Minas Gerais é um dos estados brasileiros com forte tradição circense, onde a opinião pública ainda se arrisca a defender que os animais seriam muito bem tratados por “suas famílias” nos circos. O fato da capital do estado sair na frente e afirmar oficialmente, através de uma lei específica, que a prática retrógrada está proibida é, sem sombra de dúvidas, um divisor de águas.

Outro ponto importante da lei da capital mineira é que uma das fortes justificativas dadas pelos parlamentares para a sua aprovação foi a questão de segurança relacionada a viagens e exibições de animais selvagens para o público. O argumento foi baseado na história do menino José Miguel dos Santos Fonseca, de apenas seis anos, que foi morto por leões do Circo Vostok em Recife no ano 2000. Na época o caso comoveu a sociedade, principalmente depois que foi comprovada a causa da tragédia: os leões estavam famintos há dias.

“Não somos contra os circos como atividade cultural. Ele é uma das manifestações culturais mais antigas do homem e tem como objetivo entreter adultos e crianças através das habilidades dos artistas que dedicam suas vidas ao espetáculo. Mas a riqueza do talento artístico que faz uma criança sorrir nada tem a ver com o cenário de animais selvagens mantidos em cativeiro e sendo tratados como objetos de uma atração”, ressalta a advogada Selma Mandruca, presidente do Projeto GAP (Proteção dos Grandes Primatas) Brasil, uma das ONGs que participam ativamente das campanhas contra o uso de animais em circos. “É importante deixar claro que nosso objetivo é expor à sociedade o valor do trabalho dos artistas circenses, valorizando a atividade artística e demonstrando que o uso de animais no picadeiro é uma atividade arcaica e antiética”, conclui.

Por que dizer não a animais em circos

• Animais em circo sofrem uma vida inteira de maus-tratos. Estes não incluem apenas as formas desumanas de treinamento (em sua maioria com o uso de choques, chicotes ou bastões pontiagudos), mas também os espetáculos em si, onde os animais, por sofrerem agressões para um suposto aprendizado, se comportam como nunca se comportariam na natureza, apenas por um capricho do ser humano. Além disso, passam suas vidas em espaços muito pequenos e em constante transporte, circunstâncias que causam alto grau de estresse e traumas diversos (psicológicos e físicos) aos animais. E, para piorar a situação, muitas vezes não têm à disposição alimento de qualidade ou em quantidade suficiente.

• Animais em circo expõem as pessoas a muitos riscos. Não é possível prever como um animal estressado irá reagir em uma determinada situação. Além disso, muitas vezes permanecem em instalações inadequadas e frágeis, expondo os funcionários do circo e a população em geral. Vários acidentes já foram documentados inúmeras vezes pela mídia.

• Animais em circo podem transmitir doenças aos seres humanos, visto que não existe vacinação eficiente para os animais selvagens.

• Animais em circo estimulam o tráfico de animais selvagens ao redor do mundo, prática reconhecidamente cruel e criminosa.

Fonte: WSPA (Sociedade Mundial para Proteção Animal)

Onde já é proibido circos com animais

Países onde é proibido o uso de animais selvagens em circos:

• Áustria (primeiro país da União Européia a banir o uso de animais selvagens em circos).
• Costa Rica
• Croácia
• Israel
• Cingapura
• Bolívia (foi o primeiro país do mundo a banir também o uso de animais domésticos nos circos).
• Bulgária (tem até 2015 para se adaptar à regra).

Países onde é parcialmente proibido o uso de animais selvagens em circos:

• Bélgica: proibido usar animais selvagens capturados.
• República Tcheca: proibido o uso de primatas recém-nascidos, pinípedes (certos mamíferos marinhos), cetáceos (exceto delfinídeos), rinocerontes, hipopótamos e girafas.
• Estônia: proibido usar animais selvagens capturados.
• França: proibido, desde 2007, o uso de girafas, hipopótamos e rinocerontes.
• Índia: é ilegal exibir, treinar ou fazer apresentações com ursos, macacos, tigres, panteras ou leões.
• Polônia: proibido usar animais selvagens capturados.
• Espanha: o uso de grandes primatas nos circos será proibido quando o governo concluir o apoio ao Great Ape Project. A Câmara de Vereadores de Barcelona proibiu apresentações de animais selvagens ou exóticos em locais de sua propriedade.
• Taiwan: a Wildlife Conservation Law - Lei de Preservação da Vida Selvagem - sofreu emenda em 2007 para proibir os circos de importar e exportar animais protegidos, como leões, tigres, elefantes e macacos.
• Finlândia, Suécia e Dinamarca: proibiram a manutenção de animais selvagens em gaiolas nos circos. Entretanto, eles permitem o uso de elefantes e outras espécies exóticas fora de gaiolas.

No Brasil

Estados: Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul
Em tramitação: Ceará, Santa Catarina
Mais de 50 cidades em todo o país, entre as quais Juiz de Fora (MG), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC).

Para saber mais:

• AILA – Aliança Internacional do Animal - http://www.aila.org.br/circo1.htm
• Campanha da ANIDA – Associação Nacional pela Implementação dos Direitos dos Animais - http://www.animaisdecirco.org/
• Jornal Tribuna Animal - http://www.tribunaanimal.com/animais_circo.htm
• CAPS – ONG de Proteção a Animais em Cativeiro (em inglês) - http://www.captiveanimals.org/


*Publicada na Revista dos Vegetarianos / fevereiro 2010




segunda-feira, novembro 30, 2009

Artigo sobre Direitos dos Grandes Primatas na Revista Galileu

Charge: Revista Galileu


Homem Primata (pág. 96, Revista Galileu - dezembro 2009)

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG87243-7962,00-HOMEM+PRIMATA.html

por Jaqueline B. Ramos (jornalista ambiental e Gerente de Comunicação do Great Ape Project - GAP - www.projetogap.org.br)

Biologicamente falando, os seres humanos não são nada além de grandes primatas. Guardamos com as outras quatro espécies deste grupo inúmeras semelhanças, inclusive genéticas e comportamentais. Mas não há duvida de que em termos racionais somos mais desenvolvidos. Agora, em pleno século XXI, temos que começar a arcar com as responsabilidades que essa racionalidade nos traz. E apoiar a Declaração Mundial dos Direitos dos Grandes Primatas é justamente entender essa posição especial que o ser humano ocupa no meio natural, ao lado de outros seres vivos.

Direito à vida, à liberdade e à não-tortura. Entendemos que chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos são tão merecedores da concessão desses direitos quanto os seres humanos. Não que os outros animais não mereçam respeito e que todos os abusos praticados contra eles não devam ser condenados. Mas no caso dos grandes primatas isso fica mais evidente devido à sua proximidade conosco. Não podemos abrir mão de cuidar dos nossos primos evolutivos e ter isso como uma bandeira de uma grande causa.

A declaração é bem clara em seus princípios. Defendemos que a vida de todos os grandes primatas deve ser protegida e que seus membros não podem ser mortos, exceto em circunstâncias estritamente definidas, como, por exemplo, legítima defesa. Que os grandes primatas não podem ser privados arbitrariamente da sua liberdade, tendo o direito de viver livres em seu habitat e que, em cativeiro, têm o direito de viver com dignidade e serem protegidos da exploração comercial. E que a imposição deliberada de dor intensa, física ou psíquica, sem motivo ou por um suposto benefício de outros, é considerada uma tortura e é uma ofensa da qual devem ser protegidos.

Aqui no Projeto GAP defendemos essa proposta desde seu surgimento na década de 90. Os quatro santuários afiliados ao projeto no Brasil abrigam mais de 70 chimpanzés, que em sua maioria foram resgatados de situações de maus-tratos e condições inadequadas de vida em circos, espetáculos e zoológicos. O dia-a-dia nos santuários reforça a percepção que temos do grau de humanidade dos chimpanzés e demonstra o quanto a privação dos direitos propostos na declaração pode gerar sofrimento e seqüelas, algumas vezes irreversíveis, em nossos parentes mais próximos no mundo animal. E se isso pode ser evitado, por que não fazê-lo? Afinal de contas, como os parentes mais "espertos", isto é o mínimo que devemos fazer.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Parceria


O Ambiente-se fez uma parceria com o projeto Rio Vivo, da TV Band Vale, para publicação das matérias no blog do projeto. Veja aqui.

terça-feira, setembro 29, 2009

RECICLAGEM: TECNOLOGIAS E MATERIAIS

Por Jaqueline B. Ramos *

Para ter uma conduta sustentável no dia-a-dia, todo mundo deve ter em mente o conceito dos 5Rs: Repensar os hábitos de consumo e descarte, Recusar e não consumir produtos que prejudicam o meio ambiente e a saúde, Reduzir o consumo desnecessário, Reutilizar e recuperar ao máximo antes de descartar e, finalmente, promover a Reciclagem dos materiais descartados.

Em linhas gerais, a Reciclagem promove benefícios não só ambientais, mas também sociais e econômicos. Além de diminuir a pressão sobre os recursos naturais, processos de reciclagem geram trabalho e renda para um grande número de pessoas. A reciclagem converte, através de processos industriais e, em alguns casos, até artesanais, a matéria-prima do lixo descartado em produto semelhante ao inicial ou em outro produto.

O primeiro passo para entender a reciclagem é mudar o conceito que se tem de lixo como uma coisa suja e inútil. A verdade é que, por conta de diferentes tecnologias e materiais, é possível trazer de volta ao ciclo produtivo o que tinha sido jogado fora. Daí a origem do nome Re – repetir - e cycle (ciclo, em inglês).

Mesmo sem um marco regulatório para a reciclagem, o Brasil consegue movimentar cerca de R$ 8 bilhões anuais com o setor, gerando renda a 800 mil catadores, mantendo 550 cooperativas e empregando formalmente 50 mil pessoas em indústrias destinadas ao reaproveitamento do lixo seco. Hoje a reciclagem atinge 12% do lixo urbano no país, com potencial para atingir muito mais se os processos passarem a ter mais incentivo do Poder Público.

Veja a seguir um panorama das tecnologias e métodos de reciclagem de diferentes materiais já colocados em prática:

Aço

A reciclagem do aço é tão antiga quanto a própria história da utilização do metal pela humanidade. A lata jogada no lixo pode voltar infinitas vezes em forma de tesoura, maçaneta, arame, automóvel ou uma nova lata. O aço se funde à temperatura de 1.300 graus centígrados e assume um novo formato sem perder suas características de dureza, resistência e versatilidade. Ou seja, ele é infinitamente reciclado.

A ferrugem (oxidação) que vai consumindo o aço colocado em contato com a natureza faz com ele seja o único material de embalagem degradável num prazo médio de 3 anos. Reutilizar a lata de aço é outra forma de economizar energia, matéria-prima e tratamento do lixo.

Alumínio

O alumínio é um dos materiais que tem maior reciclabilidade, ou seja, pode ser produzido inúmeras vezes sem perder suas qualidades no processo de reaproveitamento. O exemplo clássico é a lata de alumínio para bebidas, que após processo industrial se transforma novamente em lata e pode voltar ao ciclo de produção de forma infinita.

A reciclagem de alumínio é feita tanto a partir de sobras do próprio processo de produção como de sucata gerada por produtos com vida útil esgotada. Na verdade a reciclagem tornou-se uma característica intrínseca da produção de alumínio, pois as empresas sempre tiveram a preocupação de reaproveitar retalhos de chapas, perfis e laminados gerados durante o processo de fabricação.

A cada quilo de alumínio reciclado, cinco quilos de bauxita (minério de onde se produz o alumínio) são poupados. Para se reciclar uma tonelada de alumínio gasta-se somente 5% da energia que seria necessária para se produzir a mesma quantidade de alumínio primário.

Embalagens PET

Quando reciclada, a embalagem PET (polietileno tereftalato) tem inúmeras vantagens sobre outras embalagens do ponto vista da energia consumida, consumo de água, impacto ambiental e benefícios sociais. O polímero de PET é um poliéster, um dos plásticos mais reciclados em todo o mundo devido a sua extensa gama de aplicações: fibras têxteis, tapetes, carpetes, não-tecidos, embalagens, filmes, fitas, cordas, compostos, entre outros.

A reciclagem de PET pode ser dividida em quatro etapas: coleta, seleção, revalorização e transformação. As etapas de coleta e seleção representam o grande desafio da reciclagem do PET pós-consumo. Milhões de dólares são gastos em logística, distribuição e marketing para que os consumidores comprem produtos embalados em PET.

A etapa de transformação utiliza o material revalorizado e o transforma em outro produto vendável, o produto reciclado. A etapa de revalorização realiza a descontaminação e adequação do material coletado e selecionado para que possa ser utilizado como matéria prima na indústria de transformação. A embalagem PET é 100% reciclável.

Embalagens Tetrapak

Uma das novidades da reciclagem da embalagem longa-vida / tetra pak é o processo Plasma. Por esse método, papel, alumínio e plástico da embalagem são reaproveitados. Antes, somente o papelão era reciclado. O processo foi desenvolvido no Brasil pelas empresas Tetra Pak, Klabin e TSL Ambiental.O sistema já despertou interesse de outros países e usa energia elétrica para produzir um jato de plasma e aquecer a 15 mil graus Celsius a mistura de plástico e alumínio. Assim, o plástico é transformado em parafina e o alumínio é recuperado. Um dos projetos que mais faz sucesso utilizando esta tecnologia é a transformação do plástico e alumínio das embalagens em placas e telhas recicladas para construção civil.

Entulho

O maior problema para a reciclagem de entulho é o desperdício e a disposição inadequada em terrenos baldios e margens de rios. Os custos destes problemas são distribuídos por toda a sociedade, não só pelo aumento do custo final das construções como também pelos custos de remoção e tratamento do entulho.

Os resíduos de construção e demolição consistem em concreto, estuque, telhas, metais, madeira, gesso, aglomerados, pedras, carpetes etc. Muitos desses materiais e a maior parte do asfalto e do concreto utilizado em obras podem ser reciclados. É possível produzir agregados - areia, brita e bica corrida para uso em pavimentação, contenção de encostas, canalização de córregos, e uso em argamassas e concreto. Da mesma maneira, pode-se fabricar componentes de construção - blocos, briquetes, tubos para drenagem, placas.

A reciclagem de entulho pode ser realizada com instalações e equipamentos de baixo custo, apesar de existirem opções mais sofisticadas tecnologicamente. Havendo condições, pode ser realizado na própria obra que gera o resíduo, eliminando os custos de transporte.

Papel

A reciclagem do papel é tão importante quanto sua fabricação, pois a matéria-prima do produto já está escassa devido a todos os problemas de desmatamento de florestas. Na fabricação de uma tonelada de papel a partir de papel usado, o consumo de água é muitas vezes menor e o consumo de energia cai pela metade. Economizam-se 2,5 barris de petróleo, 98 mil litros de água e 2.500 kw/h de energia elétrica com uma tonelada de papel reciclado.

O papel reciclado pode ser aplicado em caixas de papelão, sacolas, embalagens para ovos, bandejas para frutas, papel higiênico, cadernos e livros, material de escritório, envelopes, papel para impressão, entre outros usos.

Pneus

O surgimento dos pneus de borracha fez com que fossem substituídas as rodas de madeira e ferro, usadas em carroças e carruagens desde os primórdios da História. Porém, a utilização dos pneus de borracha trouxe consigo a problemática do impacto ambiental, uma vez que a maior parte dos pneus descartados fica abandonado em locais inadequados e causa grandes transtornos para a saúde e a qualidade de vidas humanas.

Uma forma encontrada para amenizar esse impacto foi a utilização das metodologias de reciclagem e reaproveitamento, como a recauchutagem, que tem sido um mecanismo bastante utilizado para conter o descarte de pneus usados. Esta técnica permite que o recauchutador adicione novas camadas de borracha nos pneus velhos, aumentando a vida útil do pneu em 100% e proporcionando uma economia de cerca de 80% de energia e matéria-prima em relação à produção de pneus novos.

O processo de recuperação e regeneração dos pneus exige a separação da borracha vulcanizada de outros componentes (como metais e tecidos, por exemplo). Os pneus são cortados em lascas e purificados por um sistema de peneiras. As lascas são moídas e depois submetidas à digestão em vapor d'água e produtos químicos, como álcalis e óleos minerais, para desvulcanizá-las.

Vidro

O vidro é uma mistura de areia, barrilha, calcário, feldspato e aditivos que, derretidos a cerca de 1.550°C, formam uma massa semi-líquida que dá origem a embalagens ou a vidros planos. O principal componente do vidro é a sílica. É possível fazer vidro só com a fusão da sílica. Boa parte dessas matérias primas é importada ou provém de jazidas em franco esgotamento.

Na reciclagem do vidro, o caco funciona como matéria-prima já balanceada, podendo substituir o feldspato que tem função fundente, pois o caco precisa de menos temperatura para fundir. Os cacos devem ser separados por cor (transparente, marrom e verde). O vidro comum funde a uma temperatura entre 1000oC e 1200oC, enquanto que a temperatura de fusão da fabricação do vidro, a partir dos minérios, ocorre entre 1500 oC e 1600 oC.

A fabricação do vidro a partir dos cacos economiza energia gasta na extração, beneficiamento e transporte dos minérios não utilizados. A economia de energia é a principal vantagem do processo.

Fontes: Ambiente Brasil, Cempre, Tetrapak

DADOS E CURIOSIDADES SOBRE RECICLAGEM

Fonte: Ambiente Brasil

*Publicado na edição n. 86 (julho/agosto 2009) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung

CURTAS AMBIENTAIS

Por Jaqueline B. Ramos*

Amazônia em regeneração

De acordo com recente levantamento consolidado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), cerca de 20% das áreas desmatadas na Amazônia possuem florestas em regeneração. É a primeira vez que essas matas secundárias - também chamadas capoeiras - são mapeadas em detalhe, com base em imagens de satélite.Os resultados já estão prontos para os Estados de Mato Grosso, Pará e Amapá, que juntos têm uma média de 19,5% de áreas desmatadas em regeneração. Os demais Estados serão mapeados até o fim do ano e segundo pesquisadores do Inpe a média não deve variar muito.

Vistas do solo, as capoeiras podem até parecer uma floresta nativa, com árvores grandes. Porém, vários estudos relatam que elas dificilmente recuperam a biodiversidade das florestas primárias que foram derrubadas. São tipicamente formadas por menos espécies, tanto de flora quanto de fauna, e têm menos biomassa - o que significa, também, menos carbono.

Mapa climático circuito Rio-SP

As maiores cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, terão seus riscos e impactos do aquecimento global mapeados por um estudo inédito do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em conjunto com a Unicamp. O projeto foi anunciado em julho e segundo o pesquisador Carlos Nobre, coordenador do mapeamento pelo Inpe, a idéia é traçar os principais impactos e propor ações para amenizar os efeitos do aquecimento global nas duas cidades.

O mapeamento no Rio e SP consiste numa proposta piloto que servirá para posterior aplicação em outras metrópoles brasileiras. Os cientistas pretendem detalhar as vulnerabilidades a partir de um conjunto de dados sobre as duas cidades que inclui aspectos urbanos, socieconômicos e geográficos. A previsão é que o estudo esteja concluído em 2010, para ser apresentado aos governos federal, estadual e municipal para a tomada de decisões sobre as ações propostas para minimizar os efeitos do aquecimento global.

Parque Eólico Brasileiro

No mês de agosto o Brasil ganhou um novo Parque Eólico, localizado no Ceará. O empreendimento é fruto da aliança entre dois grandes líderes no setor energético na América Latina: Cemig e IMPSA. Com 325 hectares e 19 aerogeradores, o Parque Eólico de Praias de Parajuru funcionará em conjunto com outras duass usinas a serem construídas no estado: Praia do Morgado e Volta do Rio.

Juntas, as três usinas terão capacidade para gerar 99,6 MW. A intenção é que nos próximos 20 anos esta energia gerada seja comercializada para a Eletrobrás. Os parques eólicos fazem parte do Programa de Incentivo a Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), desenvolvido pelo Governo Federal, sob coordenação do Ministério de Minas e Energia (MME). A iniciativa visa fomentar o desenvolvimento das fontes renováveis como as eólicas, biomassas, solares, e de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH’s).

Bolívia sai na frente contra a exploração de animais em circos

A Bolívia saiu na frente no movimento contra o uso de animais em circos. Em julho o presidente Evo Morales assinou uma nova lei que proíbe o uso de qualquer animal em circo. Países como Áustria, Costa Rica, Finlândia e Dinamarca já proíbem há alguns anos animais em circos, mas apenas animais selvagens ou de determinadas espécies. A lei boliviana é a primeira do mundo que proíbe tanto o uso de animais domésticos como selvagens nos picadeiros.

A lei, apresentada pela congressista Ximena Flores of Potosi, surgiu como resultado das evidências de maus-tratos encontradas em uma investigação secreta realizada por uma ONG de proteção animal. Ela considera que o confinamento, privação e maus-tratos impostos aos animais nos circos são atos de crueldade extrema. Os circos terão o prazo de um ano para adequar-se completamente à nova regra, e durante esse período serão duramente fiscalizados pelo governo.

Corais em perigo

Nos últimos meses vários foram os alertas dados por cientistas a respeito dos riscos de extinção de importantes recifes de corais. O renomado cientista Charlie Veron, líder científico do Instituto Australiano de Ciência Marinha, declarou à imprensa mundial que “Não há saída. A Grande Barreira de Corais da Austrália vai desaparecer em 20 anos ou menos.”

“Quando se atingir os altos índices de dióxido de carbono previstos para o período de 2030 e 2060, todos os recifes de corais estarão condenados à extinção. Eles serão os primeiros ecossistemas do mundo a entrar em colapso. Isso é atestado por todos os cientistas e organizações que estudam corais”, alerta Veron.

Alex Rogers, da Sociedade Zoológica de Londres e do Programa Internacional sobre o Estado do Oceano, também declarou recentemente: "A cozinha pegou fogo e o incêndio se espalha pela casa. Se agirmos de modo rápido e decisivo, poderemos apagá-lo antes que o dano se torne irreversível".

Em linhas gerais os cientistas ressaltam que oceanos cada vez mais ácidos e águas cada vez mais quentes, por causa das emissões de dióxido de carbono, podem extinguir os recifes dos mares até o fim deste século Os oceanos absorvem grandes quantidades de CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis e esta absorção prejudica o processo de calcificação usado por criaturas marinhas para criar conchas e os recifes de coral.

Raio-X do ambiente aquático

Paralelo aos alertas dos perigos sofridos pelos corais, no Brasil o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o documento Fauna Ameaçada de Extinção: Invertebrados Aquáticos e Peixes – 2009. O documento é o quarto e último de uma série lançada pelo órgão, desde 2006, trazendo informações sobre aves; mamíferos, répteis e anfíbios; e insetos e outros invertebrados terrestres que podem entrar em extinção, totalizando uma lista de 632 espécies.

No documento recém-lançado, afirma-se que atualmente há no país 238 espécies e subespécies de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados de extinção. Entre elas, 41 apresentam estado mais crítico, como o marisco-do-junco, o ouriço-do-mar irregular, o cação-bico-doce e o surubim.A maioria desses animais com risco de desaparecer tem seu habitat em regiões de Mata Atlântica e em estados litorâneos, onde a ação do homem, principalmente com o crescimento das construções imobiliárias, interfere no ciclo natural das espécies.

Segundo Lícia Leone Couto, bióloga do IBGE, a extinção dos animais está ligada à atividade humana. "A principal causa de extinção é a destruição do habitat das espécies e isso ocorre prioritariamente pela ação do homem. Por isso, o mapa aponta maior risco de extinção de animais que têm maior ocorrência em cidades costeiras, que têm grande atividade de construções imobiliárias", explicou.

Medicina sem vivissecação

Passados dois anos desde que o sacrifício de animais foi abolido no curso de Medicina da UFRGS, professores e alunos estão muito satisfeitos. Conflito ético sobre o uso de animais vivos foi o principal motivo para a troca por modelos artificiais nas aulas práticas.

Alunos e professores garantem não haver nenhum prejuízo para o aprendizado médico. “Abolimos o uso de animais porque hoje não se precisa mais disso”, destaca o diretor da Famed, o médico endocrinologista Mauro Antônio Czepielewski. Não faltaram razões, pois havia alunos que não concordavam com o sacrifício dos cães e outros bichos nas aulas. Além da questão ética, a pressão das entidades protetoras dos animais era cada vez maior, conta o diretor.

A mudança foi bastante discutida, e resultou na implantação de um Laboratório de Técnica Operatória, que funciona apenas com réplicas artificiais das partes do corpo humano, explica o diretor. O projeto todo, com reforma de instalações e aquisição dos modelos, importados, custou cerca de R$ 300 mil, com recursos da própria Ufrgs, Famed, Hospital de Clínicas (o hospital universitário) e Promed, um programa do Ministério da Saúde que incentiva mudanças nos currículos dos cursos de medicina.

Em busca da pecuária ambientalmente correta

Depois de sofrer problemas com a comercialização de gado criado em áreas de desmatamento e após um mês de negociação, os dois maiores frigoríficos do Pará e o governo do estado assinaram um acordo com o Ministério Público Federal (MPF) para adequar a produção pecuária às regras ambientais.

O termo de ajuste de conduta assinado com os frigoríficos Bertin e Minerva prevê uma moratória ao desmatamento, ou seja, as empresas compradoras vão exigir que os pequenos fornecedores comprovem que o gado não foi criado em área desflorestada ilegalmente, embargadas ou que utilizem mão de obra análoga à escravidão. Além disso, deverão exigir o reflorestamento de áreas degradadas e o licenciamento ambiental.

Os frigoríficos terão que informar a origem da carne aos consumidores e ao MPF, que vai checar a existência de trabalho escravo, crimes ambientais ou problemas fundiários, como de grilagem ou invasão de terras indígenas e unidades de conservação.Com a assinatura do acordo, as empresas que receberam a recomendação do MPF para encerrar os contratos com os frigoríficos poderão retomar as operações, entre eles os grupos Pão de Açúcar, Carrefour e Wal Mart, que suspenderam as compras de carne dessas empresas desde o mês de junho.

Mata Atlântica on line

No mês de julho, o Instituto BioAtlântica lançou a plataforma GeoAtlântica, que contém dados sobre o bioma mais ameaçado no Brasil: a Mata Atlântica. Mais de 50 fontes contribuíram para a consolidação da base de dados, que inclui informações sobre infra-estrutura, estradas, vias, dutos, portos, hidrelétricas. Foram listadas todas as Unidades de Conservação, federais, municipais e particulares, sendo a base mais completa sobre as UCs nas regiões que agregam a Mata Atlântica..O acesso é gratuito e visa auxiliar no planejamento de ações ambientais. O usuário pode fazer consultas e montar mapas específicos usando filtros e combinando os dados da maneira que julgar necessário. A ideia é que a ferramenta funcione como um suporte para a tomada de decisões no que diz respeito à preservação e conservação da floresta. A plataforma pode ser acessada pelo endereço: www.bioatlantica.org.br/geoatlantica

Brasil na liderança do comércio de agrotóxicos

De acordo com estudo da consultoria alemã Kleffmann Group, o Brasil é atualmente o maior mercado de agrotóxicos do mundo. O levantamento foi encomendado pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), que representa os fabricantes, e mostra que essa indústria movimentou no ano passado US$ 7,1 bilhões. O segundo colocado são os Estados Unidos, com US$ 6,6 bilhões.

Em 2007, a indústria nacional girou US$ 5,4 bilhões, segundo Lars Schobinger, presidente da Kleffmann Group no Brasil. O consumo cresceu no país, apesar de a área plantada ter encolhido 2% em um ano.

Mesmo liderando o comércio, o consumo por hectare ainda é pequeno em relação a outros países. De acordo com o levantamento, o gasto do produtor brasileiro com agrotóxico ainda é pequeno. Em 2007, gastou-se US$ 87,83 por hectare. Na França, os produtores desembolsaram US$ 196,79 por hectare, enquanto no Japão a despesa foi de US$ 851,04.

Ajuda para descarte adequado de baterias e óleo de cozinha

O consumidor brasileiro tem mais duas opções para fazer o descarte de alguns resíduos mais complexos de forma ambientalmente correta. Pilhas e baterias usadas podem ser levadas às agências do Banco Real e colocadas no Papa-Pilhas.

As pilhas e baterias de celulares, câmeras digitais, controle remoto, relógios etc contém materiais que contaminam o solo e os lençóis freáticos, deixando-os impróprios para utilização e consumo. Por isso a necessidade do descarte adequado e especial, e não simplesmente no lixo comum.

Na mesma linha está o óleo de cozinha usado, que despejado na rede de esgoto pode contaminar uma grande quantidade e água – calcula-se que um litro de óleo contamine um milhão de litros de água. Sem contar que ainda provoca a impermeabilização dos leitos e terrenos próximos, contribuindo para a ocorrência de enchentes.

Óleo de cozinha usado pode ser levado em recipientes de plástico ou vidro para qualquer loja das redes Pão de Açúcar e Extra. Todo óleo de cozinha coletado será encaminhado para cooperativas e empresas recicladoras, que o utilizarão como matéria-prima para a produção de biocombustível.

Fontes: Ambiente Brasil, ENN, Ecoagência de Notícias, Portal do Meio Ambiente

*Publicado na edição n. 86 (Julho/Agosto 2009) do Informativo do Instituto Ecológico Aqualung

quinta-feira, agosto 13, 2009

O PROBLEMA DA PECUÁRIA NA AMAZÔNIA BRASILEIRA


Por Jaqueline B. Ramos*

Os impactos ambientais da chamada pecuária industrial, ou pecuária em larga escala, foram alertados pela primeira vez em nível mundial pela ONU em 2006. Neste ano a FAO, agência da ONU para Agricultura e Alimentação, lançou o relatório “A Grande Sombra dos Estoques Vivos: questões ambientais e opções" (Lifestock's Long Shadow: environmental issues and options, em inglês). O documento analisou os impactos ambientais relacionados a toda a cadeia da pecuária industrial. Entre os resultados mais alarmantes estava a conclusão de que a indústria da carne (que inclui todos os seus derivados) é responsável por nada mais nada menos do que 18% do total das emissões de gases causadores do aquecimento global, valor maior que a soma da poluição causada por todos os meios de transporte (13%).

As discussões sobre a problemática ambiental da pecuária não poderiam excluir o Brasil, que atualmente é o segundo maior produtor e maior exportador de carne bovina do mundo. Uma análise mais crítica da relação direta da pecuária bovina com o desmatamento de uma das suas maiores riquezas, a Amazônia, passou a ser inevitável. Em 2008, a OSCIP “Amigos da Terra – Amazônia Brasileira” lançou o relatório “O Reino do Gado”, cujo principal alerta é que “a pecuarização da Amazônia se intensificou de maneira sem precedentes ao longo dos últimos cinco anos e o fenômeno requer uma atenção nova e especial, em quantidade e qualidade, por parte das autoridades governamentais, da cadeia comercial, de instituições financeiras, cientistas e organizações da sociedade civil.” (ver mais dados no boxe).

Os dados já alarmantes divulgados pela “Amigos da Terra” se reforçaram recentemente com um trabalho investigativo realizado pela ONG Greenpeace e consolidado num relatório intitulado “A Farra do Boi na Amazônia”, lançado no início de junho. Em linhas gerais, o relatório alerta sobre a relação direta do desmatamento da floresta com o avanço do gado (ver gráfico) e ressalta o fato de que a carne e couro produzidos à custa de irregularidades ambientais chega a continentes como a América do Norte, Europa e até Ásia.

O documento aponta, por exemplo, grandes frigoríficos exportadores – corporações como Bertin, JBS e Marfrig - negociando gado oriundo de terra indígena e áreas embargadas pelo Ibama por excesso de desmatamento. “Este relatório é fruto de um trabalho de três anos de investigação de oito escritórios do Greenpeace pelo mundo, que mapearam a cadeia produtiva da pecuária do desmatamento patrocinado por grandes frigoríficos exportadores até a chegada aos consumidores dentro e fora do Brasil”, explica Márcio Astrini, coordenador da Campanha Desmatamento Zero Amazônia do Greenpeace, ressaltando que uma ação civil pública impetrada pelo Ministério Pública do Pará contra as atividades ilegais dos frigoríficos reforçou as evidências do relatório.

Governo é sócio no desmatamento: Uma das maiores críticas feitas pelo Greenpeace no relatório é o fato do governo brasileiro investir em grandes companhias do setor pecuário por meio do BNDES. Em outras palavras, mega empreendimentos em conjunto com o governo patrocinam o desmatamento da floresta. “Na verdade, o BNDES tem ações nestas empresas, quer dizer, tem porcentagem no lucro. Após a divulgação do relatório o banco decidiu rescindir o contrato e cobrou explicações sobre as denúncias de ilegalidade”, diz Astrini.

Além da decisão do BNDES, a repercussão da investigação do Greenpeace já proporcionou algumas vitórias. Em meados de junho o Banco Mundial também declarou a rescisão de contrato de empréstimo de US 90 milhões com a Bertin até a empresa apresentar explicações sobre as irregularidades ambientais. E grandes redes de supermercados como Wall Mart, Carrefour e Pão de Açúcar e marcas mundiais como Timberland, Adidas, Nike, Reebok, Hugo Boss, Gucci e Prada exigiram garantias sobre o couro proveniente dos frigoríficos citados no relatório.

“Agora vamos acompanhar os compromissos feitos por estas grandes redes, pressionar os frigoríficos e cobrar uma posição oficial do Governo Brasileiro, que até 20 depois do lançamento do relatório não tinha se pronunciado oficialmente”, informa Astrini.

O papel do consumidor: Não é difícil concluir que a pecuária, associada ao desmatamento ilegal, é uma atividade colonizadora que não tem competidores no mesmo nível capazes de valorizar a floresta em pé. Manejo florestal e serviços ambientais ainda não fazem parte das opções econômicas da Amazônia de forma séria e contundente. Diante desse cenário, quais seriam os caminhos para mitigar o conflito pecuária X floresta em pé?

“O maior desafio é montar uma sistemática de produção pecuária que seja responsável e sustentável em termos de sócio-biodiversidade. Para isso, são necessárias medidas que passam por responsabilizar a produção quanto ao cumprimento da legislação ambiental e trabalhista, implantação de rastreabilidade no rebanho e de melhores práticas que aliem produtividade e conservação Essas são premissas de sustentabilidade que quebram a performance atual de rentabilidade às custas de terra barata e sem cuidados, migratória sobre a floresta”, explica Paulo Gustavo Prado, diretor de Política Ambiental da Conservação Internacional (CI-Brasil).

E é justamente nessa cobrança de critérios de sustentabilidade que entra a responsabilidade do consumidor. “O papel do consumidor é o de sempre exigir sustentabilidade e boas práticas como garantia de conservação do meio ambiente e das culturas tradicionais que existem no norte do Cerrado e na Amazônia”, diz Prado. “Temos um passo a passo no nosso site para o consumidor se informar sobre o que deve fazer para não consumir produtos advindos do desmatamento da Amazônia. Nossa orientação é que as pessoas se informem sobre o problema, conheçam os seus direitos como consumidor e comprem somente das empresas que assumiram publicamente o compromisso de lutar contra o desmatamento”, conclui Astrini.

Saiba mais:

Relatório “A Farra do Boi na Amazônia” e dicas do que o consumidor pode fazer - http://www.greenpeace.org/brasil/amazonia/gado

Relatório “O Reino do Gado” - http://www.amazonia.org.br/arquivos/259381.pdf

Floresta na “pata do boi”

• O rebanho bovino na Amazônia Legal atingiu aproximadamente 74 milhões de cabeças de gado, ou 3,3 por habitante, o triplo da média nacional. No Mato Grosso chega-se a 9,3 cabeças por habitante e em Rondônia, 7,7.

• De cada quatro cabeças adicionais de gado no Brasil nos últimos 5 anos, 3 são oriundas da Amazônia.

• Entre dezembro de 2003 e dezembro de 2006 quase não houve crescimento no rebanho fora da Amazônia Legal, sendo que 96% de todo o crescimento registrado no período no país são oriundos da Amazônia.

• O aumento na produção de carne na Amazônia (estimado em aproximadamente 1,5 milhão de toneladas equivalente-carcaça (designa o peso da carne produzida, com osso ou desossada, dependendo do caso) ao longo dos últimos cinco anos) supera o aumento na exportação registrado ao longo do mesmo período (aproximadamente 1,4 milhão de toneladas equivalente-carcaça).

• Um terço das exportações brasileiras de carne in natura em 2007 é oriunda de exportação direta da Amazônia, notadamente dos estados de Mata Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Desde 2004 o Pará aumentou sua exportação direta (em peso) em 7800%, Rondônia em 1350%, Tocantins em 150% e Mato Grosso em 360%.

Fonte: Relatório “O Reino do Gado” (Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, 2008)

O pesadelo da MP 458

Além dos números alarmantes da pecuária avançando na Amazônia, a floresta sofreu outro duro golpe recentemente. Dessa vez diretamente do Governo Brasileiro, que aprovou a Medida Provisória 458, sancionada pelo Presidente Lula com apenas um veto no final de junho.

A MP determina que 67,4 milhões de hectares de terras públicas na Amazônia serão privatizadas para seus novos proprietários praticamente sem custo e sem a fiscalização do Estado. As áreas ocupadas de até 100 hectares serão doadas. A partir daí e até 400 hectares, será cobrado apenas um valor simbólico de seus ocupantes. As áreas maiores, com até 1.500 hectares, serão alienadas a valor de mercado, mas com prazo de carência de 20 anos. Na prática isso significa misturar posseiros legítimos com grileiros de terras, regularizando a preço de banana e estimulando, no final, ocupações ilegais.

Em suma, a aprovação da MP 458 é um dos piores pesadelos para ambientalistas e ONGs que vem lutando contra o avanço desenfreado do desmatamento da floresta, estimulado pela ambição econômica. Segundo Paulo Gustavo Prado, diretor de Política Ambiental da Conservação Internacional (CI-Brasil), os principais problemas da MP 458 são:

1 - Não é amarrada ao Zoneamento Ecológico-Econômico e não se antecede fortalecendo as Terras Indígenas e as Unidades de Conservação ali existentes como condição prévia;
2 - Não vende, mas doa a propriedade (aos pequenos) gerando paternalismo e pouco apego à terra, uma vez que os beneficiários podem vendê-la na etapa seguinte e ser solicitante em outra área à frente, mesmo como grileiro, servindo de ponta-de-lança para o agronegócio;
3 - O agronegócio, por sua vez, pode comprar, inclusive como pessoa jurídica, e tem prazo curto para revender;
4 - As pesquisas de cadeia de domínio são expeditas e sem a investigação que seria necessária, podendo validar grileiros.


*Publicada no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 85 (maio/junho 2009). PDF do informativo aqui.