segunda-feira, junho 23, 2008

Quem disse que os animais não são inteligentes?


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quarta-feira, junho 18, 2008


"Os impactos da alimentação para o meio ambiente" no site do Instituto Akatu

Comer é um ato agrícola, disse um fazendeiro e economista americano, mas é também um ato ecológico e um ato político.

Por Jaqueline B. Ramos*


*Publicado originalmente no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung (n. 78 - março/abril 2008) e posteriormente na Agência Envolverde.

sábado, junho 14, 2008

Negócios vegetarianos

Por Jaqueline B. Ramos*

É perfeito. Imagine fazer do vegetarianismo também o foco de sua atividade profissional, seja abrindo um negócio ou trabalhando como prestador de serviços. Ser um empreendedor vegetariano aplicando aquilo o que acredita em restaurantes, lojas de produtos naturais, serviços de buffet, marmitas e congelados, marcas de roupas, produtos de higiene artesanais, entre outras atividades. Agora não imagine apenas. Saiba que muitos vegetarianos já fazem isso e aliam um trabalho sustentável – para não dizer lucrativo, no bom sentido da palavra – com o prazer de difundir práticas de respeito, proteção e libertação animal.

“Nosso público é crescente e podemos dizer que o negócio é lucrativo. Mas também trabalhamos muito. A gente respira isso aqui e somos essencialmente cozinheiros, criando cardápios diferentes todos os dias e primando pela qualidade. E a maior compensação é ver como ajudamos a transformar as pessoas. Muitos se tornam vegetarianos depois de freqüentarem o restaurante”, conta o carioca José Roberto Machado, que junto com sua esposa, Maria Lúcia Moreira Machado, comanda, há três anos, o restaurante Caminho do Mar, localizado no Recreio, no melhor estilo entre mar e montanhas na cidade do Rio de Janeiro.

Zé Roberto e Maria Lucia são casados há 18 anos e veganos há pelo menos uns 15. Empreendedores natos, anteriormente ao restaurante situado a uma quadra da praia tiveram outros restaurantes, uma lanchonete e até uma padaria vegana em diferentes bairros cariocas. E segundo Zé Roberto, todos os estabelecimentos “bombaram”. O casal resolveu partir para o novo negócio porque não resistiu à oportunidade de montar um restaurante justamente tão próximo do mar e da montanha.

“Nosso público é bastante diversificado, de surfistas a artistas, inclusive muita gente de fora do Rio, que está na cidade a passeio ou a trabalho. Abrimos de domingo a domingo, faça chuva ou faça sol, e isso é uma marca da casa. Na verdade nossa melhor propaganda sempre foi o boca-a-boca. Aliás, essa é a melhor maneira de disseminar o vegetarianismo”, diz Zé Roberto, que também dá cursos de culinária na casa de pessoas que desejam adequar seus cardápios diários para uma dieta mais saudável.

O atendimento a um número significativo de onívoros e a oportunidade de passar a mensagem do vegetarianismo e demonstrar, na prática, o quanto os pratos sem ingredientes animais são saborosos e acessíveis são pontos comuns citados por donos de restaurantes vegetarianos. “Posso afirmar que 80% das pessoas que freqüentam o restaurante no horário de almoço não são vegetarianas. Nossa idéia é servir as refeições, ensinar as pessoas sobre veganismo e, acima de tudo, oferecer um ambiente onde elas se sintam bem. A força motriz do nosso negócio é a compaixão pelos animais e isso é o que nos impulsiona e dá prazer”, explica Paulo César Alves Nakashima, proprietário do badalado Lar Vegetariano Vegan, localizado no bairro da Lapa, em São Paulo.

O Lar Vegetariano Vegan já é conhecido do público vegano paulistano pelas noites especiais de sexta e sábado (vegan party e pizza vegana) e pela entrega a domicílio de pizzas veganas nos finais de semana. Para conseguir entrar na casa na noite de sábado, por exemplo, só é possível com reserva, o que demonstra o sucesso do negócio. Paulo e a esposa, Ivonete do Amaral Diaz Nakashima, abriram o restaurante na Lapa em setembro de 2005. Veganos há oito anos, tiveram experiências anteriormente com um outro restaurante vegetariano e com a produção de congelados.

“Abrimos o Lar a partir do que vivenciamos e de conversas com muitas pessoas que conhecemos, priorizando sempre pela qualidade e o oferecimento de serviços e produtos diferenciados. Felizmente o retorno tem sido muito bom, o que mostra que o público é crescente, o negócio é próspero. No momento estamos quitando as últimas dívidas, pois acabamos abrindo o restaurante praticamente sem capital de giro, o que foi extremamente difícil. Aliás, se puder dar um conselho para um futuro empreendedor, diria que separar a reserva é essencial na abertura do negócio”, ressalta Paulo.

Negócio e militância

O planejamento financeiro ressaltado por Paulo é, sem sombra de dúvidas, um ponto importantíssimo a ser considerado para abertura de qualquer novo estabelecimento por um pequeno empresário. E para o “empreendedor vegetariano”, soma-se a isso o dever moral de aliar negócios e militância, oferecendo, como uma espécie de brinde, informação diferenciada que agregue valor ao produto vendido ou serviço prestado. A história e o conceito por trás de “O TAO Natural”, um serviço de delivery de produtos vegetarianos, integrais e orgânicos em São Paulo, demonstra bem essa idéia.

“A nossa maior motivação é a possibilidade de ganhar dinheiro e o nosso sustento com algo que beneficia as pessoas. O TAO certamente é um comércio, mas também é uma militância, pois nos colocamos à disposição dos clientes e interessados para enviar receitas e esclarecer, dentro das nossas possibilidades, dúvidas sobre alimentação vegetariana. Principalmente aquele questionamento básico sobre reposição de proteína e ferro para quem está no momento de transição de dieta”, conta Adriana Gomes Guimarães, que toca o serviço de entregas dos produtos juntamente com o marido, Emerson Marinheiro, ambos ovo-lacto vegetarianos há seis anos.

“O TAO Natural” funciona há nove meses e já tem um público formado por vegetarianos, naturalistas, pessoas com problemas de saúde que precisam mudar a dieta, pais e mães preocupados com a saúde dos filhos e atletas – estes, aliás, formam um novo segmento muito importante para o negócio, segundo Adriana. O serviço de entregas a domicílio consiste na primeira experiência de empreendedorismo do casal – ela é profissional da área de Relações Públicas e ele, professor de Educação Física - e foi elaborado e implementado de maneira bastante cuidadosa e gradual. Tanto que os dois continuam com seus trabalhos originais e estão aos poucos, de acordo com o crescimento do negócio, migrando parte do seu tempo para o serviço.

“Estudamos apostilas do Sebrae, fizemos pesquisas de mercado e decidimos abrir algo que não requereu grande investimento, até porque não dispúnhamos de grande capital. Hoje já temos um lucro que faz o negócio valer a pena, apesar de ainda não podermos deixar nossos trabalhos paralelos. Mas acreditamos que conseguiremos fazer com que o TAO seja uma das nossas duas principais fontes de renda, com dedicação integral minha ou do meu marido, no prazo de 18 a 24 meses”, prevê Adriana.

A migração de um trabalho formal para um “empreendedorismo vegetariano” perseguida pelos donos de “O TAO Natural” é a base da história da Vegmatula, um serviço de entregas de marmitas veganas na área do bairro Vila Mariana, em São Paulo. André Cantu sempre fez suas experimentações na cozinha, mesmo antes de se tornar vegetariano, em 1999 (é vegano há dois anos). Forças do destino o levaram a trabalhar durante 16 anos na Eletropaulo e ao longo do tempo a motivação por fazer o que realmente gostava foi crescendo. O emprego público deu condições de André investir na montagem de uma cozinha industrial e em um curso técnico de nutrição na Fundação Getúlio Vargas. Até que em dezembro de 2007 ele se desligou da empresa e em janeiro deu início às atividades da Vegmatula com a esposa, Maria Del Pilar.

“É uma responsabilidade muito grande fazer comida vegetariana de qualidade, principalmente para atender o público onívoro. Atendemos muita gente que está em transição de dieta, que quer se alimentar melhor ou que está preocupada com o meio ambiente. E aí busca respostas no vegetarianismo”, conta André. “Nosso desafio maior é preparar um cardápio variado e saboroso, com pratos diferentes a cada dia. Para tal variamos nos temperos, usamos nossa receita de massa caseira vegana e “queimamos” os miolos para ser criativos. No final do dia estamos extremamente cansados, mas também extremamente gratos.”

Outro motivo de satisfação para os donos da Vegmatula é o sistema de entrega adotado: bicicletas. Dois entregadores – um vegano e um em vias de se tornar – pedalam das 11h às 13h levando as delícias veganas pela Vila Mariana e arredores de segunda à sexta de forma ambientalmente correta. “Por experiência própria e conversando com amigos percebi que existia demanda por marmitas veganas. E nesses poucos meses de trabalho já atestamos que há mesmo, que o negócio é viável. Tanto que não damos conta de entregar para todos que gostariam de receber. Fica aí o recado: há mercado para todo mundo e a concorrência é muito bem-vinda, principalmente para o vegetarianismo”, conclui André.

Sem CNPJ

Há também histórias que podemos chamar de “empreendedorismo sem CNPJ”, de vegetarianos que desenvolviam seus talentos como ativistas e que, com o passar do tempo, transformaram esse dom também na base de seu sustento através de trabalhos autônomos. É o caso da paulistana Luisa Pereira Santos, conhecida por suas camisetas e adesivos com mensagens e pelos sabonetes artesanais 100% vegetais. Luisa, vegetariana há nove anos e vegana há seis, começou a fazer camisetas como fonte de arrecadação de fundos para atividades sociais e de divulgação do veganismo.

“Com o tempo as pessoas começaram a encomendar os produtos e me dei conta que poderia fazer dessa atividade também a minha fonte de renda. Passei então a dedicar mais tempo ao veganismo, unindo o útil ao agradável. Faço minhas coisas em casa e a maior parte das vendas é pela internet e em eventos, além de alguns restaurantes e uma loja em São Paulo. Não tenho planos de abrir uma empresa ou coisa do gênero”, afirma Luisa, que criou a marca Bhumi (em sânscrito, a personificação do Planeta Terra) para batizar seus produtos – 25 tipos de camisetas, 15 de adesivos e 12 sabonetes de diferentes aromas, que produz e vende desde 2003.

Os planos de Luisa é investir mais na divulgação dos produtos pelo site e desenvolver novas estampas para camisetas. Num estilo parecido de trabalho autônomo, o também paulistano Lila Prasada é pau para toda obra quando o assunto é buffets e serviços de comida vegetariana para festas e eventos. Lacto-vegetariano há 15 anos, Lila começou a cozinhar há 11 em um templo Hare Krishna. E não parou mais. Descobriu que sua praia era alimentação sem carne e ao longo da última década já cozinhou em eventos diversos, indo da Verdurada e raves até encontros como o Fórum Social Mundial e almoços beneficentes, passando também pela produção de marmitas, congelados e até uma lanchonete vegana bem popular que teve no bairro do Braz, em São Paulo.

“A demanda por esse tipo de serviço é muito grande e é um mercado muito promissor. Sou bastante flexível e vou atendendo os clientes de acordo com o que precisam. Já cheguei a fazer três mil refeições por dia”, conta Lila, ressaltando que é uma atividade muito gratificante, mas também muito trabalhosa. “É importante que quem se interessa em trabalhar nesse ramo se informe, pesquise e estude. Como eu mesmo administro a prestação de serviços e coordeno um perfil de equipe para me ajudar dependendo de trabalho encomendado, já fiz curso de gestão na área de alimentação e, sempre que posso, vou a feira de alimentos para me atualizar das novidades”.

Da moda urbana ao campo

Pegando o gancho em raves e no público jovem, outra vegana coloca suas idéias em prática no seu negócio. Só que na área de moda. Ana Carolina Caliman, vegana há 12 anos, é uma das proprietárias da grife paulistana King 55, que tem três lojas na cidade e multimarcas que revendem suas peças no Brasil inteiro. O estilo é jovem com uma atitude rock e atual e uma linguagem mais street. A filosofia: o respeito aos animais e ao meio ambiente.

“Estamos sempre tentando inovar e procurando mais opções para substituir matérias-primas de origem animal. Às vezes deixamos de produzir e vender alguns produtos pela falta de materiais alternativos de qualidade, mas nem por isso deixamos de seguir nossos princípios. Nossos vendedores são treinados e no atendimento ao cliente sempre explicamos a filosofia da marca e o porquê do desenvolvimento de produtos sem crueldade”, revela Ana Carolina dando também como exemplo de diferencial da King 55 o fato da lavanderia onde se lavam os jeans e produtos diferenciados ser totalmente ecológica (com captação de água de chuva e reutilização).

Ana toca a King 55 desde meados de 2001 e a loja consiste na sua primeira experiência como empreendedora. Ela divide a sociedade do negócio com seu irmão, também vegano, o pai, que têm experiência de 20 anos no ramo de confecção, e a madrasta. Por ser dona da marca, já passou pela área financeira, de vendas e de gerenciamento de pedidos e hoje se dedica mais ao desenvolvimento de produtos. “Nossos clientes são pessoas que gostam de produtos diferenciados. A preocupação com meio ambiente e com os animais é algo natural e faz parte do DNA da marca. A empresa tem um formato pequeno e não tem intenção de crescer muito, para não perder a autenticidade e a personalidade que tem hoje”, conta.

Dando um salto de cenários, da moda urbana paulistana para os campos sulinos, um outro estilo de negócio também trabalha, entre outras idéias, com a crença de que o homem não deve causar sofrimento aos animais se não quer sentir dor. Trata-se da produção agroecológica de frutas, legumes e verduras e a empreendedora é a engenheira agrônoma Silvana Beatriz Boher, proprietária do Sítio Capororoca, localizado na área rural da cidade de Porto Alegre.

Vegetariana há quatro anos e agroecologista há 10, Silvana desenvolve as atividades no sítio desde 2001. Além do cultivo dos vegetais, com destaque para o de plantas comestíveis não convencionais, também tem uma agroindústria caseira para produção de geléias, compotas, conservas e pães, que são comercializados nas feiras ecológicas da cidade. “Além disso, trabalhamos com turismo rural, recebendo estudantes universitários para estagiar e turistas que desejam conhecer o funcionamento de uma propriedade agroecológica”, conta. “Apesar de ser uma atividade recente, a aceitação é muito boa. Ficamos surpresos com o grande número de pessoas não vegetarianas que nos visitam e expressam muita satisfação ao descobrir que é possível ter uma boa e saborosa refeição sem carne.”

Silvana explica que não houve uma preparação específica para o desenvolvimento de suas atividades e que tudo foi acontecendo como uma reação em cadeia. A maior motivação foi poder trabalhar com produtos mais saudáveis sem agredir o meio ambiente e respeitando os animais, morar no próprio local de trabalho e ter uma melhor qualidade de vida. E qualidade de vida, para um empreendedor vegetariano, está diretamente ligada à possibilidade de combinar trabalho, sustento e prazer de educar, disponibilizar informação e ser exemplo para uma conduta mais ética em relação aos seus semelhantes.

“Quando nos tornamos vegetarianos, direta e indiretamente mostramos a outras pessoas as vantagens da nossa conduta, tanto no que se refere ao consumo de alimentos mais saudáveis quanto à questão ética de não causar dor e sofrimento aos animais. O trabalho com plantas não convencionais abre um leque de alternativas alimentares baratas, de fácil obtenção, nutritivas e saborosas. Os grupos que vêm ao sítio passam a ter uma outra idéia sobre a natureza, a forma de preservá-la e a possibilidade de usufruí-la com o menor impacto possível”, conclui Silvana.

Dicas na hora de montar seu negócio

Gustavo Carrer, consultor de marketing do Sebrae-SP, tem mais de 10 anos de experiência com empresas de pequeno porte que atendem nichos específicos do mercado. Sobre o “empreendedorismo vegetariano”, o consultor tem algumas dicas aplicáveis aos que já são ou pensam em ser empresários focando em produtos ou serviços especializados.

Primeiramente, segundo o consultor, o empresário do ramo vegetariano deve ter como objetivo o atendimento do público que já é consciente e adepto da dieta. “É importante focar em atender bem quem já é vegetariano, o seu público-alvo. Pode-se fazer alguma campanha e passar informações visando a conscientização de outras pessoas, mas isso não pode ser mais importante do que a prestação do serviço ou a venda do produto, do contrário pode se perder o foco e o negócio se tornar insustentável”, diz.

Outra questão ressaltada por Gustavo é não ser radical a ponto de não atender não-vegetarianos – felizmente já vemos que isso não acontece, visto as histórias contadas na matéria. “Entender a natureza e os anseios do público, do vegetariano ao onívoro simpatizante, um comprador sazonal, é essencial para o sucesso do negócio. Aliás, uma das vantagens de um pequeno negócio direcionado a um nicho é o fato do empresário poder estar muito próximo do consumidor, entendendo suas demandas e adequando sua gestão para melhor atendê-lo”.

Outra vantagem ressaltada pelo consultor é a possibilidade de concentração de esforço – leia-se tempo e dinheiro – num mix de produtos e serviços com perfil específico, evitando gasto de energia que seria necessário para atender um público muito diversificado. “Mesmo assim é importante crescer com cuidado. A atividade que é de nicho exige que o empresário tenha um ciclo de atenção maior com os clientes. Como o público, em número de pessoas, tende a ser menor, uma falha pode colocar a perder todo o negócio. A tolerância do público é muito menor com as empresas menores”, completa.

Serviço

• Restaurante Caminho do Mar
Tel.: (21) 3413 0483

• Restaurante Lar Vegetariano Vegan
www.larvegetarianovegan.com.br
Tel.: (11) 3835 2490

• O TAO Natural (entrega de produtos vegetarianos e naturais)
www.otaonatural.com.br
Tel.: (11) 9825 6298

• Vegmatula (marmitas e congelados)
http://acantu.sites.uol.com.br
Tel.: (11) 5579 2273

• Bhumi (camisetas, adesivos e sabonetes 100% vegetais)
www.colchaderetalhos.net
Tels.: (11) 3205 4914, 9466 6806

• Buffets e Festas vegetarianos/veganos
Lilá Prasada
(11) 9530 9561

• King 55 (roupas / moda)
www.king55.com.br
Tels.: (11) 3083 1151, 3045 2654

• Sítio Capororoca (produtos agroecológicos)
www.caminhosrurais.tur.br
Tel.: (51) 3258 5607
* Publicado na Revista dos Vegetarianos, n. 20, junho 2008. Veja a edição completa aqui.

domingo, junho 01, 2008

Os impactos da alimentação para o meio ambiente


Por Jaqueline B. Ramos*

Quando falamos em sustentabilidade, pensamos em ações como não poluir, preservar áreas naturais, reciclar lixo, economizar água, dar preferência às fontes alternativas de energia etc. Mas raramente nos lembramos de relacionar uma de nossas atividades mais básicas com impactos negativos no meio ambiente: o ato de se alimentar. Nos primórdios da humanidade, a alimentação era baseada em frutas, raízes, carnes de animais caçados e outras fontes que não modificavam significativamente a natureza (pelo contrário, tudo fazia parte de um ciclo natural). Com o advento da agricultura e da domesticação de animais, há cerca de 12 mil anos, deu-se início à produção de alimentos.

A passagem do estado nômade para a fixação na terra marcou o início do que chamamos “desenvolvimento da humanidade”. Com o passar dos séculos, o homem foi criando novas formas de manejo do solo e as populações concentradas nas cidades cresceram em ritmo progressivo, aumentando a demanda por alimentos. Até que a chegada da Era Industrial, no final do século XVIII, intensificou a aglomeração de pessoas no ambiente urbano, colocando fim, definitivamente, na ligação direta que o ser humano tinha com a natureza para a obtenção de alimentos. O resultado disso tudo é uma agricultura transformada em indústria que passou a utilizar métodos artificiais, como fertilizantes e pesticidas químicos, irrigação, manipulação genética e uso de hormônios em animais, visando sempre o aumento da produção (e o lucro). Sem contar a dependência por combustíveis fósseis, inclusive no transporte, por longas distâncias, dos alimentos. É a cadeia alimentar industrial.

Se por um lado todo esse advento é considerado positivo, sendo denominado como desenvolvimento ou modernidade, por outro é fato que o modelo de alimentação industrializado é um forte candidato a causar sérios danos à conservação do meio ambiente e também à saúde do homem. E por incrível que pareça, a maior parte das pessoas atualmente não se dá conta disso. A origem dos alimentos que consome simplesmente não faz parte da sua lista de prioridades e a alimentação, o ato mais corriqueiro e básico do dia-a-dia, não é visto sob a perspectiva ambiental ou da sustentabilidade.

“Comer é um ato agrícola, disse, numa frase famosa, Wendell Berry (fazendeiro e economista americano). É também um ato ecológico, além de um ato político. Ainda que muito tenha sido feito para obscurecer esse fato bastante simples, o que e como comemos determinam, em grande parte, o que fazemos do nosso mundo – e o que vai acontecer com ele. (...) Muita gente hoje parece totalmente satisfeita comendo na extremidade da cadeia alimentar industrial sem parar para pensar no assunto”, escreve o jornalista norte-americano Michael Pollan, no seu livro “Dilema do Onívoro”. O jornalista passou cinco anos investigando os bastidores da cadeia industrial alimentícia nos Estados Unidos, reconstituindo o trajeto dos pratos mais consumidos e analisando o caminho percorrido pelo alimento da origem à mesa.

Insumos químicos, agrotóxicos, erosão do solo...

Como afirma o jornalista norte-americano, comer é um ato ecológico, o que faz com que todo cidadão deva, idealmente, ficar atento à origem do alimento que consome e analisar criticamente as técnicas empregadas no sistema de produção. A qualidade e pureza dos alimentos, a sustentabilidade (social e ecológica) dos métodos de produção e os problemas e desigualdades existentes na sua distribuição são algumas das questões que devemos analisar em busca de uma alimentação mais sustentável. Em tempo: é fato que se produz alimento em quantidade suficiente para atender 100% da população mundial. Dificuldades de acesso aos alimentos pela parcela mais carente da sociedade decorrem de problemas sociais e econômicos, que por sua vez causam desequilíbrios na distribuição.

Destacando algumas problemáticas da agricultura moderna para o meio ambiente, uma primeira questão a ser analisada é o uso de insumos químicos. Visando melhorar a produtividade e assegurar índices de produção, agricultores costumam utilizar adubo e fertilizantes em suas plantações. O adubo mais simples, natural e antigo é o esterco, que misturado a restos de vegetais e fermentado de forma correta resulta no composto orgânico. Mas para ser empregado em larga escala, o processo do fertilizante natural se tornou inviável, economicamente falando. Para os empresários do agrobusiness, passou a ser mais rentável o uso de agroquímicos (agrotóxicos e fertilizantes, principalmente), inclusive para viabilizar o cultivo intensivo de uma única cultura em uma área (as monoculturas, principais vilãs da qualidade do solo).

Os fertilizantes industriais contêm altas concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio e metais pesados. O nitrogênio, por exemplo, pode se acumular no solo e ser transformado, por processos químicos, em nitrato. Além de ser um composto cancerígeno, o nitrato pode contaminar o solo e também ser conduzido aos lençóis subterrâneos, contaminando a água.

Outro problema gerado neste cenário é o desequilíbrio ecológico causado pela própria prática da monocultura regada por fertilizantes químicos. Entre os principais indicadores do desequilíbrio está o aparecimento de pragas, doenças e ervas daninhas, que por sua vez são combatidas com agrotóxicos - inseticidas, herbicidas e fungicidas. Ou seja, mais uma carga de substâncias químicas tóxicas bombardeando o meio ambiente e a saúde de quem consome os alimentos, pois estes acabam guardando resíduos dos agrotóxicos e têm alta probabilidade de ficarem contaminados.

Como mais um remediador para o desequilíbrio ecológico conduzido pelo próprio homem e visando, sempre, produtos finais comercialmente mais lucrativos, entram em cena os alimentos transgênicos. Tratam-se de organismos geneticamente modificados (OGMs) desenvolvidos em laboratório. Entre os objetivos da manipulação genética está o de criar plantas mais resistentes a pragas ou até mais resistentes a determinados agrotóxicos. Alimentos transgênicos já são comercializados em vários países – entre eles o Brasil – e ainda há muitas controvérsias em relação aos prós e contras da manipulação genética para a saúde das pessoas e os impactos no meio ambiente. Enquanto os debates e as pesquisas avançam, o importante é o consumidor se informar e exigir a rotulagem dos alimentos transgênicos, de forma a ter condições de decidir por consumir ou não um OGM.

Erosão e o impacto do bife

Uma questão importante decorrente da agricultura moderna é o fenômeno chamado de “erosão genética”. A interferência do homem nas variedades tradicionais com a manipulação de plantas e animais pode consistir em uma ameaça para a diversidade genética, a principal responsável pela capacidade de resistência, imunidade e sobrevivência das espécies.

Quando falamos em erosão é importante também lembrar do processo de degradação do solo decorrente do uso de práticas agrícolas inadequadas e da monocultura combinada com a mecanização, o corte de espécies nativas, a queima da vegetação e a pecuária intensiva. Aliás, esta última rende um capítulo à parte na discussão sobre alimentação sustentável, visto que o aumento no consumo de carne e de seus derivados sobrepôs formas naturais (e mais éticas) de criação dos animais, sem contar os problemas ambientais decorrentes da pecuária.

Numa sociedade majoritariamente onívora, o “impacto do bife” passa por questões de ordem moral – não é à toa a afirmação de que se os abatedouros tivessem paredes de vidro, muita gente se tornaria vegetariana - e também de ordem ambiental. Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, em inglês) em 2006 alertou para o fato de que “estoques de animais vivos” mantidos para alimentação são responsáveis por 18% da emissão de todos os gases causadores do aquecimento global, porcentagem que supera, por exemplo, as emissões causadas por todos os veículos automotores do mundo somados.

O levantamento da FAO inclui as emissões de metano provocadas pelo sistema digestivo dos animais, as emissões de CO2 geradas pelas queimadas para a formação de pastos, a energia – quase sempre à base de queima de combustíveis fósseis – usada na fabricação de insumos agrícolas, a energia gasta na produção de ração e no bombeamento de água, a energia dos procedimentos de abate e processamento das carcaças, o combustível usado no transporte de animais vivos e de produtos processados de carne, entre outras questões relacionadas à pecuária.

Seja analisando as técnicas industriais agrícolas ou o modelo intensivo da pecuária, o fato é que a humanidade atingiu um limite perigoso na história de uma relação insustentável com a natureza para obtenção de fontes de alimentos. E nesse momento é importante que cada um, como consumidor, pare para pensar mais criticamente e faça escolhas mais criteriosas e cuidadosas. Como afirma o autor de “Dilema do Onívoro” em um dos trechos do livro, “a insensatez demonstrada na busca por alimentos não é um fenômeno novo. No entanto, os novos atos de insensatez que estamos cometendo na nossa cadeia alimentar industrial hoje são de um tipo diferente. Ao substituir a energia solar pelo combustível fóssil, ao criar milhões de animais em rígidas condições de confinamento, ao alimentar esses animais com comida para a qual sua evolução não os adaptou, e ao nos alimentarmos com comidas que são muito mais insólitas do que imaginamos, estamos pondo em grave risco nossa saúde e a saúde do mundo natural.”

Fontes: Cartilha Alimentos IDEC, livro “Dilema do Onívoro” (editora Intrínseca) e Sociedade Vegeteriana Brasileira (SVB).

Saiba mais: Livro “Dilema do Onívoro”, de Michael Pollan (editora Intrínseca); “Pequeno Guia de Alimentação Saudável e Consumo Responsável”, de Eduardo Guagliardi e Jane Broch (editora Coluna do Saber)

O que o consumidor pode fazer em prol de uma alimentação sustentável

# Informar-se sobre a importância da agricultura sustentável e seus benefícios para a produção de alimentos, inclusive em relação à saúde dos indivíduos e ambientes.
# Apoiar propostas de produção regional, especialmente a familiar e a associada, com o objetivo de fortalecer a segurança alimentar local e reduzir o desperdício de energia no transporte.
# Exigir que os produtores respeitem as leis ambientais, assim como a legislação trabalhista, e que utilizem métodos menos impactantes ao meio ambiente, adquirindo produtos elaborados com este diferencial.
# Demandar que os vendedores de alimentos estimulem a produção ecológica, inclusive solicitando a certificação dos produtores por um organismo independente, para que possa ter certeza de que os mesmos cumprem todas as exigências ambientais.
# Organizar-se em cooperativas de consumo que estimulem a produção sustentável local e regional.

Fonte: Cartilha Alimentos (IDEC)

*Publicado no informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 -março/abril 2008. Veja o informativo completo aqui.

Curtas
Por Jaqueline B. Ramos*
Líder em desmatamento...

Recentemente o Brasil ganhou notoriedade mundial, mas com um dado que não é motivo nenhum para orgulho. Segundo o relatório Global Monitoring Report, realizado pelo Banco Mundial (Bird) e divulgado no início do mês de abril, a maior parte do desmatamento mundial vem se dando no Brasil e na Indonésia, nesta ordem. No ranking publicado no relatório, relativo ao período de 2000 a 2005, desmatou-se um total de 31 mil quilômetros de área florestal, seguido pela Indonésia, que somou 18,7 mil quilômetros, e o Sudão, que derrubou 5,9 mil quilômetros de sua área florestal.

Brasil e Indonésia são os dois países que detêm as maiores áreas florestais do mundo. De acordo com o relatório, em ambos os casos o desmatamento progressivo tem como causa a transformação das florestas em terras agrícolas. Aqui, a derrubada de florestas se dá por uma demanda específica por carne, soja e madeira. Já na Indonésia a demanda é por madeira e por terras para a obtenção do óleo de palma. Mas em um dado o Brasil ainda se mostrou numa situação mais delicada que a Indonésia: enquanto lá os índices de desmatamento se mostraram inalterados desde 1990, aqui os números cresceram de 2,7 milhões de hectares devastados na década de 90 para 3,1 milhões, segundo o levantamento do Bird.

... e Amazônia em risco (mesmo debaixo de chuva)

E em nível nacional as notícias sobre avanços no desmatamento também são delicadas. E envolvem nada mais nada menos do que a Amazônia. Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na floresta continuou em alta em fevereiro, mês de chuva e, por isso, período no qual historicamente assiste-se a uma diminuição na derrubada da floresta. O sistema Deter do Inpe, que detecta a devastação em tempo real, mostrou que foram derrubados no mês de fevereiro 724 quilômetros quadrados de floresta, número 12% maior que os 639 quilômetros quadrados derrubados em janeiro. O primeiro semestre é considerado como “inverno” na Amazônia, por ser o período de estação chuvosa, e a época na qual o desmatamento tende a cair.

Tubarões em risco

A espécie de tubarão conhecida como “tubarão-martelo” entrará oficialmente na lista de animais ameaçados de extinção em 2008, conforme anunciado recentemente pela IUCN (World Conservation Society) na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência. A causa maior, segundo a organização, é a caça indiscrimada dos animais para atender o mercado bilionário das barbatanas, além da pesca predatória nos oceanos, que fazem os animais como vítimas nas redes e armadilhas.

Estima-se que a população de várias espécies de tubarões, entre os quais o “tubarão-tigre”, o “tubarão-de-cabeça-chata” e o “tubarão-negro”, diminuiu cerca de 95% desde a década de 70. De acordo com a IUCN, o “tubarão-martelo”, que entrará na lista de ameaçados na categoria “globally endangered” (ameaçado globalmente), corre um risco maior pelo fato dos animais jovens habitarem águas rasas perto de costas, fazendo isso como uma forma de fugir de predadores naturais. “Muitos tubarões estão agora em risco de extinção como resultado de um processo de captura descontrolada que acontece há vários anos”, anunciou a IUCN. A atividade de pesca de tubarões em águas internacionais é feita sem qualquer tipo de restrição e uma resolução das Nações Unidas já propõe a regulamentação urgente de cotas de pesca e a proibição da caça para a prática (cruel e covarde) do corte das barbatanas.

Menos embalagens

Todo mundo já ouviu falar sobre a importância na redução do uso de embalagens e de sacolas plásticas. E uma campanha conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente desde o mês de março tem como objetivo reforçar o conceito, incentivando os brasileiros a praticar o consumo sustentável. Com o slogan “A escolha é sua, o planeta é nosso”, a campanha Consumo Consciente de Embalagens consiste numa tentativa de despertar o consumidor a prestar atenção no que está em volta do produto que ele compra, levando em conta a variável ambiental. As embalagens consistem em um terço do lixo doméstico no país e a campanha orientará produtores, varejistas e consumidores sobre as vantagens na utilização de meios alternativos. Um dos focos é o incentivo da substituição de sacolinhas plásticas, usadas principalmente nos supermercados, por sacolas retornáveis, que são reutilizáveis.

“Rio de Janeiro” desintegrado

O processo de aquecimento global deu mais um sinal de seu avanço. E dessa vez no pólo sul, mais especificamente no mar do oeste da Antártica.
Um bloco gigantesco de gelo, que em tamanho se equipara à área da cidade do Rio de Janeiro, entrou em colapso e se desintegrou ao longo do mês de março, conforme divulgou o Centro Britânico de Pesquisas da Antártica. Segundo os cientistas, que acompanharam o fenômeno através de imagens de satélite e imagens feitas por cinegrafistas a partir de sobrevôos no local, a desintegração do imenso bloco de gelo, formado no local há 1,5 mil anos, é definitivamente resultado do aumento progressivo da temperatura no planeta.

Robôs cobaias

No lugar de animais, robôs sendo testados em experiências em laboratórios. Esse avanço importantíssimo para uma ciência mais ética dá seu primeiro passo com cientistas americanos fazendo testes preliminares com substâncias químicas em células criadas artificialmente. Segundo artigo publicado na revista Science, duas agências do governo americano estão estudando a possibilidade de usar robôs de alta-velocidade para a realização de testes de identificação de substâncias químicas com efeitos tóxicos.

O objetivo, em longo prazo é desenvolver métodos de testes que não dependam de animais e sejam rigorosos o suficiente para ser aprovados pelos reguladores. Embora os cientistas afirmem que ainda há muitos anos pela frente até que os testes sem o envolvimento de animais se tornem rotina, esse tipo de pesquisa demonstra que a era de robôs cobaias é uma realidade que se demonstra cada vez mais plausível.

Baterias ecológicas

Pesquisadores do Laboratório Nacional de Luz Sincroton, em Campinas (SP), estudam novos materiais visando tornar baterias de celular e de notebooks em materiais menos impactantes para o meio ambiente – e, também, mais eficientes. Atualmente essas baterias são um problema na hora do descarte, sendo consideradas como lixo eletrônico, cuja eliminação é muito complicada. De acordo com o laboratório, o caminho para baterias com melhor desempenho e mais ecológicas é o uso de materiais nanoestruturados, ou seja, materiais dispostos em partículas muito pequeninas (na ordem de 0,0000000001 metros). Através da nanotecnologia, a intercalação do lítio com o óxido de cobalto na composição das baterias se tornaria muito maior, e, conseqüentemente, mais eficiente e segura para o descarte na natureza.

Fim das queimadas em canaviais

O Governo do Estado de São Paulo e a Orplana (Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil) assinaram no início de março um acordo que antecipa o prazo para se colocar fim na prática das queimadas nos canaviais e estipula a tomadas de ações de sustentabilidade ambiental no setor. De acordo com o Protocolo Agroambiental, lançado em abril do ano passado e assinado por representantes de 13 mil fornecedores do setor sucroalcooleiro, o prazo para a eliminação das queimadas era o ano 2021. Com este acordo o prazo foi antecipado para 2014, tendo ainda possibilidade, como dizem fontes do Governo, de ser adiantado em mais dois anos.

Segundo o Secretário do Meio Ambiente, Francisco Graziano Neto, até agora 141 das 170 indústrias do setor aderiram ao acordo, o que representaria uma redução da área queimada em 109 mil hectares no primeiro ano do funcionamento das diretrizes de conduta ambiental. Ainda de acordo com o secretário, o Estado hoje já colhe 47% da cana-de-açúcar de forma mecanizada, sem queimadas.

Aquecimento global no Brasil

O Jornal Diário de Pernambuco publicou em março o mapa da área do Brasil que mais vai sofrer o impacto do aquecimento global, localizada no semi-árido nordestino. A partir de análises elaboradas pelo cientista José Marengo, um dos principais estudiosos do aquecimento global e mudanças climáticas do Brasil, o aumento da temperatura agravará os problemas de uma região que já sofre com a seca e a miséria da população.

Segundo a reportagem, a área em questão tem 193 mil quilômetros quadrados e está localizada nos limites de três estados - sudeste do Piauí, oeste de Pernambuco e Norte da Bahia. Lá se encontram os piores indicadores sócio-econômicos do país. A reportagem diz que “a maioria das projeções de clima mostra que nesta mesma área a vegetação pode virar de caatinga para vegetação de tipo cactácea e os indicadores sociais são muito baixos, o que dificulta a adaptação das pessoas à alteração climática”. Ainda, segundo o trabalho, “em época de seca, por exemplo, a única alternativa que resta para parte da população é a emigração – tornando-se ‘flagelados’, no vocabulário tradicional, ou ‘refugiados ambientais’, no vocabulário da Era do Aquecimento”.

Velocidade limpa

Cientistas britânicos apresentaram na Feira de Automóveis realizada na Suíça, em março, um produto que seria o sonho de consumo dos apaixonados por velocidade que são conscientes dos impactos ambientais causados por veículos. O Lifecar, carro esporte que chega à velocidade de 150km/h e não emite dióxido de carbono, foi mostrado e comemorado na feira.

O carro, movido a hidrogênio, produz muito pouco barulho e apenas vapor d’água de seu exaustor. O uso de células de combustível avançadas e de um sistema de armazenamento de energia dá ao Lifecar autonomia de 400 km por tanque de hidrogênio. “O conceito básico era construir um carro esporte para lazer e divertimento, que funcionasse como uma vitrine da tecnologia e tivesse capacidade de correr 240 km por galão”, declarou na época da feira a fabricante de carros esportes clássicos Morgan, responsável pelas pesquisas que geraram o Lifecar. Por enquanto o carro de velocidade limpo ainda é um conceito, mas a fabricante não descarta a produção do automóvel para o mercado no futuro, caso ele tenha boa aceitação do público.

Galápagos eólica

Em fevereiro o Governo do Equador deu o primeiro passo para pôr fim à dependência do petróleo do arquipélago de Galápagos. No dia 18 foi inaugurado um parque eólico de US$ 10,8 milhões na ilha de San Cristóbal, que foi celebrado com a declaração do Governo de que o arquipélago ficará livre de combustíveis fósseis até o ano de 2015. Atualmente Galápagos tem 30 mil habitantes e recebe mais de 120 mil turistas por ano. Entre os recursos que chegam do continente para abastecer as ilhas estão grandes quantidades de óleo combustível, usadas para transporte e geração de energia.

Em 2001, um navio-tanque bateu contra um recife exatamente em San Cristóbal e derramou cerca de 568 mil litros de combustível no oceano. Por sorte as correntes desviaram o óleo dos ecossistemas onde vivem milhares de espécies endêmicas do arquipélago e os impactos não foram tão grandes. Mesmo assim, o susto fez com que Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Rússia fizessem uma associação com o Equador, com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e com nove das maiores empresas hidrelétricas do mundo para construir o Projeto Eólico San Cristóbal. Cerca de 50% da energia da ilha agora procede das três turbinas eólicas de 800 quilowatts instaladas.

Chimpanzés não são entretenimento

Especialistas em grandes primatas de renome internacional lançaram um apelo em prol do respeito aos chimpanzés usando argumentos científicos. Em artigo publicado na revista Science no mês de março, nomes como Jane Goodall (primeira cientista a demonstrar que os chimpanzés selvagens também fabricam e usam ferramentas, como as pessoas) e Brian Hare (um dos maiores especialistas na vida mental e social da espécie) afirmam que é preciso parar o quanto antes com o uso de chimpanzés, os parentes mais próximos do homem no mundo animal, como garotos-propaganda e astros da TV ou do cinema.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que os macacos-artistas distorcem a percepção do público sobre a situação da espécie, levando as pessoas a acreditar que se trata de um animal que pode ser usado como bicho de estimação e que não está ameaçado de extinção. Segundo os cientistas-autores do estudo, o objetivo é mostrar que a representação inadequada dos chimpanzés tem conseqüências amplas na atitude do público, que por sua vez têm efeitos ligados à preservação da espécie. Estudos feitos com visitantes em zoológicos americanos mostraram que embora mais de 90% das pessoas soubessem que gorilas e orangotangos estão ameaçados de extinção, menos de 70% delas estavam cientes de que os chimpanzés também estão ameaçados.

Além disso, o estudo também aponta problemas de bem-estar enfrentados pelos chimpanzés “domesticados”: os animais criados por pessoas têm dificuldade para conviver com seus semelhantes e desenvolvem problemas comportamentais que vão da impotência à automutilação, sem contar os maus-tratos sofridos em resposta às atitudes selvagens e naturais dos bichos.

Fontes: BBC, ENN – Environmental News Network, jornal O Globo, Ambiente Brasil, EcoAgência de Notícias, Agência Envolverde
*Publicado no Informativo do Instituto Ecológico Aqualung n. 78 - março/abril 2008. Veja o informativo completo aqui.
Pelos homens e pelos animais...

Veterinários da WSPA têm acesso liberado para ajudar animais em Mianmar

Foto: divulgação WSPA
Uma equipe da WSPA que avalia as necessidades dos animais e presta ajuda em casos de desastre recebeu no dia 23 de maio permissão para entrar em Mianmar e começar a dar assistência aos animais dos quais as comunidades locais tanto dependem.

A equipe conta com cinco veterinários, que chegarão na segunda e na terça-feira, logo depois de a WSPA entregar 31 toneladas de ração para os animais. Essa ração será recebida em Mianmar pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), com quem iremos trabalhar.

O líder da equipe, Dr. Ian Dacre, disse hoje que a união das organizações contribui para se conseguir bons resultados:

– Mal podemos esperar para entrar e começar a ajudar os animais. Fazendo isso, nós também iremos melhorar a situação das pessoas que contam com esses animais como alimento e meio de vida. Nosso plano é trabalhar em conjunto com agências humanitárias e usar a logística de trabalho que elas já estabeleceram para prestar ajuda.

A WSPA é a primeira organização de bem-estar animal a receber acesso a Mianmar. Ela irá distribuir alimento, evitar a disseminação de doenças e aliviar o sofrimento dos animais sobreviventes, o que é de vital importância para a recuperação e a segurança alimentar das comunidades afetadas pelo Ciclone Nargis.